Sobre o Ciúme

“ – Senhor, cuidado com o Ciúme. É um monstro de olhos verdes, que escarnece da carne de que se alimenta.”

William Shakespeare (in Othello, 3º acto; Iago dirigindo-se a Otelo)

 

Quando falamos de ciúme, ocorre-nos provavelmente, em primeiro lugar, a sua expressão nas relações amorosas, mas podemos encontra-lo em relações fraternais face ao amor/atenção dos pais/cuidadores, entre amigos face a um outro amigo, tido, por qualquer razão, como especial, ou entre colegas em relação a professores, chefias, etc.

Descartes, distinguia entre “ciúme bom” -cuidador, protector- e “ciúme mau” – amor errado, má opinião de si ou do outro-.

Permito-me agarrar naquilo a que Descartes chama “ciúme bom”, e considera-lo uma parte do amor que cuida e protege o ser amado não desejando perdê-lo. Essa parte é de facto amor, quando adaptada à situação e à idade (não se protege e cuida da mesma forma um bebé, uma criança, um adolescente ou um adulto, nem se cuida ou protege nenhum deles sempre da mesma forma), porém, quando se protege e cuida duma forma desadequada, (uma forma que não tem a ver com as necessidades do outro, mas com as do próprio) aí encontramos o “não amar da maneira certa”. O sentimento de posse e o medo de perda tornam-se superiores ao gesto de cuidar e proteger restringindo as necessidades e vontade do outro.

Olhemos para o ciúme como uma reacção complexa a uma ameaça (real ou imaginada) a uma relação de apego diádica que se valoriza. A ameaça é vista como algo ou alguém (rival) que interfere nessa relação.

A reacção que o ciúme gera, envolve emoções complexas, de frustração (um misto de tristeza, zanga e medo) que pode levar à angústia, à raiva e à vergonha por se antever ou imaginar que se perde a “relação de primazia” com o ser (objectificado, porque não livre) que se deseja seu.

Percebemos assim que o ciúme se relaciona sobretudo com o sentimento de posse de alguém de quem o ciumento necessita para ser preferido, para ser amado (já que o próprio não consegue fazê-lo), e não com o amor ao outro ou do outro enquanto livre escolha (já que o próprio receia que ele/ela não o faça, se não for preso/controlado).

“Má opinião de si” dizia Descartes, (Freud falava de “ferida narcísica”), pensemos em termos de um processo de vinculação parental que não foi suficientemente segura durante a infância e que conduziu a uma baixa autoestima, contribuindo para as dificuldades ao nível da maturação emocional e da concepção de si como ser autónomo e “amável” (passível de ser amado). Podemos imaginar que quanto menos segura foi essa vinculação, mais o ciúme pode ter tendência a ser patológico, procurando obcessivamente certificar-se de um apego que paranoicamente vigia, podendo, com isso, acabar por destrui-lo, reconfirmando então os sentimentos de impossibilidade de ser amado e perpetuando o ciclo.

Retomando a citação de Shakespeare, diria que todos nós podemos conviver facilmente com um sorriso de olhos verdes que nos pisca o olho, de vez em quando, de dentro do nosso bolso, alertando-nos para a nossa vulnerabilidade, receios, desejos, ilusões e mágoas, a que talvez devêssemos prestar mais atenção para melhor nos conhecermos. O problema agrava-se quando o sorriso se fecha, nos escapa do bolso e começa a degradar a nossa relação. E pior será, quando o monstro, que se alimenta de quem o alimenta, crescer e atingir proporções que poderão ter terríveis consequências. (Otelo mata a sua mulher, Desdémona)

Quando o ciúme se torna monstro chamamos-lhe patológico, há desconfiança constante, agressão verbal e compulsão a verificar as acções do/a parceiro/a (escutar conversas, ver mensagens e e-mails, ou mesmo segui-lo/la). Curiosamente, estas tentativas de aliviar o desconforto, não só não resultam porque não são duráveis, como têm tendência a agravar-se podendo desembocar em situações de delírio, em que a interpretação da realidade é feita através dos receios do próprio e de imagens, que fantasia e projecta, antecipando-as ou vivendo-as como reais. Estas interpretações delirantes podem levar a conclusões erradas e a acções desastrosas, uma vez que as crenças sobre o que se está a passar não são permeáveis à testagem da realidade. Estes casos, para além de intervenção psicoterapêutica, necessitam de intervenção psiquiátrica, em muitas situações com caracter urgente.

Não nos iludamos; jamais o ciúme poderá ser prova ou resultado de muito amar. É sim, o medo desesperante de abandono, de vazio, de impossibilidade de ser, perante a perda da posse, da exclusividade ou da primazia de quem queremos que nos ame, porque nós não aprendemos a fazê-lo e não acreditamos que alguém o possa fazer, se não estiver sob a nossa vigilância e controlo. Assim… seremos também incapazes de saber amar um outro ser livre. A Corrosão seguirá o seu ciclo, como diz o poeta, “escarnecendo da carne de que se alimenta”

 Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL NO CASAL

Uma grande percentagem de mulheres (na realidade a sua grande maioria) sofre de tensão pré-menstrual (TPM) e todos os meses trava uma dura batalha com o seu corpo e sistema emocional. E infelizmente, na sua generalidade, parece que esta altura do mês se reveste de uma energia tão própria que apenas nos podemos render a expressões como “à beira de um verdadeiro ataque de nervos”….. “alguém me ajude!!!!!”

Entre os vários sintomas que caracterizam esta fase tão especial do mês (cerca de 10 dias a uma semana antes da menstruação) encontram-se:

  • Irritabilidade/Nervosismo/Agitação
  • Ataques de choro/vontade exacerbada de chorar
  • Raiva
  • Insónia
  • Dificuldade de concentração
  • Depressão
  • Sensação de cansaço
  • Ansiedade
  • Baixa autoestima
  • Abdómen e pernas inchadas
  • Prisão de ventre
  • Tensão mamária
  • Aumento de apetite
  • Dores de cabeça/enxaqueca

Estes sintomas podem variar de mulher para mulher nas suas características e intensidade e a forma como cada mulher lida com o respetivo quadro condiciona decisivamente a sua qualidade de vida nesta fase.

Para além do fator individual em causa, o mais comum é que aqueles com quem a mulher se relaciona sejam naturalmente envolvidos neste quadro, sendo que a sua postura face a esta questão pode ser de grande influência na atenuação ou aumento dos sintomas.

No casal, esta altura do mês está muitas vezes associada a um verdadeiro campo de batalha que ao fim de algum tempo pode afetar substancialmente a qualidade e investimento na relação.

São muito comuns as queixas por parte dos homens em relação a esta fase do mês e com o tempo é natural que alguma da sua paciência e compreensão possam começar a desaparecer. Compreender esta dinâmica e assumir uma postura ativa e responsável perante a situação é fundamental para manter o equilíbrio da relação.

É fundamental que, estando ambos envolvidos, trabalhem ativamente e em conjunto para que este período seja o mais pacífico possível. Poderão, inclusivamente, aproveitar esta fase para conhecerem um pouco melhor os seus mecanismos individuais de funcionamento e os padrões disfuncionais na relação e reforçar a intimidade no casal.

Cada um deverá assumir a sua responsabilidade na dinâmica de casal e observar o seu comportamento e a forma como este condiciona o quadro final. Por exemplo, é muito comum que a maior carência e sensibilidade da mulher nesta fase acione no homem a impaciência e agressividade por se sentir impotente para resolver ou melhorar a situação. A mulher poderá sentir-se então ainda mais sensível e incompreendida e o ciclo vai-se mantendo.

Observar ativamente, desenvolver o autocontrole e mecanismos facilitadores ou atenuadores do desconforto são elementos fundamentais ao longo deste processo.

Esta mudança poderá ser apenas individual (levada a cabo por uma das partes) e revelar-se positiva por se traduzir numa mudança do padrão habitual. Contudo, quando assumida e mantida pelos dois elementos do casal torna-se, naturalmente, mais sólida e construtiva.

Quando este processo se torna muito difícil e sentimos que não conseguimos dar a volta sozinhos é útil reconhecê-lo e procurar ajuda.

Realizado com sucesso, este trabalho poderá contribuir para reforçar grandemente a cumplicidade, partilha e autenticidade na relação!

Sofia Rodrigues – Psicóloga e Psicoterapeuta

Primeiro filho – uma nova etapa

primeiro filho, uma nova etapa

Estou grávida, vou ser Mãe – Esta primeira tomada de consciência pode gerar um turbilhão de emoções dependendo das circunstâncias de quem as vive.

Dizem-nos as estatísticas sobre os casais que procuram terapia de casal, que muitos dos seus problemas começaram com o nascimento do primeiro filho. Seria pois enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, não olhar de frente para tudo o que se passa quando esperamos um filho.

Desejar a gravidez é o primeiro passo para que esta revolução chamada maternidade e paternidade se constitua como um processo tranquilo. Planeada ou não, recebida com maior ou menor surpresa, a partir do momento em que a mãe deseja ter o seu filho a alegria e a preocupação parecem querer dar as mãos.

Talvez a primeira aprendizagem a fazer, seja mesmo a de saber ouvir as preocupações para que nos possamos ocupar delas, perceber que receios escondem, tomar medidas sobre o que está ao nosso alcance fazer para que tudo corra o melhor possível, e saber conviver com essa “poeira” chamada ansiedade, pois o que não podemos controlar, não deve ensombrar a alegria do caminho.

A Gravidez, esses 9 meses que antecedem o grande dia, são um período de preparação fundamental, em que se visitam memórias, algumas vezes conflituosas, que podem vir acompanhadas de medo e angústia do que desconhecemos, mas também de dúvidas sobre as nossas capacidades, e sobre nós, quer enquanto pessoas complexas com partes menos claras e evidentes, quer enquanto mães e pais iminentes. Este é também um tempo de adaptação às transformações físicas e psicológicas, que possibilita a aprendizagem, a preparação, a antecipação de mudanças e que funciona como uma oportunidade de integrar passado e futuro num presente saudável e luminoso.

A Gravidez (ou o tempo de espera para adopção) pode ser um momento de grande desenvolvimento pessoal, que a natureza nos chama a fazer em acelerado. O Eu-filha/o vai agora passar a ser Eu-mãe ou Eu-pai. O Eu-cuidado – até há pouco tempo, melhor ou pior, cuidado por outros, muitas vezes não sabendo ainda cuidar de Si próprio do ponto de vista psicológico – vê-se agora com a nobre e grandiosa missão de passar a ser um Eu-cuidador. Esta mudança terá que estar, ela própria, grávida de aceitação dessa responsabilidade e do seu significado. Aproveitemos pois a gravidez, como mais um momento de desenvolvimento pessoal consciente.

Tal como irá agendar as suas idas ao médico, análises, ecografias, cuidar da alimentação, preparar-se para o parto e para receber o seu filho, também não hesite em pedir ajuda profissional, se a sua ansiedade for muito grande, se recear não estar à altura das transformações que se adivinham, ou se virem ao de cima conflitos que julgava ultrapassados. Cuidar de si, e da sua família actual, é preparar o melhor ambiente para o seu filho que vai nascer.

É da relação entre mãe e pai que nasce um filho. Esta, por vezes “não verdade,” do ponto de vista sexual, reprodutivo, ou mesmo relacional, deveria sê-lo sempre do ponto de vista afectivo, pois são os pilares afectivos, as bases mais sólidas que os futuros pais podem construir para, e com, os seus filhos. Também nós somos frutos dos laços que os nossos pais estabeleceram connosco, estes laços afectam a forma como nos relacionamos com o nosso parceiro e como nos relacionamos com os nossos filhos. Esta descoberta nem sempre é pacífica e pode trazer alguma perturbação e até conflitos, aproveite este momento para resolvê-los e para comunicar mais com o seu par. A partilha entre os futuros pais é fundamental para que ambos se descubram, naquilo que se deseja como sendo simultaneamente o aumento do conhecimento de si e do outro e o aumento dos laços afectivos entre ambos

É a solidez dos laços entre os pais e entre pais e filhos que perdura. Mesmo quando o casal acaba, ou nem sequer existe enquanto tal, não deve acabar enquanto pais do(s) filho(s) de ambos.

O que muda no nascimento de um filho? Estrutura, relações, prioridades.

A estrutura da família vai modificar-se; a mãe, se até aqui vivia sozinha irá viver com o seu filho, se a família era a 2, passará a ser uma família a 3. Qualquer que seja a composição anterior ela vai mudar, alterando assim a dinâmica vivida até ao momento, e o ponto de equilíbrio.

As relações que eram em primeiro lugar com o próprio e com o par, passam, a ser relações que implicam um novo papel individual de Eu, enquanto mãe/pai, e do Tu, também enquanto pai/mãe. Finalmente surge uma nova relação com o filho que até aqui fazia parte integrante da mãe e que, ao nascer, espelha-se como um ser individual que já não nos pertence, nem faz parte do nosso imaginário, é um ser concreto, real e de Direito Próprio.

As prioridades serão necessariamente outras, precisamente porque o novo ser, mostra agora, não só a sua individualidade, como a sua dependência total, exigindo atenção e cuidados plenos, tornando-se o centro a partir do qual tudo se move e organiza.

Tudo isto, embora com 9 meses de preparação, se dá, de um momento para outro, ao primeiro choro do bebé.

O nascimento dum filho marca o início duma nova fase, com novas organizações, novos pontos de equilíbrio e novos desafios. É o início da Maternidade e da Paternidade (Parentalidade), para o resto da nossa vida e com todas as adaptações que isso implica e vai implicando ao longo da vida…

Como diz José Saramago:

«Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.»

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Sedução e Sedutores

Seduçãe e Sedutores

Don Juan e Casanova são exemplos clássicos de sedutores inquietantes, bem falantes e mal pensantes que precipitam as senhoras no mau caminho. Hoje, no mundo das SMS, da Internet e de outras tecnologias, existirá ainda lugar para sedutores?

Terá o sedutor desaparecido da nossa sociedade tendencial e se­xualmente igualitária? Não me parece. Aliás, a curta duração de muitas relações, que morrem nas suas fases mais iniciais, comprovam o domínio do reino da sedução.

Em 1995, o filme Don Juan Demar­co, de Jeremy Leven, interpretado por dois grandes sedutores do cinema, Marlon Brando e Johnny Deep, veio reanimar o persona­gem literário de Don Juan, tido como símbolo de sedução e liber­tinagem. Este personagem, cuja existência real ainda hoje é discu­tida mas largamente representada nas mais variadas formas de arte, procura representar um padrão de personalidade narcísica, sem escrúpulos, amada e odiada e que não olha a meios para conquistar uma mulher. Curiosamente, este protótipo não é descrito para o sexo feminino – tido sempre co­mo vítima do sedutor, ainda que muitas mulheres sejam mestras na arte de seduzir.

Triunfo da conquista. Actual­mente a referência ao Don Juanis­mo serve para caracterizar uma situação que muitas vezes se torna patológica para o sedutor e para aqueles com quem ele se relaciona. Trata-se de uma forma de estar caracterizada por uma forte com­pulsão para a sedução de alguém que procura enamorar-se da pes­soa mais difícil de conquistar para a abandonar em seguida. São pes­soas que não conseguem manter uma relação por muito tempo, partindo logo em busca de novas conquistas.

Para o Don Juan apenas interessa o instante do prazer e o triunfo so­bre a sua conquista, principalmen­te quando o alvo do seu interesse tem uma situação relacional e ci­vil proibida. É o aspecto do desafio que o mobiliza, fazendo com que a conquista amorosa tenha contor­nos de desporto e competição. O narcisismo destas pessoas é um aspecto que melhor as caracteri­za, ao ponto de se amarem muito mais a si mesmas que a qualquer outra pessoa.

Estes Don Juan não são obriga­toriamente mais viris ou sexual­mente activos. A sedução contínua nem sempre se dá à custa de um eventual desempenho sexual ex­cepcional, mas devido à habilida­de em oferecer sempre às mulheres aquilo que elas mais desejam. São, por isso, o protótipo do príncipe encantado, tão valorizado pelo sexo feminino desde a mais tenra infância, e têm a capacidade de perceber rapidamente os gostos e fraquezas das suas vítimas, sendo muito rápidos em satisfazer as mais diversas expectativas. Não é de estranhar, por isso, que as mulheres que se envolvem em ligações deste tipo saem muito magoadas e com uma profunda sensação de raiva e abandono.

Arte de seduzir. Para além da faceta negativa da capacidade de seduzir, geralmente instalada em personalidades imaturas, já o uso da sedução no dia-a-dia deveria ser uma arte a desenvolver e a aplicar com frequência, qualquer que seja a nossa condição. Muitos casais beneficiariam desta arte se a praticassem mais e melhor, que­brando assim rotinas maçadoras e espevitando relações mornas. O dia de São Valentim tornou-se na festa instituída para pôr em prática a capacidade de agradar ao outro, de lhe mostrar que nos importa a sua presença. É o amor com dia e hora marcada. Mas porque hoje nos casamos ou nos unimos a alguém por amor, sen­timento muito pouco racional, feito de ternura e sexo, a sedução está cada vez mais que nunca na ordem do dia.

O objectivo da sedução é obter a atenção da pessoa por todos os meios possíveis para conseguir o controlo emocional e criar uma fonte de prazer. As etapas e ri­tuais de sedução são universais, com poucas nuances, geralmente de natureza cultural. Por exem­plo, quer no mundo dos huma­nos como no animal, é sempre a fêmea que é o sujeito da sedução e o macho o sedutor. Mas o sedu­tor nem sempre é aquilo que julga­mos. Se um homem tentar sedu­zir uma mulher que não o queira, rapidamente compreenderá quem tem o poder no processo de sedu­ção. Mas quais são as famosas eta­pas de sedução?

Etapas da sedução. O primei­ro passo é prender a atenção do outro. Geralmente as mulheres valorizam os atributos físicos (ao contrário do mundo animal), enquanto os homens ostentam o seu poder e riqueza. Os homens exibem-se e as mulheres provo­cam. E vem o momento em que os olhares se cruzam. Se o olhar perscrutador do homem encon­tra o olhar receptivo da mulher, produz-se uma faísca repleta de promessas. Se a mulher sorri, revolve o seu cabelo com os dedos, o homem tem permissão para avançar. Caso contrário as suas hi­póteses são reduzidas. O olhar é o instrumento de sedução mais efi­caz no ser humano e tem o poder de decidir o sucesso ou insucesso de uma potencial relação.

A seguir há que iniciar uma con­versação. A naturalidade e curio­sidade em conhecer o outro um pouco melhor criam melhores probabilidades de gerar uma con­versação, cujo conteúdo até nem é muito importante. A manuten­ção do interesse do outro é extre­mamente importante e para tal temos que ser observadores, estar atentos, esquecermo-nos de nós. A conversação é o ponto de ruptura: a sedução passa ou acaba, o encan­tamento permanece ou parte-se. De acordo com os antropólogos, é geralmente a mulher que gera o primeiro contacto físico, através de um leve aflorar da mão com a mão, sempre de forma fortuita e ingénua, ainda que premeditada e calculada quanto aos seus fins. É aí que começa o verdadeiro teste às capacidades de sedução. Com este ligeiro toque foi dito “sim interes­sas-me, continua a seduzir-me.”

Reacender a paixão. A arte da sedução não diz respeito apenas àqueles que se querem envolver numa relação. Ela permite fazer durar um amor e reacender mo­mentos de paixão numa relação ameaçada pelo tempo e pelas crises.

A sedução e o amor necessitam de manutenção, no sentido de ha­ver uma ajuda mútua na satisfa­ção das nossas necessidades de afeição, crescimento pessoal, ne­cessidades sexuais, sonhos, pro­jectos conjugais. Em suma, a ser felizes.

Catarina Mexia – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Novas Famílias, Novos Papeis

familia

As configurações familiares no início deste milénio são muito variadas e complexas. O casamento transforma- se em casamentos e muitas crianças experimentam duas vivências familiares distintas: a casa da mãe e a casa do pai.
As configurações familiares no final deste milénio são muito varia¬das e complexas. Ao longo de uma vida é cada vez mais frequente “o casamento” transformar-se em “casamentos”. A família tradicional transforma-se noutra de contornos maleáveis e dinâmicos. As crianças podem experimentar duas vivências familiares distintas, a casa da mãe e a casa do pai. E os filhos da nova união poderão ter irmãos residentes e irmãos de fim- de-semana… E todos acabam por desempenhar uma multiplicidade de papéis que algumas vezes não desejaram, ou sobre os quais possuem pouca informação.
Período crítico. A fase de transição, da ruptura de uma célula familiar à organização da nova estrutura, é um período crítico, em que a definição das novas rotinas quotidianas, da gestão das emoções e dos medos e de encontrar o lugar de cada um na família se traduzem num esforço relacional e emocional que fragiliza todos os intervenientes. É neste período crítico que o nível de insegurança emocional se acentua, como é de esperar nos processos de mudança. E as crianças são, infeliz¬mente, os alvos preferenciais dos medos e angústias desencadeados pelas modificações profundas no seu universo socioafectivo.
Mas é sobre os adultos que gosta¬ria de reflectir, pois a sua actuação pode ser determinante para que esta mudança resulte bem para as crianças, marcando a diferença entre uma “saudadezinha do papá” ao adormecer, que se cura com um telefonema tranquilizante, ou o medo do abandono e do conflito entre os pais que vão minando a tranquilidade dos mais novos. A verdade é que a qualidade da actuação dos adultos depende muito da forma como gerem os seus próprios receios e fantasmas.
E se o novo companheiro não gosta das minhas crianças? Mui¬tas vezes esta inquietação surge quando o convívio entre o novo parceiro e as crianças se intensifica, nomeadamente quando começam a coabitar. A expectativa dos adultos em relação à intensidade dos laços afectivos é, por vezes, desadequada e origina respostas muito reactivas aos contratempos e ajustes que inevitavelmente surgem. Os afectos também se constroem e para isso é preciso tempo.
Definir papéis. As mudanças abruptas são as mais violentas. Se já existem laços de convívio,se já pudemos observar a criança a interagir com o novo companheiro e gostámos do que vimos, talvez não haja motivo para grande inquietação. O planeamento é uma estratégia óptima para reduzir a incerteza e os mal-entendidos. Uma vez tomada a decisão de viverem todos juntos, é importante que o novo casal se sente para conversar, definindo o papel de cada um, o exercício da autoridade e do poder, as regras, as tarefas, os limites a respeitar do espaço individual. Principalmente, como agir em matérias susceptíveis de serem fonte de desentendimentos — oportunidade que os mais novos geralmente aproveitam para “dividir para reinar” e obter coisas que de outra forma não teriam. Idealmente, e em sintonia com as idades das crianças, deveríamos ser capazes de dialogar com elas e torná-las parte integrante deste processo.
Devemos deixar sempre claro para o outro o lugar que as crianças ocupam na sua vida e o quanto são importantes para si. Se o novo companheiro também tiver filhos, entenderá do que estamos a falar. Mas terá igualmente necessidades, inquietações e expectativas relativamente aos seus próprios filhos. Um processo de negociação intensa torna-se quase obrigatório, nomeadamente enquanto predomina o encantamento do enamoramento, que poderá facilitar a conversa destes assuntos.
Conquista afectiva. Ser tolerante perante uma situação que é nova para todos, onde ainda se ensaiam papéis e é natural que o outro não seja perfeito, pode ser meio caminho andado para o sucesso. Para isso temos de esquecer a tendência generalizada entre muitos casais de fazer comparações com o “ex”, porque, apesar de desempenhar funções parentais, o novo companheiro não é, de facto, o pai ou a mãe das crianças.
A madrasta má e o vilão também têm medos. O grande medo é ser considerado como um intruso que será rejeitado. Como tornar-se, então, parte integrante da família? E se a criança não o aceita? Qual o impacto que isto vai ter na relação de casal? Estas inquietações contribuem para uma atitude hipervigilante, que, por sua vez, pode condicionar condutas muito reactivas em resposta a comportamentos infantis de oposição ou hostilidade. Estes comportamentos da criança são de esperar em qual¬quer família — ainda mais numa estrutura familiar em mudança, na qual a criança ainda se sente insegura e até ameaçada — e podem ser interpretados numa perspectiva catastrófica em que é certo que “o miúdo vai-me odiar para sempre!”. Provavelmente a criança está apenas a testar limites, ou a tentar perceber o que fazer com este tipo que, quer ela, quer eventualmente outros adultos significativos no seu universo socioafectivo, responsabilizam por tomar o lugar do pai.
Conquistar estas crianças a qual¬quer preço não é uma boa estratégia. A sedução “em esforço” não consegue ser sustentada por mui¬to tempo e das duas, uma: a criança sente-a como falsa e rejeita-a ou torna-se manipuladora em resposta à sua própria tentativa de manipulação. Se encararmos logo à partida a relação com naturalidade e com respeito, respeito por nós próprios, pela criança e pelos sentimentos que necessitam de tempo para amadurecer, então esta¬remos a lançar as bases saudáveis para um bom relacionamento.
Direito de errar. O encontro dos sentimentos de medo da criança com as ansiedades e receios dos adultos tem que ser gerido pelo adulto. Somos nós que temos a capacidade de reflexão objectiva, que somos capazes de descentrar das nossas emoções, de sermos tolerantes e de transmitir segurança, de agir reflectidamente, com bom senso, ajustando as nossas expectativas e desejos às limitações e exigências da realidade, de auto-regular o nosso comportamento e, finalmente, exercer o poder. E como tudo isto não é fácil, temos também direito às fragilidades que habitam em to¬dos nós e temos direito a errar! Não podemos é esperar que seja a criança a ter uma atitude característica de um adulto, mesmo que estejamos a falar de adolescentes.
O papel do pai ou mãe é funda¬mental para criar harmonia na nova família. São o seu comportamento e as suas atitudes que vão fornecer pistas às crianças do lugar do novo elemento na família, da sua importância, do que é e não é permitido. E é do diálogo entre o casal que nas¬cem soluções criativas para as dificuldades que forem surgindo. O grande truque talvez se¬ja transformar potenciais conflitos e agressões em problemas que necessitam de resoluções concretas. Porque este é o seu projecto e é pelo casal que a família existe.

Bebés. Levar um bebé para casa do novo companheiro é uma situação que desencadeia medos profundos, tanto mais graves se estiverem associados a separações conflituosas. Sentimentos de perda, rejeição e ciúme relativos à ruptura do casal podem ser projectados nos filhos e no acto de os cuidar e partilhar.
A frustração ou sentimentos de impotência e abandono, comuns nas primeiras etapas do luto da relação, geram a necessidade de agredir aquele que “traiu” o projecto de vida a dois. Esta necessidade leva a que se “instrumentalizem” as crianças e que se façam muitas asneiras. Uma das tentações mais irresistíveis costuma ser criar aversão ao “rival” e ao novo lar. Ou enfatizar o distanciamento do outro pai como uma troca, um abandono, salientado as desvantagens de estar no “outro lado”.
Este tipo de estratégia tem normalmente dois resultados: a curto prazo a criança parece aderir e há uma recusa em estar com a “concorrência”; ou, a médio/longo prazo, se a postura do “outro lado” for de tolerância e amor, o feitiço vira¬-se contra o feiticeiro. Há perda de relação e desvalorização de quem implementou esta estratégia. Entretanto, muito provavelmente, viveram-se momentos dolorosos, alimentaram-se conflitos, criou-se desarmonia e sofrimento, pois atiçou-se o lume do caldeirão dos medos, dos adultos e crianças.
Contudo, devemos lembrar que ninguém pode ocupar o seu lugar no coração do nosso bebé, sermos o seu porto de abrigo. Ajudá-lo a enfrentar estes per-cursos com tranquilidade, não o sujeitando à violência das escolhas impossíveis, é fundamental, pois ele ama e necessita dos dois, mesmo que os dois já não sejam um.
Medos. Para neutralizar a angústia de não o termos sob a nossa asa protectora, devêmo-nos  lembrar de que quando escolhemos ou aceitámos ter um filho com aquele companheiro, com o qual podemos estar mui¬to zangados, demos-lhe um voto de confiança como pai/mãe. Devêmo-nos lembrar que o outro tem recursos que lhe permitiram tratar do filho conjunto, e este precisa muito de estar com o pai/mãe em condições naturais, em paz.
Nos pais que deixaram de viver com as crianças a tempo inteiro costuma observar-se uma tendência para espaçar os momentos de convívio com elas. Parece uma reacção paradoxal, pois estamos a falar de pessoas responsáveis e amantes dos seus filhos. Mais uma vez, o medo tem um papel dominante na origem deste comportamento. O medo de não sermos competentes neste novo cenário, o medo da per¬da de afecto, o medo da dor no momento da separação acciona mecanismos de defesa psicológicos, dos quais fazem parte a fuga. Ainda que fugindo ao confronto directo com a situação, o medo não desaparece, continua lá, como que adormecido. De facto, conseguimos uma espécie de “alívio” imediato, mas a escassez de convívio continuado com os filhos acaba por trazer mais sofrimento e perda para nós e para eles.
O contacto com as nossas crianças tem um efeito psicologicamente equilibrador. Ao vencer as primeiras etapas mais difíceis, a criança reafirmará o afecto e a necessidade que tem de nós, confirmando o que sempre soubemos: que, para ela, nós somos insubstituíveis.

Dicas para os pais:
• Devemos ser previsíveis. Devemos evitar a todo o custo faltar aos encontros prometidos. Por, vezes as expectativas criadas são muito elevadas porque o pai ou a mãe vão estar presentes e os filhos precisam de saber que podem continuar a contar com os pais
• Se não pudermos de todo comparecer ao encontro devemos telefonar e explicar-lhe directamente a razão. Mas estas devem ser situações de excepção. É também importante deixar claro quando vai acontecer o próximo encontro.
• Sempre que se despedirem, devemos referir “até sexta-feira!”, para que a criança tenha uma referência concreta
• Utilizar linguagem positiva leva-nos no reencontro, em vez de nos mostrarmos tristes porque tivemos muitas saudades da criança, transmitir-lhe a alegria que sentimos por estarem juntos
• O importante é interagir naturalmente. Não é preciso estar continuamente a fazer programas fantásticos, que muitas vezes obrigam a esforços financeiros e psicológicos que “contaminam” os estados de espírito, deixando-nos ansiosos e criando na criança o sentimento de que tem que se divertir.
Usufruam do momento!

Catarina Mexia – Psicóloga e Psicoterapeuta

Perda ou Transformação?

Na minha prática clínica tenho-me deparado com uma grande dificuldade dos meus pacientes em expressarem desacordo, mágoa, ressentimento, ou agirem de formas contrárias àquilo que sentem que são as expectativas ou desejos de outros significativos.
Ao explorar o que é que receiam que aconteça se se expressarem de forma congruente com o que estão a sentir, surge frequentemente o medo de perder o outro, que o outro não suporte a crítica ou o desacordo e que haja uma ruptura na relação.
Um trabalho útil com estes pacientes é treinar a assertividade, explorando formas de nos afirmarmos perante estes outros significativos de uma forma cuidadosa que melindre o outro o menos possível; mas a realidade é que estes pacientes não deixam de ter algum fundamento no seu receio, frequentemente os primeiros movimentos de auto-afirmação são de facto mal recebidos do outro lado.

A reflexão que vos venho propor é até que ponto é que esta reacção menos positiva do outro implica necessariamente perda ou, pelo contrário, potencia transformação da relação.
Não sejamos utópicos, se introduzo uma dinâmica nova na relação (por exemplo expressar mágoa por a minha opinião não ter sido levada em conta numa decisão com implicações para os dois), não posso esperar que o outro mantenha a mesma postura, ele terá que digerir a novidade e precisaremos os dois de um período de ajustamento à nova dinâmica, ou de um período de negociação de uma terceira dinâmica, construída em conjunto, que responda de forma mais equilibrada às necessidades de ambos. Ou seja, preciso dar espaço ao outro para que ele me devolva o ponto de vista dele sobre a situação que desencadeou o problema, como é que ele lida com esta mudança no sistema que eu estou a propor, e que condições é que ele precisaria ter satisfeitas para conseguir de forma mais tranquila responder à minha necessidade (por exemplo, o outro poderia devolver que não se tinha apercebido que eu tinha uma opinião diferente, mas que de facto era importante para ele que eu estivesse confortável com a decisão e precisaria por isso que eu passasse a expressar as minhas opiniões com mais clareza para ele perceber que há ali uma opinião contrária que precisa ser levada em conta).

E pensarão: “mas comigo isto não funciona assim, o outro não vai reagir tão bem”. Talvez tenham razão, é provável que a primeira reacção seja de defesa e de desagrado pelo comentário, mas lá está o tal período de ajustamento e de negociação, em que o treino de assertividade referido inicialmente tem um papel importante no mantermo-nos afirmativos das nossas necessidades e direitos por um lado, e ao mesmo tempo abertos a perceber o ponto de vista do outro, que elementos é que estão a dificultar a compreensão da mensagem de ambos os lados, e como é que podemos atingir um equilíbrio entre aquilo de que cada um não abre mão e no que estamos disponíveis para ceder.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Expressão de emoções e necessidades em casal

casais
Amamo-nos muito mas não funciona, não nos conseguimos entender!”

As relações íntimas de casal são uma área particularmente importante das nossas vidas, mas apesar de as desejarmos muito e de tendermos a sentir-nos incompletos, não totalmente realizados, sem elas, a realidade é que gerir a relação não é fácil e mesmo havendo amor, nem sempre a relação flui, às vezes parece não funcionar.

O que é que acontece? Apesar de numa relação termos à partida um objectivo comum, alimentar a relação, mantê-la viva e saudável, não deixa de ser verdade que temos duas pessoas na equação, muitas vezes com registos de funcionamento diferentes, cujo contraste pode criar choque e este choque prolongado no tempo cria padrões de interacção desadequados com uma escalada de frustração, agressividade e/ou afastamento.

Quando dentro destes ciclos desadequados de interacção, as dificuldades são duas:

  • Primeiro é muitas vezes difícil para cada elemento do casal aceder ao que está a sentir, começa-se a funcionar em modo automático, em que atacamos o outro e nos defendemos dos ataques do outro, sem conseguir parar para pensar o que é que está a acontecer comigo, dentro de mim, o que é que eu estou a sentir que faz com que eu aja desta forma agressiva ou, pelo contrário, demasiado distanciada?
  • Segundo é muito difícil partilhar de forma adequada o que se está a sentir e o que precisaríamos do outro, da relação, e tendemos a ser críticos e culpabilizantes do outro, apontar-lhe o dedo, crê-lo intencionalmente agressivo ou negligente, mais do que verdadeiramente expressarmos as nossas vulnerabilidades, as nossas angústias, as nossas emoções, as nossas necessidades.

No sentido de tentar quebrar estes ciclos e de tanto aceder como expressar emoções e necessidades em casal, sugiro o seguinte exercício[1]:
Numa folha de papel desenhe uma tabela como a seguinte:

E comece a preencher.
Como? Deixo um exemplo: Quando tu chegas tarde (situação), eu sinto-me zangada (reacção emocional) e reajo criticando-te (reacção comportamental). Isto esconde a minhaansiedade e sentimento de rejeição (emoção de base). O que eu preciso realmente é sentir que sou importante para ti (necessidade geral), e portanto preciso quetu me ligues a avisar que vais chegar mais tarde (necessidade específica).

Desta forma, a nossa activação emocional tende a baixar e a receptividade do outro à nossa necessidade tende a aumentar. É como se encontrássemos aqui um ponto de equilíbrio em que conseguimos comunicar um com outro, cria-se um espaço para ouvir e ser ouvido.

[1] do livro Emotion-focused couples therapy: The dynamics of emotion, love, and power de Greenberg e Goldman (2008)