Curas distorcidas

                      Esta é uma reflexão acerca do que se faz para se evitar o inevitável.                               – O quê? Pergunta o leitor.

                      Fazer o que nos tempos actuais a sociedade ensina para evitar a dor.                  De entre as receitas que prometem curar e/ou controlar o que não se quer, tal              como, ficar deprimido, ter ansiedade, ficar “em baixo”, doente, ou ser infeliz; elegi:             Fazer meditação, ter pensamentos positivos, e ser uma boa pessoa.

Estas são receitas que algumas pessoas trazem para a terapia e que, paradoxalmente, estão associadas a confusão, frustração e ansiedade. Carlos Drummond de Andrade já nos tinha dito que “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” E sabemos o quanto isto nos dá trabalho. O ponto de partida costuma ser “fazer por se evitar”, mas DEVERIA ser “fazer para se lidar”.

Fazer meditação é amplamente divulgado como ferramenta essencial de cura mas para ser eficaz requer uma relação entre corpo, coração e cabeça. A meditação funciona quando somos capazes de direccionar a atenção para uma parte dolorosa, abri-la e, posteriormente, criar uma nova consciência acerca de nós com esta experiência. Para isto é preciso estar totalmente (corpo+coração+cabeça) presente no momento e receber a auto-compaixão associada do momento de sofrimento recordado. Se não conseguir usar a informação do corpo para a traduzir e enquadrar com a cabeça será uma experiência incompleta de cura. Também pode acontecer que não saiba distinguir o que são as suas emoções e o que é a sua pessoa. Por exemplo, escutar partes internas críticas e de julgamento é, com frequência, a primeira adversidade que se encontra quando se começa a meditar. Às vezes, a primeira e última, porque o resultado de encontrar-se com um lado julgador sem ter o seu lado autêntico presente será mais ou menos como ser atirado aos lobos sem protecção. Provavelmente não vai querer repetir a experiência e talvez até queira mesmo passar a evitá-la porque tornou em medo, confusão e divisão uma experiência que se pretendia ser de alívio, clareza e de reunificação.

Os pensamentos positivos têm a capacidade de nos dinamizar, aumentar a nossa confiança e prontificar para a acção. Podem ser poções mágicas de realização porque tocam no acreditar que é possível. Relembrando Osho, os pensamentos positivos ganham poder quando se colocam no mesmo patamar que os negativos e não quando os renegam e se faz de conta que não existem. Não podem ser usados para ler estados emocionais desagradáveis; por exemplo, se acorda de manhã e não se sente animado não poderá pensar que se sente animado. Conseguir aceitar a forma como se sente e deixar correr o dia pode ser uma boa opção. Ou seja, tolerar a incerteza de como será o passar do dia quando não acorda animado pode ser surpreendentemente positivo. Se distorcer e negar a sua verdadeira realidade (do momento) estará a ser desonesto consigo e, se o fizer por sistema, poderá perder a  oportunidade de ficar disponível para encontrar o que o torna verdadeiramente animado. Contar mentiras a si próprio, acerca de si próprio, contribuirá apenas para se desligar do sentimento de si e desviar-se do seu projecto de cura.

Diria que ser uma “boa pessoa” é um princípio orientador de conduta associado ao que está certo e é bom nas pessoas. A desorientação surge quando as pessoas não sabem o quanto boa tem que ser para ser considerada uma boa pessoa e perdem-se, por exemplo, a fazer coisas pelos outros ou a evitar dores inevitáveis. Colocam sistematicamente os outros à sua frente porque ganham a aceitação (intermitente) que não têm em relação a si mesmas e, com isto, não sabem separar-se do que é informar os outros daquilo que lhes causa dor, do que é a satisfação associada à afirmação da sua defesa, do que é ter prazer em infligir dor ao outro. Uma boa pessoa tem a clareza da posição que ocupa em relação aos outros e ao mundo. Pode sentir, pensar e agir contra a vontade dos outros e continua a ser boa pessoa porque isto só significa que é diferente do outro e que está a defender valores como respeito, confiança, amizade, compaixão, gratidão, etc. Uma boa pessoa por instrução racional e sem consciência dos seus próprios valores estará muito desviada do seu auto-conhecimento e do que nos torna realmente bons. Deixar de ser boa pessoa porque já não serve as necessidades do outro é, no mínimo, perverso e não representa nenhum tipo de cura, nem pessoal, nem, e muito menos, para a humanidade.

Sabemos que é importante criar a oportunidade de nos separarmos de partes dolorosas para funcionarmos no dia-a-dia mas também que a verdadeira libertação acontece quando as curamos. Curar não é esquecer a dor, é integrar em nós de forma mais harmoniosa aquilo que nos dói. A melhor terapia usa a consciência para curar o coração (Kornfield, 2012) e isto implica alívio do medo de se ligar a si e aos outros com a benesse de conseguir transformar experiências dolorosas. A conexão estabelecida numa relação terapêutica ensina-lhe como a dor contém verdades que abrem o seu coração à alegria e à vida. É que do outro lado da dor está a força e a confiança, e, acredite, não vai querer perder esta parte. Porque depois de dizermos adeus aos demónios, precisamos aprender a viver com os nossos anjos, chama-se a isto capacidade para uma vida plena (Russel, 2015).

Rita dos Santos Duarte – Psicoterapeuta

SOBRE A ANSIEDADE

ansiedade

Go to the heart of danger for there you will find safety

[Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança]

Provérbio Chinês

Proponho uma reflexão sobre o que são e de onde vêm as perturbações da ansiedade.
A ansiedade é matreira: dirige a nossa atenção para as nossas sensações corporais ou para estímulos externos percepcionados como perigosos, para esconder o significado implícito deste medo exagerado. A pessoa ansiosa como que foge de si própria, desenvolve estratégias de evitamento que se materializam nos sintomas de ansiedade e, neste esforço de evitar o contacto com as suas feridas psicológicas, vai reforçando mais e mais a sua percepção negativa de si.

Como é que se desenvolve uma perturbação da ansiedade?
Cada vez mais se reconhece que as perturbações da ansiedade têm origem em experiências de vida dolorosas: experiências traumáticas, traições por outros significativos, respostas ineficazes a acontecimentos de vida, entre outros. Estas experiências criam feridas do self, percepções negativas de si, como incapaz de lidar com os desafios da vida, e estas feridas são tão poderosas, estão tão presentes na vida das pessoas (embora de uma forma implícita, não consciente), que as tornam hipersensíveis a qualquer situação no presente que se assemelhe de alguma forma a estas memórias dolorosas, que active a ferida. No esforço de prevenir a exposição a estas feridas, desenvolvem-se estratégias de protecção desadequadas, que são os sintomas mais visíveis da ansiedade.

Como é que se quebra este ciclo de sintomatologia ansiosa?
Apesar destes comportamentos de protecção desadequados trazerem algum alívio imediato por impedirem o contacto com as feridas, tendem a agravar o sofrimento por reforçarem a perspectiva negativa de si, como incapaz, desadequado, vulnerável…
Apesar do sofrimento imediato que acarreta entrar em contacto com as nossas feridas psicológicas e com as memórias dolorosas que lhes deram origem, é este contacto, no seio de uma relação terapêutica segura e apoiante, que permitirá atender a elementos adaptativos que não foram anteriormente processados e recuperar uma imagem de si mais positiva, capaz de mobilizar recursos para lidar de forma eficaz com os desafios da vida.

Confie no provérbio chinês, é no âmago do perigo que encontrará a segurança.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

“Christmas Blues” A tristeza que vem com o frio

Christmas blues

Alguns estudos referem que cerca de 20 a 30 % da população ocidental sofre de depressão de natal ou “Christmas Blues”, sentindo nesta altura de festas alguma angústia, desamparo e ansiedade que se assemelham a um quadro depressivo. 

As razões podem ser várias e diversas, desde uma maior pressão para o consumo, ao reavivar de saudades de entes queridos já falecidos, ou mesmo solidão.

De facto, nesta época, as famílias são tremendamente pressionadas para maiores gastos financeiros em prendas e na preparação de festas que em qualquer outra época do ano.

As “exigências” interiorizadas pelas pessoas e que advêm da pressão do marketing mediático obrigam-nas a um périplo por várias e diferentes lojas na busca da prenda ideal para cada familiar ou amigo, para o filho deste e para a sobrinha daquele. Fazem-se listas compras e calculam-se orçamentos, planeiam-se dias com roteiros para determinadas compras e reservam-se outros para tantas outras. O suposto espírito altruísta do Natal transforma-se numa azáfama stressante e cansativa para cumprir um determinado roteiro de compras intermináveis em lojas apinhadas de gente igualmente impaciente que a noite de Natal chegue, as lojas fechem e as compras acabem.

