Psicólogo – bruxo ou vidente?

Pscólogo-bruxo ou vidente?

Não é raro, o psicólogo ser visto como um bruxo ou um vidente. No fim de contas, o psicólogo estuda os comportamentos das pessoas e mais facilmente pode prever de forma mais segura as consequências desses comportamentos em geral. No entanto, este conhecimento não quer dizer que seja um adivinho.
A psicologia faz parte do domínio da ciência humana desde século XIX. Como o nome indica, refere-se a ciência porque o conhecimento é adquirido através de estudos e de pesquisas que utilizam uma metodologia científica.
Deste modo, o psicólogo é formado para extrair da investigação, conclusões que orientam a sua prática profissional usando os melhores dados disponíveis. A isto chama-se: prática baseada em evidências.
O psicólogo estuda a forma de pensar, de sentir e de se comportar de um ponto vista científico e aplica estes conhecimentos para ajudar as pessoas a compreender, integrar, e modificar o seu comportamento.
Este conhecimento ajuda a antever as consequências dos comportamentos, mas não prevê o que quer que seja. Portanto, não se passa nada que possa ser visto como bruxaria ou com a utilização de uma bola de cristal que advinha o futuro e os factos escondidos do presente.

Afinal o que se passa numa sessão com um psicólogo, não sendo ele/ela um Adivinho?

Uma sessão de psicoterapia é um espaço privado e confidencial. Existem vários princípios específicos definidos pelo Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que dizem respeito à privacidade, confidencialidade, limites, utilização de registos, etc, que os psicólogos estão obrigados a seguir e partilhar com o paciente.
Neste espaço procura-se desenvolver um bom estabelecimento de relação entre o psicólogo e o cliente. Assim, a pessoa sentir-se-á suficientemente à vontade para exprimir o que mais a perturba e o que mais a faz ter uma vida, que até pode estar a ser disfuncional.
É também muito comum considerar a pessoa que vai ao psicólogo como uma pessoa maluca ou não normal.
”Maluco”- é definida pelo dicionário da Língua portuguesa (Porto Editora, 1998) como: ”um homem destituído de juízo, doido, idiota”. Ora, será que quem o é sempre, recorre ao psicólogo? Sabemos que quase nunca, ou apenas compulsivamente. E quem não o é, será que nunca sentiu um pouquito de tudo isso às vezes? Quem é sempre e totalmente normal? O que é ser uma pessoa normal?
Normal é ser conforme à norma ou à regra. Alguém estar normal significa essencialmente estar na média. Logo, torna-se relativo porque alguém pode considerar normal algo que para outro é visto como completamente não normal.
Os investigadores, Daniel Offer e Melvin Sabshin, definiram quatro tipos de normalidade: saúde, utopia, média e processo.
A normalidade na saúde é, para certos investigadores, definida como: A não existência ou presença manifesta de patologia. Ficando assim dividida a normalidade versus a patologia. Esta abordagem conceptual possui vantagens porque a doença é mais fácil de medir do que os estados positivos de saúde.
A normalidade como utopia refere-se ao critério de sucesso de um tratamento, esta aproximação é polémica entre as diferentes linhas terapêuticas.
A perspectiva da normalidade como média baseia-se no princípio matemático da curva em forma de sino, aplicado nos estudos do comportamento, tanto para a psicologia como para a física e a sociologia.
A visão da normalidade como processo corresponde à evolução temporal da pessoa, tendo em conta a sua maturidade ou etapas de vida, quase como se a patologia fizesse parte do quotidiano.
Estes tipos diferentes de normalidade apontam para quanto é difícil definir o conceito de normalidade.

Comemorou-se no dia 10 de Outubro, o dia mundial da Saúde Mental. Neste ano de 2015, a Ordem dos Psicólogos Portuguesa apontou para a questão da discriminação e estigma social ainda existentes que afecta 75% das pessoas com problemas de Saúde psicológica. Alertou ainda a respeito do auto-estigma que atinge quase todos estes indivíduos. O auto-estigma é o processo que a própria pessoa desenvolve nestas circunstâncias, sentindo vergonha, evitando outras pessoas, perdendo a credibilidade nas suas capacidades, sobretudo quando acreditam nos comentários desqualificadores dos outros
O lema da Ordem foi o seguinte:
«Os problemas de Saúde Psicológica não definem quem somos ou o que podemos fazer. Não são a nossa vida. Não são a nossa história. Apenas parte dela. Como outros problemas, têm solução. Não tenha medo de falar. Procure ajuda. Um Psicólogo pode ajudar».
Quem toma a decisão de fazer uma psicoterapia não é disfuncional nem marginalizada pela sociedade. A pessoa, por vezes, poderá ter apenas um problema existencial, e a psicoterapia vai ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida. Contudo, a opção por este processo, leva necessariamente a um maior desenvolvimento pessoal.
A maioria das pessoas, que inicia uma psicoterapia, acredita que é da responsabilidade do psicólogo resolver as suas dificuldades, quase como se fosse magia. Ora, a função do psicólogo é a de ajudar a pessoa a encontrar a sua própria solução e caminho.
Aquele que toma a decisão de trabalhar sobre si-mesmo, é aquele que procura interrogar-se sobre a forma como viver melhor a sua vida. A partir desse momento, irá estar mais atento a si, e a como os acontecimentos que o rodeiam, o afectam ou não.

Segundo o padre jesuíta psicólogo e psicoterapeuta, Anthony de Mello, existe um caminho para sair do sofrimento que é do desapego pela consciencialização do discernimento. Sair deste sofrimento é descobrir o que o provoca, ou seja, é o tomar consciência dos apegos. No seu livro “Awareness” (consciência) de 1990 escreve que se a pessoa estiver pronta a escutar, e a pôr-se em questão, observando-se, será esse então o caminho do despertar.
Sendo um acto essencialmente espiritual aplica-se também à psicologia pela tomada de consciência. O desapego, não significa apatia nem frieza para com as coisas, mas apenas algum distanciamento para permitir uma tomada de consciência activa que emana uma força para a acção. O discernimento é o acordar do coração, acto de ver, compreender e experienciar.
Bom Desenvolvimento Pessoal.

Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta e professora de Yoga

Expressão de emoções e necessidades em casal

casais
Amamo-nos muito mas não funciona, não nos conseguimos entender!”

As relações íntimas de casal são uma área particularmente importante das nossas vidas, mas apesar de as desejarmos muito e de tendermos a sentir-nos incompletos, não totalmente realizados, sem elas, a realidade é que gerir a relação não é fácil e mesmo havendo amor, nem sempre a relação flui, às vezes parece não funcionar.

O que é que acontece? Apesar de numa relação termos à partida um objectivo comum, alimentar a relação, mantê-la viva e saudável, não deixa de ser verdade que temos duas pessoas na equação, muitas vezes com registos de funcionamento diferentes, cujo contraste pode criar choque e este choque prolongado no tempo cria padrões de interacção desadequados com uma escalada de frustração, agressividade e/ou afastamento.

Quando dentro destes ciclos desadequados de interacção, as dificuldades são duas:

  • Primeiro é muitas vezes difícil para cada elemento do casal aceder ao que está a sentir, começa-se a funcionar em modo automático, em que atacamos o outro e nos defendemos dos ataques do outro, sem conseguir parar para pensar o que é que está a acontecer comigo, dentro de mim, o que é que eu estou a sentir que faz com que eu aja desta forma agressiva ou, pelo contrário, demasiado distanciada?
  • Segundo é muito difícil partilhar de forma adequada o que se está a sentir e o que precisaríamos do outro, da relação, e tendemos a ser críticos e culpabilizantes do outro, apontar-lhe o dedo, crê-lo intencionalmente agressivo ou negligente, mais do que verdadeiramente expressarmos as nossas vulnerabilidades, as nossas angústias, as nossas emoções, as nossas necessidades.

No sentido de tentar quebrar estes ciclos e de tanto aceder como expressar emoções e necessidades em casal, sugiro o seguinte exercício[1]:
Numa folha de papel desenhe uma tabela como a seguinte:

E comece a preencher.
Como? Deixo um exemplo: Quando tu chegas tarde (situação), eu sinto-me zangada (reacção emocional) e reajo criticando-te (reacção comportamental). Isto esconde a minhaansiedade e sentimento de rejeição (emoção de base). O que eu preciso realmente é sentir que sou importante para ti (necessidade geral), e portanto preciso quetu me ligues a avisar que vais chegar mais tarde (necessidade específica).

Desta forma, a nossa activação emocional tende a baixar e a receptividade do outro à nossa necessidade tende a aumentar. É como se encontrássemos aqui um ponto de equilíbrio em que conseguimos comunicar um com outro, cria-se um espaço para ouvir e ser ouvido.

[1] do livro Emotion-focused couples therapy: The dynamics of emotion, love, and power de Greenberg e Goldman (2008)