Psicólogo – bruxo ou vidente?

Pscólogo-bruxo ou vidente?

Não é raro, o psicólogo ser visto como um bruxo ou um vidente. No fim de contas, o psicólogo estuda os comportamentos das pessoas e mais facilmente pode prever de forma mais segura as consequências desses comportamentos em geral. No entanto, este conhecimento não quer dizer que seja um adivinho.
A psicologia faz parte do domínio da ciência humana desde século XIX. Como o nome indica, refere-se a ciência porque o conhecimento é adquirido através de estudos e de pesquisas que utilizam uma metodologia científica.
Deste modo, o psicólogo é formado para extrair da investigação, conclusões que orientam a sua prática profissional usando os melhores dados disponíveis. A isto chama-se: prática baseada em evidências.
O psicólogo estuda a forma de pensar, de sentir e de se comportar de um ponto vista científico e aplica estes conhecimentos para ajudar as pessoas a compreender, integrar, e modificar o seu comportamento.
Este conhecimento ajuda a antever as consequências dos comportamentos, mas não prevê o que quer que seja. Portanto, não se passa nada que possa ser visto como bruxaria ou com a utilização de uma bola de cristal que advinha o futuro e os factos escondidos do presente.

Afinal o que se passa numa sessão com um psicólogo, não sendo ele/ela um Adivinho?

Uma sessão de psicoterapia é um espaço privado e confidencial. Existem vários princípios específicos definidos pelo Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que dizem respeito à privacidade, confidencialidade, limites, utilização de registos, etc, que os psicólogos estão obrigados a seguir e partilhar com o paciente.
Neste espaço procura-se desenvolver um bom estabelecimento de relação entre o psicólogo e o cliente. Assim, a pessoa sentir-se-á suficientemente à vontade para exprimir o que mais a perturba e o que mais a faz ter uma vida, que até pode estar a ser disfuncional.
É também muito comum considerar a pessoa que vai ao psicólogo como uma pessoa maluca ou não normal.
”Maluco”- é definida pelo dicionário da Língua portuguesa (Porto Editora, 1998) como: ”um homem destituído de juízo, doido, idiota”. Ora, será que quem o é sempre, recorre ao psicólogo? Sabemos que quase nunca, ou apenas compulsivamente. E quem não o é, será que nunca sentiu um pouquito de tudo isso às vezes? Quem é sempre e totalmente normal? O que é ser uma pessoa normal?
Normal é ser conforme à norma ou à regra. Alguém estar normal significa essencialmente estar na média. Logo, torna-se relativo porque alguém pode considerar normal algo que para outro é visto como completamente não normal.
Os investigadores, Daniel Offer e Melvin Sabshin, definiram quatro tipos de normalidade: saúde, utopia, média e processo.
A normalidade na saúde é, para certos investigadores, definida como: A não existência ou presença manifesta de patologia. Ficando assim dividida a normalidade versus a patologia. Esta abordagem conceptual possui vantagens porque a doença é mais fácil de medir do que os estados positivos de saúde.
A normalidade como utopia refere-se ao critério de sucesso de um tratamento, esta aproximação é polémica entre as diferentes linhas terapêuticas.
A perspectiva da normalidade como média baseia-se no princípio matemático da curva em forma de sino, aplicado nos estudos do comportamento, tanto para a psicologia como para a física e a sociologia.
A visão da normalidade como processo corresponde à evolução temporal da pessoa, tendo em conta a sua maturidade ou etapas de vida, quase como se a patologia fizesse parte do quotidiano.
Estes tipos diferentes de normalidade apontam para quanto é difícil definir o conceito de normalidade.

Comemorou-se no dia 10 de Outubro, o dia mundial da Saúde Mental. Neste ano de 2015, a Ordem dos Psicólogos Portuguesa apontou para a questão da discriminação e estigma social ainda existentes que afecta 75% das pessoas com problemas de Saúde psicológica. Alertou ainda a respeito do auto-estigma que atinge quase todos estes indivíduos. O auto-estigma é o processo que a própria pessoa desenvolve nestas circunstâncias, sentindo vergonha, evitando outras pessoas, perdendo a credibilidade nas suas capacidades, sobretudo quando acreditam nos comentários desqualificadores dos outros
O lema da Ordem foi o seguinte:
«Os problemas de Saúde Psicológica não definem quem somos ou o que podemos fazer. Não são a nossa vida. Não são a nossa história. Apenas parte dela. Como outros problemas, têm solução. Não tenha medo de falar. Procure ajuda. Um Psicólogo pode ajudar».
Quem toma a decisão de fazer uma psicoterapia não é disfuncional nem marginalizada pela sociedade. A pessoa, por vezes, poderá ter apenas um problema existencial, e a psicoterapia vai ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida. Contudo, a opção por este processo, leva necessariamente a um maior desenvolvimento pessoal.
A maioria das pessoas, que inicia uma psicoterapia, acredita que é da responsabilidade do psicólogo resolver as suas dificuldades, quase como se fosse magia. Ora, a função do psicólogo é a de ajudar a pessoa a encontrar a sua própria solução e caminho.
Aquele que toma a decisão de trabalhar sobre si-mesmo, é aquele que procura interrogar-se sobre a forma como viver melhor a sua vida. A partir desse momento, irá estar mais atento a si, e a como os acontecimentos que o rodeiam, o afectam ou não.

Segundo o padre jesuíta psicólogo e psicoterapeuta, Anthony de Mello, existe um caminho para sair do sofrimento que é do desapego pela consciencialização do discernimento. Sair deste sofrimento é descobrir o que o provoca, ou seja, é o tomar consciência dos apegos. No seu livro “Awareness” (consciência) de 1990 escreve que se a pessoa estiver pronta a escutar, e a pôr-se em questão, observando-se, será esse então o caminho do despertar.
Sendo um acto essencialmente espiritual aplica-se também à psicologia pela tomada de consciência. O desapego, não significa apatia nem frieza para com as coisas, mas apenas algum distanciamento para permitir uma tomada de consciência activa que emana uma força para a acção. O discernimento é o acordar do coração, acto de ver, compreender e experienciar.
Bom Desenvolvimento Pessoal.

Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta e professora de Yoga

O homem que recusou morrer mais cedo

gentus

– Sabe, eu tenho 65 anos, estou no meu 3º casamento, estou casado vai para 20 anos, mas não me sinto realizado, a nossa relação já não é o que era, quando fazemos amor eu percebo que para ela já é um sacrifício. Ela é uma ótima pessoa, tenho um enorme carinho por ela, mas a relação já não funciona, ela quer passar o tempo todo em casa e eu gosto de sair, meti-me num grupo que organiza caminhadas pela serra, eu gosto de estar com outras pessoas, gosto de conviver e ela acaba por sair comigo mas vejo que é sempre um esforço para ela, que por ela ficávamos sempre em casa.

– Eu percebi que já não sou feliz com ela e pedi a separação. Nem eu sou feliz nem ela.

– Mas tomei todas as medidas para que não lhe falte nada, se ela permitir eu quero manter uma relação de amizade com ela, quero que ela não se sinta desapoiada, que vou estar sempre ali quando ela precisar de alguma coisa.

– Isto é o que se passa. Pedi o divórcio porque sinto que a nossa vida como casal tinha estagnado e já não era boa nem para mim nem para ela.

– Mas a maioria dos nossos amigos diz que não é normal, um tipo chegar aos 65 anos e tomar uma atitude destas, dizem que eu não devo estar bem, que devo estar com um problema qualquer. E então decidi marcar consulta consigo.

– Venho aqui para saber a sua opinião.

– Eu não acho que você seja apenas “normal”. – respondi – Mais ainda, acho que tudo o que se está a passar consigo é saudável. Porque senão vejamos: o que seria então “normal”? Chegar aos 60 anos e decidir que a partir dessa idade uma pessoa deverá desistir de seguir o seu coração? Que deverá conformar-se com o que tem na sua vida, com a forma como vive a sua vida, mesmo que o que tem e vive seja sofrível e medíocre? Ou seja, a partir de que idade é que um ser humano deve decidir que o resto da sua vida deve passar a ser um exercício constante de conformação com a frustração de nada poder fazer para poder melhorar a sua vida e vivê-la como realmente desejaria? A partir de que idade é que uma pessoa deve decidir que tudo o que lhe resta é encostar-se a um canto e esperar pela morte? Que “normalidade” é essa que determina como “normal” uma morte antecipada?

Consultas como esta não são de todo frequentes, mas permitem-nos perceber que, muitas vezes, conceitos interiorizados socialmente como “normais” traduzem padrões de vida disfuncionais, geradores de uma imensa frustração e sofrimento, sendo também espectável – no mesmo registo “normal social” – que os seres humanos acatem como inevitável e aceitável essa mesma frustração e sofrimento.

E assim, muitos seres humanos aceitam morrer mais cedo, abdicando de viver a sua vida como genuinamente deveriam viver – um dia de cada vez – a abraçar com entusiasmo o que a vida lhes trás a cada momento, sem certeza alguma senão a de se recusaram trair-se a si próprios, sabendo que a vida vai continuar a dar-lhes momentos de sofrimento e frustração mas que estes terão resultado de escolhas conscientes – genuinamente suas – e não da agonia duma resignação imposta e “normal”.

No final da sessão, acrescentou:

– Quero perguntar-lhe só mais uma coisa: apaixonei-me por uma mulher que tem só 41 anos e ela correspondeu-me. Mas agora estou com algum receio de não saber como lidar com esta situação, percebe?”

– E… ? – Instei-o a continuar.

– Como devo eu fazer?

– Você sabe muito bem como deve fazer ou o que deve fazer, mas como me pergunta a minha opinião deixe-me recordar-lhe que você deve ser genuinamente você, com os seus talentos e as suas limitações, aliás como sucederia com qualquer outra pessoa de qualquer outra idade. Tente ser você mesmo e nada mais que você mesmo. Se reparar com atenção, é impossível ser diferente de você mesmo. Pode tentar mas não vai conseguir. Seja genuíno. Se você tem sido genuíno com a sua namorada, lembre-se que foi por você que ela se apaixonou. Se tentar ser outra pessoa não só não vai conseguir como vai estar a privá-la da pessoa por quem ela se apaixonou.

E com um sorriso genuíno – como só as crianças sabem sorrir – despediu-se e, espero eu, foi viver a sua vida com a coragem de quem se recusou trair-se a si próprio, calar o seu coração ou abdicar de ser o autor e único responsável pelas suas escolhas e pela sua própria vida.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Ansiedade: o que é realmente?

imag1

Hoje, o termo “ansiedade” é largamente usado nas mais variadas circunstâncias da vida diária, frequentemente num contexto diferente do usado em Psiquiatria e Psicoterapia. Mas em que consiste realmente a ansiedade?

A ansiedade é uma emoção desagradável semelhante ao medo mas diferente deste. Quando a ansiedade é forte e intensa torna-se, por vezes, muito difícil de suportar, trazendo uma grande sensação de sofrimento à pessoa – esse sofrimento é psíquico (sensação de medo intenso, terror, desespero), mas pode também ser físico (suores frios, palpitações, dores de barriga, tremores, sensação de desmaio).

A ansiedade é diferente do medo porque o medo é uma emoção natural que nos ajuda a identificar e reagir a uma ameaça ou uma situação perigosa. O medo é, assim, um mecanismo de “protecção” contra uma ameaça a dor física ou emocional e, dessa forma, é uma resposta “saudável”, indispensável à defesa da nossa integridade. Existe sempre uma ameaça identificável da qual nos protegemos quando temos melo, é uma emoção que serve o propósito da preservação da espécie. Já a ansiedade pode ocorrer sem qualquer ameaça externa.

Ansiedade normal ou patológica?

