Amar-te-ei até me matares…

Firmino

Firmino entra no restaurante e diz um “Bom dia!” na sua voz afável e, naquele momento e ao mesmo tempo, seca e distante, olhando de relance, quase de soslaio, para os seus colegas:

“- Estes cabrões estavam a falar nas minhas costas…” – pensa ele enquanto entra para a divisão onde os empregados trocam de roupa e vestem a farda profissional.

“- É sempre a mesma merda, sempre a fazerem-me a folha, mas eu vou falar-lhes a bem, vou adoçar-lhes a boquinha para eles não perceberem que eu já os topei!”

Quando vai a sair, já vestido, volta-se para trás e revê-se no espelho comprido e alto que o patrão comprou:

“- Eu tenho que estar bem.” – pensa, com vaidade – “E lembra-te sempre: O teu patrão é o cliente! Sempre! Não o dono do restaurante…” – e corrige – “…dono do restaurante que, a bem dizer, é como se fosse um pai para mim…”

Frequentemente os colegas queixam-se ao patrão:

“- Ele é um anormal. Anda sempre desconfiado! Não lhe podemos dizer nada! O que quer que a gente diga, ele pega e leva para outro sentido! O homem tem pancada!”

“- Pancada têm vocês! Ele não faz mal a uma mosca! Não prestem atenção ao que ele diz! Vejam como ele trata os clientes! E aprendam com ele, isso sim! Cada um de nós tem a sua mania! A mania dele é andar desconfiado. Deixem-no em paz e não liguem. Vocês vêm aqui é para trabalhar e ele também. Fora as desconfianças ele é uma jóia de moço!”

Firmino, de alguma forma, nunca desconfiava dum cliente.

Tinha o dom de os tratar de tal forma que eles se sentiam especiais, únicos, sorria sempre e mantinha-se à distância para mostrar que estava atento e disponível mas que não queria incomodar:

“Os clientes vêm cá para comer e não para te aturar… Não é como os brochistas dos teus colegas que andam para aí a engraxar… É deixá-los sossegados… E só perguntas se está tudo bem ou se a comida está boa uma vez e quinze minutos depois de eles começarem a comer. E acabou! Quem pergunta duas vezes é porque é surdo ou burro, ou então graxista. Os clientes não gostam de graxistas!” – pensa para si próprio.

Firmino tinha orgulho na forma como servia e os clientes adoravam-no.

Homem de poucas falas, tinha sempre um sorriso para os clientes, uma palavra amável ou uma brincadeira para os animar.

“- Quero uma Coca-cola zero, por favor.”

“- Sem álcool portanto!” – dizia sorrindo para o cliente.

Desconfiava dos colegas, da própria mulher, às vezes do patrão, mas nunca dos dois filhos que tinha e muito menos dos clientes.

Ninguém conseguia perceber a lógica desta selecção – nem ele mesmo.

Na primeira vez que veio à consulta disse-me que a esposa fazia tudo para o matar sem que ninguém desse conta. Segundo ele, a esposa estava constantemente a tentar envenená-lo.

E disse-me:

“- Ela agora mandou pintar as portas da rua de verde! Aquilo é tinta que fede até dizer chega! E eu já percebi que aquela tinta é venenosa e que lá está ela a querer envenenar-me! Como o nosso quarto é perto da porta da rua, eu fui dormir para um quarto nos fundos e disse-lhe: Fica aí tu a dormir que a mim não me envenenas tu!”.

Esquecia-se Firmino da incongruência da esposa não querer dormir também noutro quarto, já que assim o dito veneno a iria matar ela.

No final duma longa entrevista, perguntei-lhe:

“- Sem ser este problema que o traz cá, você tem outras doenças?”

“- Oh, doutor! O caruncho já me começou a entrar nos ossos! Faço um medicamento para a tensão arterial e outro para o colesterol.”

“- E quais são?” – perguntei.

“- Ah! Isso não sei! Deixe-me só telefonar à minha mulher que ela é que sabe disso tudo!”

Para este efeito, de alguma forma, a mulher já não o quereria envenenar com os comprimidos para a hipertensão arterial ou para a hipercolesterolémia.

Bem ou mal, todos os adoravam: Filhos, clientes, patrão…

A esposa e os colegas estavam cansados de o aturar, mas reconheciam que, no fundo, “lá mesmo no fundinho” – como dizia um deles – o Firmino não era mau rapaz.

Com a esposa era muito mais cansativo – há mais de vinte anos que falavam quase por monossílabos – porque “Desculpe lá, doutor! Vá para lá você aturá-lo que até a pasta dentífrica ele esconde de mim!”.

Mas quando um deles ficava doente esfumavam-se “os filmes e as desconfianças” (sic) e “ia dormir para junto da cama do hospital se fosse preciso! Ora isto entende-se, senhor doutor? Num minuto eu ando a querer envenená-lo, no outro anda a chatear os médicos e os enfermeiros se eu andava a ser bem tratada no hospital! Ora isto faz algum sentido?”

Eram estas incongruências que traziam à luz que o Firmino tinha lá um cantinho muito escondido no qual ele sabia que as desconfianças e os filmes eram tudo “invenções da minha cabeça, será mesmo, senhor doutor?”.

Mas era um cantinho muito pequeno e muito escondido e suspeito que nem mesmo Firmino tinha consciência daquele cantinho.

Era por esse cantinho que brotava o amor.

O amor que tinha pela sua família e sobretudo pela esposa – algo que ele não compreendia nunca ter desaparecido – “Ora se ela me quer matar, como é que isto é possível, senhor doutor?”

“- Mas, Firmino… Você já diz isso há 20 anos e nunca nada aconteceu, certo?”

“- Olhe que não é assim, que eu uma vez tive um acesso de tosse que tive que ir para as urgências!”

“- Mas não morreu?” – insisti.

“- Claro que não, senão não estaria aqui a falar consigo,  ora !”

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E lá ia Firmino.

A iluminar as mesas dos clientes, como a maior vedeta do restaurante.

A amar como podia.

“- Doutor, antes da doença ele era um Príncipe!”

“- E agora não é porquê?” – devolvi à esposa.

Ela fez uma pausa de alguns segundos antes de me responder:

“- Continua a ser um príncipe. Mas não deixa de ser um chato!”

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

O Eu no nascimento de um filho

Falamos constantemente no filho sonhado, já imaginado como Ser antes de o ser, de como na nossa mente surgem imagens dos seus olhos, cor do cabelo, até de como será quando for grande.

Deseja-se e prepara-se um filho sonhando-o em casal ou nos momentos de quietude em que guardamos a imagem só para nós.

Podemos ter já a preocupação do que acontecerá ao casal enquanto relação a dois para além do trio que se forma, para além do pai e mãe que nascem. E possível e importante planear esta manutenção de espaço a dois, que será menor concerteza e aceitar que dentro do espaço família, ainda que numa fase inicial a indisponibilidade para se ser a dois seja maior, a dinâmica muda. Somos casal, somos pai, somos mãe e somos pais. As atenções, cuidados e amor estão muito direcionados, se não totalmente, para aquele que é o nosso bebé.

A par com todas estas mudanças de papéis, existe um lado prático. As tarefas multiplicam-se, o cansaço acumula-se, o tempo diminui e escapa. Podemos e devemos também preparar-nos para estes primeiros momentos mais exigentes, recorrendo a nossa rede de suporte, delegando tarefas, pedindo ajuda.

Quantos mais “tenho que fazer” conseguirmos delegar, mais tempo e espaço mental teremos para nos dedicarmos ao amor incondicional de cuidar do nosso bebé e de nos cuidarmos enquanto casal.

Contudo, falamos de papéis, de pai, mãe, casal. E o Eu? O que acontece ao Eu individual? O Eu que lia, que cultivava um certo desapego agora aparentemente impossível.

A mãe, não que não se depare com esta perda temporária de ser, existir individualmente, começa este processo de aceitação e partilha desde o momento em que o próprio corpo deixa de ser apenas dela. A adaptação a uma perda que será sempre temporária de se existir enquanto ser individual comeca 40 semanas antes do nascimento. Abdica da forma física, de vícios, de determinados alimentos e já não é só uma mas duas desde a concepção. O que não impede que sinta esta perda do Eu aquando do nascimento do filho, implica apenas que idealmente esta abdicação, espaço mental e emocional para o bebé já começou 9 meses antes.

O pai vive esta experiência de forma necessariamente diferente. Não significando que não partilha todas as fases da gravidez, que não tenha uma atitude empática, que não altere a sua rotina ou empenho no trabalho em prol da família alargada que se desenha, fá-lo de forma externa. O confronto com a perda do espaço individual ocorre aquando do nascimento do filho.

As solicitações e disponibilidade, a abdicação, o cuidar do bebé, a maior ajuda nas tarefas domésticas que se multiplicam, a par de um regresso a vida laboral que ocorre normalmente antes do da mãe, podem levar a um sentimento de opressão, de morte do Eu naquilo que era a sua liberdade individual de cumprir-se enquanto ser único.

Poder-se-a cumprir e realizar enquanto pai, marido, casal ou profissional. E tal pode ser suficiente e preenchê-lo. Todavia pode também conduzir a uma necessidade de fuga, de um regresso a um tempo e um espaço em que se era por si só, quando não há aceitação que esta é uma fase mais exigente e absorvente. Porque o sempre e o nunca são palavras perigosas e não reais. Porque a projeção no futuro de um espaço individual que nunca mais existirá oprimira qualquer um que se preze enquanto Eu.

Aceitemos então este momento de dedicação ao ser amado, acabado de nascer. E reencontrar-nos-emos depois enquanto ser individual nesta nova dinâmica, conciliando-o com todos os outros pápeis que desempenhamos. Porque a vida fluie e mudança e adaptação são constantes. E o Eu permanecerá e terá tempo e espaço. E é também na relação e na família que se trabalham e respeitam os espaços para se ser – Eu, Tu, o Pai, a Mãe, o Bebé, o Casal.

“Larga a pedra da margem do rio, a do que já foi e flui com a água para aquilo que é Agora, construindo o que será depois.”

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta