Somos como somos ou podemos mudar?

Somos como somos E podemos mudar.

Somos? ou vamos Sendo?

Somos E vamos Sendo.

Somos um conjunto de aspectos mais ou menos estruturais, comuns a uma espécie, a uma génese, a uma herança genética e cultural/ambiental.

E

Vamos Sendo um conjunto de processos dinâmicos, dialeticos de interacções constantes com o meio em que estamos inseridos (afectivo/relacional, social, cultural). que interaje constantemente com os traços próprios de quem somos e de quem nos vamos construindo.

Somos uma obra única e em constante mutação, que, à medida que se vai desenvolvendo vai acrescentando novos materiais, uns por necessidade, outros porque se nos colam… E, outras vezes vai prescindindo de materiais iniciais, uns porque já não fazem falta, outros por que nos foram sonegados. Há assim potencializações e despotencializações constantes, que afectam o nosso processo de auto-construção e dos quais nem sempre estamos conscientes.

Independentemente do que somos e trazemos connosco à nascença, tudo o que vamos sendo depende da nossa interacção com todos e tudo o que nos rodeia. Essas tensões e distensões provocadas pelas diversas forças que operam no processo de auto-construção nem sempre são claras ou lógicas, e muitas vezaes são contraditórias e causam sofrimento. São fruto de inúmeros e complexos processos Psicológicos.

A escuta das nossas emoções primárias (surpresa, medo, zanga, tristeza, alegria, nojo) e a atenção ao diálogo que estabelecemos com elas (ou que outros estabeleceram com elas) e ao que conduziram secundariamente, são essenciais para nos podemos compreender e construir de forma equilibrada e satisfatória.

A desregulação emocional não está na desordem/desequilíbrio ocasional, que faz parte do processo dinâmico dialético que é a vida, e que ocasionalmente, nos é tão necessária para uma reordenação e reorganização interna, mas apenas em traços extremos, inadaptativos, inflexíveis e/ou causando sofrimento contínuo, que impedem o reencontro com o equilíbrio.

O que fomos absorvendo, o que se nos foi “colando” e o que fomos prescindindo, sem querermos, sem nos apercebermos, ou, porque nos foi útil/inútil em determinada altura, deve ir sendo filtrado ou recuperado, para podermos tomar posse de quem vamos sendo, de uma forma mais consciente e livre, pois afinal, somos o que somos, em constante mutação e somos possuidores de um enorme potencial de mudança e adaptação.

A responsabilidade de sermos livres e nos sentirmos realizados é nossa. Contudo, esta tarefa nem sempre é fácil e é natural que requeira ajuda profissional num momento ou noutro das nossas vidas. Ir esculpindo o nosso Ser é obra nossa.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Quais os tratamentos disponíveis? É possível prever as crises?

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Parte III

Quais os tratamentos disponíveis ?

 

O tratamento da Doença Bipolar é essencialmente farmacológico e estão indicados, como tratamento de eleição, os estabilizadores do humor.

No tratamento de fase aguda são usados medicamentos que podem, no curto prazo, aliviar os sintomas, tanto do pólo maníaco como do pólo depressivo.

Na fase aguda podem usar-se medicamentos chamados de antipsicóticos. Estes medicamentos são também anti-maníacos, isto é, são medicamentos que combatem sintomas psicóticos quando estes existem, mas também reduzem sintomas do pólo maníaco, ou seja, melhoram rapidamente os estados de euforia, ansiedade, irritabilidade e insónia.

Existem também medicamentos que podem combater os sintomas depressivos, os quais, curiosamente, nem sempre respondem à medicação antidepressiva clássica. É mandatória a introdução de estabilizadores de humor em qualquer tipo e fase de Doença Bipolar que, embora menos eficazes na fase aguda serão de importância primordial na fase de manutenção, em que se pretende evitar, tanto quanto possível, o fenómeno da recorrência, ou seja, as recaídas.

Por vezes existem formas de Doença Bipolar muito graves, que não melhoram com os medicamentos e que, em casos muito seleccionados podem melhorar muito com a terapia por estimulação eléctrica do cérebro, conhecida por Electroconvulsivoterapia. Há inúmeros mitos e preconceitos acerca deste tratamento, como sendo muito violento e até desumano! Trata-se de facto de um tratamento muito seguro, feito com anestesia geral, que tem menos efeitos secundários que o tratamento com medicamentos, e que se pode traduzir numa grande melhoria clínica de pacientes que, de outra forma, não teriam qualquer tratamento eficaz disponível.

Por outro lado, além dos tratamentos médicos acima descritos, pode ser extremamente útil um tratamento psicológico ou Psicoterapia, a qual pode abordar diferentes problemas. Pode ser útil para ajudar a pessoa a quem foi diagnosticada Doença Bipolar a reorganizar a sua vida, a adaptar-se à sua doença e a reconstruir uma vida funcional e produtiva. Por outro lado, muitos pacientes mantêm sintomas depressivos, mais suaves, apesar do tratamento médico adequado, e a Psicoterapia pode ser muito benéfica nestes casos. Pode ainda ajudar os pacientes a desenvolver formas eficazes de gerir o stress e resolver problemas stressantes.

De salientar também a importância de implementar uma estratégia educacional, em que se promove a adesão do paciente ao tratamento médico e se ajuda o paciente a identificar precocemente os sinais de recaída.

É possível prever as crises?

Não é possível prever uma crise de Doença Bipolar. No entanto, sabe-se que existem factores que podem desencadear um episódio de Doença Bipolar, sendo assim possível diminuir o risco duma recaída, com base no conhecimento desses mesmos factores precipitantes. Sabe-se que o abuso de álcool e de certas substâncias ilícitas (vulgo, drogas) pode desencadear quer uma crise depressiva, quer uma crise maníaca. Também acontecimentos de vida stressantes (perda do emprego, luto na família) podem desencadear recaídas depressivas.

Por outro lado, a supressão do sono (voo de longo curso em que não foi possível dormir) e/ou alterações drásticas do ritmo de sono-vigilia podem precipitar episódios maníacos.

Há ainda factores orgânicos que podem favorecer a ocorrência dum episódio maníaco (hipertiroidismo, níveis de ácido úrico aumentados no sangue, traumatismo craniano, deficiência em Vitamina B 12, entre outros). Certos medicamentos ou substâncias podem também desencadear crises depressivas (medicamentos para a hipertensão, para o colesterol, alguns antibióticos, p. ex.) ou episódios maníacos (cafeína, cocaína, estimulantes, álcool, antidepressivos, broncodilatadores, entre outros).

Por fim, um dos desencadeantes mais frequentes de recaídas da Doença Bipolar é o não cumprimento rigoroso da medicação prescrita pelo médico psiquiatra.

Com base no conhecimento destes factores, é possível elaborar um plano de vida mais saudável que permita evitar ou prevenir a ocorrência e/ou influência destes desencadeantes, sendo que a Psicoterapia pode ajudar a pessoa a desenvolver estratégias de redução do stress e aptidões para a solução de problemas stressantes.

No entanto, não sendo possível antecipar ou prever uma crise de Doença Bipolar pode, no entanto, estar-se atento aos primeiros sinais de uma crise: por exemplo, a perda de sono é um dos mais importantes sinais de recaída de Doença Bipolar, tanto num episódio maníaco como num episódio misto, bem como o aparecimento de grande irritabilidade.

Por outro lado, a sensação interna de “aceleração”, de ter os pensamentos a “mil à hora”, o discurso mais acelerado, a menor capacidade de concentração, o iniciar várias tarefas que ficam por terminar, podem também ser sinais precoces de descompensação. Nestes casos, antecipe imediatamente a consulta com o seu médico. Um ajuste na sua medicação pode “abortar” uma crise ou atenuar a sua intensidade.

Se for familiar do paciente, o que pode fazer?

Deve encorajá-lo a recorrer ao médico logo que possível. Por vezes, quer as recaídas depressivas, quer as recaídas maníacas, podem apresentar sintomas que sugerem um corte com a realidade. Frequentemente, os pacientes com sintomas psicóticos perdem a capacidade para compreenderem que estão doentes e podem até recusar assistência médica.

Nestes casos, os familiares devem contactar o médico psiquiatra assistente ou, caso o paciente não tenha já seguimento médico, poderão recorrer ao Serviço de Urgência do hospital da sua residência e pedir para falar com o médico psiquiatra de serviço, que os aconselhará sobre os passos a tomar para conseguir que o paciente receba assistência.

Nos casos mais graves, em que haja uma situação de risco grave para o paciente ou para terceiros, ou recusa em aceitar tratamento médico, pode ser necessário um internamento compulsivo. Nestes casos, pode promover-se o internamento do paciente contra sua vontade, quando este recusa terminantemente qualquer assistência médica.

A família do paciente deve ser incluída neste trabalho de informação e esclarecimento, na medida em que vão ser as primeiras pessoas a poder ajudá-lo quando tiver uma recaída.

Se você tiver um familiar com Doença Bipolar e não souber como ajudar, acompanhe o paciente a uma consulta e, com o consentimento do paciente, coloque as suas questões ao médico.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Psicólogo – bruxo ou vidente?

Pscólogo-bruxo ou vidente?

Não é raro, o psicólogo ser visto como um bruxo ou um vidente. No fim de contas, o psicólogo estuda os comportamentos das pessoas e mais facilmente pode prever de forma mais segura as consequências desses comportamentos em geral. No entanto, este conhecimento não quer dizer que seja um adivinho.
A psicologia faz parte do domínio da ciência humana desde século XIX. Como o nome indica, refere-se a ciência porque o conhecimento é adquirido através de estudos e de pesquisas que utilizam uma metodologia científica.
Deste modo, o psicólogo é formado para extrair da investigação, conclusões que orientam a sua prática profissional usando os melhores dados disponíveis. A isto chama-se: prática baseada em evidências.
O psicólogo estuda a forma de pensar, de sentir e de se comportar de um ponto vista científico e aplica estes conhecimentos para ajudar as pessoas a compreender, integrar, e modificar o seu comportamento.
Este conhecimento ajuda a antever as consequências dos comportamentos, mas não prevê o que quer que seja. Portanto, não se passa nada que possa ser visto como bruxaria ou com a utilização de uma bola de cristal que advinha o futuro e os factos escondidos do presente.

Afinal o que se passa numa sessão com um psicólogo, não sendo ele/ela um Adivinho?

Uma sessão de psicoterapia é um espaço privado e confidencial. Existem vários princípios específicos definidos pelo Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que dizem respeito à privacidade, confidencialidade, limites, utilização de registos, etc, que os psicólogos estão obrigados a seguir e partilhar com o paciente.
Neste espaço procura-se desenvolver um bom estabelecimento de relação entre o psicólogo e o cliente. Assim, a pessoa sentir-se-á suficientemente à vontade para exprimir o que mais a perturba e o que mais a faz ter uma vida, que até pode estar a ser disfuncional.
É também muito comum considerar a pessoa que vai ao psicólogo como uma pessoa maluca ou não normal.
”Maluco”- é definida pelo dicionário da Língua portuguesa (Porto Editora, 1998) como: ”um homem destituído de juízo, doido, idiota”. Ora, será que quem o é sempre, recorre ao psicólogo? Sabemos que quase nunca, ou apenas compulsivamente. E quem não o é, será que nunca sentiu um pouquito de tudo isso às vezes? Quem é sempre e totalmente normal? O que é ser uma pessoa normal?
Normal é ser conforme à norma ou à regra. Alguém estar normal significa essencialmente estar na média. Logo, torna-se relativo porque alguém pode considerar normal algo que para outro é visto como completamente não normal.
Os investigadores, Daniel Offer e Melvin Sabshin, definiram quatro tipos de normalidade: saúde, utopia, média e processo.
A normalidade na saúde é, para certos investigadores, definida como: A não existência ou presença manifesta de patologia. Ficando assim dividida a normalidade versus a patologia. Esta abordagem conceptual possui vantagens porque a doença é mais fácil de medir do que os estados positivos de saúde.
A normalidade como utopia refere-se ao critério de sucesso de um tratamento, esta aproximação é polémica entre as diferentes linhas terapêuticas.
A perspectiva da normalidade como média baseia-se no princípio matemático da curva em forma de sino, aplicado nos estudos do comportamento, tanto para a psicologia como para a física e a sociologia.
A visão da normalidade como processo corresponde à evolução temporal da pessoa, tendo em conta a sua maturidade ou etapas de vida, quase como se a patologia fizesse parte do quotidiano.
Estes tipos diferentes de normalidade apontam para quanto é difícil definir o conceito de normalidade.

Comemorou-se no dia 10 de Outubro, o dia mundial da Saúde Mental. Neste ano de 2015, a Ordem dos Psicólogos Portuguesa apontou para a questão da discriminação e estigma social ainda existentes que afecta 75% das pessoas com problemas de Saúde psicológica. Alertou ainda a respeito do auto-estigma que atinge quase todos estes indivíduos. O auto-estigma é o processo que a própria pessoa desenvolve nestas circunstâncias, sentindo vergonha, evitando outras pessoas, perdendo a credibilidade nas suas capacidades, sobretudo quando acreditam nos comentários desqualificadores dos outros
O lema da Ordem foi o seguinte:
«Os problemas de Saúde Psicológica não definem quem somos ou o que podemos fazer. Não são a nossa vida. Não são a nossa história. Apenas parte dela. Como outros problemas, têm solução. Não tenha medo de falar. Procure ajuda. Um Psicólogo pode ajudar».
Quem toma a decisão de fazer uma psicoterapia não é disfuncional nem marginalizada pela sociedade. A pessoa, por vezes, poderá ter apenas um problema existencial, e a psicoterapia vai ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida. Contudo, a opção por este processo, leva necessariamente a um maior desenvolvimento pessoal.
A maioria das pessoas, que inicia uma psicoterapia, acredita que é da responsabilidade do psicólogo resolver as suas dificuldades, quase como se fosse magia. Ora, a função do psicólogo é a de ajudar a pessoa a encontrar a sua própria solução e caminho.
Aquele que toma a decisão de trabalhar sobre si-mesmo, é aquele que procura interrogar-se sobre a forma como viver melhor a sua vida. A partir desse momento, irá estar mais atento a si, e a como os acontecimentos que o rodeiam, o afectam ou não.

Segundo o padre jesuíta psicólogo e psicoterapeuta, Anthony de Mello, existe um caminho para sair do sofrimento que é do desapego pela consciencialização do discernimento. Sair deste sofrimento é descobrir o que o provoca, ou seja, é o tomar consciência dos apegos. No seu livro “Awareness” (consciência) de 1990 escreve que se a pessoa estiver pronta a escutar, e a pôr-se em questão, observando-se, será esse então o caminho do despertar.
Sendo um acto essencialmente espiritual aplica-se também à psicologia pela tomada de consciência. O desapego, não significa apatia nem frieza para com as coisas, mas apenas algum distanciamento para permitir uma tomada de consciência activa que emana uma força para a acção. O discernimento é o acordar do coração, acto de ver, compreender e experienciar.
Bom Desenvolvimento Pessoal.

Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta e professora de Yoga

Psicoterapia corporal

corpo e mente

Introdução

 A psicoterapia desenvolveu-se imenso nestes últimos anos com as distinções entre emoções cognições e sentimentos deixando de lado a valência do corpo. Deste modo, a parte corporal não acompanhou com o mesmo progresso.

Tanto a minha formação em psicologia cognitiva e integrativa como na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen permitiram-me tomar consciência de que certos conhecimentos sobre as posturas corporais podem ajudar, concretamente, pessoas em sofrimento.

Acredito que uma psicoterapia englobando tanto as cognições e emoções como o corpo é uma forma de terapia mais integrativa e holística para o ser humano.

A aprendizagem corporal possibilita uma tomada de consciência que é um primeiro passo para a cura. Essa aprendizagem corporal torna-se assim um meio terapêutico.

As diferentes psicoterapias existentes estão preocupadas com o funcionamento da psique, isto é, como uma pessoa se sente e se representa. A psique refere-se ao acesso explícito ou implícito: Explícito através da comunicação verbal entre uma pessoa e outra, como o psicólogo, e implícito, na forma como se sente na relação.

No entanto, as psicoterapias corporais veiculam uma experiência de um “saber fazer” que possui milhares de anos. As investigações científicas ainda não investiram neste domínio. As psicoterapias corporais utilizam em geral o acesso explícito. As técnicas corporais são aproveitadas no sentido de reforçar o diálogo, sendo o corpo a ferramenta de comunicação.

De forma a explicar melhor esta perspetiva, vou fundamentar primeiro a valência da cognição e depois a valência do corpo.

  

Cognição:

As investigações na área da ciência cognitiva e neuropsicologia por António Rosa Damásio, médico neurologista formado na faculdade de Lisboa, actualmente professor de Neurociência na University of Southern California, relevam factos que constituem as ideias dos livros “O Sentimento de si” (2000) e “ Ao encontro de Espinoza” (2004). Os resultados destas observações permitiram clarificar as emoções e os sentimentos como se pode notar na Figura 1. As emoções são exteriorizadas e os sentimentos são interiorizados. Desta forma, as emoções são literalmente “corporalizadas” pois as emoções estão intimamente ligadas às sensações. O sentimento sucede quando a pessoa toma consciência da emoção, e se apega a ela de forma estável.

Damasio

 Corpo: 

Quanto à experiência milenar de um “saber fazer” da parte corporal, vou citar apenas 3 livros que considero fundamental para a psicoterapia corporal:

1 Tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali

O tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali, transcrito no seculo III ao IV depois da era comum, é considerado o texto mais fundamental do Yoga clássico, e transmite a importância do trabalho com o corpo. Embora o Yoga seja conhecido por todos como sendo uma prática corporal, mais do que isso o Yoga é uma das grandes linhas do pensamento indiano, mais concretamente de uma escola (“darshana”) de filosofia clássica Hindu. Um aforismo desta obra é o Yoga-Sutra I.2: “Yogash chitta vritti nirodha”, “o Yoga é a interrupção da atividade automática do mental.” (Françoise Mazet (1991)). A interpretação deste aforismo destaca a ligação directa da mente ao corpo.

2 “Hara, centro vital do Homem”, Karfrief Graf Durkheim

O autor Karfrief Graf Durkheim e o seu livro “Hara, Centro vital do homem” é referido em actividades como o Aikido. O conceito, “Hara”, baseia-se essencialmente no centro de gravidade do corpo situado ao nível do ventre. Segundo as palavras deste autor, “não é suficiente aperceber-se inconscientemente da existência do centro vital, tem que se conseguir igualmente sentir conscientemente o significado do centro de gravidade adequado, e esta experiência influência então conscientemente a nossa atitude”.

Segundo o autor, o ser humano tem naturalmente essa sensação de “Hara”, no entanto, o autor alerta para o facto de que o mais importante é sentir conscientemente o significado, ou seja, é como se só através da consciêncialização desta sensação se tornasse possível ter uma atitude correcta perante a vida. Esta passagem aponta para a ligação directa entre a sensação corporal e a consciência.

  1. “Esprit zen, esprit neuf” do autor Shunryu Suzuki

Existem outras actividades como a meditação, por exemplo o Zazen, que, similarmente, salientam a noção da consciência do momento presente. O autor Shunryu Suzuki do livro chamado “Esprit zen, esprit neuf” (1977), escreve o seguinte: “O nosso pensamento deveria ser concentrado. Isto é, deveria conseguir a consciência do momento presente”. Esta citação estabelece que estar consciente é estar concentrado no aqui e agora procurando não ser perturbado pelos pensamentos passados ou futuros, apenas tentar estar no presente.

Todas estas referências, tanto da época dos Vedas como actualmente das observações de António Damásio, perspetivam o corpo como um meio de trabalho e acentuam que a noção de consciência é essencial.

A psicoterapia corporal procura aceder às dificuldades da pessoa primeiro de uma forma implícita e em seguida explícita. Primeiro a pessoa descobre por ela própria que tipos de emoções ou pensamentos lhes transmite o corpo (implícita). Posteriormente, a pessoa comunica ao outro (explícita). A intervenção focaliza-se então na tentativa de mudança, no sentido de se sentir melhor ao conseguir regular melhor a situação actual e a descobrindo para onde se poderá encaminhar

Desta forma, a psicoterapia engloba tanto as cognições como o corpo. Para facilitar a compreensão, desenhei um esquema que mostra como as três dimensões estão interligadas e fazem parte de um todo. (Figura 2)

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 Quais são as técnicas usadas para chegar a este objectivo?

Nesta perspectiva, é importante criar uma ponte entre a mente e o corpo facilitando a tomada de consciência das emoções, possibilitando uma escuta do corpo. É fundamental permitir que surjam e fluam as emoções sem medo, sem bloqueá-las e sem escondê-las. A proposta é utilizar o corpo como instrumento de trabalho para atingir as diferentes noções que vão ajudar a pessoa em sofrimento.

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A minha forma de atingir este objectivo é o uso da minha experiência na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen. Portanto, refere-se tanto a posturas (ver as Figuras 3 a 7) como a movimentos.

Para atingir as emoções, procura-se aproximar a pessoa do seu conhecimento corporal mais subtil. Ao referir a noção de subtil, refiro-me essencialmente à consciência da importância da respiração, contração e descontração, entre outros.

As agitações mentais são todos os tipos de pensamentos e emoções que interrompem ou perturbem a consciência do estar no presente. Estas agitações também afetam o corpo e, consequentemente todos os comportamentos da pessoa.

A ideia é tomar consciência do impacto destas perturbações, e conseguir mais facilmente prevenir e tomar medidas que permitam acalmar a mente e o corpo. Deste modo, a pessoa vai melhorar a gestão das suas preocupações, aumentando o seu sentir bem. A descoberta destas ferramentas para muitas pessoas e crianças, nomeadamente ansiosos, ajudá-las-á a viver melhor o seu quotidiano. Tomar consciência das emoções sofridas é um primeiro passo para a cura porque ajuda a avançar para uma futura mudança. Desta forma, a pessoa liberta-se progressivamente do sofrimento do qual não consegue sair. Este caminho vai ao encontro de uma psicoterapia em que a pessoa se aproxima do seu “Ser”.

Referências

– António Rosa Damásio, (2000). “O Sentimento de si”, Publicações Europa-América.- – – António Rosa Damásio, (2004). “Ao encontro de Espinoza”, Publicações Europa-América.

–  Françoise Mazet (1991).“Yoga Sutras”, Patanjali, Tradução do sânscrito e comentários, Albin Michel, “Le yoga est l’arrêt de l’activité automatique du mental”, p. 20.

– Karfrief Graf Durkheim, (1974).“Hara, Centre vital de l’homme”, Le Courrier du Livre, Paris,”Il ne suffit pas de percevoir inconsciemment l’existence du centre vital, il faut également avoir ressenti la signification du centre de gravité juste et cette expérience influe alors conscienmment sur toute notre attitude.” p. 63.

– Shunryu Suzuki (1977).“Esprit zen, esprit neuf”, Editions du Seuil, Inédit Sagesses, “Notre pensée devrait être concentrée. C’est cela la conscience présente.” p. 145.

Magali Stobbaerts -Psicoterapeuta e professora de Yoga

E Quando a Idade Avança?

O envelhecimento é um processo normal, universal, gradual e irreversível que envolve transformações ao nível biológico, psicológico e social.

Sabemos que há factores de predisposição genética que podem conduzir a uma demência mais ou menos precoce. Sabemos também que o declínio e a morte são inevitáveis, mas lutar e resistir é possível, bem como aprender a aceitar as perdas inerentes ao processo de envelhecimento.

Em determinadas situações, e em idades mais avançadas, a acumulação de limitações físicas e cognitivas diminui substancialmente a eficácia de estratégias compensatórias. Contudo, as intervenções dirigidas a, pelo menos, uma limitação, ou tendo em vista o impedimento da acumulação de fatores de risco, podem reduzir a velocidade do processo e o risco de institucionalização. De facto, parece haver uma convergência entre os investigadores, no sentido de procurar manter as pessoas idosas o mais tempo possível no seu ambiente preferencial, apoiadas por equipas multidisciplinares, com o intuito de lhes serem garantidas condições de autonomia. Há, no entanto, situações em que tal se torna impossível. Quando surge, então, um estado dedependência, caracterizado pela impossibilidade da pessoa manter a sua funcionalidade sem ajuda, e não havendo alternativas, poderá tornar-se necessária a institucionalização. As Instituições têm o dever de considerar o utente como prioridade e centro da mudança institucional, devendo ser a própria instituição a adaptar-se às necessidades dos seus clientes, numa perspetiva de preservar e recuperar capacidades e manter o bem-estar físico e psicológico durante o maior tempo possível, (nomeadamente através de programas específicos) respeitando as necessidades físicas e afectivas dos utentes.

Convém recordar que o ser humano é extremamente adaptável e que se essa adaptabilidade não lhe for solicitada, atrofia.

Assim, o melhor exercício é o da própria actividade cerebral, numa visão de que “a ampla utilização garante ampla funcionalidade”. Isto não significa que os meros exercícios de estimulação cognitiva, à semelhança dos exercícios físicos localizados, conduzam a essa ampla funcionalidade, uma vez que exercícios específicos para áreas isoladas, dificilmente podem ser transferidos para outras, pelo que será a diversidade da estimulação que ajudará a plasticidade neuronal.

“A função faz o órgão.” “Usa-se ou perde-se.”

Numa fase precoce da velhice, e em situações em que esta ainda não se faz acompanhar de dependência e em que a escolha autónoma é possível, o acompanhamento psicológico é de grande mais-valia. Se houver dificuldade em pensar em termos de uma Psicoterapia que conduza a grandes mudanças estruturais e comportamentais, pode-se com certeza pensar num processo facilitador da atribuição de novos significados e que conduza a novos esquemas e a processos de assimilação e acomodação mais adaptativos, promovendo assim, novas representações internas que ajudam a uma melhor aceitação da realidade presente e, que ao mesmo tempo, favorecem a emergência de novas redes de conexões neuronais. Todos estes processos podem desempenhar um papel importante na melhoria e/ou manutenção de bem-estar, através de uma maior pacificação consigo e com os outros. Certo é, que a investigação tem mostrado que se envelhece e morre melhor quando se vive melhor.

Quando a idade avança, é possível uma intervenção psicoterapêutica que possibilite novas interpretações e simbolizações sobre as inúmeras narrativas e vivências que se foram acumulando ao longo da vida, e que possibilite ainda, revisitar afectos, activar memórias gratificantes e experienciar emoções que ajudem a enriquecer e reflorescer o momento presente. É pois, possível e desejável investir num processo que vale a pena.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Mindfulness – Budismo e Psicoterapia – Actualização

Hoje, ao deambular pelo Medscape nos diferentes artigos acerca de mindfulness, apercebi-me de que já é absolutamente clara a eficácia de prática de Mindfulness quer na patologia depressiva, quer na patologia ansiosa, tendo-se provado eficaz em adultos mas também em crianças (*).

Resta alargar os estudos de eficácia a outras doenças afectivas (Doença Bipolar, p. ex.) e patologias não-afectivas (Psicose Esquizofrénica, Perturbação Delirante, p. ex.) e não me admiraria que revelasse benefícios importantes também nestas doenças.

É natural que se questione qual o mecanismo de eficácia do Mindfulness, mas a resposta só pode ser simples numa prática cujo fundamento é também supremamente simples e apenas um: estar atento e desperto no momento presente.

Não existem outros propósitos e não se pode decompor um fundamento tão simples como este.

É provável que por este mesmo motivo se revele transversalmente eficaz em todas as patologias e idades.

De facto, Mindfulness não trata especificamente qualquer patologia porque                    não é um tratamento.

Mindfulness aprofunda a consciência de si próprio, o encontro consigo próprio, com o Eu mais profundo, com o porto de abrigo mais recôndito que cada ser humano                  traz dentro de si.

Este encontro com o Eu é um encontro que se dá no silêncio da mente e que transcende o habitual ruído produzido pelo ego na manifestação sempiterna dos seus infindáveis dramas, das suas incessantes vitórias e outras tantas derrotas.

O mistério que sobra é este: como pode a prática da atenção consciente sobre o momento presente ter efeitos tão dramáticos sobre a depressão e ansiedade?

Porque de facto, Mindfulness não consiste num trabalho consciente sobre crenças disfuncionais, respostas emocionais desajustadas, reeducação do hiper-controlo, reconstrução da auto-estima, aquisição de competências para relações objectais mais saudáveis, aquisição de novos e mais adaptados estilos relacionais, entre outros objectivos específicos da psicoterapia.

Não. Nada disso.

Resta perguntarmo-nos de onde vem esta Paz que transcende todos os conflitos e resolve imperceptivelmente a inquietação humana?

Não me admiraria que nunca cheguemos a resposta alguma.

Porque nos deparamos com um paradigma fenomenológico não classificável como fenómeno psicológico sequer.

De facto, a consciência é o palco de toda a manifestação psicológica humana, é o pano de fundo de todos os autores da vida psicológica humana, é o substrato vivo onde se desenrola toda a vivência consciente dos fenómenos.

Mindfulness não se foca nos fenómenos mas apenas no aprofundar da consciência.

E a consciência é a única vivência permanente e imperecível do Ser.

Tudo o mais – pensamentos, emoções, e seus derivados mais complexos, como crenças, padrões de resposta emocional, estilos relacionais, entre outros – são sempre expressões efémeras, mais curtas ou mais longas, mas sempre efémeras e (eventualmente) mutáveis mediante trabalho consciente sobre a valência manifestada que se pretende modificar.

Ao fim de 2600 anos da presença do Mindfulness na humanidade – sendo possível que seja mesmo anterior a Buda – descobrimos que este método de aprofundamento espiritual da Consciência é misteriosamente eficaz.

Pela primeira vez surge um método proveniente duma disciplina espiritual milenar, que revela eficácia no alívio do sofrimento humano e que não se foca na modificação e reenquadramento das vivências psicológicas, mas antes no simples aprofundar da vivência Consciente.

É provavelmente que este mistério não venha nunca a ser desvendado.

Porque os mistérios, à semelhança da fenomenologia psicológica, pertencem ao reino da mente, e Mindfulness pertence ao reino do Ser.

Dr. João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

(*) – Artigos no Medscape sobre Mindfulness

Sobre a dor – I

Descartes dor

A dor é uma sensação desagradável que se pode tornar insuportável ou mesmo incapacitante para a pessoa que a sente. Quem tem uma dor, apercebe-se da importância da saúde. Só se tem consciência do corpo quando este dói. É o paradoxo do ser humano: ter consciência do seu corpo só quando este não tem saúde.

Em si, a dor não é má, é um sinal de alarme que nos protege de estímulos agressores. Ao tocarmos numa chama com a mão, a sensação de dor permite-nos retirar a mão do lume e não nos queimarmos. Esta reacção permite protecção e sobrevivência do ser humano. O antropólogo, David Le Breton, escreveu sobre a dor o seguinte: “a dor age como uma sensação que imprime um sentido e dá um sentido e uma informação útil à conduta do homem”. Assim, a dor é física e sensorial.

A medicina classifica a dor basicamente em duas categorias: a dor nociceptiva e a dor neuropática.A dor nociceptiva refere-se a uma função biológica uma vez que alerta o organismo do perigo. A dor neuropática advém de uma lesão ou de uma disfunção no sistema nervoso.

Distinguem-se ainda a dor aguda da dor crónica. A dor aguda é repentina e localizada, por exemplo sentir uma dor de queimadura na mão ao se ter aproximado do fogo. Por outro lado, a dor é crónica quando persiste no tempo e não é facilmente aliviada. A dor crónica pode ir e voltar ou mesmo ser constante. É o caso de quem tem dores de cabeças desde da sua adolescência ou de pessoas mais velhas que possuem dores de coluna. A maior parte das dores agudas duram pouco tempo e têm habitualmente tratamentos eficazes. Mas quando subsistem no tempo, geralmente com menor intensidade, tornam-se crónicas e, muitas vezes, resistentes aos tratamentos farmacológicos – é nessa altura que os médicos aconselham os doentes a aprender a viver com a dor.

No último século, numa cultura que registou um progresso tecnológico vertiginoso em que proliferam analgésicos, antidepressivos e técnicas cirúrgicas cada vez mais apuradas, a dor foi cada vez mais demonizada e desaprenderam-se as estratégias de “coping” (lidar) com a dor. A nossa sociedade vive a dor com aversão, como se o ser humano fosse de todo incapaz de a tolerar. Esta aversão é, em si própria, um obstáculo para quem procura adaptar-se a uma situação de dor crónica.

A dor crónica carece de valor biológico sendo destrutiva do ponto de vista físico, psicológico e social. Só por si, a dor pode causar na pessoa perturbações do sono, torná-la mais irritável, depressiva, desesperada, impotente ou capaz de gerar um sentimento de perda de controlo sobre o seu corpo ou mesmo criar ansiedade. Desta forma, a dor crónica afecta de forma determinante a qualidade de vida.

A dor é um conceito que procura a sua definição desde há muitos séculos. Com Descartes, a dor era definida como a sensação da maquinaria corporal. Aliás, o desenho acima, realizado por ele, mostra o percurso da dor sentida na mão até ao cérebro e a volta da decisão de retirar a mão. Este conceito evoluiu dando nascimento a outros conceitos sobre a dor.

Nos anos 70, o conceito de dor é definido pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (International Association for Study of Pain – IASP) da seguinte forma: “A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou não a lesão real ou potencial dos tecidos, ou descrita em função dessa lesão. A dor é subjectiva. Cada individuo aprende a aplicar o conceito dor a partir das suas experiências traumáticas infantis. Ainda que se trata de uma sensação em uma ou mais partes do corpo, ao ser sempre de carácter desagradável pressupõe uma vivência emocional associada.” Esta definição decreta que a dor é subjectiva.

Já Aristóteles definiu a dor como uma forma de emoção. O autor do “Miniatlas sobre a dor” (2007), Dr. Luis Raúl Lépori, refere que “a dor caracteriza-se não só com os aspectos físicos como psicológicos. Trata-se de uma experiência que não é reprodutível, uma vez que é íntima e intransmissível embora comunicável. Portanto é uma experiência multidimensional, somato-sensitiva, psicológica e sócio-cultural. “ Assim, embora a dor seja um conceito essencialmente fisiológico, ela possui uma noção psicológica.

De facto, a intensidade da vivência dolorosa depende, em muito, da forma como se vive a dor. A dor diferencia de intensidades conforme as circunstâncias. Se decidirmos focar a nossa atenção na dor, se dramatizarmos a vivência da dor, esta torna-se mais intensa. Assim a dor pode ser ínfima ou trágica independentemente da lesão.

Segundo Le Breton, não existe dor sem sofrimento. Uma pequena dor pode gerar grande sofrimento. No sofrimento estão subjacentes os pensamentos e as emoções associados à vivência da dor. Pode apresentar-se sob várias formas: condenação daquilo que se fez, falta de confiança em si próprio, culpabilidade, remorsos, ansiedade, perda, luto, humilhação ou desespero, para citar algumas.

Frequentemente a pessoa chegou ao fim da linha das suas estratégias de “coping” e das intervenções farmacológicas eficazes – já experimentou tudo que está ao seu alcance e nada mais funciona. Está como que bloqueado, centrado unicamente na vivência da dor, incapaz de dar valor às restantes dimensões satisfatórias e realizadoras da sua vida.

São todas estas razões que levam uma pessoa a fazer uma psicoterapia.

Um dos principais objectivos da psicoterapia é o de promover uma integração adequada das dimensões físicas e psíquicas da dor.

Não perca tempo e peça ajuda em caso de dor física ou em caso de sofrimento.

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               (Continua…)

 Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta