Reforma, um Novo Rumo

Reforma, um Novo Rumo

«O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem»

Trava-línguas, ladainha popular

Com o aumento da esperança de vida, os anos após a reforma, podem ser o tempo com que sempre sonhou, o tempo em que tem tempo, o tempo em que se pode dedicar a alguma coisa que, até agora, nunca teve oportunidade, enfim, um tempo de seguir um novo rumo.

Contudo, este tempo pode também representar um tempo em que pensa que já não está a viver, está apenas à espera de morrer, pode ser um tempo armadilhado, em vez dum oásis que se concretiza. Cabe-nos tomar disso consciência e não cair nessa armadilha.

É necessário fazer planos para esta nova fase da vida. Até mesmo, o plano de não planear durante uns tempos. Esta é uma fase que se, por um lado, lhe pode trazer algumas dificuldades, sobretudo, à medida que a idade vai avançando, por outro lado também trás a sabedoria dos anos e uma nova forma de olhar a vida, cheia de experiência que só pode ser útil e permitirá proporcionar tranquilidade e pacificação.

No início da reforma há, geralmente, uma grande sensação de alívio. Acabaram-se correrias, horários, tarefas, quantas vezes aborrecidas e, finalmente, há tempo, o tal tempo com que sonhava… Mas, por vezes, após esta sensação de alívio, de leveza, de contentamento e também de descanso, pode surgir o desencanto, alguma tristeza, e uma sensação de vazio. Nessa altura precisa de se reorientar, precisa de traçar o seu novo caminho, podendo continuar a dar o seu contributo de novas formas. E, talvez precise de ajuda psicoterapeutica para ajudar a processar alguns pensamentos contraditórios e emoções que se apoderam de si sem saber donde vêm, porque cá estão, e o que lhes há-de fazer. Quantas vezes são sensações e pensamentos já seus conhecidos, mas que nunca tiveram grande oportunidade de ser verdadeiramente escutados, vividos, analisados. Quem sabe, talvez seja agora a oportunidade de conseguir olhar a sua vida como um todo coerente, o que lhe permitirá escolher melhor os passos a dar no tempo que ainda tem para viver. Certamente, não será uma solução agradável apenas sobreviver de uma forma revoltada amargurada ou resignada. A aceitação do envelhecimento e da morte como fim inevitável, é fundamental para se aceitar a vida e vivê-la por inteiro com menor sofrimento.

Após a reforma, sabemos o quanto é fundamental mantermo-nos activos. Exercício físico, cuidados com a alimentação, com a hidratação, talvez redobrados, e a ocupação da mente em actividades que nos façam sentir realizados são essenciais.

A qualidade de vida que conseguimos perceber na nossa própria vida é dos factores mais importantes para a satisfação com que vivemos os anos que temos pela frente. E, se nem tudo depende de nós, a verdade é que é da parte que depende que temos de cuidar para melhor decidir.

A forma como olhamos a reforma, o modo como olhamos a doença, as dificuldades que vão surgindo, as dores, as perdas que vamos contabilizando, amigos e familiares que desaparecem para sempre e que nos fazem pensar na nossa própria morte, tudo isto nos atinge e tem de ser vivido, mas pode e deve ser encarado como inerente à própria vida e como uma oportunidade de nos adaptarmos, percebendo o que pode ser ultrapassado ou recuperado e o que não pode. É possível aprender a conviver em harmonia com a realidade e encontrar formas satisfatórias de a viver. É possível e recomendável envolvermo-nos em projectos que nos façam sentir bem.

Ao longo das nossas vidas vamos tentando encontrar sentido em tudo o que fazemos e em tudo o que nos acontece. Chegados a uma idade avançada, esta ideia de relembrar o passado para melhor podermos viver, compreender e aceitar o presente torna-se, cada vez mais, uma forma de estarmos bem connosco e com os que nos rodeiam.

