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DPSITALK é um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia.

Este blog pretende vir a ser um espaço aberto de reflexão e esclarecimento acerca de temas das áreas acima referidas.

Este blog pretende ser aberto ao público em geral e, tanto quanto possível, contribuir para que uma maior e melhor informação acerca destes temas.

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João Parente

TERAPEUTAS COLABORADORES DO PSITALK

Dr. João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

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Estar deprimido….. como lidar com a depressão?

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Hoje em dia, são cada vez mais os relatos de casos de depressão ou de um humor grandemente depressivo.  Contudo, é importante ter em consideração que existem diferenças entre um quadro de “Depressão” e oscilações normais de humor.

Todos nós temos dias em que nos sentimos mais animados e positivos e dias em que nos sentimos com menos energia e motivação. Estas oscilações emocionais fazem parte do próprio sistema de homeostasia emocional do nosso corpo e são perfeitamente normais. O ideal será respeitar ao máximo estas emoções, observá-las, aceitá-las e descobrir a melhor forma de lidar com estas variações de humor.

De notar que aceitar e respeitar uma emoção não significa inércia ou que nada façamos para encontrar uma forma de lidar eficazmente com esta. Por exemplo, se nos estivermos a sentir particularmente tristes ou com falta de energia podemos ser ativos na procura de uma estratégia positiva que nos permita subir um pouco a nossa energia e nos proporcione prazer. Estas alternativas dependerão de cada individuo, dos seus gostos e preferências e do seu próprio mecanismo de funcionamento individual. Para algumas pessoas, um passeio junto ao mar opera milagres, para outras poderá ser a companhia dos que lhe são queridos, uma sessão de exercício físico, ou mesmo, a combinação de várias atividades.

Quando os sintomas “depressivos” persistem durante um período de tempo contínuo e prolongado podemos então falar de um quadro depressivo, com diferentes níveis de intensidade.

A depressão diferencia-se então das normais mudanças de humor pela gravidade e permanência dos sintomas. Está associada, muitas vezes, a ansiedade e/ou pânico.

Os sintomas mais comuns são:

  • Desinteresse, apatia e tristeza;
  • Modificação do apetite (falta ou excesso de apetite);
  • Perturbações do sono (sonolência ou insónia);
  • Fadiga, cansaço e perda de energia;
  • Sentimentos de inutilidade, de falta de confiança e de autoestima, sentimentos de culpa e sentimento de incapacidade;
  • Falta ou alterações da concentração;
  • Preocupação com o sentido da vida e com a morte;
  • Alterações do desejo sexual;
  • Irritabilidade;
  • Manifestação de sintomas físicos, como dor muscular, dor abdominal, enjoo.

 

Muitas vezes o indivíduo pode evitar procurar ajuda especializada, ao sentir-se embaraçado e humilhado por não ser capaz de executar uma determinada tarefa ou atividade ou por “não ter razões para estar deprimido”.

No entanto, existem ainda casos em que a depressão é considerada como uma parte inevitável e normal da vida, sendo por isso, negligenciada.

A depressão clínica é uma condição séria e ameaçadora da vida. Quando o nosso funcionamento se deteriora e os pensamentos são cada vez mais sombrios e sobrecarregados devemos procurar ajuda adequada e iniciar o mais rapidamente possível uma abordagem psicológica/psicoterapêutica.

Durante este processo, é muito importante ter em consideração uma série de aspetos, sendo que o primeiro passo passará sempre, inevitavelmente, pela consciência e aceitação da sua situação e pelo desejo de mudança:

  • Procurar adotar uma alimentação saudável e ter um sono regular (6 a 8 horas, consoante as necessidades individuais). Se existirem insónias, ler ou dedicar-se a alguma atividade e no dia seguinte tentar acordar à hora planeada ou não muito mais tarde. Tentar não dormir durante o dia, para que o corpo sinta sono no período normal da noite.
  •  A prática regular de técnicas de respiração e meditação constitui um valioso contributo na recuperação e prevenção futura.
  • Praticar exercício físico que produz a estimulação de adrenalina (durante) e endorfinas (após), proporcionando energia e uma sensação de bem-estar.
  • Praticar atividades prazerosas e contrariar a inércia que aumenta a sensação de inutilidade e derrota. Elaborar uma pequena lista com algumas tarefas que sejam realistas e concretizáveis (ir adaptando consoante a evolução), tentar que sejam agradáveis mas se não o forem não se culpabilizar ou martirizar. Insistir e pensar em novas alternativas.
  • Procurar a companhia de amigos, sair, conversar, partilhar.
  • Identificação de pensamentos negativos e destrutivos e substituí-los por pensamentos positivos e mais adaptados.

A ajuda psicológica/psicoterapêutica poderá constituir-se como um auxiliar muito positivo de identificação de fatores disfuncionais, de criação de alternativas e estratégias adequadas para lidar e ultrapassar o quadro depressivo, e na planificação e gestão de novas rotinas e hábitos de vida.

Sofia Rodrigues – Psicóloga clínica e Psicoterapeuta

SOBRE A ANSIEDADE

ansiedade

Go to the heart of danger for there you will find safety

[Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança]

Provérbio Chinês

Proponho uma reflexão sobre o que são e de onde vêm as perturbações da ansiedade.
A ansiedade é matreira: dirige a nossa atenção para as nossas sensações corporais ou para estímulos externos percepcionados como perigosos, para esconder o significado implícito deste medo exagerado. A pessoa ansiosa como que foge de si própria, desenvolve estratégias de evitamento que se materializam nos sintomas de ansiedade e, neste esforço de evitar o contacto com as suas feridas psicológicas, vai reforçando mais e mais a sua percepção negativa de si.

Como é que se desenvolve uma perturbação da ansiedade?
Cada vez mais se reconhece que as perturbações da ansiedade têm origem em experiências de vida dolorosas: experiências traumáticas, traições por outros significativos, respostas ineficazes a acontecimentos de vida, entre outros. Estas experiências criam feridas do self, percepções negativas de si, como incapaz de lidar com os desafios da vida, e estas feridas são tão poderosas, estão tão presentes na vida das pessoas (embora de uma forma implícita, não consciente), que as tornam hipersensíveis a qualquer situação no presente que se assemelhe de alguma forma a estas memórias dolorosas, que active a ferida. No esforço de prevenir a exposição a estas feridas, desenvolvem-se estratégias de protecção desadequadas, que são os sintomas mais visíveis da ansiedade.

Como é que se quebra este ciclo de sintomatologia ansiosa?
Apesar destes comportamentos de protecção desadequados trazerem algum alívio imediato por impedirem o contacto com as feridas, tendem a agravar o sofrimento por reforçarem a perspectiva negativa de si, como incapaz, desadequado, vulnerável…
Apesar do sofrimento imediato que acarreta entrar em contacto com as nossas feridas psicológicas e com as memórias dolorosas que lhes deram origem, é este contacto, no seio de uma relação terapêutica segura e apoiante, que permitirá atender a elementos adaptativos que não foram anteriormente processados e recuperar uma imagem de si mais positiva, capaz de mobilizar recursos para lidar de forma eficaz com os desafios da vida.

Confie no provérbio chinês, é no âmago do perigo que encontrará a segurança.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

É sempre tempo de construir o caminho

caminhos

Tantas vezes fazemos planos para o novo ano, mas na realidade todos os dias são oportunidades de construirmos o nosso caminho, seja prosseguindo o que iniciámos, seja interrompendo, seja mudando o curso, ou simplesmente alterando a velocidade e/ou a direcção.

Fazer caminhadas, prática aconselhável para a nossa saúde e ao alcance de todos, é o que acontece quando numa determinada altura decidimos caminhar num determinado local, durante um determinado tempo. No entanto, duma forma ou de outra, todos nós, sem tomar expressamente a decisão de o fazer, andamos quando nos deslocamos de um lado para o outro, ainda que seja pouco, ainda que seja em locais poluídos, ainda que seja de forma pouco consciente ou escolhida, apenas porque é a forma de nos deslocarmos para fazer isto ou aquilo, mas, por vezes também, sem que daí resultem grandes benefícios para a saúde.

Vemos portanto, que podemos caminhar sem grande consciência de o fazer, ou podemos fazê-lo de um modo mais consciente e voluntário, porque gostamos, ou para nos sentirmos mais saudáveis.

Tomemos agora a nossa vida como um caminho… Como nos diz o poeta António Machado: Não há caminho, o caminho faz-se ao andar.

O caminho é o espaço que separa o nosso nascimento da nossa morte. É o tempo -duração- que medeia entre o primeiro choro e o último suspiro. Mas esse espaço/tempo somos nós que o preenchemos. Os passos serão nossos, o ritmo será nosso e as direcções escolhidas também. Então o caminho é o percurso que formos construindo entre esses dois marcos.

É certo que a liberdade nunca é total (de resto, se o fosse, impediria qualquer compromisso…), é certo também que, para além da herança genética, o ambiente sócio-económico, cultural, educacional e político do país, local, família, tempo em que nascemos, são alguns dos factores determinantes. Há sempre constrangimentos. Todos os temos, maiores ou menores, duma ou de outra ordem. Mas existe sempre, também, espaço para transformação e mudança, espaço de liberdade e crescimento, também estes, factores determinantes.

Quando sentimos esse espaço de liberdade como não suficiente, talvez seja necessário começar por alarga-lo, já que nos sufoca e nos impede de andar.

Contudo, é bom não esquecer, que muitas vezes, somos nós próprios, por variadíssimas razões, a prender-nos, a tolher a nossa própria liberdade, a impedir-nos de caminhar.

Ficamos então a funcionar num espaço/tempo entre nascimento e morte como se esse fosse o nosso próprio percurso, aquele que o destino nos concedeu, não tendo consciência que essa existência sem marca, não tem de ser a nossa vida, sendo apenas o tempo, o acaso e as circunstâncias a desenrolarem-se e a exporem-se perante nós, ficando nós como espectadores que reagem ou não, mas não agem nem sobre si nem sobre o ambiente.

Ao perdermos a oportunidade de transformar a nossa existência/duração e as suas circunstâncias na nossa própria vida, ao não agarramos nessa existência – essa massa informe – para lhe dar forma, limitamo-nos a habitar um espaço e um tempo, sem vontade nem alento, como se alguém, que não nós, pudesse indicar-nos e escolher o nosso caminho melhor do que nós mesmos.

Se qualquer de nós é único, porque haveria de ser o nosso caminho ou o ritmo a que o percorremos, igual ao de um outro?

Como poderá qualquer outro ter a ousadia de saber qual deverá ser o meu caminho?

Por vezes andamos perdidos e confusos. Se aceitarmos esse tempo como necessário e como fazendo parte do nosso caminho, um compasso de espera para tomarmos decisões, poderemos tolerar melhor esses momentos de incerteza. Tão desajustado e perigoso pode ser navegar continuamente contra a corrente, como deixar-nos constantemente ir ao seu sabor. No primeiro caso podemos consumir demasiada energia e não conseguirmos usufruir de tranquilidade, no segundo caso, podemos desaguar onde não queremos, sem nos realizamos, sem nos cumprirmos. Saber escolher alturas e tempos para optar por um ou por outro é fundamental.

Caminhar com saúde mental é construir o caminho sabendo dosear esforço e repouso, sabendo observar, escutar, sentir, reflectir, agir e reagir, sabendo planear, mas também improvisar e aceitar o imprevisto.

É fundamental ganhar consciência de que a vida não é nem uma corrida, nem um concurso de perfeição, nem uma competição. É uma construção pessoal única, irrepetível e inigualável. Sempre!

Esse processo de criação do nosso próprio caminho está cheia de aprendizagens, em que os “erros” fazem parte. Medo de errar é medo de viver, é receio de caminhar e, no entanto, a morte não chegará mais tarde por isso, apenas surgirá com um sabor mais amargo, o sabor do vazio de não se ter construído um caminho.

Caminhar é uma descoberta, do próprio, dos outros e da vida, porque, se “não há caminho”, então ele não é mais do que o nosso próprio desenvolvimento e construção, às vezes por tentativa e erro, em que não deve haver receio de retroceder, de cair, de sair magoado, de fazer um desvio, de parar… Enfim, de fazer desse caminhar uma aventura, nuns dias mais ousada, noutros mais previsível e calma, numas alturas com acontecimentos que nos transcendem, noutras, colhendo os frutos do que fomos semeando (conscientemente ou não…), por vezes sozinhos, outras acompanhado, numa viagem que se deseja plena de autorrealização.

Quanto mais realizados nos sentirmos neste caminhar, melhor será a nossa saúde e bem-estar, melhor estaremos connosco e com os outros, mais preparadas estaremos para o final do caminho.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

“Christmas Blues” A tristeza que vem com o frio

Christmas blues

Alguns estudos referem que cerca de 20 a 30 % da população ocidental sofre de depressão de natal ou “Christmas Blues”, sentindo nesta altura de festas alguma angústia, desamparo e ansiedade que se assemelham a um quadro depressivo. 

As razões podem ser várias e diversas, desde uma maior pressão para o consumo, ao reavivar de saudades de entes queridos já falecidos, ou mesmo solidão.

De facto, nesta época, as famílias são tremendamente pressionadas para maiores gastos financeiros em prendas e na preparação de festas que em qualquer outra época do ano.

As “exigências” interiorizadas pelas pessoas e que advêm da pressão do marketing mediático obrigam-nas a um périplo por várias e diferentes lojas na busca da prenda ideal para cada familiar ou amigo, para o filho deste e para a sobrinha daquele. Fazem-se listas compras e calculam-se orçamentos, planeiam-se dias com roteiros para determinadas compras e reservam-se outros para tantas outras. O suposto espírito altruísta do Natal transforma-se numa azáfama stressante e cansativa para cumprir um determinado roteiro de compras intermináveis em lojas apinhadas de gente igualmente impaciente que a noite de Natal chegue, as lojas fechem e as compras acabem.

Em momentos de lucidez acabamos por parar e perceber que o espirito do Natal foi subvertido, que o propósito do Natal não é esta vertigem consumista, e a consciência disto pode trazer-nos sentimentos de tristeza e culpa imediatamente após uma corrida desenfreada, esgotante e cheia de boas intenções às últimas compras.

Por outro lado, a época de Natal é tipificada como a festa em que a família se reúne, se revê e confraterniza, mas se você tiver perdido um ente querido há pouco tempo, é natural que esta época reavive os seus sentimentos de luto e de saudade e que, dependendo do caso, podem ser avassaladores.

Devemos ainda recordar-nos que, num mundo que se “globalizou”, não é raro que hajam familiares emigrados em países longínquos e que não podem estar presentes, e essa ausência pode ser antecipada e sentida com tristeza e saudade.

Sabemos também que uma parte significativa da população idosa vive sozinha, muitas vezes sem grande apoio familiar e em situações de desamparo em que os sentimentos de solidão física e afectiva que se tornam mais evidentes nesta época festiva em que seria suposto sentirem-se mais amados e apoiados.

Frequentemente, os sentimentos de tristeza, culpa e ansiedade que são sentidos nesta época têm a ver com um desfasamento entre as expectativas que interiorizámos do que deveria ser o Natal – enquanto festa religiosa e de comunhão de afectos – e aquilo que muitas vezes acabamos por vivenciar.

De facto, ninguém deseja que o Natal se transforme em dias de stress financeiro e fúria consumista, ninguém espera que uma época universalmente festiva traga um reviver da mágoa dos lutos mais difíceis ou uma consciência ainda mais aguda duma situação de solidão e de desamparo.

As expectativas depositadas são frequentemente melhores do que muitas vezes a vida nos traz e este desfasamento pode trazer sentimentos legítimos de dor e frustração.

 

Os dados do National Institute of Health, nos Estados Unidos da América, apontam o Natal como o período do ano no qual há uma incidência maior de depressão.

Mas, de facto, não é claro para todos os investigadores que exista um aumento da incidência de Depressão no Natal ou se este aumento da incidência resulta de um certo número de factores que nem sempre são levados em conta.

Além da maior frequência de episódios depressivos no contexto da Doença Afectiva Sazonal (*), é nos meses de inverno que ocorrem mais intercorrências infecciosas, o que condiciona com uma maior morbilidade e mortalidade em pessoas idosas com outras patologias orgânicas associadas, nomeadamente diabetes e/ou doenças cardiovasculares.

Estes episódios de agravamento clínico podem despoletar quadros depressivos ou agravar depressões pré-existentes.

Por outro lado, sabe-se que a incidência de suicídio diminui nos meses de inverno e aumenta com a chegada da primavera.

Os dados que existem sobre o “Christmas blues”, essa tristeza sazonal por altura do Natal, são vagos e pouco precisos, sobretudo porque não está propriamente catalogado como uma patologia mental.

Mas esta tristeza de Natal, apesar de ter sintomas sobreponíveis aos de uma depressão, não significa necessariamente que se trate de um quadro depressivo.

O “Christmas blues” é habitualmente passageiro e não tende a evoluir para um quadro clínico de depressão.

         Passada a época festiva e com o retomar das rotinas habituais do dia-a-dia, estes sentimentos de tristeza tendem a desvanecer-se e a remitir naturalmente.

No entanto, o “Christmas Blues” pode mimetizar uma depressão suave, além de que ocorre na mesma época da Doença Afectiva Sazonal. (*)

No “Christmas Blues”, tipicamente, os sintomas de tristeza e ansiedade não se intensificam ou agravam, e não se prolongam no tempo.

Assim, se a tristeza e a ansiedade se intensificarem ou se prolongarem no tempo deverá consultar o seu médico de família e expor a situação. De facto, pode então tratar-se dum episódio de Doença Afectiva Sazonal ou pode a época natalícia ter contribuído como factor desencadeante, entre outros acontecimentos de vida, para o despoletar de um quadro depressivo que pode merecer cuidados médicos e/ou um acompanhamento psicoterapêutico adequado.

 

(*) Doença Afectiva Sazonal – Tipo de Depressão na qual os episódios depressivos recorrem anualmente, geralmente durante os meses de inverno, e em cujo tratamento está a indicada a Fototerapia.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Mitos e crenças.

PSITALK

Parte IV 

(Última parte)

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Mitos e Crenças

Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma divulgação mais ampla acerca das doenças psiquiátricas, e isto é também válido para a Doença Bipolar. Há algumas perguntas, quase invariáveis, que as pessoas me fazem quando as informo, depois de uma avaliação, que têm uma doença bipolar: “Será que sou louco? É uma doença incurável? Vou ter que tomar medicamentos para o resto da minha vida?”

A loucura é um termo sem correspondência no mundo da ciência. Assim, você é tão louco como os inúmeros talentos que tanto nos deram nas mais variadas áreas criativas do ser humano, como p. ex., Florbela Espanca, Mark Twain, Virginia Woolf, Van Gogh, Peter Gabriel, Winston Churchill, Theodore Roosevelt, Kay Redfield Jamison. Todos estes tinham Doença Bipolar, entre dezenas de muitos mais que não é possível aqui citar.

É também importante realçar que a esmagadora maioria das doenças humanas…

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Doença Bipolar: a doença dos humores – Mitos e crenças.

Parte IV 

(Última parte)

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Mitos e Crenças

Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma divulgação mais ampla acerca das doenças psiquiátricas, e isto é também válido para a Doença Bipolar. Há algumas perguntas, quase invariáveis, que as pessoas me fazem quando as informo, depois de uma avaliação, que têm uma doença bipolar: “Será que sou louco? É uma doença incurável? Vou ter que tomar medicamentos para o resto da minha vida?”

A loucura é um termo sem correspondência no mundo da ciência. Assim, você é tão louco como os inúmeros talentos que tanto nos deram nas mais variadas áreas criativas do ser humano, como p. ex., Florbela Espanca, Mark Twain, Virginia Woolf, Van Gogh, Peter Gabriel, Winston Churchill, Theodore Roosevelt, Kay Redfield Jamison. Todos estes tinham Doença Bipolar, entre dezenas de muitos mais que não é possível aqui citar.

É também importante realçar que a esmagadora maioria das doenças humanas é crónica e incurável, desde as alergias, à asma, diabetes, hipertensão, Lúpus, miopia e até mesmo algumas infecções. As doenças plenamente curáveis são infelizmente muito raras. Assim, há que aprender a conviver com a doença com o menor número possível de limitações. Para além disso, se é verdade que pode ser necessário fazer medicação por tempo indeterminado, isso não acontece apenas com a Doença Bipolar, mas com a grande maioria das doenças crónicas do ser humano.

Há que ponderar o custo-benefício de qualquer tratamento. Deve esperar uns meses após ter estabilizado e perguntar-se: A minha qualidade de vida melhorou? Estou melhor agora que antes do tratamento?

Deve conferenciar abertamente com o seu médico acerca dos seus medos, dos seus receios, das suas dúvidas, do que lê na internet e do que ouviu dizer acerca da doença.

Por outro lado, muitas pessoas vêm à consulta com o receio infundado de terem a Doença Bipolar : “Eu tenho muitas variações do humor, às vezes no próprio dia! Será que sou doente bipolar?” Ao que respondo: “Ainda bem que tem essas variações de humor. Significa que você tem sensibilidade e vibra com o mundo em seu redor.”

De facto, a doença bipolar requer que haja um padrão de depressão que se repete no tempo (depressão recorrente) em que a pessoa fica comprometida no seu bem-estar e na sua capacidade para desempenhar adequadamente o seu papel profissional e familiar. Flutuações de humor são inerentes à condição humana. Já depressões repetidas merecem uma outra atenção.

Há também o mito de que para se ter uma Doença Bipolar, não basta ter depressão – é preciso ter fases de euforia. Mas isso não é, de todo, verdade. Numa grande percentagem das doenças bipolares não existem sintomas de mania ou de hipomania, ou seja, não existem fases de elevação do humor ou de euforia.

São frequentes os casos de pacientes que chegam à consulta já com vários anos de doença, frequentemente com depressões com episódios mistos, ou seja, quadros de depressão com tristeza, ansiedade muito intensa, grande irritabilidade, comportamentos de explosividade, muitas vezes com crises de raiva que lhes parece injustificada e insónias repetidas, que passaram por diversos médicos e a quem foram receitados sistematicamente antidepressivos, os quais estão, nestes casos, contra-indicados, já que podem agravar a ansiedade, a irritabilidade, a explosividade e a insónia.

Os antidepressivos, regra geral, não se devem usar na Doença Bipolar. Se a um paciente bipolar, com uma crise depressiva, for dado um antidepressivo, pode acontecer, entre outras coisas: Ineficácia – o paciente não melhora ou pode melhorar nos primeiros meses mas logo de seguida voltar ao estado depressivo em que estava, mesmo sem ter deixado de tomar o antidepressivo; Agravamento – o paciente pode ficar mais ansioso, deixar de dormir, ficar muito irritado; Viragem – o paciente pode passar duma fase depressiva para uma fase maníaca.

Há uma percentagem muito pequena de pacientes com Doença Bipolar que melhoram com antidepressivos, mas estes só devem ser dados se o paciente já estiver previamente medicado com um estabilizador de humor.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Quais os tratamentos disponíveis? É possível prever as crises?

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Parte III

Quais os tratamentos disponíveis ?

 

O tratamento da Doença Bipolar é essencialmente farmacológico e estão indicados, como tratamento de eleição, os estabilizadores do humor.

No tratamento de fase aguda são usados medicamentos que podem, no curto prazo, aliviar os sintomas, tanto do pólo maníaco como do pólo depressivo.

Na fase aguda podem usar-se medicamentos chamados de antipsicóticos. Estes medicamentos são também anti-maníacos, isto é, são medicamentos que combatem sintomas psicóticos quando estes existem, mas também reduzem sintomas do pólo maníaco, ou seja, melhoram rapidamente os estados de euforia, ansiedade, irritabilidade e insónia.

Existem também medicamentos que podem combater os sintomas depressivos, os quais, curiosamente, nem sempre respondem à medicação antidepressiva clássica. É mandatória a introdução de estabilizadores de humor em qualquer tipo e fase de Doença Bipolar que, embora menos eficazes na fase aguda serão de importância primordial na fase de manutenção, em que se pretende evitar, tanto quanto possível, o fenómeno da recorrência, ou seja, as recaídas.

Por vezes existem formas de Doença Bipolar muito graves, que não melhoram com os medicamentos e que, em casos muito seleccionados podem melhorar muito com a terapia por estimulação eléctrica do cérebro, conhecida por Electroconvulsivoterapia. Há inúmeros mitos e preconceitos acerca deste tratamento, como sendo muito violento e até desumano! Trata-se de facto de um tratamento muito seguro, feito com anestesia geral, que tem menos efeitos secundários que o tratamento com medicamentos, e que se pode traduzir numa grande melhoria clínica de pacientes que, de outra forma, não teriam qualquer tratamento eficaz disponível.

Por outro lado, além dos tratamentos médicos acima descritos, pode ser extremamente útil um tratamento psicológico ou Psicoterapia, a qual pode abordar diferentes problemas. Pode ser útil para ajudar a pessoa a quem foi diagnosticada Doença Bipolar a reorganizar a sua vida, a adaptar-se à sua doença e a reconstruir uma vida funcional e produtiva. Por outro lado, muitos pacientes mantêm sintomas depressivos, mais suaves, apesar do tratamento médico adequado, e a Psicoterapia pode ser muito benéfica nestes casos. Pode ainda ajudar os pacientes a desenvolver formas eficazes de gerir o stress e resolver problemas stressantes.

De salientar também a importância de implementar uma estratégia educacional, em que se promove a adesão do paciente ao tratamento médico e se ajuda o paciente a identificar precocemente os sinais de recaída.

É possível prever as crises?

Não é possível prever uma crise de Doença Bipolar. No entanto, sabe-se que existem factores que podem desencadear um episódio de Doença Bipolar, sendo assim possível diminuir o risco duma recaída, com base no conhecimento desses mesmos factores precipitantes. Sabe-se que o abuso de álcool e de certas substâncias ilícitas (vulgo, drogas) pode desencadear quer uma crise depressiva, quer uma crise maníaca. Também acontecimentos de vida stressantes (perda do emprego, luto na família) podem desencadear recaídas depressivas.

Por outro lado, a supressão do sono (voo de longo curso em que não foi possível dormir) e/ou alterações drásticas do ritmo de sono-vigilia podem precipitar episódios maníacos.

Há ainda factores orgânicos que podem favorecer a ocorrência dum episódio maníaco (hipertiroidismo, níveis de ácido úrico aumentados no sangue, traumatismo craniano, deficiência em Vitamina B 12, entre outros). Certos medicamentos ou substâncias podem também desencadear crises depressivas (medicamentos para a hipertensão, para o colesterol, alguns antibióticos, p. ex.) ou episódios maníacos (cafeína, cocaína, estimulantes, álcool, antidepressivos, broncodilatadores, entre outros).

Por fim, um dos desencadeantes mais frequentes de recaídas da Doença Bipolar é o não cumprimento rigoroso da medicação prescrita pelo médico psiquiatra.

Com base no conhecimento destes factores, é possível elaborar um plano de vida mais saudável que permita evitar ou prevenir a ocorrência e/ou influência destes desencadeantes, sendo que a Psicoterapia pode ajudar a pessoa a desenvolver estratégias de redução do stress e aptidões para a solução de problemas stressantes.

No entanto, não sendo possível antecipar ou prever uma crise de Doença Bipolar pode, no entanto, estar-se atento aos primeiros sinais de uma crise: por exemplo, a perda de sono é um dos mais importantes sinais de recaída de Doença Bipolar, tanto num episódio maníaco como num episódio misto, bem como o aparecimento de grande irritabilidade.

Por outro lado, a sensação interna de “aceleração”, de ter os pensamentos a “mil à hora”, o discurso mais acelerado, a menor capacidade de concentração, o iniciar várias tarefas que ficam por terminar, podem também ser sinais precoces de descompensação. Nestes casos, antecipe imediatamente a consulta com o seu médico. Um ajuste na sua medicação pode “abortar” uma crise ou atenuar a sua intensidade.

Se for familiar do paciente, o que pode fazer?

Deve encorajá-lo a recorrer ao médico logo que possível. Por vezes, quer as recaídas depressivas, quer as recaídas maníacas, podem apresentar sintomas que sugerem um corte com a realidade. Frequentemente, os pacientes com sintomas psicóticos perdem a capacidade para compreenderem que estão doentes e podem até recusar assistência médica.

Nestes casos, os familiares devem contactar o médico psiquiatra assistente ou, caso o paciente não tenha já seguimento médico, poderão recorrer ao Serviço de Urgência do hospital da sua residência e pedir para falar com o médico psiquiatra de serviço, que os aconselhará sobre os passos a tomar para conseguir que o paciente receba assistência.

Nos casos mais graves, em que haja uma situação de risco grave para o paciente ou para terceiros, ou recusa em aceitar tratamento médico, pode ser necessário um internamento compulsivo. Nestes casos, pode promover-se o internamento do paciente contra sua vontade, quando este recusa terminantemente qualquer assistência médica.

A família do paciente deve ser incluída neste trabalho de informação e esclarecimento, na medida em que vão ser as primeiras pessoas a poder ajudá-lo quando tiver uma recaída.

Se você tiver um familiar com Doença Bipolar e não souber como ajudar, acompanhe o paciente a uma consulta e, com o consentimento do paciente, coloque as suas questões ao médico.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta