Quando a resposta é: “Não sei”

Quando a resposta é não sei

Em psicoterapia, ao colocar uma determinada questão a um paciente, deparamo-nos muitas vezes com a resposta: “Não sei”. Até certo ponto, costumo olhar para este “não sei” como se estivesse perante um silêncio, em que me pergunto: “Será um silêncio cheio? ou um silêncio vazio?”. Da mesma forma me interrogo sobre se estarei face a um “não sei” cheio de sabedoria ou a um “não sei” oco ou temeroso.

O “não sei” interpõe uma distância cognitiva entre a pessoa e a possibilidade de saber/conhecer, isto é, entre o Eu e a responsabilidade de reflectir e construir um significado/solução. Mas interpõe também, uma barreira afectiva entre o Eu e a possibilidade de sentir. De sentir algo, tantas vezes doloroso, em que se receia/recusa mergulhar.

Ao terapeuta cabe perceber se está perante uma resposta de zanga, de medo, de vergonha, ou de admiração, face a uma questão que foi percebida como intrusiva, dolorosa, ou desafiante. Poderá ser uma resposta que exprime um conflito entre o desejo e o receio de saber ou expressar, ou mesmo de tornar consciente o que de certa forma já foi pressentido.                                                                                 Contudo, como sabemos, por vezes “não sei” é apenas “não sei”.

Em vez de se olhar o “não sei” exclusivamente como algo que se fecha, podemos vê-lo como algo que se abre. Primeiro teremos de bater à porta, entreabrindo-a, como que a pedir licença para entrar, sabendo que nos temos que mostrar dignos de confiança e validar esse depósito. E finalmente utilizar essa porta como passagem comunicativa por ambos aceite. Afinal, “não saber” é a primeira condição para a investigação e a aprendizagem. Há que mobilizar o potencial do “não sei” para a vontade de saber. Oferecer hipotéticas interpretações é uma possibilidade, mas deve ser feita com as devidas cautelas, sendo uma delas a clara admissão de que Eu não sou Tu. O terapeuta não pode aceder ao mundo interno do paciente se este não lho facultar, nem julgar-se sabedor do que não sabe.

Talvez antes de nos precipitarmos na sugestão de interpretações possamos explorar o âmbito do “não sei” e esperar…

Estará o paciente a dizer-nos:

1- “Não Sei!” (nem quero saber e não estou interessado no tema)?, Ou

2-“nãao ssei…”, (mas isso faz-me lembrar, sentir, pensar…)?, Ou

3- “não sei?” (que curioso nunca tinha pensado nisso, acha mesmo que eu poderei saber?)? Ou

4-“não sei”, quase inaudível (penso que sei, mas ir por aí causa-me dor…)?, ou

5-“não sei…” (talvez saiba, mas se eu ousasse dizer, o que iria pensar de mim ou dos meus?)?, ou

6-“não Sei” (sei, mas não confio o suficiente para dizer)?

O primeiro “Não Sei!” é uma porta que se fecha, com alguma zanga. É claramente uma defesa, vinda dum local de medo ou de negação. Indica que é cedo para ir por aí, a questão é sentida como intrusiva.

O segundo e o terceiro “não sei” estão cheios de potencial, e são uma porta entreaberta que suscita a curiosidade, (embora possam não estar isentos de receio) o primeiro destes dois, “nãao ssei…”, sendo mais introspetivo, convida a um silêncio do terapeuta, que ao criar espaço, permite a viagem interior do paciente. O segundo “não sei?” talvez necessite de um ligeiro encorajamento por parte do terapeuta, por exemplo, um sorriso de assentimento, permitindo depois que o silêncio se instale e possibilite a reflexão e elaboração do cliente.

O quarto “não sei”, parece extremamente vulnerável e necessita de validação empática pelo receio da dor que possa causar o que se venha a descobrir. Neste ponto, é fundamental que o terapeuta mostre reconhecer e valide as partes do Eu em conflito interno.

Os dois últimos “não sei” parecem indicar um conflito entre a vontade de abordar o tema e o receio de o fazer. São um sinal de que a relação terapêutica ainda não é sentida como verdadeiramente segura. Apontam para a necessidade de trabalhar e aprofundar a relação antes de prosseguir.

A confirmar este tactear e sentir do terapeuta, e a importância da sua responsividade mediante o que avalia, temos o facto de a neurociência nos mostrar que a visão de soluções para os problemas parece dar-se quando a parte direita do cérebro trabalha activamente e o lado esquerdo fica mais em repouso, deixando de prestar demasiada atenção aos estímulos externos, sobretudo aos visuais.

Assim, quando presenciamos um “não sei”, qualquer que ele seja, a nossa atenção deve focar-se na entoação e nas pistas não-verbais. Se o “não sei” é acompanhado de um olhar vago, que se afasta do nosso e paira no vazio, podemos ver aí uma oportunidade de não dizermos nada e de deixar que o cliente entre no seu mundo emocional. Se esse encontro for produtivo, poderemos observar uma reação emocional, ou, pode acontecer que o hemisfério esquerdo se active indo em “socorro” do direito, tentando dar sentido à recente sensação. Aqui, o contacto visual e a comunicação verbal serão então restabelecidas e é provável que assistamos a um momento de descoberta, ou, pelo menos, ao abrir claro da porta.

Ao escutarmos “não sei”, teremos muitas vezes que tomar decisões rápidas sobre o que fazer (ou não fazer). Se estiverem reunidas as condições para que a melhor acção seja o silêncio, o terapeuta deve respeitá-lo, permitindo ao cliente encontrar-se com ele próprio e descobrir (-se) sentindo-se acompanhado e seguro nessa viagem.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

O que é o EMDR e como ajuda a ultrapassar as experiências traumáticas

EMDR

EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing – significa Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular.

Trata-se de uma técnica baseada nos movimentos oculares bilaterais desenvolvida em 1987 por uma psicóloga chamada Francine Shapiro. Este método procura dessensibilizar experiências traumáticas através da estimulação bilateral do cérebro.

No entanto, esta metodologia não se focaliza unicamente na estimulação do movimento dos olhos. Actua também sobre os sentimentos difíceis, pensamentos, sensações físicas e comportamentos. A estimulação do movimento ocular não é suficiente para assegurar a eficácia da metodologia. Os estudos mostram que a junção destes diferentes elementos é indispensável para uma terapia eficaz.

A força da metodologia do EMDR reside na rapidez com a qual os pacientes se libertam do peso de sensações negativas, que por vezes suportaram durante vários anos.

O EMDR aplica-se essencialmente no Stress Pós-Traumático. Muitas investigações foram já feitas nesse âmbito, nomeadamente com sobreviventes do World Trade Center, com antigos combatentes de guerra por exemplo (Vietnam, Irão, Iraque) vítimas de crimes vários (assaltos violência e abuso sexual etc), pessoas que assistiram a mortes acidentais ou violentas, ou que sofreram acidentes traumáticos.

Um estudo comparativo entre a lembrança de um mau acontecimento e a lembrança do mesmo acontecimento após ter sido utilizado o EMDR mostra que as pessoas recordam as situações negativas de forma menos intensa e menos sofrida após o trabalho desenvolvido através da estimulação bilateral e do movimento ocular (Estudo de novembro de 2013, Blurring of emotional and non-emotional memories by taxing working memory during recall, Cognition and Emotion by Marcel A. van den Hout, Marloes B. Eidhof, Jesse Verboom, Marianne Littel and Iris M. Engelhard).

Uma outra investigação sobre os benefícios imediatos do EMDR na intervenção com vítimas de violência física e após acidentes no local de trabalho mostra que a intervenção com EMDR algumas horas a seguir à situação traumática, ajuda as vítimas a estabilizar reduzindo a excitabilidade, permitindo-lhes sentir-se mais seguras e limitando a intrusão de sintomas e de comportamentos de evitamento (Investigação de Maio 2013, Benefits of immediate EMDR vs. Eclectic Therapy, Intervention for vistims od Physical Violence and Accidents at the Workplace: a pilot Study by Marie-Jo Brennstuhl, Cyril Tarquinio, Lionel Strub, Sebastien Montel, Jenny Ann Rydberg, Zoi Kapoula).

Também têm sido efectuadas investigações sobre o impacto do EMDR noutras problemáticas tais como: fobias, pânico, depressão, dor crônica, entre outros, com resultados promissores.

O método EMDR já é recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria. Foi também considerada uma abordagem psicoterapêutica baseada em evidência pela NREPP- National Registry of Evidence-based Programs and Practices.

O EMDR é igualmente uma metodologia que pode ser utilizada por diversos modelos teóricos, pois tanto pode ser utilizada num contexto de psicoterapia cognitivo-comportamental, como em psicanálise, psicoterapia dinâmica, ou em Terapia Gestalt. Esta técnica permite também, por exemplo, respeitar o pudor dos pacientes, pois estes têm a possibilidade de escolher se querem, ou não, verbalizar todos os pormenores do seu trauma.

O EMDR consegue uma aproximação “neuro-emocional” ao activar, através do movimento ocular, o sistema nervoso central conduzindo a uma aparente fase de sono paradoxal (Rapid Eye Movement REM) facilitando a troca entre o sistema límbico e o córtex. Os estudos realizados com auxílio de tomografias de alta precisão sugerem que a experiência traumática é tão forte que altera o funcionamento cerebral. Quando o cérebro é submetido a stress crónico, observa-se a actividade de muitas zonas do cérebro. Depois da terapia com EMDR verifica-se que a actividade cerebral diminui drasticamente, dando por isso espaço e oportunidade à aquisição de novas imagens não traumáticas. Os 2 hemisférios trabalham simultaneamente, não só em termos de passado e presente como em termos de emocional e racional.

O EMDR deve ser aplicado por um profissional certificado para o fazer.

Dra Magali Stobbaerts – Professora de Yoga e Psicoterapeuta