Em momentos de lucidez acabamos por parar e perceber que o espirito do Natal foi subvertido, que o propósito do Natal não é esta vertigem consumista, e a consciência disto pode trazer-nos sentimentos de tristeza e culpa imediatamente após uma corrida desenfreada, esgotante e cheia de boas intenções às últimas compras.

Por outro lado, a época de Natal é tipificada como a festa em que a família se reúne, se revê e confraterniza, mas se você tiver perdido um ente querido há pouco tempo, é natural que esta época reavive os seus sentimentos de luto e de saudade e que, dependendo do caso, podem ser avassaladores.

Devemos ainda recordar-nos que, num mundo que se “globalizou”, não é raro que hajam familiares emigrados em países longínquos e que não podem estar presentes, e essa ausência pode ser antecipada e sentida com tristeza e saudade.

Sabemos também que uma parte significativa da população idosa vive sozinha, muitas vezes sem grande apoio familiar e em situações de desamparo em que os sentimentos de solidão física e afectiva que se tornam mais evidentes nesta época festiva em que seria suposto sentirem-se mais amados e apoiados.

Frequentemente, os sentimentos de tristeza, culpa e ansiedade que são sentidos nesta época têm a ver com um desfasamento entre as expectativas que interiorizámos do que deveria ser o Natal – enquanto festa religiosa e de comunhão de afectos – e aquilo que muitas vezes acabamos por vivenciar.

De facto, ninguém deseja que o Natal se transforme em dias de stress financeiro e fúria consumista, ninguém espera que uma época universalmente festiva traga um reviver da mágoa dos lutos mais difíceis ou uma consciência ainda mais aguda duma situação de solidão e de desamparo.

As expectativas depositadas são frequentemente melhores do que muitas vezes a vida nos traz e este desfasamento pode trazer sentimentos legítimos de dor e frustração.

 

Os dados do National Institute of Health, nos Estados Unidos da América, apontam o Natal como o período do ano no qual há uma incidência maior de depressão.

Mas, de facto, não é claro para todos os investigadores que exista um aumento da incidência de Depressão no Natal ou se este aumento da incidência resulta de um certo número de factores que nem sempre são levados em conta.

Além da maior frequência de episódios depressivos no contexto da Doença Afectiva Sazonal (*), é nos meses de inverno que ocorrem mais intercorrências infecciosas, o que condiciona com uma maior morbilidade e mortalidade em pessoas idosas com outras patologias orgânicas associadas, nomeadamente diabetes e/ou doenças cardiovasculares.

Estes episódios de agravamento clínico podem despoletar quadros depressivos ou agravar depressões pré-existentes.

Por outro lado, sabe-se que a incidência de suicídio diminui nos meses de inverno e aumenta com a chegada da primavera.

Os dados que existem sobre o “Christmas blues”, essa tristeza sazonal por altura do Natal, são vagos e pouco precisos, sobretudo porque não está propriamente catalogado como uma patologia mental.

Mas esta tristeza de Natal, apesar de ter sintomas sobreponíveis aos de uma depressão, não significa necessariamente que se trate de um quadro depressivo.

O “Christmas blues” é habitualmente passageiro e não tende a evoluir para um quadro clínico de depressão.

         Passada a época festiva e com o retomar das rotinas habituais do dia-a-dia, estes sentimentos de tristeza tendem a desvanecer-se e a remitir naturalmente.

No entanto, o “Christmas Blues” pode mimetizar uma depressão suave, além de que ocorre na mesma época da Doença Afectiva Sazonal. (*)

No “Christmas Blues”, tipicamente, os sintomas de tristeza e ansiedade não se intensificam ou agravam, e não se prolongam no tempo.

Assim, se a tristeza e a ansiedade se intensificarem ou se prolongarem no tempo deverá consultar o seu médico de família e expor a situação. De facto, pode então tratar-se dum episódio de Doença Afectiva Sazonal ou pode a época natalícia ter contribuído como factor desencadeante, entre outros acontecimentos de vida, para o despoletar de um quadro depressivo que pode merecer cuidados médicos e/ou um acompanhamento psicoterapêutico adequado.

 

(*) Doença Afectiva Sazonal – Tipo de Depressão na qual os episódios depressivos recorrem anualmente, geralmente durante os meses de inverno, e em cujo tratamento está a indicada a Fototerapia.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Os nossos sintomas são os nossos despertadores

sintomas-despertadores
“Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança”
Provérbio Chinês
A experiência de desenvolver um problema psicológico como ataques de pânico, ansiedade generalizada, depressão,… é frequentemente avassaladora. Por um lado há a sensação de perda de controlo de si, por outro lado os sintomas parecem ser desprovidos de sentido e há uma incompreensão muito grande de si próprio, e muitas vezes vem a vergonha e a culpa, vergonha da vulnerabilidade que os sintomas revelam e culpa por não ter sido capaz de evitar estas manifestações e por continuar sem as perceber.
Se prolongado no tempo, especialmente para problemas do foro da ansiedade, além da exacerbação dos sintomas iniciais, tendem a surgir novos, mais obsessivos e compulsivos, mais distantes da raiz do problema, e a incompreensão de si próprio é cada vez maior.Muitas vezes não há de facto um sentido directo e claro para a sintomatologia, o que ela faz é sinalizar uma vulnerabilidade, como um despertador com alarme em crescendo, que se não é desligado ao início vai tocando com um volume cada vez mais alto até ser ouvido e atendido.
A mensagem dos sintomas é “go to the heart of danger, [vai ao âmago do perigo], não fujas, olha, procura, percebe; para te libertares”.
O despertador/sintoma é só um sinalizador que vai tocando mais forte à medida que a insegurança aumenta, que o medo aumenta, sempre a pedir “não fujas, olha, fica”.Tomarmos consciência das nossas vulnerabilidades, dos pontos em que somos particularmente sensíveis, assusta, mexe com o nosso medo do descontrolo, da falta de poder sobre nós próprios, sem percebermos que tanto menos poder temos quanto mais ignoramos/negamos as nossas vulnerabilidades; quanto mais eu as conheço, compreendo e aceito, mais controlo tenho na realidade, porque mais sei com o que posso contar e posso mobilizar recursos para reparar ou apaziguar o problema de base, a essência.

Este é o trabalho que procuramos fazer em psicoterapia, traduzir sintomas (sinais, despertadores) em vulnerabilidades, em necessidades por satisfazer, em assuntos inacabados a processar e resolver, porque por doloroso que seja tomar consciência de aspectos sensíveis de nós, da nossa história, e percebermos as implicações que eles têm na nossa vida, no nosso funcionamento, é um trabalho fulcral, é o desligar o despertador e levantar da cama, é o retomar as rédeas, o controlo, é mobilizar para resolver.

Primeiro filho – uma nova etapa

primeiro filho, uma nova etapa

Estou grávida, vou ser Mãe – Esta primeira tomada de consciência pode gerar um turbilhão de emoções dependendo das circunstâncias de quem as vive.

Dizem-nos as estatísticas sobre os casais que procuram terapia de casal, que muitos dos seus problemas começaram com o nascimento do primeiro filho. Seria pois enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, não olhar de frente para tudo o que se passa quando esperamos um filho.

Desejar a gravidez é o primeiro passo para que esta revolução chamada maternidade e paternidade se constitua como um processo tranquilo. Planeada ou não, recebida com maior ou menor surpresa, a partir do momento em que a mãe deseja ter o seu filho a alegria e a preocupação parecem querer dar as mãos.

Talvez a primeira aprendizagem a fazer, seja mesmo a de saber ouvir as preocupações para que nos possamos ocupar delas, perceber que receios escondem, tomar medidas sobre o que está ao nosso alcance fazer para que tudo corra o melhor possível, e saber conviver com essa “poeira” chamada ansiedade, pois o que não podemos controlar, não deve ensombrar a alegria do caminho.

A Gravidez, esses 9 meses que antecedem o grande dia, são um período de preparação fundamental, em que se visitam memórias, algumas vezes conflituosas, que podem vir acompanhadas de medo e angústia do que desconhecemos, mas também de dúvidas sobre as nossas capacidades, e sobre nós, quer enquanto pessoas complexas com partes menos claras e evidentes, quer enquanto mães e pais iminentes. Este é também um tempo de adaptação às transformações físicas e psicológicas, que possibilita a aprendizagem, a preparação, a antecipação de mudanças e que funciona como uma oportunidade de integrar passado e futuro num presente saudável e luminoso.

A Gravidez (ou o tempo de espera para adopção) pode ser um momento de grande desenvolvimento pessoal, que a natureza nos chama a fazer em acelerado. O Eu-filha/o vai agora passar a ser Eu-mãe ou Eu-pai. O Eu-cuidado – até há pouco tempo, melhor ou pior, cuidado por outros, muitas vezes não sabendo ainda cuidar de Si próprio do ponto de vista psicológico – vê-se agora com a nobre e grandiosa missão de passar a ser um Eu-cuidador. Esta mudança terá que estar, ela própria, grávida de aceitação dessa responsabilidade e do seu significado. Aproveitemos pois a gravidez, como mais um momento de desenvolvimento pessoal consciente.

Tal como irá agendar as suas idas ao médico, análises, ecografias, cuidar da alimentação, preparar-se para o parto e para receber o seu filho, também não hesite em pedir ajuda profissional, se a sua ansiedade for muito grande, se recear não estar à altura das transformações que se adivinham, ou se virem ao de cima conflitos que julgava ultrapassados. Cuidar de si, e da sua família actual, é preparar o melhor ambiente para o seu filho que vai nascer.

É da relação entre mãe e pai que nasce um filho. Esta, por vezes “não verdade,” do ponto de vista sexual, reprodutivo, ou mesmo relacional, deveria sê-lo sempre do ponto de vista afectivo, pois são os pilares afectivos, as bases mais sólidas que os futuros pais podem construir para, e com, os seus filhos. Também nós somos frutos dos laços que os nossos pais estabeleceram connosco, estes laços afectam a forma como nos relacionamos com o nosso parceiro e como nos relacionamos com os nossos filhos. Esta descoberta nem sempre é pacífica e pode trazer alguma perturbação e até conflitos, aproveite este momento para resolvê-los e para comunicar mais com o seu par. A partilha entre os futuros pais é fundamental para que ambos se descubram, naquilo que se deseja como sendo simultaneamente o aumento do conhecimento de si e do outro e o aumento dos laços afectivos entre ambos

É a solidez dos laços entre os pais e entre pais e filhos que perdura. Mesmo quando o casal acaba, ou nem sequer existe enquanto tal, não deve acabar enquanto pais do(s) filho(s) de ambos.

O que muda no nascimento de um filho? Estrutura, relações, prioridades.

A estrutura da família vai modificar-se; a mãe, se até aqui vivia sozinha irá viver com o seu filho, se a família era a 2, passará a ser uma família a 3. Qualquer que seja a composição anterior ela vai mudar, alterando assim a dinâmica vivida até ao momento, e o ponto de equilíbrio.

As relações que eram em primeiro lugar com o próprio e com o par, passam, a ser relações que implicam um novo papel individual de Eu, enquanto mãe/pai, e do Tu, também enquanto pai/mãe. Finalmente surge uma nova relação com o filho que até aqui fazia parte integrante da mãe e que, ao nascer, espelha-se como um ser individual que já não nos pertence, nem faz parte do nosso imaginário, é um ser concreto, real e de Direito Próprio.

As prioridades serão necessariamente outras, precisamente porque o novo ser, mostra agora, não só a sua individualidade, como a sua dependência total, exigindo atenção e cuidados plenos, tornando-se o centro a partir do qual tudo se move e organiza.

Tudo isto, embora com 9 meses de preparação, se dá, de um momento para outro, ao primeiro choro do bebé.

O nascimento dum filho marca o início duma nova fase, com novas organizações, novos pontos de equilíbrio e novos desafios. É o início da Maternidade e da Paternidade (Parentalidade), para o resto da nossa vida e com todas as adaptações que isso implica e vai implicando ao longo da vida…

Como diz José Saramago:

«Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.»

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Setembro e a Primavera

Setembro e a primavera

«Outono é outra primavera, cada folha uma flor.»
Albert Camus.

Chega Setembro e, muitas vezes com ele, surge uma sombra, um negrume…
Esta sensação, na maioria dos casos, felizmente, corresponde apenas à elipse aparente do sol, responsável pelas estações do ano, ou seja, neste caso, setembro trás consigo o equinócio que anuncia o final do verão e o início do outono, e trás também outras vibrações e humores.

Se na primavera tudo renasce, a alegria parece despontar juntamente com as folhas, e, até um sorriso de esperança pode surgir quando tudo anteriormente parecia estar mal; no outono, a queda da folha vem acompanhada duma sensação de recolhimento, de despedida dum verão que já lá vai, e, quantas vezes, duma sensação de perda ou de aprisionamento no dia-a-dia.

Se, para algumas pessoas, ou nalgumas fases da vida, regressar à rotina significa “descansar das férias”, pôr em prática ideias que foram germinando e crescendo ao longo da primavera e verão, um período de baterias carregadas que espalharão a sua energia pelos próximos meses; para outras pessoas, ou, noutras alturas, o regresso não entusiasma. E não é apenas pela saudade das férias, ou dos dias grandes, ou pelo retomar dos horários e responsabilidades que acompanham Setembro, mas sim, por uma quase certeza de que, afinal, nunca nos chegámos a libertar dum peso que nos encurva a alma e vive connosco.

Receio que, quando estamos perante este último quadro, seja sinal de que não fizemos as “limpezas de primavera”, ou seja, reencontrámos uma sensação que há muito nos acompanha, mas da qual nos tínhamos conseguido afastar durante a primavera e verão. Como se a primavera tivesse de facto trazido esperança, e que, mais uma vez, tivéssemos acreditado que tudo iria mudar sem necessitarmos de arrumar, limpar, fazer mudanças… É que a esperança pode ser tão amiga quanto adversária: amiga quando já nada podemos fazer, quando tudo saiu do nosso controlo e só ela nos resta; mas adversária, quando nos trava e impede de agir porque nos agarramos a ela, não conseguindo ver que ela está em nós, no que fizermos de, e por nós.

Agora, ao olharmos os dias mais curtos e a chuva a não conseguir soltar o cheiro a terra e relva cortada, mas apenas mostrar o sujo acumulado, apercebemo-nos de que nada mudou, estamos no mesmo sítio outra vez, sem sol, sem verde, sem azul, e, quantas vezes, também sem esperança. Apenas “nós e a nossa condição”.

Se Setembro se apoderou de si, não apenas com o seu vento fresco, cores de mel, uvas e vinho, sabores caseiros e reconfortantes, nem tão-somente com alguma nostalgia ou negrume, mas sim com uma densidade espessa e pegajosa que lhe tira o ar, não espere pela próxima “limpeza de primavera” para fazer arrumações e alterações.

Aproveite esta época de regresso para se revisitar a si própria/o, desarrumar o que parecia arrumado e não está, reciclar o que parecia perdido, deitar fora o que já não interessa, e habitar o vazio que encontrar. Assim, quando chegar a próxima primavera, poderá começar a redecorar o seu interior e renascer de facto. É necessário limpar o terreno e tratar da terra para que algo possa florir. Este trabalho requer ajuda profissional.

Não se convença de que “é sempre assim”, ou “não há nada a fazer”, de que “só os fracos procuram ajuda” ou de que “o tempo tudo cura”. Falar com um psicoterapeuta pode fazer toda a diferença; haverá situações em que poderá necessitar de medicação, haverá outras em que tal não será necessário, mas essa não deverá ser uma decisão sua, ou, apenas sua. E como é bom poder e conseguir partilhar fardos…

Afinal, Setembro é um mês de recomeços, em que também algo poderá nascer…

Iniciei este texto com uma frase de Albert Camus, deixo-vos com alguns versos do poema “A mão no arado” em “O problema da habitação” de Ruy Belo

«Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
(…)
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão …»

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Quando a resposta é: “Não sei”

Quando a resposta é não sei

Em psicoterapia, ao colocar uma determinada questão a um paciente, deparamo-nos muitas vezes com a resposta: “Não sei”. Até certo ponto, costumo olhar para este “não sei” como se estivesse perante um silêncio, em que me pergunto: “Será um silêncio cheio? ou um silêncio vazio?”. Da mesma forma me interrogo sobre se estarei face a um “não sei” cheio de sabedoria ou a um “não sei” oco ou temeroso.

O “não sei” interpõe uma distância cognitiva entre a pessoa e a possibilidade de saber/conhecer, isto é, entre o Eu e a responsabilidade de reflectir e construir um significado/solução. Mas interpõe também, uma barreira afectiva entre o Eu e a possibilidade de sentir. De sentir algo, tantas vezes doloroso, em que se receia/recusa mergulhar.

Ao terapeuta cabe perceber se está perante uma resposta de zanga, de medo, de vergonha, ou de admiração, face a uma questão que foi percebida como intrusiva, dolorosa, ou desafiante. Poderá ser uma resposta que exprime um conflito entre o desejo e o receio de saber ou expressar, ou mesmo de tornar consciente o que de certa forma já foi pressentido.                                                                                 Contudo, como sabemos, por vezes “não sei” é apenas “não sei”.

Em vez de se olhar o “não sei” exclusivamente como algo que se fecha, podemos vê-lo como algo que se abre. Primeiro teremos de bater à porta, entreabrindo-a, como que a pedir licença para entrar, sabendo que nos temos que mostrar dignos de confiança e validar esse depósito. E finalmente utilizar essa porta como passagem comunicativa por ambos aceite. Afinal, “não saber” é a primeira condição para a investigação e a aprendizagem. Há que mobilizar o potencial do “não sei” para a vontade de saber. Oferecer hipotéticas interpretações é uma possibilidade, mas deve ser feita com as devidas cautelas, sendo uma delas a clara admissão de que Eu não sou Tu. O terapeuta não pode aceder ao mundo interno do paciente se este não lho facultar, nem julgar-se sabedor do que não sabe.

Talvez antes de nos precipitarmos na sugestão de interpretações possamos explorar o âmbito do “não sei” e esperar…

Estará o paciente a dizer-nos:

1- “Não Sei!” (nem quero saber e não estou interessado no tema)?, Ou

2-“nãao ssei…”, (mas isso faz-me lembrar, sentir, pensar…)?, Ou

3- “não sei?” (que curioso nunca tinha pensado nisso, acha mesmo que eu poderei saber?)? Ou

4-“não sei”, quase inaudível (penso que sei, mas ir por aí causa-me dor…)?, ou

5-“não sei…” (talvez saiba, mas se eu ousasse dizer, o que iria pensar de mim ou dos meus?)?, ou

6-“não Sei” (sei, mas não confio o suficiente para dizer)?

O primeiro “Não Sei!” é uma porta que se fecha, com alguma zanga. É claramente uma defesa, vinda dum local de medo ou de negação. Indica que é cedo para ir por aí, a questão é sentida como intrusiva.

O segundo e o terceiro “não sei” estão cheios de potencial, e são uma porta entreaberta que suscita a curiosidade, (embora possam não estar isentos de receio) o primeiro destes dois, “nãao ssei…”, sendo mais introspetivo, convida a um silêncio do terapeuta, que ao criar espaço, permite a viagem interior do paciente. O segundo “não sei?” talvez necessite de um ligeiro encorajamento por parte do terapeuta, por exemplo, um sorriso de assentimento, permitindo depois que o silêncio se instale e possibilite a reflexão e elaboração do cliente.

O quarto “não sei”, parece extremamente vulnerável e necessita de validação empática pelo receio da dor que possa causar o que se venha a descobrir. Neste ponto, é fundamental que o terapeuta mostre reconhecer e valide as partes do Eu em conflito interno.

Os dois últimos “não sei” parecem indicar um conflito entre a vontade de abordar o tema e o receio de o fazer. São um sinal de que a relação terapêutica ainda não é sentida como verdadeiramente segura. Apontam para a necessidade de trabalhar e aprofundar a relação antes de prosseguir.

A confirmar este tactear e sentir do terapeuta, e a importância da sua responsividade mediante o que avalia, temos o facto de a neurociência nos mostrar que a visão de soluções para os problemas parece dar-se quando a parte direita do cérebro trabalha activamente e o lado esquerdo fica mais em repouso, deixando de prestar demasiada atenção aos estímulos externos, sobretudo aos visuais.

Assim, quando presenciamos um “não sei”, qualquer que ele seja, a nossa atenção deve focar-se na entoação e nas pistas não-verbais. Se o “não sei” é acompanhado de um olhar vago, que se afasta do nosso e paira no vazio, podemos ver aí uma oportunidade de não dizermos nada e de deixar que o cliente entre no seu mundo emocional. Se esse encontro for produtivo, poderemos observar uma reação emocional, ou, pode acontecer que o hemisfério esquerdo se active indo em “socorro” do direito, tentando dar sentido à recente sensação. Aqui, o contacto visual e a comunicação verbal serão então restabelecidas e é provável que assistamos a um momento de descoberta, ou, pelo menos, ao abrir claro da porta.

Ao escutarmos “não sei”, teremos muitas vezes que tomar decisões rápidas sobre o que fazer (ou não fazer). Se estiverem reunidas as condições para que a melhor acção seja o silêncio, o terapeuta deve respeitá-lo, permitindo ao cliente encontrar-se com ele próprio e descobrir (-se) sentindo-se acompanhado e seguro nessa viagem.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta