Sobre a felicidade

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Para ser absolutamente honesta tenho que partilhar que não sei se sei escrever sobre isto, é tão subjectivo, tão abstracto, e com potencial para seguir tantos caminhos, que me assusto sempre face à perspectiva de ser demasiado reducionista. Decidi contudo arriscar e partilhar uma das várias possibilidades de olhar para isto da felicidade.

A primeira questão que me surgiu foi O que é que significa ser feliz?

A primeira resposta foi Não faça a mais pequena ideia. Depois, talvez fruto da frustração, questionei-me Será que é relevante? Será que existe tal coisa? Mas como qualquer uma destas respostas deixava o meu intento de escrever sobre a felicidade cair por terra, a brincar com as palavras da própria questão pensei E se o significado de ser feliz for precisamente viver com significado, com sentido?

Não sei como é que isto vos soa, para mim confesso integrou muito bem tudo o que me apela para felicidade.
Ser feliz é viver com sentido, de forma coerente com o que a cada momento se sente, se precisa. É dar significado às coisas e viver de acordo com o significado que têm para nós.

Sorrir quando apetece chorar não faz sentido e não traz felicidade. Só dar quando se precisa também receber pesa, não faz sentido, não traz felicidade. Estar próximo dos outros quando se precisa mesmo é estar só não faz sentido, não traz felicidade…

Ser feliz é sorrir, ou mesmo gargalhar, quando dá vontade. Mas é também chorar quando as lágrimas pedem para sair. Ser feliz é dar quando se pode e se deseja. Mas é também receber quando se precisa. Ser feliz é estar próximo quando se precisa de proximidade. E é afastar-se quando se precisa de isolamento. Ser feliz é abrirmo-nos ao mundo quando tanto nós como o mundo estão disponíveis. E é recolhermo-nos em nós próprios quando precisamos de um tempo para nós, de introspecção.

Para ser feliz não há uma receita porque a felicidade não é um produto final. Ser feliz é um processo, de simplesmente ser como se é, estar onde se está, como se precisa ser e estar a cada momento, sem nos cobrarmos por isso.

 Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapêuta

Dar sentido à viagem …

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Quem sou eu? Porquê? Para quê?

Estas três questões inquietam a humanidade desde sempre. São questões que triangulam um mapa terapêutico delicado. Terapeuta e cliente partem em busca de uma identidade mais genuína através da compreensão dos momentos que levam o cliente ao ponto de partida em que se encontra. E a partir daí, construir experimentando um percurso com sentido e significado.

As respostas constroem-se em, pelo menos, três níveis de análise: a universalidade humana, a especificidade cultural e a unicidade individual. Ou seja, compreendendo aquilo que nos torna quem somos num determinado momento.

A psicologia concentra-se em certa medida sobre os universais que nos permitem a extrapolação e a generalização da conceptualização sobre o que é e o que se espera de um ser humano.

Por outro lado, em termos terapêuticos, a tendência inicial é a de apreendermos toda a unicidade que torna esta pessoa, a que se senta mesmo aqui em frente, diferente de todas as outras pessoas que conhecemos.

A “roda da diversidade” apresentada por Loden há quase 20 anos cruza aspectos tão diversos como a educação, a etnia, o género, a idade, a nacionalidade, as competências comunicacionais, as crenças políticas, a religião, etc., aos quais muitas vezes atribuímos um valor inferior ao que potencialmente têm.

Ela permanece actual e ilustra como na intersecção única das diversas dimensões intermutáveis encontramos a nossa pertença e a nossa identidade. Somos únicos, sim, mas somos também iguais. E, ao nível da especificidade cultural, somos um conjunto de pertenças que nos diferenciam. Esta multiplicidade de pertenças define-nos de formas que muitas vezes passam despercebidas. Nem sempre estamos conscientes das nossas pertenças, das nossas referências e este é também um desafio em psicoterapia. Eu posso compreender o outro quando tenho em consideração que cada uma destas dimensões (e mais ainda!) contribuem não só para o momento em que a pessoa se encontra como também para a sua própria percepção desse momento.

Voltemos ao início, atentemos na inquietação das perguntas que trouxemos, munidos de mais precaução.

Quem sou eu? Responder a esta pergunta carece agora de mais cuidado. Eu sou eu, em contexto, em tempo, e em relação com os meus eus semi-parcelares que ganham vida em determinados momentos e se esbatem noutros.

Porquê? Porque vivemos em permanente busca pela harmonia e para isso, atendemos a muito mais eus do que poderíamos à partida imaginar. Todos eles genuínos, todos eles válidos.

Para quê? Enfim, para que possamos ser aquilo que todos aspiramos: ser mais felizes.

“A felicidade consiste em dar passos na direcção de si próprio e ver o que se é.”       (José Saramago)

Ana Baptista  de Oliveira, Psicóloga e Psicoterapeuta