Recordar, passear, conversar, conviver, pensar, escrever, partilhar, usufruir, colaborar, ouvir música, repousar, fazer algo que nos dá prazer, que nos faz sentir bem e viver com tranquilidade, é o caminho para sentirmos que, se é certo que a morte é certa, também é certo que enquanto estamos vivos, podemos ir construindo o nosso bem-estar por cá.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

E Quando a Idade Avança?

O envelhecimento é um processo normal, universal, gradual e irreversível que envolve transformações ao nível biológico, psicológico e social.

Sabemos que há factores de predisposição genética que podem conduzir a uma demência mais ou menos precoce. Sabemos também que o declínio e a morte são inevitáveis, mas lutar e resistir é possível, bem como aprender a aceitar as perdas inerentes ao processo de envelhecimento.

Em determinadas situações, e em idades mais avançadas, a acumulação de limitações físicas e cognitivas diminui substancialmente a eficácia de estratégias compensatórias. Contudo, as intervenções dirigidas a, pelo menos, uma limitação, ou tendo em vista o impedimento da acumulação de fatores de risco, podem reduzir a velocidade do processo e o risco de institucionalização. De facto, parece haver uma convergência entre os investigadores, no sentido de procurar manter as pessoas idosas o mais tempo possível no seu ambiente preferencial, apoiadas por equipas multidisciplinares, com o intuito de lhes serem garantidas condições de autonomia. Há, no entanto, situações em que tal se torna impossível. Quando surge, então, um estado dedependência, caracterizado pela impossibilidade da pessoa manter a sua funcionalidade sem ajuda, e não havendo alternativas, poderá tornar-se necessária a institucionalização. As Instituições têm o dever de considerar o utente como prioridade e centro da mudança institucional, devendo ser a própria instituição a adaptar-se às necessidades dos seus clientes, numa perspetiva de preservar e recuperar capacidades e manter o bem-estar físico e psicológico durante o maior tempo possível, (nomeadamente através de programas específicos) respeitando as necessidades físicas e afectivas dos utentes.

Convém recordar que o ser humano é extremamente adaptável e que se essa adaptabilidade não lhe for solicitada, atrofia.

Assim, o melhor exercício é o da própria actividade cerebral, numa visão de que “a ampla utilização garante ampla funcionalidade”. Isto não significa que os meros exercícios de estimulação cognitiva, à semelhança dos exercícios físicos localizados, conduzam a essa ampla funcionalidade, uma vez que exercícios específicos para áreas isoladas, dificilmente podem ser transferidos para outras, pelo que será a diversidade da estimulação que ajudará a plasticidade neuronal.

“A função faz o órgão.” “Usa-se ou perde-se.”

Numa fase precoce da velhice, e em situações em que esta ainda não se faz acompanhar de dependência e em que a escolha autónoma é possível, o acompanhamento psicológico é de grande mais-valia. Se houver dificuldade em pensar em termos de uma Psicoterapia que conduza a grandes mudanças estruturais e comportamentais, pode-se com certeza pensar num processo facilitador da atribuição de novos significados e que conduza a novos esquemas e a processos de assimilação e acomodação mais adaptativos, promovendo assim, novas representações internas que ajudam a uma melhor aceitação da realidade presente e, que ao mesmo tempo, favorecem a emergência de novas redes de conexões neuronais. Todos estes processos podem desempenhar um papel importante na melhoria e/ou manutenção de bem-estar, através de uma maior pacificação consigo e com os outros. Certo é, que a investigação tem mostrado que se envelhece e morre melhor quando se vive melhor.

Quando a idade avança, é possível uma intervenção psicoterapêutica que possibilite novas interpretações e simbolizações sobre as inúmeras narrativas e vivências que se foram acumulando ao longo da vida, e que possibilite ainda, revisitar afectos, activar memórias gratificantes e experienciar emoções que ajudem a enriquecer e reflorescer o momento presente. É pois, possível e desejável investir num processo que vale a pena.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta