Sobre a dor – I

Descartes dor

A dor é uma sensação desagradável que se pode tornar insuportável ou mesmo incapacitante para a pessoa que a sente. Quem tem uma dor, apercebe-se da importância da saúde. Só se tem consciência do corpo quando este dói. É o paradoxo do ser humano: ter consciência do seu corpo só quando este não tem saúde.

Em si, a dor não é má, é um sinal de alarme que nos protege de estímulos agressores. Ao tocarmos numa chama com a mão, a sensação de dor permite-nos retirar a mão do lume e não nos queimarmos. Esta reacção permite protecção e sobrevivência do ser humano. O antropólogo, David Le Breton, escreveu sobre a dor o seguinte: “a dor age como uma sensação que imprime um sentido e dá um sentido e uma informação útil à conduta do homem”. Assim, a dor é física e sensorial.

A medicina classifica a dor basicamente em duas categorias: a dor nociceptiva e a dor neuropática.A dor nociceptiva refere-se a uma função biológica uma vez que alerta o organismo do perigo. A dor neuropática advém de uma lesão ou de uma disfunção no sistema nervoso.

Distinguem-se ainda a dor aguda da dor crónica. A dor aguda é repentina e localizada, por exemplo sentir uma dor de queimadura na mão ao se ter aproximado do fogo. Por outro lado, a dor é crónica quando persiste no tempo e não é facilmente aliviada. A dor crónica pode ir e voltar ou mesmo ser constante. É o caso de quem tem dores de cabeças desde da sua adolescência ou de pessoas mais velhas que possuem dores de coluna. A maior parte das dores agudas duram pouco tempo e têm habitualmente tratamentos eficazes. Mas quando subsistem no tempo, geralmente com menor intensidade, tornam-se crónicas e, muitas vezes, resistentes aos tratamentos farmacológicos – é nessa altura que os médicos aconselham os doentes a aprender a viver com a dor.

No último século, numa cultura que registou um progresso tecnológico vertiginoso em que proliferam analgésicos, antidepressivos e técnicas cirúrgicas cada vez mais apuradas, a dor foi cada vez mais demonizada e desaprenderam-se as estratégias de “coping” (lidar) com a dor. A nossa sociedade vive a dor com aversão, como se o ser humano fosse de todo incapaz de a tolerar. Esta aversão é, em si própria, um obstáculo para quem procura adaptar-se a uma situação de dor crónica.

A dor crónica carece de valor biológico sendo destrutiva do ponto de vista físico, psicológico e social. Só por si, a dor pode causar na pessoa perturbações do sono, torná-la mais irritável, depressiva, desesperada, impotente ou capaz de gerar um sentimento de perda de controlo sobre o seu corpo ou mesmo criar ansiedade. Desta forma, a dor crónica afecta de forma determinante a qualidade de vida.

A dor é um conceito que procura a sua definição desde há muitos séculos. Com Descartes, a dor era definida como a sensação da maquinaria corporal. Aliás, o desenho acima, realizado por ele, mostra o percurso da dor sentida na mão até ao cérebro e a volta da decisão de retirar a mão. Este conceito evoluiu dando nascimento a outros conceitos sobre a dor.

Nos anos 70, o conceito de dor é definido pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (International Association for Study of Pain – IASP) da seguinte forma: “A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou não a lesão real ou potencial dos tecidos, ou descrita em função dessa lesão. A dor é subjectiva. Cada individuo aprende a aplicar o conceito dor a partir das suas experiências traumáticas infantis. Ainda que se trata de uma sensação em uma ou mais partes do corpo, ao ser sempre de carácter desagradável pressupõe uma vivência emocional associada.” Esta definição decreta que a dor é subjectiva.

Já Aristóteles definiu a dor como uma forma de emoção. O autor do “Miniatlas sobre a dor” (2007), Dr. Luis Raúl Lépori, refere que “a dor caracteriza-se não só com os aspectos físicos como psicológicos. Trata-se de uma experiência que não é reprodutível, uma vez que é íntima e intransmissível embora comunicável. Portanto é uma experiência multidimensional, somato-sensitiva, psicológica e sócio-cultural. “ Assim, embora a dor seja um conceito essencialmente fisiológico, ela possui uma noção psicológica.

De facto, a intensidade da vivência dolorosa depende, em muito, da forma como se vive a dor. A dor diferencia de intensidades conforme as circunstâncias. Se decidirmos focar a nossa atenção na dor, se dramatizarmos a vivência da dor, esta torna-se mais intensa. Assim a dor pode ser ínfima ou trágica independentemente da lesão.

Segundo Le Breton, não existe dor sem sofrimento. Uma pequena dor pode gerar grande sofrimento. No sofrimento estão subjacentes os pensamentos e as emoções associados à vivência da dor. Pode apresentar-se sob várias formas: condenação daquilo que se fez, falta de confiança em si próprio, culpabilidade, remorsos, ansiedade, perda, luto, humilhação ou desespero, para citar algumas.

Frequentemente a pessoa chegou ao fim da linha das suas estratégias de “coping” e das intervenções farmacológicas eficazes – já experimentou tudo que está ao seu alcance e nada mais funciona. Está como que bloqueado, centrado unicamente na vivência da dor, incapaz de dar valor às restantes dimensões satisfatórias e realizadoras da sua vida.

São todas estas razões que levam uma pessoa a fazer uma psicoterapia.

Um dos principais objectivos da psicoterapia é o de promover uma integração adequada das dimensões físicas e psíquicas da dor.

Não perca tempo e peça ajuda em caso de dor física ou em caso de sofrimento.

dor

               (Continua…)

 Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta

A vulnerabilidade sentida com o “Nunca tinha pensado nisto!?”

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É comum ouvir em terapia “Nunca tinha pensado nisto!?” que agora me diz ou faz ver. Algumas pessoas acham mesmo que eram “burras”, “limitadas” ou “tapadas” por não conseguirem VER as coisas de outras formas como na ocasião a/o terapeuta lhe devolve, e ficam, de certa forma, incomodadas com a sua incapacidade para ter perspectivado aquilo. Talvez isto seja incomodativo por ser inerentemente experiencial, implicar quase sempre a perda da noção de si próprio e resultar na emergência de uma noção de si diferente da que se conhecia até ao momento.

Sabemos que às coisas novas acresce risco emocional e incerteza (i.e. vulnerabilidade) e também sabemos que, por norma, o conhecimento das coisas traz mais tranquilidade. As pessoas que ficam mais vulneráveis com o “Nunca tinha pensado nisto!?” parecem ser mais resistentes à clareza do que é agora conhecido. Talvez porque os “nuncas” nascem de falsas certezas e deitam por terra essas mesmas certezas ou dogmas ficando-se, assim, sem chão para se ler e se guiar no mundo. A “pancada” do dar-se conta é integrada na pessoa e fá-la sentir, no aqui e agora, coisas novas que a lançam num novo posicionamento existencial de si no mundo. Certamente que isto pode implicar sentir-se vulnerável pois a posição fixa do NUNCA vai sendo substituída por uma outra, a da FLEXIBILIDADE e sob a forma do pode ser.

Para enfrentar este risco torna-se necessária CORAGEM traduzida num peito aberto ou abrir do coração. Assim se conhecem e enfrentam os meandros das nossas vulnerabilidades e a terapia é por excelência um espaço em que estas se descodificam mas com a grande vantagem de ter outro peito aberto à sua disposição para o revezar, caso fique mais inseguro em conhecê-las.

Os momentos mais preciosos em terapia são conseguidos com esta parceria humana de alguém que o ajuda a VER-SE melhor porque se vão mapeando e trabalhando as nossas vulnerabilidades e os nossos recursos. Por isto, VER para mim pode ser expresso em V(verdade) E(experiencial) R(resiliente), porque aquilo que é mais genuíno/verdadeiro entre dois seres humanos gera Confiança, um dos mais poderosos antídotos do medo e um dos maiores aliados do desejo e do amor, por nós e pelos outros.

Rita dos Santos Duarte