É normal um certo grau de ansiedade no nosso dia a dia, o qual, muitas vezes, é útil para nos estimular a agir.A ansiedade normal funciona como um impulso no sentido de ultrapassar, eliminar ou resolver a situação que é sentida como ameaça. Sob este ponto de vista, a ansiedade, em níveis aceitáveis, melhora o desempenho do indivíduo aumentando as suas capacidades para resolver os assuntos que o trazem ansioso – por isso se diz também que a ansiedade normal é adaptativa.

Por exemplo, uma certa dose de ansiedade antes de um exame faz com que um aluno tenha um melhor rendimento, tornando-o mais atento e menos disperso no seu estudo, a sua capacidade de memorização aumenta, o aluno sente-se mais motivado e suporta mais horas de estudo do que o usual – por isso, a ansiedade é, neste caso, adaptativa, porque “adapta” o estudante (no sentido de que melhora o desempenho deste) à situação que lhe causa ansiedade (neste caso, o exame que se aproxima). Nesta situação, a ansiedade é geralmente sentida e descrita como “nervosismo” e, não sendo causa de sofrimento, é considerada normal, por ser aceitável, justificável e adaptativa.

A ansiedade passa a ser considerada patológica (ou sintoma de doença) quando atinge graus de intensidade de tal modo elevados que passa a ser causa de sintomas físicos e psíquicos que já traduzem sofrimento significativo e conduzem a comportamentos menos adequados.Usando o mesmo exemplo, se o estudante encarar o exame com excessiva ansiedade, em vez de sentir um “nervosismo estimulante”, vivenciará uma sensação de “medo” ou “terror” que o incapacitarão de se concentrar no estudo. Poderá, ainda, ter sintomas físicos desagradáveis, tais como palpitações (sentir o coração bater com força ou depressa), sensação de falta de ar, tremores nas mãos ou cólicas, entre outros.

Assim, a  ansiedade é patológica – ou sintoma de doença – quando aparece sem causa aparente, sendo sentida como um medo ou apreensão em relação a algo que pode ou não vir a acontecer no futuro ou quando é desproporcionadamente intensa em relação à situação que é aparentemente a causa dessa mesma ansiedade.

Como se manifesta a ansiedade?

A ansiedade manifesta-se por sintomas psíquicos, sintomas físicos (ou somáticos) e alterações do comportamento.

Os sintomas psíquicos manifestam-se por a pessoa ter geralmente grande dificuldade em se concentrar e tomar decisões, podendo apresentar-se agitada, confusa e inquieta. Pode ter uma vaga mas persistente preocupação de que algo de terrível está para acontecer – medo de ficar louco, medo de praticar um acto de descontrolo ou medo de morrer – em última instância, o indivíduo pode estar muito apreensivo e até ser incapaz de especificar a natureza da catástrofe que sente eminente.

Em alguns casos, a ansiedade é vivida como sentimentos agudos de pânico, de tal forma intensos que o indivíduo sente urgência em fugir e escapar a uma situação supostamente ameaçadora que lhe é intolerável.

Já os sintomas físicos ou somáticos podem manifestar-se em qualquer órgão – estes sintomas não estão relacionados com qualquer doença física demonstrável – isto é, as suas origens são mais psicológicas que orgânicas. Resultam da ativação do sistema nervoso e hormonal, sendo libertadas para o sangue hormonas como a adrenalina e a noradrenalina. Podem incluir uma enorme variedade de sinais e queixas, tais como tremores, palpitações, sensação de falta de ar, suar profusamente, mal-estar gástrico e intestinal e sensações de fraqueza e de desmaio. (por exemplo, a pessoa pode sentir palpitações sem ter qualquer doença cardíaca ou dores de estômago sem ter qualquer úlcera ou gastrite).

Muito frequentemente, o doente ansioso apresenta também alterações do comportamento: intenso desassossego, tremores, incapacidade para estar quieto – com movimentos incessantes sem finalidade aparente, como esfregar as mãos, arrepanhar os cabelos ou ficar a andar de um lado para o outro.

É ainda frequente um comportamento de dependência, procurando segurança e compreensão junto de outras pessoas – dado o seu sentimento de incapacidade, solicitam frequentemente os seus familiares e amigos para que o ajudem nas tarefas mais simples, manifestando grande mal estar e inquietação caso essa ajuda seja recusada – vejamos um exemplo deste comportamento de dependência, dado por uma doente: “- Não sou capaz de fazer nada… Só de pensar que tenho que tenho que fazer o almoço ou o jantar fico logo pior… Se não é alguém a ajudar-me não sei como seria… Nem o telefone eu consigo atender… Qualquer coisa me põe mais nervosa…”

O comportamento de dependência, não sendo exclusivo do doente com ansiedade, é bastante frequente no doente ansioso.

Ansiedade: um nome, muitas formas

A ansiedade pode apresentar-se sob diferentes formas, quer sob a forma de ataques de pânico ou fobias, a pensamentos obsessivos e compulsões. Assim, pode apresentar-se sob diferentes “quadros clínicos”, isto é, diferentes conjuntos de sintomas, a que se chamamos de “Perturbações de Ansiedade”.

Passamos a descrever, de um modo sintético algumas destas “perturbações de ansiedade”:

Na Perturbação de Pânico, o individuo apresenta ataques de pânico – estes consistem em acessos súbitos, muito intensos, de ansiedade, acompanhados frequentemente de sintomas físicos, com sensação de falta de ar, palpitações, sentindo o coração a bater muito depressa, tremor das mãos, formigueiros nas mãos ou na face, por vezes vómitos, entre outros.

Caracteristicamente, o indivíduo refere uma situação de sofrimento muito intenso, com ansiedade extrema e, frequentemente, com perda de controlo sobre o seu comportamento. Estes ataques são vividos com um intenso medo de morrer ou de enlouquecer e frequentemente, a pessoa pode não ter noção do que se está a passar com ela e convencer-se de que está a ter um ataque cardíaco ou uma doença súbita grave.

Nas Fobias, duma forma simplificada, existe a “canalização” da ansiedade para determinados objectos, situações ou pessoas, que o indivíduo reconhece conscientemente não representarem um verdadeiro perigo. Por exemplo, algumas pessoas podem ter um medo tão grande de lugares fechados (claustrofobia), que se recusam a andar de elevador, mesmo sabendo que esse medo é irracional. Assim, uma fobia envolve um medo inapropriado de uma situação específica, temor que o indivíduo reconhece como sendo excessivo ou irracional. O contacto com o objecto ou situação causadores do medo ou a antevisão desse contacto podem produzir sintomas de ansiedade de intensidade variável (palpitações, suores profusos, tremores, náuseas, etc.) que pode ir até à crise de pânico. Como consequência, o indivíduo adopta comportamentos de forma a evitar a situação fóbica ou vive essas situações com intensa ansiedade.

Durante algum tempo foi habitual nos círculos psiquiátricos designar as fobias por termos técnicos derivados do latim ou do grego, como por exemplo: acrofobia (medo de lugares altos), claustrofobia (medo de lugares fechados ou espaços pequenos), aracnofobia (medo de aranhas) ou zoofobia (medo de animais). Virtualmente, qualquer objecto ou situação pode estar envolvido num caso de fobia.

Já a Fobia social consiste no temor persistente a uma ou mais situações em que a pessoa está exposta à possível avaliação dos outros e tem medo de fazer algo cujas consequências possam ser embaraçosas ou humilhantes. Exemplos: Incapacidade para falar em público, engasgar-se ao comer na presença de outras pessoas, incapacidade de urinar em urinóis públicos, tremor ao escrever sob observação de terceiros, receio de dizer coisas que considere estúpidas ou de não saber responder aos requisitos das situações sociais.

Na Perturbação Obsessivo-Compulsiva os sintomas dominantes consistem em obsessões e compulsões, as quais são fonte de sofrimento importante para o indivíduo. As obsessões consistem na intrusão persistente de ideias, pensamentos ou impulsos não desejados, que o paciente não consegue fazer parar; as compulsões correspondem à sensação de necessidade de cometer determinado acto, não desejado, ou mesmo à concretização desse acto, de forma repetitiva ou de maneira estereotipada, como resposta a uma obsessão. Obsessões e compulsões sobrepõem-se de forma tão frequente que, para fins práticos, se consideram associadas na Perturbação Obsessivo-Compulsiva.

Na Perturbação de stress pós traumático, a pessoa viveu um acontecimento não habitual para as experiências humanas que causaria sofrimento intenso a qualquer pessoa (por exemplo, séria ameaça à própria vida ou de entes queridos, destruição inesperada da habitação ou da comunidade, ver outra pessoa gravemente ferida ou morta na sequência de acidente ou de violência física). O indivíduo revive a experiência traumática persistentemente, com intensa ansiedade, podendo ter pesadelos recorrentes acerca da situação traumática. Esta é uma das perturbações de ansiedade mais conhecidas do grande público, por já ter sido várias vezes retratada no cinema, particularmente em filmes sobre temas de guerra, mas virtualmente qualquer situação traumática lhe pode estar associada (como acidentes de viação, violações, situações traumáticas em contexto de desastres naturais).

É preciso que se note que existe hoje tratamento eficaz para as perturbações de ansiedade, sendo que o tratamento pode ser farmacológico e/ou psicológico. De forma muito simplificada, o tratamento farmacológico pretende corrigir os desequilíbrios neuroquímicos que estão na base da ansiedade, enquanto o tratamento psicológico ou psicoterapia pretende ajudar o indivíduo a analisar o funcionamento psíquico, e a identificar e corrigir os aspectos psíquicos – pensamentos, emoções, crenças disfuncionais – que possam estar na origem da ansiedade.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Desequilibradamente normal… como a torre de Pisa.

pisa

I

VÔO ONÍRICO

«Estou num hall circular rodeado de portas. Numa delas lê-se: Departamento de ESTATÍSTICA. Entro. Vejo linhas e gráficos, distribuições de indivíduos, a maior parte representada pela mesma cor, e uns quantos por cores diferentes, a maioria não é de raça branca, a maioria está mal alimentada e em extrema pobreza, a maioria tem muitas crianças que morrem. Estará a maioria da população aqui representada? A maioria será o “normal”? Isto será o “equilíbrio”? Sinto um nó no estômago, não aguento estar mais aqui.

De novo no hall, dirijo-me para outra porta. Nesta está escrito: Departamento de MEDICINA. Entro num espaço vazio, não consigo agarrar nada, parece uma câmara de despressurização, o mundo da ausência… Claro! Ambiente esterilizado, ausência de doença. Será isto a normalidade? Avanço mais um pouco e vejo duas setas, uma para a direita indica: Patologia –presença de doença ou sintomas, vou dar uma espreitadela… Parece que cheguei a uma “farmoteca”, (ou a uma “bibliofarma” –como preferirem) alinham-se prateleiras e mais prateleiras com livros e caixas, tudo numa invejável organização, e ainda mapas com taxonomias e fichas dicotómicas.. Reparo numa espécie de guarda-vento: Terapêuticas Estruturais; não resisto a espreitar pelo vidro: dum lado alinham-se instrumentos cirúrgicos, do outro uma panóplia de tubos de ensaio e canalizações de vidro com neurotransmissores a subir e a descer. Ao fundo da sala outro guarda- vento diz Gabinete de Genética. Volto ao local onde estavam as duas setas, a que apontava para o lado esquerdo dizia: Saúde. Ummm… Saúde – “Estado completo de bem-estar físico mental e social” – Será que podemos considerar que normalidade, equilíbrio e saúde (mental) são sinónimos? Curioso, aqui há outro acesso ao Gabinete de Genética e ainda um guichet onde se lê: Política Educativa e Socio-Económica.

   Enquanto penso neste assunto, saio do… hospital (era o que parecia) e regresso ao hall circular, transponho outra porta, Departamento da CULTURA. À minha frente está um quadro onde leio: “Visitei uma terra onde as pessoas punham paus com cerdas na boca e faziam sons estranhos com a garganta como se estivessem a espantar espíritos, depois cuspiam uma espuma e quando acabavam pareciam estar felizes” Que povo e que ritual excêntrico seria este? Reparo numas letras mais pequenas e curvo-me para ler: “Excerto da descrição dum aborígene do comportamento -lavar os dentes – “. Na minha mente surgem pequenos “post-it(s)”: “preconceito”, “avaliação descontextualizada”, e ainda um outro: Será o conceito de normalidade transcultural”? Só fará sentido se for!

Mais uma vez estou no hall, olho à procura de outra entrada, ali está. Nesta porta bem esculpida e trabalhada está escrito: Departamento de PROCESSOS PSICOLÓGICOS. Parece que entrei num coliseu. Uma série de equilibristas treinam, num ambiente quase circense. Não percebo qual é a pista desta porta, mas deve ter alguma…esta viagem deve ter um padrão. Penso…. Nome da porta: Departamento de Processos psicológicos… olho em volta e há várias outras portas iluminadas por entre as bancadas, posso ler junto do foco de luz o nome de algumas: Cognitivos, afetivos (vinculação), Inconscientes, de Aprendizagem, de Desenvolvimento, Estruturais… aãã? Processos estruturais? Esta porta parece-me deslocada…, talvez não, poderão os processos ser independentes da estrutura? Talvez esta porta dê também acesso à sala de genética do hospital, afinal olhando a patologia como um ponto de desembarque de causas próximas e remotas, de diátese e de stress… de vulnerabilidade e resiliência…um processo contínuo de interação entre bioquímico e ambiental, externo e interno…  Para!  Volta a concentra-te no que vês na arena central! Observo: As pessoas caem, tentam o reequilíbrio, umas vezes quase paradas outras vezes andando ou socorrendo-se de um parceiro ou de uma vara, e quando finalmente conseguem, sorriem…Sim, é isso, a normalidade enquanto processo interactivo entre o indivíduo e o meio, numa tentativa constante de equilíbrio. Uma normalidade que não é um dado adquirido, é conquistada ao longo do tempo e é conseguida num diálogo entre mudança e estabilidade, desequilíbrio e equilíbrio. Será então normalidade a possibilidade de dançar entre equilíbrio e desequilíbrio gerando bem-estar?. A facilidade em encontrar esse ponto estaria na estrutura, (diátese) a habilidade para manter, perder e readquirir esse ponto, estaria nos condicionamentos do meio (stress) e nos processos…

Ansiosamente regresso ao hall, há ainda mais portas, estou cansada, mas quero entrar numa que me pareceu de sonho. Onde era? Que dizia? Cá está ela: Departamento Utópico. Entro. Num dos cantos está uma fonte com água límpida onde, para além da minha imagem reflectida, cintilam moedas. Devo estar na fonte dos desejos. Desejos de felicidade. Vejo o reflexo na água que nunca se agarra, o brilho quimérico das moedas… e no entanto esta é a mais bela sala que visitei, parece uma galeria de arte com sonoridades celestiais…a sala do almejar… e contudo… há algo que falta.  Será a felicidade uma utopia? Deito uma moeda na fonte e a minha imagem reflectida na água movimenta-se. É isso, movimento! A única sala em que havia Vida era a anterior, a sala do Departamento de Processos Psicológicos. Parece-me ainda ouvir o eco “dança geradora de bem-estar”,

Regresso ao hall.  O sol, espraiando-se no vitral da abóbada da Torre das Portas aquece-me, quase me cega e… acordo»

II

OLHAR VIGIL

Olhemos então para a “normalidade” tentando defini-la pela positiva e enquanto conceito que deve ser transcultural, incluir aspectos estruturais (ser)(traços) e processuais (motivacionais, estar a ser, ir sendo) (dimensões), dinâmica (ir sendo com, e transformando-se a partir de, num processo de transferência,), dialéctica (em movimento constante com avanços e recuos, equilíbrios e desequilíbrios), desenvolvimentista (características sociais, educativas relacionais, auto conhecimento, etapas e fases) incluir o que o próprio sente,  reflecte e observa sobre si e os outros, e o que os outros observam, sentem e reflectem sobre ele.

A desordem não está no desequilíbrio ocasional, que faz parte do processo dinâmico dialético que é a vida, mas apenas em traços extremos, inadaptativos, inflexíveis e/ou causando sofrimento, que impedem o reencontro com o equilíbrio.

Talvez possamos dizer que a noção de normalidade, enquanto torre vertical, deve ser entendida, como mero constructo teórico, utópico, uma vez que, as várias funções (ou necessidades/identidade/ níveis/traços – dependendo dos autores -) não necessitam de um equilíbrio vertical (tal como a Torre de Pisa), nem estático, mas tão só de um equilíbrio, que mantenha intercepções (pontos de equilíbrio) de vários (factores, funções, dimensões etc.,)  ou seja sem desregulações ou disrupções do processo de desenvolvimento individual e inter-relacional.

A normalidade estará então na possibilidade e capacidade de (re)encontrar (ir encontrando) um ponto (sucessivos pontos) de equilíbrio gerador(es) de bem-estar, capaz(es) de satisfazer as necessidades do próprio concomitantemente com as necessidades do meio ao longo das várias fases da vida.

Todos nós temos a riqueza e a raridade da Torre de Pisa, variamos no grau de inclinação, no lado, na exposição solar, na ornamentação, no estilo, etc. Esse facto, dá-nos a nossa individualidade. O nosso bem-estar reside na capacidade de convivermos com essa individualidade de forma saudável, mais do que na tentativa desesperada de “sermos direitos”, de “sermos como os outros”, ou de “sermos como um (qualquer utópico) modelo”. O nosso bem-estar reside também na capacidade de evitarmos o desmoronamento, reconhecendo os exageros prolongados e a rigidez, que poderão estar a impedir o reequilíbrio. Saber viver connosco e com os outros, eis a dança mais desafiante e fantástica da vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Equilibradamente em desequilíbrio

equ inst

Sometimes to loose balance is part of living a balanced life.

Quando pensamos no que é que queremos para a nossa vida, do que é que precisamos para a nossa saúde mental, cada vez mais reconhecemos que precisamos é de equilíbrio, em contraponto a uma busca utópica de um estado permanente de felicidade e bem-estar.

Apesar deste reconhecimento, velhos hábitos são difíceis de deixar, e o risco é desejarmos sim equilíbrio, mas deturparmos o conceito e rigidificarmo-nos numa postura de não nos permitirmos nem grandes desânimos nem grandes entusiasmos, contentarmos-nos com o mediano, como se equilíbrio fosse sinónimo de meio-termo,  nem muito nem pouco, assim-assim.

Clarifiquemos então a ideia de equilíbrio:
Equilíbrio é um “estado” dinâmico de compensação de forças em que, quando puxo para um lado, activo em consequência uma força contrária que puxa para o outro, no sentido de não permitir a queda ou a destruição. Equilíbrio não é portanto um estado estático mas implica um movimento oscilatório entre pólos opostos, sempre com duas forças contrárias e compensatórias a puxar. Equilíbrio não é uma coisa que se adquire mas um processo que se vive.

Paradoxal que possa parecer, estar em equilíbrio implica portanto estar disponível para para o perder aqui e ali.
Neste sentido, talvez a pergunta-chave não seja como é que me equilibro mas como é que me disponibilizo para me desequilibrar.
E disponibilizo-me para me desequilibrar quando me permito sentir o que estou a sentir, seja agradável ou doloroso, quando arrisco experimentar coisas novas, diferentes, quando me permito depender momentaneamente dos outros quando preciso de colo e afastar-me momentaneamente quando preciso de dar os meus passos sozinho… Quando confio que posso dar qualquer passo porque sei que tenho a capacidade de analisar os erros, de analisar o risco, e confio que quando necessário consigo mobilizar recursos num sentido compensatório e recuperar o equilíbrio ou transformá-lo num equilíbrio diferente, mais adequado às novas necessidades ou exigências.

Preciso confiar que consigo estar próximo da queda sem cair. Preciso disponibilizar-me para o desequilíbrio para viver equilibradamente.

Não esqueça: não se atinge o equilíbrio, vive-se equilibradamente em desequilíbrio.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta