Querer é Poder – Motivação em Psicoterapia

Querer é Poder, diz a sabedoria popular. Efectivamente, faz parte do senso comum a ideia de que o alcance de metas ou objectivos pessoalmente significativos depende em larga medida de factores motivacionais, ou seja, que a motivação é um factor de sucesso para qualquer processo de mudança.

Mas, então, de que falamos quando falamos de motivação? Referimos-nos a uma disposição do indivíduo para agir de forma dirigida a metas que valoriza. No entanto, esta não é uma dimensão de tudo ou nada, em que uns bem-aventurados são abençoados por esta graça enquanto outros estão condenados a viver insatisfeitos com a sua situação presente mas sem a força motriz para iniciar a mudança desejada. Pelo contrário, trata-se de um composto de diferentes dimensões, passíveis de desenvolvimento e optimização.

Uma das dimensões importantes para a motivação é a insatisfação com o estado actual relativo às mais diversas matérias, sendo que só esse desejo de mudança possibilita e incentiva o esforço necessário para a alcançar. No entanto, podemos identificar diferentes motivos por que a pessoa deseja a mudança, sejam eles mais externos ou mais interiorizados. Por exemplo, comparemos um adolescente que ajuda os pais nas tarefas domésticas porque sabe que terá um reforço da sua mesada (motivo externo) com outro que ajuda nas tarefas porque gosta de ver a casa arrumada, isto é, que interiorizou as razões para a sua contribuição. Não é difícil imaginar o que aconteceria se o reforço externo – o aumento da mesada – desaparecesse, a participação muito provavelmente desapareceria no primeiro caso, enquanto no segundo não afectaria o comportamento do adolescente.

Este exemplo ilustra um dos princípios base da teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985), isto é, de que todo o comportamento humano pode ser compreendido como se enquadrando num contínuo entre a regulação externa ou motivação extrínseca e a autonomia, ou verdadeira auto-regulação, e que esta última é mais estável e duradoura e tem mais efeitos positivos sobre o bem-estar do que a regulação controlada pelo exterior.

De igual modo, quando alguém inicia um processo psicoterapêutico certamente é porque se encontra insatisfeito com alguma esfera da sua vida pessoal, seja ela na relação consigo mesmo ou com os outros. No entanto, os motivos para a sua insatisfação poderão ser externos – “Acho que não tenho nenhum problema com o álcool, mas a minha mulher já me ameaçou com o divórcio se não parar de beber” – ou internos – “Não consigo controlar o consumo de álcool o que só me tem trazido dissabores”. Daqui decorre que o trabalho a realizar no primeiro caso será explorar inicialmente motivos internos para a mudança, ou seja, perceber de que modo é que o consumo de álcool colide com valores centrais do indivíduo antes de encetar qualquer tentativa de controle do consumo, enquanto no segundo se poderá trabalhar mais rapidamente as estratégias para redução e/ou eliminação do consumo de álcool.

Efectivamente, uma das premissas da Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985) defende que na presença de determinadas condições de apoio, a motivação previamente controlada pelo exterior pode ser interiorizada e transformada em motivação autónoma. Então e que condições de apoio são essas? Os contextos que mais satisfazem as necessidades psicológicas do indivíduo são aqueles que mais apoiam o seu processo de interiorização.

 

Necessidades Psicológicas:

  • Relação: necessidade de experienciar uma ligação com os outros e de ter relações sociais satisfatórias e apoiantes;
  • Autonomia: necessidade de se sentir autónomo nas suas acções, em vez de se sentir controlado ou coagido a agir;
  • Competência: confiança nas suas aptidões e na capacidade de alcançar resultados.

 

Daqui decorre que o/a psicoterapeuta será tão mais eficaz no apoio ao desenvolvimento da motivação para a mudança quanto estabelecer uma relação de trabalho com a pessoa em que esta se sinta valorizada e a sua perspectiva do problema respeitada, em que se definam objectivos escolhidos pelo cliente e face aos quais identifique motivos internos para a mudança. Alcançadas estas duas etapas, poder-se-á então estimular a confiança e competência do próprio para mudar a sua forma de pensar, sentir e/ou agir de modo a ficar mais satisfeito na relação consigo, com os outros ou com o mundo que o rodeia.

 

Resumindo, em psicoterapia, a acção é filha do pensamento. É na relação terapêutica que se estimula a reflexão sobre o problema que o indivíduo tem em mãos e sobre os resultados que quer alcançar, para que a mudança, quando ocorra, seja afectiva e efectiva.

 

Inês Simões

A vivência saudável do luto (ou quando chorar faz bem)…

O luto é sofrimento, é a dor que uma pessoa sente na perda de alguém ou de alguma coisa que é fundamental para sua estabilidade. Esta perda pode corresponder não só à perda de um parente, de um cônjuge, um filho, um amigo, ou também uma doença, um trabalho, uma casa. É um choque no qual a pessoa perde a vontade de trabalhar, ou mesmo, de viver. O mundo de cores esmorece-se, como se o tempo parasse e se fixasse naquele acontecimento. O Luto, tal como outros traumatismos, pode ser vivido como algo insuperável, com a impressão de que o mundo vai desabar e um sentimento de grande desnorte.

Num luto, aparecem sentimentos tais como a tristeza, a raiva, a culpa, a ansiedade, a solidão, a fadiga e o desamparo.

Estes sentimentos não são sinais de doença.

O luto é uma reacção normal e adaptativa a uma situação de perda.

Segundo o investigador Bowlby, aqueles que evitam vivenciar o luto conscientemente, sucumbem à depressão ou pode desenvolver doenças psicossomáticas como eczemas, asmas, úlceras, dores de costas ou enxaquecas.

O registo cultural da sociedade ocidental não favorece a expressão dos sentimentos de dor. Antes estimula a pessoa voltar a vida normal o mais rápido possível. Ensina igualmente o controlo de si e a sofrer em silêncio sem mostrar os sentimentos.

Antigamente, existiam muitos mais rituais de luto. Os mais próximos reuniam-se, vestiam-se de preto e organizavam refeições de convívio. As pessoas falavam assim do desaparecido e em conjunto lembravam-se dos bons momentos passados juntos. Esses rituais possibilitavam voltar à vida social, profissional e afectiva de forma menos dolorosa, por terem tido a oportunidade de assimilar e evoluir na emoção da dor.

Na realidade, o luto não é um estado, mas um processo.

“Estar de luto” é estar fechado no sentimento de dor e de sofrimento, ou seja, é como viver na dor unicamente.

Mas, “fazer o luto” é estar num processo emocional que leva à aceitação de emoções.

Neste sentido, o autor John William Worden define 4 etapas de luto saudável que podem se tornar patológicas quando a pessoa em luto não as ultrapassa.

A primeira etapa é “aceitar a realidade da perda”. Muito frequentemente a dor é muito intensa e pode levar à entrada num estado de “negação”, em que há uma recusa da pessoa em acreditar no que está a acontecer. Neste caso, a psicoterapia ajuda a ultrapassar o estado de negação, aceitando o acontecimento.

Depois aparece a segunda etapa que é “elaborar a dor da perda”. Ora, nem todos vivem a dor com a mesma intensidade e pode se tornar difícil se a pessoa não a consegue identificar. Neste caso, a pessoa em luto usa estratégias como por exemplo parar o pensamento para não sentir, desenvolver pensamentos de desprazeres sobre a pessoa que morreu, ou mesmo, idealizar a pessoa que faleceu. A psicoterapia permite a pessoa aperceber-se da dificuldade em sentir. A pessoa consegue passar ao passo seguinte quando identifica a dor do luto que não é só emocional, mas também física e comportamental.

Na terceira etapa, a pessoa em luto tem que “se adaptar e ajustar ao meio ambiente”. Por ter perdido com a morte certos papéis que tinha anteriormente, a pessoa necessita de recriar um novo papel diante da sociedade. A pessoa pode desenvolver muitas dificuldades de adaptação e de ajuste ao novo meio ambiente. Para certos casos de lutos, a pessoa precisa igualmente de se ajustar aos valores fundamentais da vida. Todas estas dificuldades são trabalhadas na psicoterapia de forma que a pessoa possa passar para uma nova fase.

A última etapa é “deslocar a emoção”. Nesta fase, quando atingida, a pessoa consegue pensar e falar da pessoa que morreu sem dor. É um sinal que terminou o luto, não significando que a pessoa deixe de ter sentimentos de tristeza ou que tenha esquecido a pessoa que faleceu. Esta fase é igualmente trabalhada numa psicoterapia. O objectivo de ajudar a fazer o luto é que a pessoa não carregue esta dor para o resto da vida.

Por fim, uma nota acerca de como falar com uma pessoa que acabou de perder alguém.

Devem-se evitar comentários como; “vais ver, vais conseguir ultrapassar”, “vais voltar a fazer a tua vida”, “com o tempo tudo voltara ao normal”, “teve o seu tempo na terra”, “faz outra criança e vais ver que vais esquecer”. Estes comentários não ajudam, porque estão em contracorrente com a tristeza avassaladora que a pessoa em luto está a sentir.

Muitas vezes é melhor ficar em silêncio. A simples presença da família e dos amigos é já por si muito reconfortante. Se escolher falar, pode usar uma forma mais apoiante, em que opte por validar os sentimentos que estão a ser vividos: “É tão catastrófico que não tenho palavras, mas gosto muito de ti”.

A psicoterapia é de grande ajuda para a pessoa em luto.Esta tem a oportunidade aceitar a sua perda, entrar em contacto com a sua dor, elaborar acerca dela e redescobrir o seu lugar no mundo, em relação a si mesma e aos outros.

Magali Stobbaerts