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Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com https://psiworks.pt Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

Quem sou eu quando não faço nada?

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“Sou eu…” mas a dúvida instala-se com o fantasma dos lados temíveis desta afirmação tais como: “Sou preguiçoso(a)”, “sou vergonhoso(a)”, “sou insignificante”, “sou uma desilusão”, “sou diferente”, “sou nada…” ameaçadoras respostas para uma inocente questão.

A dificuldade em parar é um problema encontrado por algumas pessoas e que na grande maioria das vezes nem o entendem enquanto tal na sua vida. Na realidade tem sido ou foi durante anos parte da solução que encontraram para manterem o movimento e evitarem o contacto com aspectos de si que estimam, na grande maioria das vezes, serem maus.

O quebrar deste ciclo é dificultado porque, às vezes, até já se experimentou mas foi-se criticado, originando e reforçando assim a pressa e a aflição de não se parar. Ou, de outro modo, porque se tem muito medo de que exista um vazio no “nada” ou de viver uma antecipada auto-decepção com o experimentar que não sou nada de bom se não me mantiver em movimento.

Mas existe uma clara distinção entre aquilo que se sente/acredita acerca de algo e aquilo que imaginamos sentir ou acreditar.

Quando vivemos a paragem conseguimos perceber a segurança ou a vulnerabilidade que a mesma nos acresce, conseguimos perceber a qualidade do que fazemos para os outros e do que fazemos e precisamos para nós próprios. Mas sobretudo leva-nos a conseguir controlar a nossa paragem enquanto uma autorizada e real escolha e não enquanto uma fuga descontrolada que o perigo subjectivo de parar nos traz.

O conceito de “não fazer nada” também está vulgarmente associado a dois P´s importantes: o de Prazer e o de Perdido(a).

O prazer de não fazer nada não se liga bem, por um lado, com a voraz instrução educacional de esforço contínuo na vida e, por outro, com o “E agora?” que a paragem levanta. O autor Jorge Bucay defende sabiamente que o esforço só serve para prisão de ventre pois nada de verdadeiramente valioso na vida se consegue com esforço (não confundir com trabalho, disciplina e dedicação).

Digamos que é um aprender a “não fazer nada” produtivamente! Aquele em que não fazer é fazer. Aquele que se eliminam os resíduos do movimento contínuo e faz nascer/criar coisas substituindo o guião predestinado do nosso quotidiano e de nós próprios.

Esta vivência pode ser um bónus e não uma perda vazia na medida em que descobrimos potências das nossas pessoas que não têm espaço para aparecer com o medo do “nada” ser um “nada” mau.

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Pelo seu bem-estar, medite!

meditação

A prática diária de meditação, permite-nos relaxar, observarmo-nos e conectarmo-nos connosco próprios duma forma mais presente, no aqui e agora, com inúmeros benefícios quer na nossa saúde física, quer na nossa saúde mental. Esta prática não é exclusiva dos monges budistas e está ao alcance de todos nós. Basta querer e procurar informação, pois é muito simples e gratuita.

Antes de mais, liberte-se da ideia de que não irá conseguir ou de que é muito difícil e predisponha-se apenas a experimentar, sem pressa e ao seu ritmo.

Existem vários grupos com cursos iniciais de meditação. Quando realizada em casa, é aconselhável escolher um local tranquilo e reduzir a possibilidade de ser interrompido. Poderá usar velas, incenso ou música própria para tornar o local mais acolhedor para si. Também poderá praticar no campo, na praia ou em jardins públicos, desde que se sinta à vontade para tal.

Vista roupa confortável e sente-se num colchão de ginástica ou em almofadas, com os joelhos no chão, os pés em cima das coxas e a coluna direita. Se preferir, poderá sentar-se numa cadeira ou deitar-se. Pode fechar os olhos ou mantê-los abertos.

Comece por 3 minutos no mínimo e vá evoluindo. Hoje em dia, além dos cronómetros existem aplicações para telemóveis que o ajudam com sinais sonoros ou música a controlar e aumentar o seu tempo de meditação. É recomendada a prática diária. Para tal, poderá encará-la como a lavagem dos dentes. Com os benefícios que começará a notar senntir-se-á motivado para praticar cada vez mais.

Existem muitas técnicas possíveis e cada um de nós tem a sua predilecta. Aconselho-o a iniciar pelo relaxamento do seu corpo, depois de estar na posição que escolheu. Relaxe, faça três respirações profundas e concentre-se na sua respiração. Adopte a respiração abdominal imaginando que está a encher um balão na sua barriga quando inspira (4 segundos) e a esvaziá-lo quando expira (8 segundos). Permaneça neste estado de respiração consciente sentindo a ar a entrar pelas narinas e a sair pela boca entreaberta. Se quiser, pode rotular a sua respiração, dizendo mentalmente “dentro” quando inspira e “fora” quando expira. Vá aumentando o número de respirações ao longo do seu treino.

Após uma semana de meditação com respiração abdominal (que idealmente, com o treino já lhe é automática), acrescente a seguinte técnica: inicie a sua respiração abdominal e observe os seus pensamentos, emoções ou dados sensoriais (odores, ruídos, imagens, etc) sem os parar. Eles aparecem, mas deixe-os ir, não se julgue nem os agarre. Se permanecerem mais tempo, não se preocupe, deixe-os ir. Permaneça assim o tempo da sua meditação e sinta-se mindful.

Vá, não hesite, medite!

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e neuropsicóloga

Doença Bipolar – Desmistificando certos mitos

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“- Você tem uma doença bipolar e vamos ver como se vai dar com esta nova medicação.” – disse-lhe.

          A doente encarou-me como se eu lhe tivesse pronunciado uma sentença de morte.

            – Eu tenho “essa” doença?

            – Sim – respondi.

            – Mas isso é para o resto da vida, não é?!

            – Sim. É para o resto da vida.

            – Quer dizer que vou ficar dependente destes medicamentos até morrer?

            – Não vai ficar dependente de nada. Estamos a falar de medicamentos e não de cocaína ou heroína.

            – Isso quer dizer que sou “louca”?

            – Não! Claro que não!

            – Mas posso ficar louca? Pode-me dar um “amok”? Um acto de loucura?

            Estas são perguntas muito frequentes dos meus pacientes quando lhes é diagnosticada uma doença bipolar.

            E este pequeno diálogo, tantas vezes repetido em várias consultas, expressa os inúmeros e legítimos receios dos pacientes em relação à sua doença e que, na grande maioria das vezes, são infundados.

            Costumo responder que a esmagadora maioria das doenças humanas são doenças crónicas, ou seja, “para o resto da vida”, desde a diabetes, hipertensão, alergias, miopia, artrites, artroses, úlcera péptica e por aí adiante – costumo dizer-lhes que 98 % (*) de todas as doenças humanas são crónicas e incuráveis, à excepção de algumas doenças infecciosas e, mesmo assim, não todas – as infecções por HIV, hepatite C e, por vezes, hepatite B também são incuráveis.

            Por outro lado, há que desmistificar a ideia de “dependência dos medicamentos”.

            De facto, os medicamentos habitualmente usados no controlo da Doença Bipolar, não induzem dependência química porque não são aditivos.

            Se é verdade que existem forma de doença bipolar muito graves e incapacitantes, estas não são a regra. Os medicamentos na doença bipolar permitem, na maior parte dos casos, restituir ao paciente a sua qualidade de vida e funcionalidade: “Não se trata de você não conseguir viver sem tomar medicamentos. Trata-se de viver com maior qualidade de vida.”

             Por fim, tantas vezes, entre outras interrogações, vem a “pergunta da loucura”:

            “Será que sou louca? Poderei ficar louca? Pode dar-me um “amok” e cometer um acto de loucura?”

            Chegados aqui, entramos também no território nebuloso do estigma – mais do que não querer ter uma doença bipolar, o que mais assusta o paciente é a possibilidade de ser “louco”.

            Geralmente, devolvo a pergunta com outra pergunta:

            – O que significa para si “ser louco”?

            E, não surpreendentemente, a maior parte das pessoas responde: “Não sei” ou “Diga-me você que é o médico”.

            O conceito de loucura é tão assustador que o paciente nunca reflectiu de forma ponderada e madura sobre o assunto, mas fundamentalmente, o conceito de loucura vem associado ao receio mais profundo e inaudito de perda de controlo sobre si mesmo, à perspectiva da imprevisibilidade completa do seu próprio comportamento, à incapacidade de continuar a levar uma vida funcional e capaz, à perda da autonomia e à possibilidade de uma dependência progressivamente maior de terceiros.

            Há que desconstruir todos estes receios, um por um, com uma disponibilidade total para ouvir e esclarecer o paciente.

            Frequentemente, são estas as consultas que se revelam mais decisivas no estabelecimento duma relação sólida entre médico e paciente, onde o paciente descobre um “porto seguro” para partilhar os seus maiores medos, poder desconstrui-los e “reconstruir” uma nova imagem de si próprio mais adaptativa, mas, em última análise, será a própria evolução e melhoria clínica que irá desconfirmar todos estes receios.

            Assim, este é um trabalho específico que tem que ser revisitado várias vezes ao longo do tratamento, sem nunca esquecer que os médicos nunca tratam doenças, mas antes pessoas portadoras de uma determinada doença, seja ela qual for.

(*) A estimativa é minha mas não andará longe da verdade. À parte certas viroses e doenças infecciosas controláveis com antibióticos, a esmagadora maioria das doenças humanas é crónica.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Sobre a felicidade

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Para ser absolutamente honesta tenho que partilhar que não sei se sei escrever sobre isto, é tão subjectivo, tão abstracto, e com potencial para seguir tantos caminhos, que me assusto sempre face à perspectiva de ser demasiado reducionista. Decidi contudo arriscar e partilhar uma das várias possibilidades de olhar para isto da felicidade.

A primeira questão que me surgiu foi O que é que significa ser feliz?

A primeira resposta foi Não faça a mais pequena ideia. Depois, talvez fruto da frustração, questionei-me Será que é relevante? Será que existe tal coisa? Mas como qualquer uma destas respostas deixava o meu intento de escrever sobre a felicidade cair por terra, a brincar com as palavras da própria questão pensei E se o significado de ser feliz for precisamente viver com significado, com sentido?

Não sei como é que isto vos soa, para mim confesso integrou muito bem tudo o que me apela para felicidade.
Ser feliz é viver com sentido, de forma coerente com o que a cada momento se sente, se precisa. É dar significado às coisas e viver de acordo com o significado que têm para nós.

Sorrir quando apetece chorar não faz sentido e não traz felicidade. Só dar quando se precisa também receber pesa, não faz sentido, não traz felicidade. Estar próximo dos outros quando se precisa mesmo é estar só não faz sentido, não traz felicidade…

Ser feliz é sorrir, ou mesmo gargalhar, quando dá vontade. Mas é também chorar quando as lágrimas pedem para sair. Ser feliz é dar quando se pode e se deseja. Mas é também receber quando se precisa. Ser feliz é estar próximo quando se precisa de proximidade. E é afastar-se quando se precisa de isolamento. Ser feliz é abrirmo-nos ao mundo quando tanto nós como o mundo estão disponíveis. E é recolhermo-nos em nós próprios quando precisamos de um tempo para nós, de introspecção.

Para ser feliz não há uma receita porque a felicidade não é um produto final. Ser feliz é um processo, de simplesmente ser como se é, estar onde se está, como se precisa ser e estar a cada momento, sem nos cobrarmos por isso.

 Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapêuta

Dar sentido à viagem …

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Quem sou eu? Porquê? Para quê?

Estas três questões inquietam a humanidade desde sempre. São questões que triangulam um mapa terapêutico delicado. Terapeuta e cliente partem em busca de uma identidade mais genuína através da compreensão dos momentos que levam o cliente ao ponto de partida em que se encontra. E a partir daí, construir experimentando um percurso com sentido e significado.

As respostas constroem-se em, pelo menos, três níveis de análise: a universalidade humana, a especificidade cultural e a unicidade individual. Ou seja, compreendendo aquilo que nos torna quem somos num determinado momento.

A psicologia concentra-se em certa medida sobre os universais que nos permitem a extrapolação e a generalização da conceptualização sobre o que é e o que se espera de um ser humano.

Por outro lado, em termos terapêuticos, a tendência inicial é a de apreendermos toda a unicidade que torna esta pessoa, a que se senta mesmo aqui em frente, diferente de todas as outras pessoas que conhecemos.

A “roda da diversidade” apresentada por Loden há quase 20 anos cruza aspectos tão diversos como a educação, a etnia, o género, a idade, a nacionalidade, as competências comunicacionais, as crenças políticas, a religião, etc., aos quais muitas vezes atribuímos um valor inferior ao que potencialmente têm.

Ela permanece actual e ilustra como na intersecção única das diversas dimensões intermutáveis encontramos a nossa pertença e a nossa identidade. Somos únicos, sim, mas somos também iguais. E, ao nível da especificidade cultural, somos um conjunto de pertenças que nos diferenciam. Esta multiplicidade de pertenças define-nos de formas que muitas vezes passam despercebidas. Nem sempre estamos conscientes das nossas pertenças, das nossas referências e este é também um desafio em psicoterapia. Eu posso compreender o outro quando tenho em consideração que cada uma destas dimensões (e mais ainda!) contribuem não só para o momento em que a pessoa se encontra como também para a sua própria percepção desse momento.

Voltemos ao início, atentemos na inquietação das perguntas que trouxemos, munidos de mais precaução.

Quem sou eu? Responder a esta pergunta carece agora de mais cuidado. Eu sou eu, em contexto, em tempo, e em relação com os meus eus semi-parcelares que ganham vida em determinados momentos e se esbatem noutros.

Porquê? Porque vivemos em permanente busca pela harmonia e para isso, atendemos a muito mais eus do que poderíamos à partida imaginar. Todos eles genuínos, todos eles válidos.

Para quê? Enfim, para que possamos ser aquilo que todos aspiramos: ser mais felizes.

“A felicidade consiste em dar passos na direcção de si próprio e ver o que se é.”       (José Saramago)

Ana Baptista  de Oliveira, Psicóloga e Psicoterapeuta

 

O Agradável e o Desagradável

Com a dor normalmente agimos de uma de duas formas: ou fugimos dela a sete pés ou nos afundamos nela, tornando-a parte da nossa identidade. Torná-la parte do que nos define não é o mesmo que ficar com a dor que sentimos no momento, no presente. É ressoar com o Passado e projectá-la no futuro.

Ficar com a dor no presente é senti-la no corpo, chorá-la no agora e observar como se vai diluindo. É aperceber-nos que com o desagradável também coexiste o agradável, que este não deixa de existir. Duas faces da mesma moeda. E perceber que Sempre e Nunca são duas palavras que condicionam a forma como experimentamos o mundo e não são necessariamente verdadeiras.

Fica parte de uma história:

“Era uma vez um rei muito poderoso que governava um país distante. Ele era um bom rei. Mas o monarca tinha um problema: ele era um rei com duas personalidades. Havia dias em que ele se levantava exultante, eufórico, feliz . Desde o inicio do dia tudo lhe parecia maravilhoso. Os jardins do palácio pareciam mais bonitos. Seus servos eram simpáticos e eficientes. E tudo era bom. Nesses dias, o rei baixava os impostos, distribuindo riqueza, concedendo favores e legislando para a paz e bem estar de todos.

No entanto, havia outros dias, dias escuros. De manhã o rei percebia que queria ter dormido mais, mas quando se apercebia disso já era demasiado tarde e o sono já tinha fugido. Por mais esforços que fizesse, não conseguia entender por que seus servos estavam com um humor tão mau. O sol e a chuva incomodavam-no. A comida estava demasiado quente e o café muito frio. A ideia de ter pessoas no seu escritório agravava a sua dor de cabeca. Nesses dias, o rei pensava nos compromissos assumidos anteriormente e assustava-se ao pensar como iria cumpri-los. Nesses dias o rei aumentava os impostos.

Temendo o futuro e o presente, assombrado por erros do passado, naqueles dias legislava contra o seu povo e a palavra que mais utilizava era NÃO. Ciente dos problemas que essas mudanças de humor causavam, o rei chamou todos os sábios, assistentes e assessores de seu reino para uma reunião.

“Senhores “, disse-lhes“todos sabem das minhas mudanças de humor, todos beneficiaram com a minha euforia e se ressentiram com a minha raiva. Mas quem mais sofre sou eu, que num dia construo e no outro destruo porque mudo a forma de sentir as coisas. Eu preciso que vocês trabalhem em conjunto para obter um remédio, poção ou feitiço para que eu não seja tão absurdamente otimista que não veja os factos, nem tão pessimista que oprima e prejudique o que quero.”

Os estudiosos aceitaram o desafio e trabalharam durante semanas sobre o problema do rei. No entanto, foram incapazes de encontrar a resposta para os problemas do rei.

Naquela noite, o rei chorou.

Na manhã seguinte, um estranho visitante pediu audiência. Era um homem moreno e misterioso.

” Sua Majestade “, disse o homem , inclinando-se, “ouvi falar nos seus males e na sua dor. Trouxe-lhe um remédio. E, inclinando a cabeça , deu uma caixa de couro ao rei. O rei, meio surpreso e esperançoso, abriu-a e olhou para dentro da caixa.”

Tudo que eu tinha era um anel de prata .

” Obrigado “, disse o rei , animado “é um anel mágico?”

– Claro que é “ , disse o viajante, “mas sua magia age não só por usá-lo no seu dedo… Todas as manhãs, ao acordar, deve ler a inscrição que tem o anel . E lembre-se destas palavras, cada vez que olhar para o seu dedo anelar.”

O rei tirou o anel e leu em voz alta : “Você deve saber que isto também passará “

Adaptado de Jorge Bucay

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta

E Quando a Idade Avança?

O envelhecimento é um processo normal, universal, gradual e irreversível que envolve transformações ao nível biológico, psicológico e social.

Sabemos que há factores de predisposição genética que podem conduzir a uma demência mais ou menos precoce. Sabemos também que o declínio e a morte são inevitáveis, mas lutar e resistir é possível, bem como aprender a aceitar as perdas inerentes ao processo de envelhecimento.

Em determinadas situações, e em idades mais avançadas, a acumulação de limitações físicas e cognitivas diminui substancialmente a eficácia de estratégias compensatórias. Contudo, as intervenções dirigidas a, pelo menos, uma limitação, ou tendo em vista o impedimento da acumulação de fatores de risco, podem reduzir a velocidade do processo e o risco de institucionalização. De facto, parece haver uma convergência entre os investigadores, no sentido de procurar manter as pessoas idosas o mais tempo possível no seu ambiente preferencial, apoiadas por equipas multidisciplinares, com o intuito de lhes serem garantidas condições de autonomia. Há, no entanto, situações em que tal se torna impossível. Quando surge, então, um estado dedependência, caracterizado pela impossibilidade da pessoa manter a sua funcionalidade sem ajuda, e não havendo alternativas, poderá tornar-se necessária a institucionalização. As Instituições têm o dever de considerar o utente como prioridade e centro da mudança institucional, devendo ser a própria instituição a adaptar-se às necessidades dos seus clientes, numa perspetiva de preservar e recuperar capacidades e manter o bem-estar físico e psicológico durante o maior tempo possível, (nomeadamente através de programas específicos) respeitando as necessidades físicas e afectivas dos utentes.

Convém recordar que o ser humano é extremamente adaptável e que se essa adaptabilidade não lhe for solicitada, atrofia.

Assim, o melhor exercício é o da própria actividade cerebral, numa visão de que “a ampla utilização garante ampla funcionalidade”. Isto não significa que os meros exercícios de estimulação cognitiva, à semelhança dos exercícios físicos localizados, conduzam a essa ampla funcionalidade, uma vez que exercícios específicos para áreas isoladas, dificilmente podem ser transferidos para outras, pelo que será a diversidade da estimulação que ajudará a plasticidade neuronal.

“A função faz o órgão.” “Usa-se ou perde-se.”

Numa fase precoce da velhice, e em situações em que esta ainda não se faz acompanhar de dependência e em que a escolha autónoma é possível, o acompanhamento psicológico é de grande mais-valia. Se houver dificuldade em pensar em termos de uma Psicoterapia que conduza a grandes mudanças estruturais e comportamentais, pode-se com certeza pensar num processo facilitador da atribuição de novos significados e que conduza a novos esquemas e a processos de assimilação e acomodação mais adaptativos, promovendo assim, novas representações internas que ajudam a uma melhor aceitação da realidade presente e, que ao mesmo tempo, favorecem a emergência de novas redes de conexões neuronais. Todos estes processos podem desempenhar um papel importante na melhoria e/ou manutenção de bem-estar, através de uma maior pacificação consigo e com os outros. Certo é, que a investigação tem mostrado que se envelhece e morre melhor quando se vive melhor.

Quando a idade avança, é possível uma intervenção psicoterapêutica que possibilite novas interpretações e simbolizações sobre as inúmeras narrativas e vivências que se foram acumulando ao longo da vida, e que possibilite ainda, revisitar afectos, activar memórias gratificantes e experienciar emoções que ajudem a enriquecer e reflorescer o momento presente. É pois, possível e desejável investir num processo que vale a pena.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

A Resiliência da Fragilidade

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How fragile we are” assim diz a música do Sting que canta e relembra a fragilidade do ser humano quando as estrelas ficam zangadas. Mas, curiosamente, conhecendo os lugares pouco luminosos para onde estas estrelas nos levam também conhecemos um outros, aqueles em que se testa o quanto aguentámos a zanga estrelícia e esses fortalecem-nos, relembrando a máxima “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”. E forte não é sempre erguido. É antes umas vezes erguido outras caído o que importa é saber que podemos cair e que, nalgum momento, também nos conseguiremos erguer.

A proposta é de que conhecendo a fragilidade (a nossa, dos outros e a da própria vida) tem-se OPORTUNIDADE para também conhecer a RESILIÊNCIA. Este é um conceito complexo mas que, essencialmente, pretende definir a capacidade das pessoas lidarem com problemas, superar obstáculos e/ou resistir à adversidade de situações (traumas, stress, etc.) sem entrar em ruptura psicológica. Ou seja, mantendo-se próximo do que era o seu estado anterior à situação, não ficando preso na dor da experiência.

Parece-me que a viver a vulnerabilidade humana resulta de uma percepção/avaliação de se estar em risco numa situação e, perante isto, assumirmos que a única hipótese é encaixarmo-nos na nossa fragilidade com os nossos sentimentos, corpo, coração e alma. Vivemo-la e descobrimos os cambiantes da sua dor. Chorar, gritar, desesperar, zangar são acções válidas e necessárias na fragilidade porque a partir delas conhecemos aspectos como o alívio, o apoio, a tranquilidade, a esperança e até o amor. Estas dimensões passam a ser conhecidas porque admitimos que tudo é autorizado a ser vivido na situação fragilizante e porque esta permissão torna mais claro o que é e não é de valor na vida.

Para se ser resiliente temos que conhecer e abraçar, por momentos, o nosso risco, desprotecção e depois ir descobrindo, conhecendo e abraçando o que o atenua ou afasta. Um grande bónus disto é o crescimento pessoal que acontece. Afinal, existe um movimento adaptativo de MUDANÇA no ser humano que tem como orientação o que é agradável e vivo por oposição ao que é desagradável e árido. Este movimento implica TEMPO real (dias, meses, anos) e está presente em todos nós talvez sob o desígnio de instinto de melhor sobrevivência.

Os momentos em que nos sentimos sozinhos, tristes ou desprotegidos fazem parte da condição humana mas a forma como os agarramos e os integramos é que faz com que sejamos mais ou menos resilientes atribuindo piores ou melhores argumentos à vida, tal como diz a música:

Tomorrow’s rain will wash the stains away

But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant

To clinch a lifetime’s argument

  Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Sobre a Psicologia Clínica e Psicoterapia… Ou, Breve Tentativa De Desmistificar Ambas

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Psicologia? Muitas as definições ao longo da história, muitas as ideias do senso comum.. Porque sorri o bebé, porque os filhos se rebelam contra os pais, porque nos lembramos de andar de bicicleta vinte anos após a última experiência, porque cantam os pássaros, porque falam, amam e guerreiam os homens?

Ora, a grande tarefa da Psicologia consiste precisamente em responder a esta última questão: O que fazem os homens e porque o fazem? E tudo isto são comportamentos e a psicologia é a ciência que os estuda a todos.

Partindo do pressuposto que a vida é repleta de comportamentos realizados, bem como de razões para serem feitos, é também importante pensar que existem consequências associadas aos mesmos, frequentemente difíceis de lidar ou gerir. Desta forma, pode ser necessário e pertinente recorrer a um psicólogo em momentos de vida mais complicados, como por exemplo, quando um processo de adaptação não corre como era esperado, quando existem comportamentos desajustados e desenquadrados, quando se é confrontado com situações de perda/rotura, quando se têm que tomar decisões difíceis, com vantagens/desvantagens várias e ambivalentes, ou quando existe sofrimento associado a uma vivência em particular.

Muitas vezes, nessas situações o pensamento inicia num ciclo vicioso do qual é difícil sair e a pessoa é conduzida frequentemente a becos sem saída e a caminhos labirínticos de sofrimento psicológico, desconforto e angústia. O primeiro passo, ou seja, reconhecer e ter consciência da situação em que se está é frequentemente o mais difícil, seguido da necessidade de mudança, como algo fundamental a realizar.

Contudo, também se verificam situações em que não existe aparente sofrimento psicológico, e aí, outras razões podem conduzir a uma consulta ao psicólogo, tais como a procura de auto-conhecimento e de desenvolvimento/crescimento pessoais.

Para além do contexto individual psicoterapêutico, a Psicologia tem também um papel fundamental em tudo o que implique mudança de comportamentos, podendo interligar com outras áreas específicas, na promoção da educação para a saúde e melhoria de hábitos e estilos de vida saudáveis, tão actualmente referidos nos contextos de prevenção de condições de saúde (agudas ou crónicas).

Porém, para muitos a Psicologia continua a estar associada unicamente às questões da saúde mental (por exemplo: perturbações da ansiedade, da personalidade, dos estados de humor, etc.) e de forma comum pensa-se que as preocupações e problemas mais relacionados com o quotidiano (por exemplo, alterações de emprego, de casa, situações de perda e rupturas relacionais, preocupações com o desempenho escolar e comportamento dos filhos, etc.) podem apenas ser resolvidos porque partilhados com amigos, familiares, colegas… Porém, convém pensar que estes são entes queridos com quem se estabelece um outro tipo de relação (de amizade, de amor, etc.), que não são técnicos especializados e que não podem assumir este “pesado” papel. Assim, estas questões precisam ser encaminhadas para o contexto psicoterapêutico, que pode mesmo evitar que estas se cristalizem em “gavetas internas” para sempre seladas, acabando por ter consequências futuras graves no bem-estar e qualidade de vida gerais, bem como noutras áreas do funcionamento pessoal e no relacionamento com os outros.

Portanto, quando o sofrimento psicológico se instala e os recursos para lidar com o mesmo escasseiam é necessário encontrar apoio especializado, neste caso o psicólogo (ou até um outro técnico de saúde mental) que ouve, compreende, aceita, ajuda a pensar sobre os problemas e acompanha o caminho da mudança.

Mas, apenas procurar ajuda no local certo não basta: a pessoa também tem que ter consciência da necessidade em se implicar, ela própria, no processo, num caminho a dois. O psicólogo não vai por si só resolver os problemas, não vai apresentar soluções mágicas, nem tem “comprimidos” fantásticos para apagar estas “dores”… Esta “caminhada” não é um processo fácil, compreende um longo e às vezes sinuoso caminho a percorrer, mas necessário para o restabelecimento do equilíbrio psicológico.

É também fundamental estabelecer uma boa relação com o psicólogo, sendo este um aspecto crucial a ter em conta para o processo terapêutico ser levado a “bom porto”. A pessoa deve sentir-se num clima de confiança, compreensão e empatia. Se tal não acontecer, é legítimo que experimente e consulte um outro psicólogo.

Portanto, a Psicologia deve ser encarada, cada vez mais, como algo que faz parte dos cuidados globais de saúde a ter consigo próprio, comparável a ter um sintoma físico, por exemplo, uma constipação, e, dirigir-se ao local exacto para a tratar, neste caso o médico especialista. Se é natural ir ao médico e cuidar do corpo quando ele dá sinais físicos de aviso, o que será que impede de, com a mesma naturalidade ir ao psicólogo, quando a mente também envia “sinais de aviso”? Porque será que se evita prestar os mesmos cuidados à nossa saúde psicológica, pensando erroneamente que os problemas acabarão por passar por si mesmo? Preconceitos, ideias pré-concebidas, crenças, estigma?!…  Pois, aqui poderá estar o ponto de partida, porque está ao alcance de cada pessoa começar a fazer a diferença para uma melhor saúde psicológica.

E, como se de “constipações” se tratassem, estes “avisos psicológicos”, quando não “curados” podem também acabar por reaparecer mais cedo ou mais tarde, podendo chegar mesmo até, às proporções de uma “pneumonia”…

Passos Importantes

  • Identifique se existe alguma situação que lhe provoca sofrimento e desconforto psicológicos.
  • Não avalie a sua reacção pela forma como os outros lidam com essa mesma situação. Não se esqueça que algo que lhe é penoso, pode não o ser para outra pessoa.
  • Ainda que esteja inseguro e com dúvidas em relação a ir à consulta, dê pelo menos oportunidade a si mesmo para experimentar.
  • Marque uma 1ª sessão.

Tenha consciência que este é um caminho a dois, que implica compromisso e envolvimento do próprio no seu processo terapêutico…

Teresa Santos – Psicóloga Clínica

 

Dificuldades na intervenção na Depressão

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Portugal é o país europeu e o segundo do mundo com maior taxa de depressão na ordem dos 25%, pelo que, apesar das variáveis com melhor predição no sucesso terapêutico serem as carcterísticas do próprio paciente e a relação terapêutica em vez do correcto dignóstico de Eixo I, é urgente compreendê-la e antecipar dificuldades específicas.

Na maior parte das vezes, a depressão tem na sua base uma vivência de abandono ou perda, que face a um deteminado acontecimento de vida, activa crenças de incapacidade, falha, culpabilidade invadindo o funcionamento relacional, profississional e social de quem a sofre e aniquilando uma vivência tranquila do aqui e agora. Parafraseando o Professor Coimbra de Matos “nada ou pouco interessa no presente real e pouco ou nada é imaginado como bom ou apetecível no amanhã”.

A lentificação e a falta de prazer poderão constituir dificuldades ao terapeuta, nomeadamente, impaciência face à sua genuína vontade de ajudar o paciente. É também necessário que o clínico se sinta confortável para lidar com a temática da morte, tantas vezes presente, quer em pensamentos quer em acção, na depressão. Face à tristeza, é natural sentir compaixão, e por vezes,  um impulso de tirar a pessoa do seu “buraco negro”, que deveremos refrear. A validação e a empatia assumem aqui um papel fundamental. Deveremos “ver” a sua história na sua prespectiva, sem julgamento, reconhecendo o seu sofrimento, e mostrando que estaremos ao lado dele, sem pressa. Só assim, este poderá reescrevê-la, aceitá-la e, mais tarde, implementar as mudanças necessárias para recuperar o contacto consigo e com o mundo. Qualquer ganho, por mais pequeno que seja, como por exemplo, ficar na cama 14 horas e 45 minutos por dia em vez das15 horas habituaus deverá ser reforçado.

Assim, deveremos ser responsivos na nossa intervenção, ou seja, o processo terapêutico deverá ser como uma dança, cujo ritmo é dado pelo paciente, com o objectivo comum de melhoria do seu bem-estar.

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga