O Agradável e o Desagradável

Com a dor normalmente agimos de uma de duas formas: ou fugimos dela a sete pés ou nos afundamos nela, tornando-a parte da nossa identidade. Torná-la parte do que nos define não é o mesmo que ficar com a dor que sentimos no momento, no presente. É ressoar com o Passado e projectá-la no futuro.

Ficar com a dor no presente é senti-la no corpo, chorá-la no agora e observar como se vai diluindo. É aperceber-nos que com o desagradável também coexiste o agradável, que este não deixa de existir. Duas faces da mesma moeda. E perceber que Sempre e Nunca são duas palavras que condicionam a forma como experimentamos o mundo e não são necessariamente verdadeiras.

Fica parte de uma história:

“Era uma vez um rei muito poderoso que governava um país distante. Ele era um bom rei. Mas o monarca tinha um problema: ele era um rei com duas personalidades. Havia dias em que ele se levantava exultante, eufórico, feliz . Desde o inicio do dia tudo lhe parecia maravilhoso. Os jardins do palácio pareciam mais bonitos. Seus servos eram simpáticos e eficientes. E tudo era bom. Nesses dias, o rei baixava os impostos, distribuindo riqueza, concedendo favores e legislando para a paz e bem estar de todos.

No entanto, havia outros dias, dias escuros. De manhã o rei percebia que queria ter dormido mais, mas quando se apercebia disso já era demasiado tarde e o sono já tinha fugido. Por mais esforços que fizesse, não conseguia entender por que seus servos estavam com um humor tão mau. O sol e a chuva incomodavam-no. A comida estava demasiado quente e o café muito frio. A ideia de ter pessoas no seu escritório agravava a sua dor de cabeca. Nesses dias, o rei pensava nos compromissos assumidos anteriormente e assustava-se ao pensar como iria cumpri-los. Nesses dias o rei aumentava os impostos.

Temendo o futuro e o presente, assombrado por erros do passado, naqueles dias legislava contra o seu povo e a palavra que mais utilizava era NÃO. Ciente dos problemas que essas mudanças de humor causavam, o rei chamou todos os sábios, assistentes e assessores de seu reino para uma reunião.

“Senhores “, disse-lhes“todos sabem das minhas mudanças de humor, todos beneficiaram com a minha euforia e se ressentiram com a minha raiva. Mas quem mais sofre sou eu, que num dia construo e no outro destruo porque mudo a forma de sentir as coisas. Eu preciso que vocês trabalhem em conjunto para obter um remédio, poção ou feitiço para que eu não seja tão absurdamente otimista que não veja os factos, nem tão pessimista que oprima e prejudique o que quero.”

Os estudiosos aceitaram o desafio e trabalharam durante semanas sobre o problema do rei. No entanto, foram incapazes de encontrar a resposta para os problemas do rei.

Naquela noite, o rei chorou.

Na manhã seguinte, um estranho visitante pediu audiência. Era um homem moreno e misterioso.

” Sua Majestade “, disse o homem , inclinando-se, “ouvi falar nos seus males e na sua dor. Trouxe-lhe um remédio. E, inclinando a cabeça , deu uma caixa de couro ao rei. O rei, meio surpreso e esperançoso, abriu-a e olhou para dentro da caixa.”

Tudo que eu tinha era um anel de prata .

” Obrigado “, disse o rei , animado “é um anel mágico?”

– Claro que é “ , disse o viajante, “mas sua magia age não só por usá-lo no seu dedo… Todas as manhãs, ao acordar, deve ler a inscrição que tem o anel . E lembre-se destas palavras, cada vez que olhar para o seu dedo anelar.”

O rei tirou o anel e leu em voz alta : “Você deve saber que isto também passará “

Adaptado de Jorge Bucay

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta

E Quando a Idade Avança?

O envelhecimento é um processo normal, universal, gradual e irreversível que envolve transformações ao nível biológico, psicológico e social.

Sabemos que há factores de predisposição genética que podem conduzir a uma demência mais ou menos precoce. Sabemos também que o declínio e a morte são inevitáveis, mas lutar e resistir é possível, bem como aprender a aceitar as perdas inerentes ao processo de envelhecimento.

Em determinadas situações, e em idades mais avançadas, a acumulação de limitações físicas e cognitivas diminui substancialmente a eficácia de estratégias compensatórias. Contudo, as intervenções dirigidas a, pelo menos, uma limitação, ou tendo em vista o impedimento da acumulação de fatores de risco, podem reduzir a velocidade do processo e o risco de institucionalização. De facto, parece haver uma convergência entre os investigadores, no sentido de procurar manter as pessoas idosas o mais tempo possível no seu ambiente preferencial, apoiadas por equipas multidisciplinares, com o intuito de lhes serem garantidas condições de autonomia. Há, no entanto, situações em que tal se torna impossível. Quando surge, então, um estado dedependência, caracterizado pela impossibilidade da pessoa manter a sua funcionalidade sem ajuda, e não havendo alternativas, poderá tornar-se necessária a institucionalização. As Instituições têm o dever de considerar o utente como prioridade e centro da mudança institucional, devendo ser a própria instituição a adaptar-se às necessidades dos seus clientes, numa perspetiva de preservar e recuperar capacidades e manter o bem-estar físico e psicológico durante o maior tempo possível, (nomeadamente através de programas específicos) respeitando as necessidades físicas e afectivas dos utentes.

Convém recordar que o ser humano é extremamente adaptável e que se essa adaptabilidade não lhe for solicitada, atrofia.

Assim, o melhor exercício é o da própria actividade cerebral, numa visão de que “a ampla utilização garante ampla funcionalidade”. Isto não significa que os meros exercícios de estimulação cognitiva, à semelhança dos exercícios físicos localizados, conduzam a essa ampla funcionalidade, uma vez que exercícios específicos para áreas isoladas, dificilmente podem ser transferidos para outras, pelo que será a diversidade da estimulação que ajudará a plasticidade neuronal.

“A função faz o órgão.” “Usa-se ou perde-se.”

Numa fase precoce da velhice, e em situações em que esta ainda não se faz acompanhar de dependência e em que a escolha autónoma é possível, o acompanhamento psicológico é de grande mais-valia. Se houver dificuldade em pensar em termos de uma Psicoterapia que conduza a grandes mudanças estruturais e comportamentais, pode-se com certeza pensar num processo facilitador da atribuição de novos significados e que conduza a novos esquemas e a processos de assimilação e acomodação mais adaptativos, promovendo assim, novas representações internas que ajudam a uma melhor aceitação da realidade presente e, que ao mesmo tempo, favorecem a emergência de novas redes de conexões neuronais. Todos estes processos podem desempenhar um papel importante na melhoria e/ou manutenção de bem-estar, através de uma maior pacificação consigo e com os outros. Certo é, que a investigação tem mostrado que se envelhece e morre melhor quando se vive melhor.

Quando a idade avança, é possível uma intervenção psicoterapêutica que possibilite novas interpretações e simbolizações sobre as inúmeras narrativas e vivências que se foram acumulando ao longo da vida, e que possibilite ainda, revisitar afectos, activar memórias gratificantes e experienciar emoções que ajudem a enriquecer e reflorescer o momento presente. É pois, possível e desejável investir num processo que vale a pena.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta