Psicoterapia corporal

corpo e mente

Introdução

 A psicoterapia desenvolveu-se imenso nestes últimos anos com as distinções entre emoções cognições e sentimentos deixando de lado a valência do corpo. Deste modo, a parte corporal não acompanhou com o mesmo progresso.

Tanto a minha formação em psicologia cognitiva e integrativa como na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen permitiram-me tomar consciência de que certos conhecimentos sobre as posturas corporais podem ajudar, concretamente, pessoas em sofrimento.

Acredito que uma psicoterapia englobando tanto as cognições e emoções como o corpo é uma forma de terapia mais integrativa e holística para o ser humano.

A aprendizagem corporal possibilita uma tomada de consciência que é um primeiro passo para a cura. Essa aprendizagem corporal torna-se assim um meio terapêutico.

As diferentes psicoterapias existentes estão preocupadas com o funcionamento da psique, isto é, como uma pessoa se sente e se representa. A psique refere-se ao acesso explícito ou implícito: Explícito através da comunicação verbal entre uma pessoa e outra, como o psicólogo, e implícito, na forma como se sente na relação.

No entanto, as psicoterapias corporais veiculam uma experiência de um “saber fazer” que possui milhares de anos. As investigações científicas ainda não investiram neste domínio. As psicoterapias corporais utilizam em geral o acesso explícito. As técnicas corporais são aproveitadas no sentido de reforçar o diálogo, sendo o corpo a ferramenta de comunicação.

De forma a explicar melhor esta perspetiva, vou fundamentar primeiro a valência da cognição e depois a valência do corpo.

  

Cognição:

As investigações na área da ciência cognitiva e neuropsicologia por António Rosa Damásio, médico neurologista formado na faculdade de Lisboa, actualmente professor de Neurociência na University of Southern California, relevam factos que constituem as ideias dos livros “O Sentimento de si” (2000) e “ Ao encontro de Espinoza” (2004). Os resultados destas observações permitiram clarificar as emoções e os sentimentos como se pode notar na Figura 1. As emoções são exteriorizadas e os sentimentos são interiorizados. Desta forma, as emoções são literalmente “corporalizadas” pois as emoções estão intimamente ligadas às sensações. O sentimento sucede quando a pessoa toma consciência da emoção, e se apega a ela de forma estável.

Damasio

 Corpo: 

Quanto à experiência milenar de um “saber fazer” da parte corporal, vou citar apenas 3 livros que considero fundamental para a psicoterapia corporal:

1 Tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali

O tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali, transcrito no seculo III ao IV depois da era comum, é considerado o texto mais fundamental do Yoga clássico, e transmite a importância do trabalho com o corpo. Embora o Yoga seja conhecido por todos como sendo uma prática corporal, mais do que isso o Yoga é uma das grandes linhas do pensamento indiano, mais concretamente de uma escola (“darshana”) de filosofia clássica Hindu. Um aforismo desta obra é o Yoga-Sutra I.2: “Yogash chitta vritti nirodha”, “o Yoga é a interrupção da atividade automática do mental.” (Françoise Mazet (1991)). A interpretação deste aforismo destaca a ligação directa da mente ao corpo.

2 “Hara, centro vital do Homem”, Karfrief Graf Durkheim

O autor Karfrief Graf Durkheim e o seu livro “Hara, Centro vital do homem” é referido em actividades como o Aikido. O conceito, “Hara”, baseia-se essencialmente no centro de gravidade do corpo situado ao nível do ventre. Segundo as palavras deste autor, “não é suficiente aperceber-se inconscientemente da existência do centro vital, tem que se conseguir igualmente sentir conscientemente o significado do centro de gravidade adequado, e esta experiência influência então conscientemente a nossa atitude”.

Segundo o autor, o ser humano tem naturalmente essa sensação de “Hara”, no entanto, o autor alerta para o facto de que o mais importante é sentir conscientemente o significado, ou seja, é como se só através da consciêncialização desta sensação se tornasse possível ter uma atitude correcta perante a vida. Esta passagem aponta para a ligação directa entre a sensação corporal e a consciência.

  1. “Esprit zen, esprit neuf” do autor Shunryu Suzuki

Existem outras actividades como a meditação, por exemplo o Zazen, que, similarmente, salientam a noção da consciência do momento presente. O autor Shunryu Suzuki do livro chamado “Esprit zen, esprit neuf” (1977), escreve o seguinte: “O nosso pensamento deveria ser concentrado. Isto é, deveria conseguir a consciência do momento presente”. Esta citação estabelece que estar consciente é estar concentrado no aqui e agora procurando não ser perturbado pelos pensamentos passados ou futuros, apenas tentar estar no presente.

Todas estas referências, tanto da época dos Vedas como actualmente das observações de António Damásio, perspetivam o corpo como um meio de trabalho e acentuam que a noção de consciência é essencial.

A psicoterapia corporal procura aceder às dificuldades da pessoa primeiro de uma forma implícita e em seguida explícita. Primeiro a pessoa descobre por ela própria que tipos de emoções ou pensamentos lhes transmite o corpo (implícita). Posteriormente, a pessoa comunica ao outro (explícita). A intervenção focaliza-se então na tentativa de mudança, no sentido de se sentir melhor ao conseguir regular melhor a situação actual e a descobrindo para onde se poderá encaminhar

Desta forma, a psicoterapia engloba tanto as cognições como o corpo. Para facilitar a compreensão, desenhei um esquema que mostra como as três dimensões estão interligadas e fazem parte de um todo. (Figura 2)

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 Quais são as técnicas usadas para chegar a este objectivo?

Nesta perspectiva, é importante criar uma ponte entre a mente e o corpo facilitando a tomada de consciência das emoções, possibilitando uma escuta do corpo. É fundamental permitir que surjam e fluam as emoções sem medo, sem bloqueá-las e sem escondê-las. A proposta é utilizar o corpo como instrumento de trabalho para atingir as diferentes noções que vão ajudar a pessoa em sofrimento.

ioga

A minha forma de atingir este objectivo é o uso da minha experiência na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen. Portanto, refere-se tanto a posturas (ver as Figuras 3 a 7) como a movimentos.

Para atingir as emoções, procura-se aproximar a pessoa do seu conhecimento corporal mais subtil. Ao referir a noção de subtil, refiro-me essencialmente à consciência da importância da respiração, contração e descontração, entre outros.

As agitações mentais são todos os tipos de pensamentos e emoções que interrompem ou perturbem a consciência do estar no presente. Estas agitações também afetam o corpo e, consequentemente todos os comportamentos da pessoa.

A ideia é tomar consciência do impacto destas perturbações, e conseguir mais facilmente prevenir e tomar medidas que permitam acalmar a mente e o corpo. Deste modo, a pessoa vai melhorar a gestão das suas preocupações, aumentando o seu sentir bem. A descoberta destas ferramentas para muitas pessoas e crianças, nomeadamente ansiosos, ajudá-las-á a viver melhor o seu quotidiano. Tomar consciência das emoções sofridas é um primeiro passo para a cura porque ajuda a avançar para uma futura mudança. Desta forma, a pessoa liberta-se progressivamente do sofrimento do qual não consegue sair. Este caminho vai ao encontro de uma psicoterapia em que a pessoa se aproxima do seu “Ser”.

Referências

– António Rosa Damásio, (2000). “O Sentimento de si”, Publicações Europa-América.- – – António Rosa Damásio, (2004). “Ao encontro de Espinoza”, Publicações Europa-América.

–  Françoise Mazet (1991).“Yoga Sutras”, Patanjali, Tradução do sânscrito e comentários, Albin Michel, “Le yoga est l’arrêt de l’activité automatique du mental”, p. 20.

– Karfrief Graf Durkheim, (1974).“Hara, Centre vital de l’homme”, Le Courrier du Livre, Paris,”Il ne suffit pas de percevoir inconsciemment l’existence du centre vital, il faut également avoir ressenti la signification du centre de gravité juste et cette expérience influe alors conscienmment sur toute notre attitude.” p. 63.

– Shunryu Suzuki (1977).“Esprit zen, esprit neuf”, Editions du Seuil, Inédit Sagesses, “Notre pensée devrait être concentrée. C’est cela la conscience présente.” p. 145.

Magali Stobbaerts -Psicoterapeuta e professora de Yoga

Ano que ainda vai novo

Ano Novo brinde

O Ano Novo é por excelência a época para resoluções, compromissos e o estabelecimento de objectivos. Contudo, todos os anos vemos alguns dos feitos a que nos propusemos ficarem pelo caminho, adiados para outra altura, que por vezes nunca chega. E ano após ano há itens que se repetem na lista, arrastando com eles a convicção de que não iremos, mais uma vez, conseguir atingi-los.

Quantos mais objectivos falhamos, mais agudizada fica a certeza – frequentemente não real – de que não temos capacidades ou não somos suficientemente bons, o que pode conduzir a um decréscimo na nossa autoconfiança. Assim, é importante percebermos que muitas vezes a falha não se encontra nas nossas características pessoais, mas na forma como definimos os nossos objectivos.

Proponho então que, ao definir as resoluções para este ano, tenha em conta os seguintes aspectos:

  • Defina um objectivo realista. Se quer deixar de fumar, por exemplo, e actualmente fuma três maços de tabaco por dia, talvez seja melhor propor-se a reduzir gradualmente a quantidade de cigarros diários em vez de parar de forma abrupta.
  • Olhe para si com atenção e descubra que recursos possui para levar a cabo o objectivo a que se propõe. Da mesma forma, identifique o que ainda precisa de desenvolver em si.
  • Ao definir um objectivo, divida-o em etapas que facilitem o seu caminho e lhe deem linhas orientadoras, tornando a sua meta em algo menos distante e que vai alcançando de forma gradual. Um objectivo não tem de ser uma tarefa hercúlea!
  • Não exija o mesmo de si todos os dias – se dormiu 8 horas e tudo corre normalmente na sua vida, é natural que se empenhe mais nas tarefas daquele dia; se, por outro lado está doente ou dormiu apenas 3 horas, não pode esperar o mesmo. Permita-se aceitar que cada dia é diferente e que isso não significa fracasso.
  • Peça ajuda. Ter uma boa rede de suporte permitir-lhe-á não só partilhar as suas dificuldades como não perder o seu objectivo de vista.

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta