O homem que recusou morrer mais cedo

gentus

– Sabe, eu tenho 65 anos, estou no meu 3º casamento, estou casado vai para 20 anos, mas não me sinto realizado, a nossa relação já não é o que era, quando fazemos amor eu percebo que para ela já é um sacrifício. Ela é uma ótima pessoa, tenho um enorme carinho por ela, mas a relação já não funciona, ela quer passar o tempo todo em casa e eu gosto de sair, meti-me num grupo que organiza caminhadas pela serra, eu gosto de estar com outras pessoas, gosto de conviver e ela acaba por sair comigo mas vejo que é sempre um esforço para ela, que por ela ficávamos sempre em casa.

– Eu percebi que já não sou feliz com ela e pedi a separação. Nem eu sou feliz nem ela.

– Mas tomei todas as medidas para que não lhe falte nada, se ela permitir eu quero manter uma relação de amizade com ela, quero que ela não se sinta desapoiada, que vou estar sempre ali quando ela precisar de alguma coisa.

– Isto é o que se passa. Pedi o divórcio porque sinto que a nossa vida como casal tinha estagnado e já não era boa nem para mim nem para ela.

– Mas a maioria dos nossos amigos diz que não é normal, um tipo chegar aos 65 anos e tomar uma atitude destas, dizem que eu não devo estar bem, que devo estar com um problema qualquer. E então decidi marcar consulta consigo.

– Venho aqui para saber a sua opinião.

– Eu não acho que você seja apenas “normal”. – respondi – Mais ainda, acho que tudo o que se está a passar consigo é saudável. Porque senão vejamos: o que seria então “normal”? Chegar aos 60 anos e decidir que a partir dessa idade uma pessoa deverá desistir de seguir o seu coração? Que deverá conformar-se com o que tem na sua vida, com a forma como vive a sua vida, mesmo que o que tem e vive seja sofrível e medíocre? Ou seja, a partir de que idade é que um ser humano deve decidir que o resto da sua vida deve passar a ser um exercício constante de conformação com a frustração de nada poder fazer para poder melhorar a sua vida e vivê-la como realmente desejaria? A partir de que idade é que uma pessoa deve decidir que tudo o que lhe resta é encostar-se a um canto e esperar pela morte? Que “normalidade” é essa que determina como “normal” uma morte antecipada?

Consultas como esta não são de todo frequentes, mas permitem-nos perceber que, muitas vezes, conceitos interiorizados socialmente como “normais” traduzem padrões de vida disfuncionais, geradores de uma imensa frustração e sofrimento, sendo também espectável – no mesmo registo “normal social” – que os seres humanos acatem como inevitável e aceitável essa mesma frustração e sofrimento.

E assim, muitos seres humanos aceitam morrer mais cedo, abdicando de viver a sua vida como genuinamente deveriam viver – um dia de cada vez – a abraçar com entusiasmo o que a vida lhes trás a cada momento, sem certeza alguma senão a de se recusaram trair-se a si próprios, sabendo que a vida vai continuar a dar-lhes momentos de sofrimento e frustração mas que estes terão resultado de escolhas conscientes – genuinamente suas – e não da agonia duma resignação imposta e “normal”.

No final da sessão, acrescentou:

– Quero perguntar-lhe só mais uma coisa: apaixonei-me por uma mulher que tem só 41 anos e ela correspondeu-me. Mas agora estou com algum receio de não saber como lidar com esta situação, percebe?”

– E… ? – Instei-o a continuar.

– Como devo eu fazer?

– Você sabe muito bem como deve fazer ou o que deve fazer, mas como me pergunta a minha opinião deixe-me recordar-lhe que você deve ser genuinamente você, com os seus talentos e as suas limitações, aliás como sucederia com qualquer outra pessoa de qualquer outra idade. Tente ser você mesmo e nada mais que você mesmo. Se reparar com atenção, é impossível ser diferente de você mesmo. Pode tentar mas não vai conseguir. Seja genuíno. Se você tem sido genuíno com a sua namorada, lembre-se que foi por você que ela se apaixonou. Se tentar ser outra pessoa não só não vai conseguir como vai estar a privá-la da pessoa por quem ela se apaixonou.

E com um sorriso genuíno – como só as crianças sabem sorrir – despediu-se e, espero eu, foi viver a sua vida com a coragem de quem se recusou trair-se a si próprio, calar o seu coração ou abdicar de ser o autor e único responsável pelas suas escolhas e pela sua própria vida.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Texturas e sentidos em psicoterapia – a importancia de sair da cabeça

texturas e sentidos em psicoterapia

Sabemos que o corpo é sábio e imenso em potencial. O que não dizemos verbalmente, por vergonha, medo, ou falta de consciência, o corpo expressa de forma mais ou menos clara, mais ou menos directa. Certamente que se recorda de determinadas situações em que claramente o que disse e o que manifestou através da sua expressão corporal não foram de modo algum congruentes e, quase invariavelmente, a mensagem com maior impacto foi a não verbal.

O estado natural do ser é em constante auto-regulação, avaliação do meio, adaptação, mudanca, e o corpo (e no corpo) essa mudança traduz-se também nas sensações que experimentamos e que, muitas vezes, sao renegadas para um lugar secundário no nosso dia a dia.

Embora seja possivel aceder ao fenomeno introspectivo e cognoscente atraves da palavra e da narrativa, este fenomeno torna-se ainda mais completo quando recorremos também a experiência inteira e esta, claramente, envolve o corpo.

É muito dificil ajudar a pessoa a “sair da cabeça” e passar o testemunho à sabedoria do corpo. Implica desvalorizar o muitas vezes sobrestimado primado da razao, e é também oportunidade de nos encontrar-mos mais inteiros, mais completos.

Como é essa tristeza? Essa alegria? Esse medo? Essa zanga? De que cor? A que cheira? Qual a sua textura? O que sente quando (situação dificil, prazerosa, relevante para o cliente)? E onde sente isso? E como é ser essa sensação? Não é um desafio fácil para a maioria das pessoas, que está habituada a recorrer sobretudo às palavras para identificar o que sentem (ou, mais vezes ainda, o que pensam sobre como se sentem).

Os benefícios de atentarmos a mais experiência do corpo passam também pela maior consciência que a pessoa ganha de si e da maior atenção que aprende a dar ao seu estar e ser, no aqui e agora presente. Além disso, tornamo-nos mais capazes de nos darmos conta das reacções que se despoletam no nosso corpo perante determinados eventos internos, externos ou meramente imaginados.

E quando nos damos conta, podemos eventualmente apercebermo-nos de como esses eventos nos induzem sentimentos dos quais, à partida, não nos conseguiamos aperceber e, portanto, não conseguiamos identificar. Algo se passava no nosso corpo que não so não descodificavamos mas também não nos permitiamos sentir.

Um pouco mais longe, se não nos permitimos sentir, não nos autorizamos a ser congruentes com a nossa existência interna. O corpo, sabiamente, expressa esta existência, quer a nossa cabeça tenha competências para traduzir e descodificar esta expressao.

Por vezes, darmo-nos conta do que sentimos facilita que percebamos o que precisamos. Por outro lado, permite-nos um acesso mais informado e completo as narrativas construidas.

Esta maior capacidade de nos apercebemos do que acontece no meio em volta e também em nos permite-nos explorar esta consciência também como ferramenta interventiva no processo terapêutico.

Sair da cabeça é também praticar o prazer e o lazer, é identificarmos e permitirmo-nos expor ao que nos é agradável, ao que nos conecta ao aqui e agora, seja através de práticas de visualização, respiração, meditação, desporto, canto, ouvir (boa!) música, escrevermos, cozinharmos, enfim, o que quer que funcione para cada um de nós.

Porque há alturas para fazer as coisas com cabeça, claro que sim. E também há alturas em que é mesmo preciso sair da cabeça!

Ana Baptista Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta