Arrogantes (também) somos nós!

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Já nos conhecemos bem. Afinal, temos passado horas e horas a escutarmo-nos. O João é um tipo inteligente e com o coração no sítio. Veio para “desatar alguns nós que me atormentam”, disse-me, a primeira vez que se sentou comigo.

  Diz-me, com a voz trémula: sabe, acho que há um lado meu arrogante, que me tem tramado a vida. Acho que sempre o tive. Lembra-se daquela história do grupo de jovens? Eu era muito novo. Era o mais novo do grupo. Era para aí a 2ª reunião que ia. Estava inseguro. E sabe como é que é quando se está inseguro: metemo-nos em bicos de pés. Uma das raparigas, mais velha do que eu, não sabia quem era o Guterres. Ele era primeiro-ministro na altura. Bem, eu do alto do meu ar mais pedante disse-lhe qualquer coisa como: “Não sabes quem é o Guterres? Que falta de cultura política!” Fez-se um silêncio na sala. A rapariga riu-se e encaixou com uma categoria de fazer inveja. O meu irmão olhou-me com uns olhos de: foge-me da frente que nunca mais vou esquecer. No final, sozinhos, deu-me uma descasca, que ainda hoje lhe agradeço. E sabe, a rapariga, depois daquele meu laivo de arrogância sem fim, teve a bondade de ser minha amiga. Ainda hoje somos amigos. Ela até podia não saber quem era o Guterres, mas de pessoas, meu Deus, de pessoas, dava-me cinco a zero! Depois foi o que você sabe: no Liceu, entre as borbulhas e as Doc biqueira de aço, estava longe de me sentir um ás de trunfo. Eu acho que as pessoas até gostavam de mim, mas faltava-me a confiança para ir a jogo, à homem. Lá saber quem era o Guterres e o Clinton, lá isso eu sabia, mas já como ser acutilante com as miúdas… ainda tinha muito que aprender! A Faculdade foi um upgrade extraordinário na minha vida. Perceber que me conseguia sintonizar com pessoas com histórias tão diferentes da minha, acho que me ajudou a tornar um bocadinho mais seguro, um bocadinho mais humilde. Travou este meu lado mais arrogante, mas não o matou de vez. Que o diga a minha primeira namorada da Faculdade, a quem fiquei a dever alguns pedidos de desculpas, dívida que entretanto saldei. A insegurança dos primeiros anos de trabalho, acho que o reacendeu um bocadinho. Que o digam alguns operadores de call center, com quem tive verdadeiro vómitos violentos e arrogantes. Sabe, eu acho que tenho um lado verdadeiramente humilde. Sou amável com as pessoas e adoro misturar-me com elas, reconhecer-lhes o mérito e encantar-me com as suas qualidades. Mas, às vezes, meu Deus, às vezes, pareço um touro enraivecido, a espumar arrogância por todos os poros, como se o mundo se tivesse realmente unido para me tramar. Tenho pensado muito nisso, desde que, há umas semanas, acordei um dia tão azedo, mas tão azedo, que me zanguei com Deus (como poderia ele existir se a minha vida estava tão longe de ser a que sonhei?!), com os meus pais, com a minha namorada, consigo, com o céu estrelado e com tudo o que mexesse ou estivesse parado, acho eu! Sabe, entretanto, acho que houve duas coisas que me fizeram parar para pensar. O Bernardo [um grande amigo, de há muitos anos] disse-me, a propósito das lutas da vida, uma coisa que me ficou a martelar na cabeça: “A verdade é que, chegada a hora, não somos melhores do que ninguém”. A outra, tal como naquela vez, no grupo de jovens, foi o meu irmão que ma disse. Não foi muito mais do que um: “às vezes também tens de ter calma”. A princípio senti aquilo como castrador. Só aumentou o meu sentimento de cruzado contra o mundo. Mas a verdade é que, pouco depois, me fez cair em mim. Fez-me pensar em como, tantas e tantas vezes, me ponho numa posição sobranceira perante a vida, como se fosse a última bolacha do pacote. E a verdade é que não sou! Fiquei ali uns dias derreado, tristonho, metido comigo, envergonhado, muito envergonhado acho eu. Mas, a verdade é que foi libertador! Por mais paradoxal que possa parecer, perceber que não sou a última bolacha do pacote serenou-me! Por mais estranho que possa parecer, perceber que tenho de ser mais humilde deu-me esperança no futuro e força para o fazer acontecer! Engraçado como sermos mais humildes nos torna mais seguros. Lembrei-me do Bob Dylan quando, na sua Blowin´in the Wind, se pergunta: How many roads must a man walk down before we can call him a man?, percebi que ainda ando a aprender como é que se pode ser assertivo e humilde ao mesmo tempo, e acho que fiquei um bocadinho mais amigo da vida, de Deus, dos meus pais, da minha namorada, dos meus amigos, do céu estrelado, de tudo o que mexe e que está parado!

 Se, como nos ensina Bion, a arrogância (como a inveja destrutiva, a violência ou a indiferença) vem direitinha da parte psicótica da personalidade, esta capacidade extraordinária de nos escutarmos, de nos pormos em causa, de discorrermos sobre as nossas histórias, ligando-as, de repararmos erros, de nos perdoarmos e de aprendermos com a experiência, será – creio – a forma mais efetiva de, humildemente, nos encantarmos pela vida, agarrando-a pelos colarinhos!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue – sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais – está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

José Sargento – Psicólogo clínico e Psicoterapeuta

Olá, mundo!

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PSITALK é um blog que nasceu em 23 de Novembro de 2012.

A intenção e objectivo deste blog é, desde o início, a de ser um espaço onde psiquiatras, psicólogos e psicoterapeutas – independentemente da sua orientação ou inspiração teórica – pudessem publicar artigos de interesse para o público e, nesses artigos, pudessem divulgar o seu trabalho.

PSITALK não pertence a nenhuma empresa ou instituição.

 O link associado ao nome do autor irá orientar o leitor para uma página pessoal e pretende promover o autor e não empresas ou consultórios, já que a autoria é sempre pessoal e não empresarial.

Este blog pretende vir a ser um espaço aberto de reflexão e esclarecimento acerca de temas das áreas acima referidas.

Está aberto ao público em geral e, tanto quanto possível, pretende contribuir para que uma maior e melhor informação acerca destes temas.

Sejam todos benvindos!

TERAPEUTAS COLABORADORES DO PSITALK

Dr. João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

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Dra. Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

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 Dra. Catarina Mexia – Psicóloga e Psicoterapeuta

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Dr. Pedro Garrido – Psicólogo clínico e Psicoterapeuta

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Dra Inês Chiote Rodrigues – Psicóloga Clínica

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Money, Money, Money……..

cash coins money pattern

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Este é um tema que , como consequência desta fase que estamos a atravessar, estará seguramente na “ordem do dia” de muitos casais.

Independentemente da saúde financeira da relação, o dinheiro e as finanças do casal são um dos principais preditores de divórcio e fonte de constantes discussões.

No nosso país, falar de dinheiro é quase um sacrilégio e para ultrapassar este obstáculo é necessário compreender do que estamos a falar, porque discutimos, para encontrar uma maneira de chegar a acordos.

Idealmente, antes de assumir uma união de facto ou um casamento, é importante definir como o dinheiro e o restante património será detido e gerido. Mas, se tal não acontecer antes do início da relação , não o fazer depois é um erro que muitos casais cometem.

Considero que um casamento é uma parceria, e para que esta seja saudável, convém conhecer e acordar os termos da mesma.

Então o que precisamos de saber para ter uma abordagem construtiva ao tema?

Gustavo Serbasi identifica 5 perfis (poupados, gastadores, descontrolados, desligados e financeiros), cada um com os seus pontos fortes e fracos.

Conhecê-los e identificar o nosso é algo que ajuda a perceber os hábitos de consumo de cada elemento do casal, e compreender como potenciar os pontos fortes e atenuar os fracos.

Mas existem outros fatores a considerar quando conversamos sobre gestão financeira no casal. Assim aqui ficam algumas dicas a ter em conta:

Seja transparente

Quando for necessário rever os hábitos de consumo de cada um, a honestidade é a melhor política. A análise dos registos de despesa de forma conjunta, com o compromisso da ausência de comentários depreciativos e críticas maliciosas, ajuda a definir metas , a encontrar zonas problemáticas que precisam ser reduzidas.

Se após a definição de um orçamento fizer uma despesa não programada ou num valor superior ao acordado, não tente escondê-la do parceiro mas converse sobre a forma de acomodar esse valor e como proceder no futuro.

 Estabelecer um plano

As questões relativas à poupança são também um tema frequente discórdia. Nos 5 perfis referidos anteriormente, um dos pontos fracos de 2 deles, relacionam-se com o valor excessivo atribuído à poupança, que impede usufruir a vida de forma variada (jantar fora, viajar, etc).

Assim, quando falamos de poupanças é importante estabelecer metas comuns para ajudar a calcular o montante a economizar cada mês.

Também temos que considerar um montante de poupança individual para situações futuras como a reforma. Existem fórmulas que ajudam a calcular o esforço financeiro adequado a cada casal e que podem ser encontradas com a ajuda de um consultor financeiro.

 Conheça os hábitos da família de origem de cada um

A forma como encaramos a nossa relação com o dinheiro construiu-se ao longo do tempo, e com uma grande influência da nossa família e dos seus hábitos financeiros.

Conhecer esta história, permite-nos colocar no lugar do outro e compreender melhor as motivações para os gastos.

É muito importante perceber o valor atribuído ao dinheiro. Para algumas famílias os gastos com os filhos são sinónimo de amor e como tal prioridade, muitas vezes sem limites. Para outros, o dinheiro é fator de segurança, especialmente em famílias que passaram dificuldades ou em que circulava a mensagem de que o dinheiro seria a única forma de construir autonomia. Pode ainda ser significado de valorização pessoal, status, poder.

Não existe uma maneira certa ou errada na forma de interpretar o significado do dinheiro, mas conhecê-lo ajuda-nos a perceber os comportamentos do outro e ajuda o próprio a consciencializar-se das suas atitudes.

Quais os gatilhos que desencadeiam despesas

As compras por impulso são muitas vezes uma forma de atenuar a nossa ansiedade ou de promover um sentimento de reconhecimento e recompensa que não foi obtido de outra forma. Tentar compreender, em casal, qual o contexto emocional e de necessidades não satisfeitas, permite perceber aquilo que está subjacente e que verdadeiramente necessitamos.

A ansiedade e perturbações do foro mental, muitas vezes levam a este tipo de comportamentos e beneficiam de uma intervenção de um psicólogo.

Partilhar informação relativamente aos ganhos reais que cada um obteve

Com frequência, um dos parceiros ganha mais que o outro, ou tem proventos para além do seu salário. A partilha desta informação é essencial para determinar um orçamento equitativo.

A divisão de despesas a meias não é solução quando existe uma disparidade acentuada. Uma divisão proporcional, geralmente é a forma mais aceite e sentida como justa.

Partilhe com o parceiro como nos se sente quando o fator “diferença de salário” é uma realidade que impacta não só na nossa autoestima, como também pode alterar a relação de poder.

Decidir quem controla o quê

Haver um responsável pelo orçamento e pagamento de contas pode fazer sentido. Contudo, esta opção pode levar a excessos de poder ou falhas nos pagamentos.

Tal como noutras situação, tenham uma conversa aberta e honesta com o intuito de perceber como se processa o excesso de controle e encontrar soluções temporárias ou mais definitivas para cumprir prazos de pagamentos.

A alternância de papeis, se previamente estabelecida, pode ser uma solução para ambos os problemas, controle e esquecimento.

Planear o futuro

Ter filhos, dar assistência aos pais e/ou outros dependentes são questões que estarão presentes para muitos casais.

Uma conversa acerca do que pretendem proporcionar aos vossos filhos em termos educativos, como pretendem encarar eventuais necessidades de acompanhamento, financeiro ou outro, dos familiares mais idosos ou dependentes, também irá influenciar o vosso plano financeiro de curto prazo e permitirá perceber valores e formas de encarar o valor da vida.

Dívidas e encargos

Qual o montante de dívida, desde cartões de crédito a empréstimos ou pensões de alimentos, trazemos para a relação?

As dívidas que trazemos para uma relação são da nossa responsabilidade, moral e financeira. Contudo, irão afetar a capacidade do próprio e do casal para construir  e atingir as metas do orçamento.

Se necessário, procurem um plano de renegociação da dívida que permita acomodar as necessidades do orçamento conjunto. Mais uma vez, a transparência e um diálogo construtivo são muito importantes.

Não sendo o tema mais romântico para o início de uma relação, o contrato antenupcial, no caso dos casamentos, ajuda a que logo desde o princípio fiquem claras as questões relativas ao património.

Celebrar conquistas

Depois de alguns anos de rotinas os casais têm tendência a cair numa zona de conforto que potencia conflitos. Celebrar as conquistas, periodicamente, que refletem o esforço do casal, com pequenos gestos, ou simplesmente com o assinalar de mais uma meta alcançada, reforça e aproxima a relação de casal.

Catarina Mexia – Terapia de Casal

 

Comunicar bem em casal – Agora e sempre

Com frequência sou questionada como comunicar melhor, quando, nas consultas de terapia de casal, a principal queixa é apresentada como “não sabemos comunicar”.

Nestes dias de quarentena que vão correndo, esta é uma capacidade fundamental. O potencial de conflito encerrado num processo comunicacional deficiente é enorme, e nesta situação de proximidade constante está exponenciado.

Comunicar é essencialmente ouvir!

Esta é uma das nossas competências mais subutilizadas . Na realidade, a maioria de nós acha que está a ouvir, quando na realidade está envolvido num diálogo interno que lhe permitirá refutar o que pensa que o outro lhe disse.

Quando não há envolvimento activo no processo de escuta, muita informação não é rececionada (verbal e não verbal) e outra não é retida.

Para nos empenharmos num processo de escuta ativa precisamos utilizar os 5 sentidos. Esta prática não só nos informa sobre o outro, mas também sobre nós mesmos. A atenção ao corpo, a presença no “aqui e agora” permite-nos a construção de um feedback genuíno e que abre o diálogo incentivando uma comunicação positiva.

Assim devemos ter presente o seguinte:

  • Ouça para além do que é dito

Muitas discussões acontecem por razões que os casais descrevem como “tão pouco importantes que já nem se lembram”. Na realidade, a maioria dos conflitos começa com a “gota de água” que faz transbordar o mal estar de necessidades não satisfeitas. Queixar-me de que o meu companheiro não participa na confeção do jantar, na realidade pode ser uma queixa que poderia ser formulada como “Estive longe de ti todo o dia, queria a tua companhia, sentir que sou especial, que sentiste a minha falta também!” ( sim, a partilha das tarefas também aliviam o cansaço do outro)

  • Atente à linguagem não verbal

Compreenda e valorize a linguagem corporal do outro e atente na sua.

Muitas vezes o mal estar que sentimos numa conversa, pode ser explicado pela incongruência entre o que é dito e o comportamento, a linguagem corporal.

Quando estamos a falar com alguém que expressa verbalmente a sua preocupação pelo que lhes transmitimos e tem o olhar fixo no telefone, nas redes sociais, o mal estar que esse diálogo nos faz sentir é legitimo. As minhas palavras dizem “Interesso-me, preocupa-me com o que dizes”, o meu comportamento revela o contrário – e isso é irritante.

Tenha atenção à forma como se expressa e ao modo como se comporta no diálogo com o outro.

  • Time-out

Um diálogo pode estar imbuído de todo o tipo de respostas emocionais, desde a alegria à tristeza passando pela raiva e a zanga.

Quando em conflito, muitas vezes chegamos a um estado de ativação neurofisiológica e emocional que nos impede “manter a cabeça fria” e estar disponível para ouvir o outro.

Aceitem como estratégia o sinal de “time out” como forma de se retirarem da conversa o suficiente (20 minutos costuma ser o tempo adequado) para acalmar e permitir que o seu corpo e as suas emoções regressem a um nível gerível.

  • Realidade única?

A empatia e a bondade são dois elementos fundamentais para uma boa comunicação. A velha questão “queres ter razão ou ser feliz?” implica um equilíbrio entre a nossa visão e a compreensão do outro e da sua realidade. Ficar preso na busca da verdade absoluta só nos bloqueia. Admitir que existirão sempre 2 versões da realidade permite-nos construir pontes, processos de negociação.

  • Negociação

A maioria das negociações termina em compromisso de ambas as partes.

Numa boa conversa, ir mais além do “bater bolas” é fundamental.

Perdermo-nos nos pormenores, no ataque ao outro, não nos deixa perceber que muitas vezes ambos queremos o mesmo, mas temos caminhos diferentes para lá chegar.

Assim, procurem partilhar as vossas necessidades para além da queixa, para poderem passar à fase da resolução. Começar por aceitar que não terão uma solução boa, mas uma suficientemente boa para ambos é o primeiro passo para construir um compromisso partilhado.

Se o meu cansaço na relação se traduz na queixa de falta de iniciativa do outro para programar uma saída a dois, e o meu parceiro se queixa da minha falta de iniciativa para partilhar o sofá nas noites de semana, provavelmente ajuda assumir que o problema é o reconhecimento da necessidade da companhia do outro e da iniciativa de cada um para o demonstrar. Então encontrar um compromisso que permita satisfazer as necessidades especificas de cada um (ficar em casa, sair para jantar), dar-nos-á uma boa probabilidade de chegar a uma solução mutuamente satisfatória.

Não existem relações perfeitas.

Como alguém dizia, “Casais felizes não são os que não discutem, mas aqueles que sabem resolver uma discussão”.

Catarina Mexia

http://www.catarinamexia.com

 

Ainda não é desta que vou ceder !

Não existe forma de “dourar a pílula”. Permanecer em isolamento com a família e/ou o companheiro por perto é fonte de stress e desgaste.

Por outro lado, a gestão do medo, da ansiedade associados à incerteza da situação, pode levar-nos a ficar perturbados e com dificuldade de regressar a um estado de equilíbrio.

Se este fôr o caso, tente pôr em prática técnicas de relaxamento e exercício físico como forma de baixar a intensidade da ativação das emoções.

Existe um exercício de relaxamento, especialmente eficaz, conhecido por “4 elementos – Terra, Ar, Água e Fogo” de Elan Shapiro, que ajuda, de forma rápida, a lidar com situações de vida negativas:

Os ativadores de stress internos e externos tem efeito cumulativo ao longo do dia e lidamos melhor com o stress quando ficamos dentro da “janela de tolerância” de ativação.

Um antídoto para ativadores de stress é a monitorização frequente e aleatória do nível de stress com ações simples de redução do mesmo para manter os seus níveis dentro da janela de tolerância.

Assim, use uma pulseira no pulso (de borracha, ou de cordel) e sempre que notar a presença, faça uma rápida leitura do nível atual de stress (por exemplo, numa escala de 0 a 10, sendo 0 a ausência de stress e o 10 o nível máximo de stress) e realize 3 ou 4 breves exercícios de relaxamento/autocontrole (os 4 elementos) e então avalie novamente o nível de stress (0 a 10).

O objetivo, modesto, é reduzir o nível de stress em 1 ou 2 pontos de cada vez e fazer isso pelo menos 10 vezes ao dia em momento aleatórios, a partir de diferentes níveis de stress inicial.

Ao evitar que as suas respostas de stress se acumulem, torna-se mais hábil a permanecer dentro da sua janela de tolerância.

 

  • Terra: ponha os pés no chão e tome consciência do local onde está. Sinta a textura do sofá onde está sentado. Seguidamente, repare em 3 objetos à sua volta (ex: “uma cadeira, uma mesa, um telemóvel”). O objetivo é sair da espiral de pensamentos perturbadores e intrusivos e trazer a sua atenção para o “aqui e agora”;

 

  • Ar: Vamos usar a “respiração quadrada”: respire fundo, pausadamente (conte 1-2-3-4 enquanto inspira; 1-2-3-4 enquanto retem o ar; 1-2-3-4 expire; 1-2-3-4 suspenda a respiração (antes de voltar a inspirar, reiniciando o ciclo), usando o diafragma;

 

  • Água: beba água ou salive. Quando está ansioso, stressado, a sua boca fica seca, porque parte da resposta de emergência ao stress produzida pelo Sistema Nervoso Simpático, é desativar o sistema digestivo. Quando começa a produzir saliva, ativa novamente o sistema digestivo, pondo em ação o Sistema Nervoso Parassimpático, promovendo a resposta de relaxamento. É por isso que se oferece água, chá ou rebuçados às pessoas após uma experiência difícil. Quando há produção de saliva, a sua mente é capaz de controlar melhor os pensamentos e o corpo.

 

  • Fogo: Vamos “aquecer” a imaginação – procure uma imagem de um local agradável, real ou imaginado, inspirador de paz, confiança, segurança, relaxamento. Descreva-o em voz alta utilizando para tal os 5 sentidos: o que ouve? O que vê? O que cheira? O que sente? A que sabe? Simultaneamente vá respirando de forma profunda e pausada.

 

O exercício físico deverá ser adaptado às condições do espaço de cada um, e, de momento existem vários exemplos a circular na internet. Deixo-vos um, que estando em inglês, é fácil de fazer seguindo as instruções visuais.

https://youtu.be/PWCWP0yZld0

Este exercício, cross crawl, oferece uma maneira eficaz de reiniciar o sistema nervoso e reintegrar a mente e o corpo. Pode usá-lo regularmente para descarregar e recarregar a sua atenção e energia. Gera uma ótima oportunidade para distrair do foco em excesso e também funciona colocando o corpo e a mente alinhados. Além de um desactivador do stress ou como um aquecimento para se mexer melhor, o exercício traz benefícios sócio-emocionais significativos:

·     Maior autoconsciência

·     Melhor discernimento do contexto

·     Mais clareza de pensamento

·     Melhor controle de impulsos

·     Melhorias na coordenação física geral

Estas são algumas ideias para ajudar a lidar com estes momentos diferentes e ansiogénicos que vivemos. Contudo são estratégias que podemos pôr em prática sempre que sentirmos necessidade de encontrar algum relaxamento e paz interior.

Fique bem, mantenha-se seguro(a)!

Catarina Mexia – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

 

 

Os dias da Pandemia – II

Andrà tutto bene

“Tudo vai ficar bem”

Andrà tutto bene - João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

 

Celeste chegara de casa ainda antes das oito da manhã.

O marido estava internado há 4 dias nos Cuidados Intensivos.

Uma espera estóica no hospital, os enfermeiros vêem-na quando entram de serviço ou saem de vela, arranjaram-lhe um cantinho num corredor de acesso à Unidade de Cuidados Intensivos, porque a sala de espera ia ser demasiado perigosa para quem decidiu ir a casa apenas para tomar banho e trazer um farnel, e volta todos os dias para aquela cadeira de plástico, para aquele corredor, ermo e impessoal, e ali fica à espera de notícias do marido.

“Há uma semana ele estava bem, teve uma febrícula – mas nada de especial – e foi fazer a análise que deu positiva e voltou para casa porque não tinha mais que uma febrícula.”

“Ao 3º dia começou com tosse, uma tosse persistente, mas pelo telefone disseram-lhe que esperasse. Nessa noite acordei a ouvi-lo respirar, sentado na cama, parecia que não havia ar que chegasse, parecia que o ar todo do mundo não entrava por mais esforço que ele fizesse.”

“Chegámos ao hospital e vieram dizer-me que tiveram que o pôr em coma para que ele se adaptasse à máquina que o faz respirar…”

Celeste e Alberto não tiveram filhos. Ela não podia.

Hoje estava sozinha no mundo.

Alberto, que nunca a deixara nem a tinha traído, estava lá dentro, atrás daquelas portas verdes claras com janelas foscas, a alma entregue a Deus, enquanto os médicos e enfermeiros tentavam salvar-lhe o corpo.

Celeste não cultivara o hábito de rezar, mas pedia a Deus em pensamento e coração.

Não tinha telemóvel e, se tivesse, não tinha a quem telefonar.

Limitava-se a olhar para o corredor e suspirava fundo.

Um dia uma enfermeira puxou uma cadeira, sentou-se perto dela e começaram a conversar.

De imediato, Celeste perguntou:

– Como está ele? Acha que ele vai salvar-se?

– Olhe, não sei. Não quero dizer-lhe nem que sim, nem que não. Já está com o ventilador vai para 4 dias e até agora nada. Vamos ver o que vai acontecer…

– Eu sei que ele vai sair dali pelo seu próprio pé! – respondeu ela quase zangada com a enfermeira.

Celeste ficou subitamente com os olhos marejados de emoção e voltou-se para a enfermeira num rompante de raiva:

– Você não pode fazer isso, ouviu?!

 A enfermeira olhou-a surpreendida.

– Você não pode vir aqui e tentar roubar-me a única coisa que eu tenho agora que é a esperança que ele recupere! É a única coisa que me faz respirar! É a única coisa que me conforta à noite quando tento dormir! Tudo desmoronou à minha volta em menos de um mês! Ele teve que fechar a pastelaria, eu que o ajudava também passei a ficar em casa, ele andava aflito a dizer que só nos íamos aguentar uns dois meses, foi ao banco pedir um empréstimo e dizem-lhe que só lhe vão dar metade do que ele pediu e é se derem, faz quase um mês e ainda não tivemos resposta do banco, há uma semana começa com febre e três dias depois entrou aqui e aqui ficou. Eu não tenho mais ninguém! Você está a ouvir-me?! – e desatou a chorar num pranto incontrolável – “Sra. Enfermeira, eu não tenho mais nada! Só tenho este banquinho que por sinal é vosso, e imagino o médico ou um de vocês sair por ali com um sorriso e dizer-me que ele já está a respirar por ele próprio.”

A enfermeira pusera-se de pé e agora abraçava-a com força e pensava para ela própria que passamos pelas pessoas e não fazemos a mais pequena ideia do que vai na alma de cada um.

E tomou a decisão de não tirar a Celeste a única coisa que ainda lhe restava:

– Olhe, Dona Celeste. Eu não disse que estava a correr mal… Já vi pessoas ficarem duas semanas em coma induzido e recuperam completamente. A procissão ainda vai no adro! Não há nada que nos diga que ele não possa melhorar! Ele vai melhorar! Tenha calma! Estamos a fazer tudo por isso! Ele vai melhorar!

Celeste tentava abrir a sua bolsa para tirar um lenço de papel, as suas mãos tremiam de medo, de angústia, de coragem, mas também de esperança.

A enfermeira resgatou-lhe a bolsa das mãos, abriu-a, tirou um lenço de papel e quando ia tentar limpar-lhe as lágrimas Celeste reagiu e disse-lhe:

– Eu faço isso! – respondeu tirando-lhe o lenço das mãos – Não me leve a mal. Eu não sei o que me deu… Sei que vocês saem daqui estoirados e eu ainda me fui zangar consigo.

A enfermeira sorriu e disse:

– Vai ficar tudo bem.

– Sim – rematou Celeste – E desculpe. Às vezes temos que nos zangar com os anjos para que Deus nos dê ouvidos.

Naquele momento, a Esperança uniu as duas.

Era um sentimento mais poderoso do que a simples ideia de que Alberto iria melhorar. Era a certeza de que isso iria acontecer conquanto ambas continuassem a lutar por isso.

Por vezes, o que faz com que consigamos continuar com as nossas vidas, é encontrar um significado que justifique continuarmos a lutar por sobreviver.

Quando encontramos um significado para a nossa vida, para os nossos objectivos, para os nossos sonhos, esse significado irá legitimar o nosso caminho e torná-lo possível, mesmo que todas as circunstâncias que nos rodeiam afirmem o contrário.

É este encontrar de significado que faz com que as pessoas se superem em momentos de enorme adversidade.

No caso de Celeste, a Esperança foi o instrumento que encontrou para se agarrar à vida, para não desmoronar perante a possibilidade do seu marido não se salvar. Enquanto Alberto respirar, ela não só não se afoga na antecipação da dor duma possível perda, como mantém inquebrantável a força interior necessária para obliterar da sua consciência o luto enquanto este não for inevitável.

Sem Esperança, talvez Celeste não aguentasse mais do que algumas horas.

Freidrich Nietzsche dizia que “aquele que tem uma razão para viver, consegue suportar quase tudo”, uma frase que o pioneiro psiquiatra existencialista Viktor Frankl repetia com frequência.

Viktor Frankl acreditava que “o amor é o objectivo maior e mais alto a que o Homem pode aspirar”.

Mas o que lhe permitiu a ele, Viktor Frankl, que passou anos intermináveis em campos de concentração nazis, agarrar-se a essa crença com tanto fervor no meio da deformidade moral do Holocausto?

Na “Busca do Homem por Significado” ([1]), o testamento autobiográfico de Frankl sobre o seu tempo em Auschwitz, ele oferece a seguinte explicação: “Aqueles que sabem o quão próxima é a conexão entre o estado de espírito de um homem, a coragem e a esperança, ou a falta deles, entenderá que a súbita perda da esperança e da coragem pode ter um efeito mortal”.

Para ilustrar este ponto, Frankl detalha a sua teoria sobre a alta taxa de mortalidade em Auschwitz durante o Natal de 1944 e o Ano Novo de 1945: “Os prisioneiros que morreram nessa altura, não sobreviveram porque esperavam estar em casa antes do Natal. Quando perceberam que isso não iria acontecer, perderam completamente a esperança na vida para além do campo de concentração”.

 

 

Hoje, um dos sentimentos mais celebrados por essa Europa fora é a Esperança.

É tema de canções inspiradoras que nos dizem que “vai ficar tudo bem”.

Que Viktor Frankl nos inspire a acreditar firmemente nisso.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

 

Andrà Tutto Bene

(A música é da autoria de Cristóvam e o vídeo é de Pedro Varela,

dois amigos portugueses que, à distância – um nos Açores, outro e

em Lisboa – criaram aquele que bem se poderá tornar um dos hinos

desta quarentena, partilhado através do Instagram.

Chama-se Andrà Tutto Bene em italiano, ou seja, “Vai Ficar Tudo Bem”).

 

 

As cidades estão vazias como nunca estiveram

Todo o mundo tem medo do que sopra no vento

Os planos que todos nós tínhamos

Todos foram pelo ralo

As nossas vidas foram adiadas

Mas eu sei que no final ficaremos bem

Estamos juntos como um só

As pessoas estão alinhadas nos supermercados

O silêncio está gritando o medo nos seus corações

Não desista da sua fé, não,

Não deixe sua luz desaparecer

Juntos, vamos atravessar a escuridão destes dias

Dois ou três meses

Eles estão dizendo na TV

Estejam seguros nos vossos abrigos e em breve estaremos livres

Um dia nos lembraremos dos tempos mais difíceis

Quando a distância significava amor e nos mantinha vivos

Andrà tutto bene

Vai ficar tudo bem

Tudo ficará bem

Andrà tutto bene

Tout ira bien

Tudo ficará bem

Para os médicos e enfermeiros

E todos aqueles que lutam

Os heróis que nos salvam

Arriscando suas vidas

Vamos dar a eles nosso amor, sim,

Vamos gritar para o céu

Irmãos e irmãs

Estamos aqui ao vosso lado

Cuidem dos que nos são queridos

Sejam fortes e corajosos

A vossa bondade é algo que não pode ser paga

E quando isto acabar, as memórias brilharão

Daqueles que faleceram e daqueles que arriscaram

a sua vida por todos nós

Mais alguns meses

Disse o apresentador

Divididos lutamos, mas unidos permanecemos

Um dia nos lembraremos os tempos mais difíceis

Quando a distância significava amor e nos mantinha vivos

Andrà tutto bene

Vai ficar tudo bem

Tudo ficará bem

Andrà tutto bene

Tout ira bien

Tudo ficará bem

Andrà tutto bene

Alles wird gut

Tudo ficará bem

Andrà tutto bene

Todo irá bien

Tudo ficará bem

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[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Frankl#Panorama_de_sua_obra

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Os dias da Pandemia – I

“Temos de começar a encontrarmo-nos mais vezes.”

 

 

Faz hoje sensivelmente um mês que em Portugal começaram a ser adoptadas as medidas de confinamento.

Lembro-me da última vez a que fui a um restaurante com a minha família por essa altura.

Depois disso, duma forma insidiosa, caiu sobre a cidade um manto de silêncio.

As ruas, vazias. As lojas, fechadas. O planeta parou e tudo parou com ele.

Tenho a sorte de sair de casa e conduzir meia dúzia de quilómetros de casa para o consultório onde trabalho e é raro ver outro carro ou ver alguém a andar na rua.

Pressente-se o medo. Como aquele perfume que vem da terra depois duma chuvada copiosa. Ele penetra pelas frestas das portas e janelas, trespassa as telas dos televisores e vem instalar-se sub-repticiamente nas nossas mentes.

Como há uma centena de anos atrás, na gripe espanhola, o ar azedou, anda envenenado e é um veneno invisível, incolor e inodoro. O pior é que pode matar.

Usamos luvas e máscaras e deixamos os sapatos à porta de casa.

Mesmo assim, o veneno pode passar…

Alguns de nós deixámos de visitar os nossos avós ou amigos queridos.

É este ar envenenado que nos veio ensinar que afinal nada do que temos é garantido. Que a proximidade daqueles que amamos é muito mais valiosa do que antes supúnhamos. Que afinal, não é impossível parar com a destruição do planeta.

Multiplicam-se as mensagens de WhatsApp, muitas delas inegavelmente inspiradoras, de que esta experiência humana veio ensinar-nos que tudo é possível para uma humanidade que julgava este planeta como perdido.

Até aqui todos de acordo, mas fica por fazer a pergunta mais importante.

Nós – ou a maioria de nós – que vivia a vida a correr, sair de casa por vezes sem pequeno-almoço, sempre em stress com horários para tudo, sem tempo para pensar nem sentir, chegar à noite, cair no sofá a espairecer fazendo zapping com o comando da televisão sem vontade nem ânimo para ver fosse o que fosse e cair na cama porque amanhã é outro destes dias, eles são todos iguais e só me apetece é morrer, será que há saída para isto? – Nós, ou a maioria de nós, mais do que percebermos que o planeta tem salvação e que este vírus pode afinal ser um mensageiro de esperança (mas também de luto) – nós, a maioria de nós – fica a pergunta: o que podemos mudar interiormente nesta oportunidade que a pandemia nos deu? O que trouxe de bom esta pausa na nossa cega corrida do dia-a-dia? Como estamos a aproveitar a disponibilidade que esta circunstância nos trouxe?

Por vezes paro, desligo a televisão ou o computador ou paro de fazer seja o que for com que esteja ocupado por 15 minutos, e respiro fundo – não, não é preciso meditar formalmente, não preciso duma almofada, nem de fechar os olhos para me concentrar – paro, tento respirar só um pouco mais devagar, e tento auscultar o meu corpo – “Como será que tu estás? Como estás a reagir a isto tudo? Será que andas mais tenso ou mais relaxado?” – tento auscultar o meu coração – “Esta ansiedade que eu sinto é provavelmente natural, estas saudades também, mas esta angústia que vem de vez em quando… deixa-me senti-la. Deixa-me parar de fugir dela. Deixa-me dizer-lhe que estou aqui para lhe dar as mãos e tentar compreendê-la” – e tento auscultar os meus pensamentos – “Que raio é esta imagem que me veio à mente? Porque é que me ocorreu esta recordação? O que é que eu tenho vindo a dizer a mim próprio? E o que digo para mim e sobre mim faz-me bem ou derrota-me e faz-me mal?”

Finalmente eu posso criar momentos onde, mais do que tudo, eu me possa encontrar comigo próprio, livre de julgamentos e autocríticas, apenas um abraço que não negaríamos a um amigo mais próximo, sem lamechices, um abraço honesto e dizer-lhe: “- Ando há tanto tempo esquecido de ti. Temos de começar a encontrarmo-nos mais vezes.”

Aquele silêncio pode vir depois deste silêncio, onde aprendemos a estar mais acompanhados, onde aprendemos a nos reencontrar, a respirar e a sermos um pouco mais generosos connosco próprios.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Amar-te-ei até me matares…

Firmino

Firmino entra no restaurante e diz um “Bom dia!” na sua voz afável e, naquele momento e ao mesmo tempo, seca e distante, olhando de relance, quase de soslaio, para os seus colegas:

“- Estes cabrões estavam a falar nas minhas costas…” – pensa ele enquanto entra para a divisão onde os empregados trocam de roupa e vestem a farda profissional.

“- É sempre a mesma merda, sempre a fazerem-me a folha, mas eu vou falar-lhes a bem, vou adoçar-lhes a boquinha para eles não perceberem que eu já os topei!”

Quando vai a sair, já vestido, volta-se para trás e revê-se no espelho comprido e alto que o patrão comprou:

“- Eu tenho que estar bem.” – pensa, com vaidade – “E lembra-te sempre: O teu patrão é o cliente! Sempre! Não o dono do restaurante…” – e corrige – “…dono do restaurante que, a bem dizer, é como se fosse um pai para mim…”

Frequentemente os colegas queixam-se ao patrão:

“- Ele é um anormal. Anda sempre desconfiado! Não lhe podemos dizer nada! O que quer que a gente diga, ele pega e leva para outro sentido! O homem tem pancada!”

“- Pancada têm vocês! Ele não faz mal a uma mosca! Não prestem atenção ao que ele diz! Vejam como ele trata os clientes! E aprendam com ele, isso sim! Cada um de nós tem a sua mania! A mania dele é andar desconfiado. Deixem-no em paz e não liguem. Vocês vêm aqui é para trabalhar e ele também. Fora as desconfianças ele é uma jóia de moço!”

Firmino, de alguma forma, nunca desconfiava dum cliente.

Tinha o dom de os tratar de tal forma que eles se sentiam especiais, únicos, sorria sempre e mantinha-se à distância para mostrar que estava atento e disponível mas que não queria incomodar:

“Os clientes vêm cá para comer e não para te aturar… Não é como os brochistas dos teus colegas que andam para aí a engraxar… É deixá-los sossegados… E só perguntas se está tudo bem ou se a comida está boa uma vez e quinze minutos depois de eles começarem a comer. E acabou! Quem pergunta duas vezes é porque é surdo ou burro, ou então graxista. Os clientes não gostam de graxistas!” – pensa para si próprio.

Firmino tinha orgulho na forma como servia e os clientes adoravam-no.

Homem de poucas falas, tinha sempre um sorriso para os clientes, uma palavra amável ou uma brincadeira para os animar.

“- Quero uma Coca-cola zero, por favor.”

“- Sem álcool portanto!” – dizia sorrindo para o cliente.

Desconfiava dos colegas, da própria mulher, às vezes do patrão, mas nunca dos dois filhos que tinha e muito menos dos clientes.

Ninguém conseguia perceber a lógica desta selecção – nem ele mesmo.

Na primeira vez que veio à consulta disse-me que a esposa fazia tudo para o matar sem que ninguém desse conta. Segundo ele, a esposa estava constantemente a tentar envenená-lo.

E disse-me:

“- Ela agora mandou pintar as portas da rua de verde! Aquilo é tinta que fede até dizer chega! E eu já percebi que aquela tinta é venenosa e que lá está ela a querer envenenar-me! Como o nosso quarto é perto da porta da rua, eu fui dormir para um quarto nos fundos e disse-lhe: Fica aí tu a dormir que a mim não me envenenas tu!”.

Esquecia-se Firmino da incongruência da esposa não querer dormir também noutro quarto, já que assim o dito veneno a iria matar ela.

No final duma longa entrevista, perguntei-lhe:

“- Sem ser este problema que o traz cá, você tem outras doenças?”

“- Oh, doutor! O caruncho já me começou a entrar nos ossos! Faço um medicamento para a tensão arterial e outro para o colesterol.”

“- E quais são?” – perguntei.

“- Ah! Isso não sei! Deixe-me só telefonar à minha mulher que ela é que sabe disso tudo!”

Para este efeito, de alguma forma, a mulher já não o quereria envenenar com os comprimidos para a hipertensão arterial ou para a hipercolesterolémia.

Bem ou mal, todos os adoravam: Filhos, clientes, patrão…

A esposa e os colegas estavam cansados de o aturar, mas reconheciam que, no fundo, “lá mesmo no fundinho” – como dizia um deles – o Firmino não era mau rapaz.

Com a esposa era muito mais cansativo – há mais de vinte anos que falavam quase por monossílabos – porque “Desculpe lá, doutor! Vá para lá você aturá-lo que até a pasta dentífrica ele esconde de mim!”.

Mas quando um deles ficava doente esfumavam-se “os filmes e as desconfianças” (sic) e “ia dormir para junto da cama do hospital se fosse preciso! Ora isto entende-se, senhor doutor? Num minuto eu ando a querer envenená-lo, no outro anda a chatear os médicos e os enfermeiros se eu andava a ser bem tratada no hospital! Ora isto faz algum sentido?”

Eram estas incongruências que traziam à luz que o Firmino tinha lá um cantinho muito escondido no qual ele sabia que as desconfianças e os filmes eram tudo “invenções da minha cabeça, será mesmo, senhor doutor?”.

Mas era um cantinho muito pequeno e muito escondido e suspeito que nem mesmo Firmino tinha consciência daquele cantinho.

Era por esse cantinho que brotava o amor.

O amor que tinha pela sua família e sobretudo pela esposa – algo que ele não compreendia nunca ter desaparecido – “Ora se ela me quer matar, como é que isto é possível, senhor doutor?”

“- Mas, Firmino… Você já diz isso há 20 anos e nunca nada aconteceu, certo?”

“- Olhe que não é assim, que eu uma vez tive um acesso de tosse que tive que ir para as urgências!”

“- Mas não morreu?” – insisti.

“- Claro que não, senão não estaria aqui a falar consigo,  ora !”

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E lá ia Firmino.

A iluminar as mesas dos clientes, como a maior vedeta do restaurante.

A amar como podia.

“- Doutor, antes da doença ele era um Príncipe!”

“- E agora não é porquê?” – devolvi à esposa.

Ela fez uma pausa de alguns segundos antes de me responder:

“- Continua a ser um príncipe. Mas não deixa de ser um chato!”

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

A Vivência do(s) Prazer(es)

Prazeres

Num dia de calor, porque não um sumo de toranja com gelo?

«Disse (escreveu) toranja? baahh que horror! não quereria dizer laranja? ou cerveja geladinha?»

Pois, o prazer tem destas coisas… O que a uns apraz, não apraz a outros… e por isso é tão importante que cada um descubra o que lhe dá prazer e que dê a liberdade aos outros de o fazer também. Pode memorizar os seus momentos de prazer aumentando a sua sensação de bem-estar.

Há alturas em que nos deixamos levar inteiramente pela compulsão de aumentar os níveis de prazer, numa busca constante e ansiosa de mais e melhor, esquecendo que, o que algumas vezes se passa, é que estamos com uma incapacidade de tirar partido do momento presente, na maior parte das vezes por problemas passados, que nos projetam sempre e sempre em antecipações futuras e nos roubam o prazer de simplesmente estar no presente.

A ansiedade constante arruina a fruição do prazer. E, não conseguir desfrutar do prazer, dificulta também a vivência da dor duma forma adaptativa.

Seria quase impossível falar de prazer não abordando dois dos maiores prazeres: O prazer da mesa e o prazer da cama, ou, dito de outra forma, o prazer da comida e o prazer do sexo.

O prazer que os sabores de que mais gostamos nos dá, pode ser, dependendo do gosto de cada um, a nossa perdição. Quando sonhamos com enchidos e açordas, com ensopados e feijoadas, com gelados e doces conventuais e com tudo o mais que regala o olho e o palato, seja doce, salgado ou picante, mas muito calórico, demasiado gordo, etc etc, é natural que tenhamos alguma dificuldade em usufruir deste prazer sem consequências drásticas para a saúde, porém, isto jamais poderá significar que prazer e saúde são incompatíveis, ou que ter prazer é inimigo da saúde, ou, que para se ser saudável há que renunciar ao prazer. Nada poderia estar mais errado. Para se ter saúde tem de se evitar excessos, mas nunca o prazer.

O que podemos é autoregular o prazer. Como?

Precisamente saboreando melhor e mais lentamente degustando e não, comendo sofregamente. Também será importante ir encontrando prazer na descoberta de muitos e variados alimentos e bebidas saudáveis, tentando que a ingestão do que é tido como “fazendo mal em excesso”, seja feita com menos frequência e em menores quantidades, mas sempre sem culpa. A culpa impede o usufruto pleno do prazer! Quem tem prazer em correr, caminhar ou praticar desporto, consegue reequilibrar alguns excessos de mesa fazendo exercício.

No prazer do sexo, a culpa tem também tendência a estar presente, e, mais uma vez, onde há culpa não há possibilidade de usufruto pleno de prazer. A sexualidade bem vivida é das melhores e maiores fontes de prazer e bem-estar, e um excelente exercício físico, mas tal como noutros campos, a ansiedade e a incapacidade de viver o momento com a vulnerabilidade e intimidade necessárias, podem levar, ou ao não-prazer, ou à necessidade de procurar intensificar o prazer de modos menos saudáveis (por exemplo recorrendo ao uso de substâncias tóxicas duma forma sistemática, ou quase). Esta estratégia surge numa tentativa de abrilhantar sensações que se vão sentindo como mais pálidas e a escoar por entre os dedos, porque se está a procurar no sexo o que ele não pode dar só por si, falo de verdadeiro envolvimento afetivo com os outros e com a vida. É também verdade que nalguns casos o sexo é uma ótima ajuda para uma maior aproximação, motivação e gratificação, uma vez que gera prazer, no entanto, em situações em que a actividade sexual tenta substituir outras necessidades, pode criar frustração e um vazio ainda maior.

Mas, para além de comida e sexo, há muitíssimos outros prazeres. Temos tendência a esquecer o mais importante: O prazer das pequenas coisas, que não envolvem consumos, nem excessos.

Aquele prazer que temos em dar, em partilhar, em descobrir, em observar, em cheirar, em escutar, em acariciar, em conviver, em sorrir, em abraçar, em partir, em chegar, em relacionar, em planear, em realizar (construir, esculpir, cozinhar, dançar, cantar, tocar, pintar, bordar, aprender, escrever, etc, etc, etc), ou seja em toda uma série de atividades que estão, ou podem estar, presentes no nosso dia-a-dia, se não andarmos em correrias e tensões constantes, querendo chegar a uma qualquer meta, esquecendo tudo o que está no caminho, como se fossem apenas obstáculos e não partes, também necessárias (e por vezes até essenciais), da vida.

É desta forma que tantas vezes deixamos escapar momentos (e até entes queridos), sem os notar, sem permitir que os nossos olhos “retinem”, que os nossos sentidos absorvam, sem permitir que a memória os retenha e lhes dê significado, sem nos ligarmos afetivamente e realmente.

E, no entanto, é conseguindo saborear esses pequenos prazeres da vida, que podemos aumentar a nossa coleção de momentos de felicidade que nos podem proporcionar uma incrível sensação de bem-estar e nos ligam mais profundamente aos outros e à vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

O colo de Deus…

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L., 62 anos, administrador executivo numa empresa de equipamentos electrónicos, cresceu numa família onde foi iniciado na magia dos gestos de amor.

“Sabe?

Ontem, uma vez mais, adormeci a pensar na minha mãe que Deus tem.

Depois dela conheci muitas mulheres, mas nenhuma como ela.

Ela acordava-me de manhã como um sopro muito suave na testa ou a acarinhar o meu cabelo muito ao de leve com um dedo apenas…

Eu nunca acordava em sobressalto. Ela tinha este talento de me fazer acordar tão devagarinho que eu nem sentia a diferença entre estar a dormir e acordar.

Só ela, até hoje, conseguia acordar-me assim…

Quando hoje o dia me corre mal, quando eu vou angustiado com alguma coisa para a cama eu peço a Deus que me acolha no seu regaço. Ou ao pólo feminino de Deus. Ou a Nossa Senhora. Eu peço aquele colo que a minha mãe me dava e mais ninguém sabia ou soube como me dar.

É um colo protector, é um colo onde nada me pode acontecer e, mais que uma sensação de segurança, o que é mais vibrante e intenso é a sensação de estar envolto neste estranho Amor de mãe.

Muito raramente lá acontece eu adormecer e cair no colo de Deus…

E eu acho que aprendi com a minha mãe.

Quando a minha filha tinha 2 anos ela começou a acordar muitas vezes de noite e ficava em pânico por não nos ver ao pé dela.

Acredita que por vezes eu era tão rápido que ela nem tinha tempo de começar a chorar?

E não é preciso dizer nada realmente… Eu passava-lhe a mão pelo cabelo e sussurrava um “Shhhhh” em suspiro e dizia-lhe: “Está tudo bem, querida. Não se passa nada.” e ela caía com a cara na almofada e adormecia ainda antes de se conseguir aninhar-se na cama dela…”

Fiquei a pensar como é que uma memória tão antiga perdura tão tarde na vida de alguém, como é que reaviva os olhos deste homem uma luz tão intensa de conforto e calor, e a resposta que se me oferece é que a responsabilidade é do Amor.

Um Amor maternal.

Quem sabe um Amor feminino, que se prolongou na Alma deste homem.

Um dia será a sua filha a lembrar a alguém a Magia do seu pai.

E a uma grande parte (para não dizer a maior parte) das coisas inexplicáveis da Experiência Humana têm a ver com o Amor, enquanto experiência vivencial que encerra em Si todas as línguas mudas e faladas e atinge as Almas das pessoas nos seus recônditos mais silenciosos deixando lá uma marca eterna e indelével.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

COMO É QUE É MESMO ISTO DE PÔR LIMITES?

limites
Tenho me apercebido com vários pacientes, e mesmo com pessoas da minha vida pessoal, e por vezes eu própria, que a ideia de colocar limites é muito assustadora, traz a ameaça da perda, de magoar o outro a um nível que destrua a relação.
Ainda que os nossos limites possam sim ser incompreendidos pelo outro e por isso fazerem-no sentir-se magoado, e até possam ser prelúdios de um fim se o outro não os souber acolher e respeitar, também é verdade que são os limites, as “regras do jogo”, que nos permitem interagir de uma forma positiva e construtiva, que dá estrutura, segurança, e favorece as relações.
Ao refletir sobre esta dificuldade em colocarmos limites, tem-me surgido que parte dela poderá advir também de uma distorção ou um enviesamento que sinto que fazemos no a quem é que sentimos que os estamos a colocar.
Geralmente o outro sente que lhe estamos a colocar limites a ele, e parece-me que frequentemente compramos esta ideia, quando na realidade estamos, ou deveríamos estar, a colocar limites a nós próprios, o que podendo parecer o mesmo é na realidade bastante diferente e a própria experiência psicológica de o fazer é diferente e em mais do que um sentido.

Quando sinto que estou a colocar limites ao outro sinto que o estou a privar da liberdade dele, quando reconheço que estou a colocar limites a mim próprio percebo que estou a usar da minha liberdade para me proteger ou defender, que é bastante diferente.
Imaginemos uma discussão exaltada e infrutífera com um familiar perante a qual digo “chega, não vou mais alimentar esta discussão hoje”; se achar que estou a colocar um limite ao outro, a minha experiência é tendencialmente bem mais negativa, e a meu ver incorreta, do que se reconhecer que não o estou a impedir a ele mas sim a colocar um limite a mim, sou eu que decido alimentar ou descontinuar a discussão naquele momento.

Apesar de eu ver benefícios no perceber que é a nós, mais do que aos outros, que colocamos, ou deveríamos colocar, limites, este reconhecimento nem sempre é suficientemente motivador; colocarmo-nos limites a nós pode ser tão ou mais difícil do que supostamente os colocarmos aos outros; isto porque temos uma certa tendência para esperar que os outros cooperem e ressentimo-nos quando nos sentimos abusados, advogando que eles deveriam ser mais maduros, mais compreensivos, mais respeitadores, enfim; e esta postura de nos colocarmos limites a nós implica assumirmos que, apesar de podermos ficar magoados ou desiludidos com as atitudes do outro, é nossa responsabilidade acima de tudo tomarmos uma atitude afirmativa e auto-protetora perante os potenciais abusos dele e mantermo-nos fiéis às nossas decisões.

Os limites mais produtivos, ainda que talvez mais difíceis, precisamente pela responsabilidade que acarretam, passam por:

  • Mantermos a consequência que estipulámos para o comportamento desadequado do outro, seja o mau comportamento de um filho, seja uma postura intrusiva ou abusiva de um amigo ou familiar;
  • “Engolirmos” a necessidade de ganhar as discussões lutando ad aeternum para que o outro compreenda o nosso ponto de vista (ele por seu lado também luta para ser entendido, e nesta luta ambos se esforçam por se fazer ouvir e nenhum realmente se disponibiliza para escutar);
  • Mantermo-nos fiéis e respeitarmos as nossas necessidades nas relações que estabelecemos, sejam elas manter uma certa distância quando o outro é demasiado intrusivo, pedirmos explicações quando o outro é pouco claro, repormos a realidade dos factos quando o outro é injusto, e até pôr um fim na interação ou na relação quando o outro repetidamente é desrespeitador, desconsiderante ou tóxico.

Tudo isto aguentando a angústia e o medo que a situação também nos causa a nós (e lá está, essencialmente medo da perda do outro ou do seu amor).

Parece difícil? Talvez porque realmente o seja, mas quando temos a coragem de nos responsabilizarmos e tomarmos as rédeas da nossa vida, colocando-nos os limites que isso implica, tendemos a acabar por nos sentir mais seguros e satisfeitos nas nossas relações, porque contribuímos para elas se tornarem menos caóticas, menos pesadas, mais saudáveis, mais seguras.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta