A “Cinderela” improvável…

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Alexandre, engenheiro de electrónica e telecomunicações, um jovem de 32 anos, profissionalmente bem sucedido, inteligente, articulado, dizia-me:

            – É isto que eu não entendo em mim, compreende? Posso achar uma mulher muito interessante, começo a sair com ela, de início corre tudo muito bem e depois lá dou por mim a pensar que seria melhor se ela ganhasse tão bem como eu, senão depois vamos ter chatices porque vai haver esta diferença de ordenados o que vai gerar problemas porque, bem ou mal, quem ficar a ganhar menos vai sentir-se menos bem que aquele que ficar a ganhar melhor, mas depois, no meio destes raciocínios, percebo que não faz sentido nenhum e que é ridículo pensar assim!

            – O que você procura é uma companheira…

            – Sim, exatamente! Mas se não for isto é outra coisa qualquer! No outro dia, quando estava com a Vera comecei a pensar na impressão que ela causaria nos meus amigos e nas mulheres deles. E se eles não gostarem dela? Que figura vou eu fazer? A Vera nem sequer licenciada…

            – E as mulheres dos seus amigos são todas licenciadas?

            – É aqui que se torna outra vez ridículo: De todos os meus amigos mais próximos só um é licenciado e só a mulher dum outro é que é também licenciada! Mas, mais uma vez, nada disto é realmente importante!

            – Alguma importância há-de ter ou estes pensamentos não lhe ocorriam sequer…

            – Mas também não quero uma “tótó” do meu lado, quero uma mulher que saiba falar, que seja divertida, que saiba comunicar…

            – Então, e resumindo, ela tem que ganhar mais ou menos o mesmo, tem que ser licenciada e extrovertida?

            – Já viu o ridículo destes pensamentos?

            – São filtros que você impõe a si próprio – acrescentei.

            – Mas com tantos filtros, uns atrás dos outros, nunca vou encontrar quem quer que seja!

            – Já pensou que pode bem ser essa a função desses filtros todos?

            Alexandre apenas sentia que existia conquanto os outros lhe confirmassem a sua existência, sentia-se aceite na mesma medida da aprovação externa e conduzia a sua vida, bem como a sua auto-estima, na dependência da evidência de ser ou não validado por terceiros.

            Desta forma, atormentava-o a ideia de ficar só porque a solidão significava a vivência de um arrebatador vazio existencial onde Alexandre não conseguia ver-se nem sentir-se, existir ou ser.

            Não compreendia, Alexandre, que não eram os outros que não o viam, que não o aprovavam ou não o aceitavam, mas antes que era ele que não se via a si próprio, não se aprovava ou aceitava senão na lógica, não do que os outros pudessem pensar dele, mas antes do que ele supunha e conjecturava fosse aceitável e aprovável aos olhos dos outros.

            Alexandre vivia cego para si próprio no pressuposto de que só existia se outros reconhecessem essa mesma existência.

            Assim, havia que fugir a todo o custo da experiência de quase morte que representava a solidão.

            Era urgente encontrar uma companheira que o resgatasse desta solidão, que o resgatasse da sua cegueira – e era aí que tudo se tornava mais difícil.

            Alexandre alicerçava a sua incapacidade para um relacionamento mais profundo numa miríade de requisitos que as candidatas deveriam ter.

            Frequentemente iniciava um relacionamento que estaria condenado a acabar pouco tempo depois por um qualquer motivo menos óbvio.

            E assim, convencido de que mais valia esperar pela “mulher certa”, repetia-se a história do príncipe à procura da sua improvável Cinderela.

            E enquanto esperava, abatia-se sobre ele o tão intolerável quanto familiar sentimento ensurdecedor de solidão e abandono: “Com a minha idade, a maioria dos meus amigos já estão todos casados!”

            Enquanto o príncipe se entretinha a comparar as “cinderelas” dos seus pares às suas candidatas, enquanto cedia aos motivos mais tortuosos para as excluir do seu universo afectivo, não tinha que se encarar a ele mesmo, ao seu sentimento de profunda inadequação e incompetência afectiva – o pavor da intimidade não era senão o pavor que alguém descobrisse a sua humanidade e falibilidade por detrás de todas as suas irrazoáveis exigências de perfeição – e descobrindo-o, o devolvesse a ele próprio, falho, imperfeito, humano, mas porventura amado.

(NOTA – O nomes, a idade do paciente e a sua profissão são fictícios.)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Dificuldades na intervenção na Depressão

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Portugal é o país europeu e o segundo do mundo com maior taxa de depressão na ordem dos 25%, pelo que, apesar das variáveis com melhor predição no sucesso terapêutico serem as carcterísticas do próprio paciente e a relação terapêutica em vez do correcto dignóstico de Eixo I, é urgente compreendê-la e antecipar dificuldades específicas.

Na maior parte das vezes, a depressão tem na sua base uma vivência de abandono ou perda, que face a um deteminado acontecimento de vida, activa crenças de incapacidade, falha, culpabilidade invadindo o funcionamento relacional, profississional e social de quem a sofre e aniquilando uma vivência tranquila do aqui e agora. Parafraseando o Professor Coimbra de Matos “nada ou pouco interessa no presente real e pouco ou nada é imaginado como bom ou apetecível no amanhã”.

A lentificação e a falta de prazer poderão constituir dificuldades ao terapeuta, nomeadamente, impaciência face à sua genuína vontade de ajudar o paciente. É também necessário que o clínico se sinta confortável para lidar com a temática da morte, tantas vezes presente, quer em pensamentos quer em acção, na depressão. Face à tristeza, é natural sentir compaixão, e por vezes,  um impulso de tirar a pessoa do seu “buraco negro”, que deveremos refrear. A validação e a empatia assumem aqui um papel fundamental. Deveremos “ver” a sua história na sua prespectiva, sem julgamento, reconhecendo o seu sofrimento, e mostrando que estaremos ao lado dele, sem pressa. Só assim, este poderá reescrevê-la, aceitá-la e, mais tarde, implementar as mudanças necessárias para recuperar o contacto consigo e com o mundo. Qualquer ganho, por mais pequeno que seja, como por exemplo, ficar na cama 14 horas e 45 minutos por dia em vez das15 horas habituaus deverá ser reforçado.

Assim, deveremos ser responsivos na nossa intervenção, ou seja, o processo terapêutico deverá ser como uma dança, cujo ritmo é dado pelo paciente, com o objectivo comum de melhoria do seu bem-estar.

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga