Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

Amar-te-ei até me matares…

Firmino

Firmino entra no restaurante e diz um “Bom dia!” na sua voz afável e, naquele momento e ao mesmo tempo, seca e distante, olhando de relance, quase de soslaio, para os seus colegas:

“- Estes cabrões estavam a falar nas minhas costas…” – pensa ele enquanto entra para a divisão onde os empregados trocam de roupa e vestem a farda profissional.

“- É sempre a mesma merda, sempre a fazerem-me a folha, mas eu vou falar-lhes a bem, vou adoçar-lhes a boquinha para eles não perceberem que eu já os topei!”

Quando vai a sair, já vestido, volta-se para trás e revê-se no espelho comprido e alto que o patrão comprou:

“- Eu tenho que estar bem.” – pensa, com vaidade – “E lembra-te sempre: O teu patrão é o cliente! Sempre! Não o dono do restaurante…” – e corrige – “…dono do restaurante que, a bem dizer, é como se fosse um pai para mim…”

Frequentemente os colegas queixam-se ao patrão:

“- Ele é um anormal. Anda sempre desconfiado! Não lhe podemos dizer nada! O que quer que a gente diga, ele pega e leva para outro sentido! O homem tem pancada!”

“- Pancada têm vocês! Ele não faz mal a uma mosca! Não prestem atenção ao que ele diz! Vejam como ele trata os clientes! E aprendam com ele, isso sim! Cada um de nós tem a sua mania! A mania dele é andar desconfiado. Deixem-no em paz e não liguem. Vocês vêm aqui é para trabalhar e ele também. Fora as desconfianças ele é uma jóia de moço!”

Firmino, de alguma forma, nunca desconfiava dum cliente.

Tinha o dom de os tratar de tal forma que eles se sentiam especiais, únicos, sorria sempre e mantinha-se à distância para mostrar que estava atento e disponível mas que não queria incomodar:

“Os clientes vêm cá para comer e não para te aturar… Não é como os brochistas dos teus colegas que andam para aí a engraxar… É deixá-los sossegados… E só perguntas se está tudo bem ou se a comida está boa uma vez e quinze minutos depois de eles começarem a comer. E acabou! Quem pergunta duas vezes é porque é surdo ou burro, ou então graxista. Os clientes não gostam de graxistas!” – pensa para si próprio.

Firmino tinha orgulho na forma como servia e os clientes adoravam-no.

Homem de poucas falas, tinha sempre um sorriso para os clientes, uma palavra amável ou uma brincadeira para os animar.

“- Quero uma Coca-cola zero, por favor.”

“- Sem álcool portanto!” – dizia sorrindo para o cliente.

Desconfiava dos colegas, da própria mulher, às vezes do patrão, mas nunca dos dois filhos que tinha e muito menos dos clientes.

Ninguém conseguia perceber a lógica desta selecção – nem ele mesmo.

Na primeira vez que veio à consulta disse-me que a esposa fazia tudo para o matar sem que ninguém desse conta. Segundo ele, a esposa estava constantemente a tentar envenená-lo.

E disse-me:

“- Ela agora mandou pintar as portas da rua de verde! Aquilo é tinta que fede até dizer chega! E eu já percebi que aquela tinta é venenosa e que lá está ela a querer envenenar-me! Como o nosso quarto é perto da porta da rua, eu fui dormir para um quarto nos fundos e disse-lhe: Fica aí tu a dormir que a mim não me envenenas tu!”.

Esquecia-se Firmino da incongruência da esposa não querer dormir também noutro quarto, já que assim o dito veneno a iria matar ela.

No final duma longa entrevista, perguntei-lhe:

“- Sem ser este problema que o traz cá, você tem outras doenças?”

“- Oh, doutor! O caruncho já me começou a entrar nos ossos! Faço um medicamento para a tensão arterial e outro para o colesterol.”

“- E quais são?” – perguntei.

“- Ah! Isso não sei! Deixe-me só telefonar à minha mulher que ela é que sabe disso tudo!”

Para este efeito, de alguma forma, a mulher já não quereria envenenar com os comprimidos para a hipertensão arterial ou para a hipercolesterolémia.

Bem ou mal, todos os adoravam: Filhos, clientes, patrão…

A esposa e os colegas estavam cansados de o aturar, mas reconheciam que, no fundo, “lá mesmo no fundinho” – como dizia um deles – o Firmino não era mau rapaz.

Com a esposa era muito mais cansativo – há mais de vinte anos que falavam quase por monossílabos – porque “Desculpe lá, doutor! Vá para lá você aturá-lo que até a pasta dentífrica ele esconde de mim!”.

Mas quando um deles ficava doente esfumavam-se “os filmes e as desconfianças” (sic) e “ia dormir para junto da cama do hospital se fosse preciso! Ora isto entende-se, senhor doutor? Num minuto eu ando a querer envenená-lo, no outro anda a chatear os médicos e os enfermeiros se eu andava a ser bem tratada no hospital! Ora isto faz algum sentido?”

Eram estas incongruências que traziam à luz que o Firmino tinha lá um cantinho muito escondido no qual ele sabia que as desconfianças e os filmes eram tudo “invenções da minha cabeça, será mesmo, senhor doutor?”.

Mas era um cantinho muito pequeno e muito escondido e suspeito que nem mesmo Firmino tinha consciência daquele cantinho.

Era por esse cantinho que brotava o amor.

O amor que tinha pela sua família e sobretudo pela esposa – algo que ele não compreendia nunca ter desaparecido – “Ora se ela me quer matar, como é que isto é possível, senhor doutor?”

“- Mas, Firmino… Você já diz isso há 20 anos e nunca nada aconteceu, certo?”

“- Olhe que não é assim, que eu uma vez tive um acesso de tosse que tive que ir para as urgências!”

“- Mas não morreu?” – insisti.

“- Claro que não, senão não estaria aqui a falar consigo,  ora!”

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E lá ia Firmino.

A iluminar as mesas dos clientes, como a maior vedeta do restaurante.

A amar como podia.

“- Doutor, antes da doença ele era um Príncipe!”

“- E agora não é porquê?” – devolvi à esposa.

Ela fez uma pausa de alguns segundos antes de me responder:

“- Continua a ser um príncipe. Mas não deixa de ser um chato!”

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

A Vivência do(s) Prazer(es)

Prazeres

Num dia de calor, porque não um sumo de toranja com gelo?

«Disse (escreveu) toranja? baahh que horror! não quereria dizer laranja? ou cerveja geladinha?»

Pois, o prazer tem destas coisas… O que a uns apraz, não apraz a outros… e por isso é tão importante que cada um descubra o que lhe dá prazer e que dê a liberdade aos outros de o fazer também. Pode memorizar os seus momentos de prazer aumentando a sua sensação de bem-estar.

Há alturas em que nos deixamos levar inteiramente pela compulsão de aumentar os níveis de prazer, numa busca constante e ansiosa de mais e melhor, esquecendo que, o que algumas vezes se passa, é que estamos com uma incapacidade de tirar partido do momento presente, na maior parte das vezes por problemas passados, que nos projetam sempre e sempre em antecipações futuras e nos roubam o prazer de simplesmente estar no presente.

A ansiedade constante arruina a fruição do prazer. E, não conseguir desfrutar do prazer, dificulta também a vivência da dor duma forma adaptativa.

Seria quase impossível falar de prazer não abordando dois dos maiores prazeres: O prazer da mesa e o prazer da cama, ou, dito de outra forma, o prazer da comida e o prazer do sexo.

O prazer que os sabores de que mais gostamos nos dá, pode ser, dependendo do gosto de cada um, a nossa perdição. Quando sonhamos com enchidos e açordas, com ensopados e feijoadas, com gelados e doces conventuais e com tudo o mais que regala o olho e o palato, seja doce, salgado ou picante, mas muito calórico, demasiado gordo, etc etc, é natural que tenhamos alguma dificuldade em usufruir deste prazer sem consequências drásticas para a saúde, porém, isto jamais poderá significar que prazer e saúde são incompatíveis, ou que ter prazer é inimigo da saúde, ou, que para se ser saudável há que renunciar ao prazer. Nada poderia estar mais errado. Para se ter saúde tem de se evitar excessos, mas nunca o prazer.

O que podemos é autoregular o prazer. Como?

Precisamente saboreando melhor e mais lentamente degustando e não, comendo sofregamente. Também será importante ir encontrando prazer na descoberta de muitos e variados alimentos e bebidas saudáveis, tentando que a ingestão do que é tido como “fazendo mal em excesso”, seja feita com menos frequência e em menores quantidades, mas sempre sem culpa. A culpa impede o usufruto pleno do prazer! Quem tem prazer em correr, caminhar ou praticar desporto, consegue reequilibrar alguns excessos de mesa fazendo exercício.

No prazer do sexo, a culpa tem também tendência a estar presente, e, mais uma vez, onde há culpa não há possibilidade de usufruto pleno de prazer. A sexualidade bem vivida é das melhores e maiores fontes de prazer e bem-estar, e um excelente exercício físico, mas tal como noutros campos, a ansiedade e a incapacidade de viver o momento com a vulnerabilidade e intimidade necessárias, podem levar, ou ao não-prazer, ou à necessidade de procurar intensificar o prazer de modos menos saudáveis (por exemplo recorrendo ao uso de substâncias tóxicas duma forma sistemática, ou quase). Esta estratégia surge numa tentativa de abrilhantar sensações que se vão sentindo como mais pálidas e a escoar por entre os dedos, porque se está a procurar no sexo o que ele não pode dar só por si, falo de verdadeiro envolvimento afetivo com os outros e com a vida. É também verdade que nalguns casos o sexo é uma ótima ajuda para uma maior aproximação, motivação e gratificação, uma vez que gera prazer, no entanto, em situações em que a actividade sexual tenta substituir outras necessidades, pode criar frustração e um vazio ainda maior.

Mas, para além de comida e sexo, há muitíssimos outros prazeres. Temos tendência a esquecer o mais importante: O prazer das pequenas coisas, que não envolvem consumos, nem excessos.

Aquele prazer que temos em dar, em partilhar, em descobrir, em observar, em cheirar, em escutar, em acariciar, em conviver, em sorrir, em abraçar, em partir, em chegar, em relacionar, em planear, em realizar (construir, esculpir, cozinhar, dançar, cantar, tocar, pintar, bordar, aprender, escrever, etc, etc, etc), ou seja em toda uma série de atividades que estão, ou podem estar, presentes no nosso dia-a-dia, se não andarmos em correrias e tensões constantes, querendo chegar a uma qualquer meta, esquecendo tudo o que está no caminho, como se fossem apenas obstáculos e não partes, também necessárias (e por vezes até essenciais), da vida.

É desta forma que tantas vezes deixamos escapar momentos (e até entes queridos), sem os notar, sem permitir que os nossos olhos “retinem”, que os nossos sentidos absorvam, sem permitir que a memória os retenha e lhes dê significado, sem nos ligarmos afetivamente e realmente.

E, no entanto, é conseguindo saborear esses pequenos prazeres da vida, que podemos aumentar a nossa coleção de momentos de felicidade que nos podem proporcionar uma incrível sensação de bem-estar e nos ligam mais profundamente aos outros e à vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

O colo de Deus…

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L., 62 anos, administrador executivo numa empresa de equipamentos electrónicos, cresceu numa família onde foi iniciado na magia dos gestos de amor.

“Sabe?

Ontem, uma vez mais, adormeci a pensar na minha mãe que Deus tem.

Depois dela conheci muitas mulheres, mas nenhuma como ela.

Ela acordava-me de manhã como um sopro muito suave na testa ou a acarinhar o meu cabelo muito ao de leve com um dedo apenas…

Eu nunca acordava em sobressalto. Ela tinha este talento de me fazer acordar tão devagarinho que eu nem sentia a diferença entre estar a dormir e acordar.

Só ela, até hoje, conseguia acordar-me assim…

Quando hoje o dia me corre mal, quando eu vou angustiado com alguma coisa para a cama eu peço a Deus que me acolha no seu regaço. Ou ao pólo feminino de Deus. Ou a Nossa Senhora. Eu peço aquele colo que a minha mãe me dava e mais ninguém sabia ou soube como me dar.

É um colo protector, é um colo onde nada me pode acontecer e, mais que uma sensação de segurança, o que é mais vibrante e intenso é a sensação de estar envolto neste estranho Amor de mãe.

Muito raramente lá acontece eu adormecer e cair no colo de Deus…

E eu acho que aprendi com a minha mãe.

Quando a minha filha tinha 2 anos ela começou a acordar muitas vezes de noite e ficava em pânico por não nos ver ao pé dela.

Acredita que por vezes eu era tão rápido que ela nem tinha tempo de começar a chorar?

E não é preciso dizer nada realmente… Eu passava-lhe a mão pelo cabelo e sussurrava um “Shhhhh” em suspiro e dizia-lhe: “Está tudo bem, querida. Não se passa nada.” e ela caía com a cara na almofada e adormecia ainda antes de se conseguir aninhar-se na cama dela…”

Fiquei a pensar como é que uma memória tão antiga perdura tão tarde na vida de alguém, como é que reaviva os olhos deste homem uma luz tão intensa de conforto e calor, e a resposta que se me oferece é que a responsabilidade é do Amor.

Um Amor maternal.

Quem sabe um Amor feminino, que se prolongou na Alma deste homem.

Um dia será a sua filha a lembrar a alguém a Magia do seu pai.

E a uma grande parte (para não dizer a maior parte) das coisas inexplicáveis da Experiência Humana têm a ver com o Amor, enquanto experiência vivencial que encerra em Si todas as línguas mudas e faladas e atinge as Almas das pessoas nos seus recônditos mais silenciosos deixando lá uma marca eterna e indelével.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

COMO É QUE É MESMO ISTO DE PÔR LIMITES?

limites
Tenho me apercebido com vários pacientes, e mesmo com pessoas da minha vida pessoal, e por vezes eu própria, que a ideia de colocar limites é muito assustadora, traz a ameaça da perda, de magoar o outro a um nível que destrua a relação.
Ainda que os nossos limites possam sim ser incompreendidos pelo outro e por isso fazerem-no sentir-se magoado, e até possam ser prelúdios de um fim se o outro não os souber acolher e respeitar, também é verdade que são os limites, as “regras do jogo”, que nos permitem interagir de uma forma positiva e construtiva, que dá estrutura, segurança, e favorece as relações.
Ao refletir sobre esta dificuldade em colocarmos limites, tem-me surgido que parte dela poderá advir também de uma distorção ou um enviesamento que sinto que fazemos no a quem é que sentimos que os estamos a colocar.
Geralmente o outro sente que lhe estamos a colocar limites a ele, e parece-me que frequentemente compramos esta ideia, quando na realidade estamos, ou deveríamos estar, a colocar limites a nós próprios, o que podendo parecer o mesmo é na realidade bastante diferente e a própria experiência psicológica de o fazer é diferente e em mais do que um sentido.

Quando sinto que estou a colocar limites ao outro sinto que o estou a privar da liberdade dele, quando reconheço que estou a colocar limites a mim próprio percebo que estou a usar da minha liberdade para me proteger ou defender, que é bastante diferente.
Imaginemos uma discussão exaltada e infrutífera com um familiar perante a qual digo “chega, não vou mais alimentar esta discussão hoje”; se achar que estou a colocar um limite ao outro, a minha experiência é tendencialmente bem mais negativa, e a meu ver incorreta, do que se reconhecer que não o estou a impedir a ele mas sim a colocar um limite a mim, sou eu que decido alimentar ou descontinuar a discussão naquele momento.

Apesar de eu ver benefícios no perceber que é a nós, mais do que aos outros, que colocamos, ou deveríamos colocar, limites, este reconhecimento nem sempre é suficientemente motivador; colocarmo-nos limites a nós pode ser tão ou mais difícil do que supostamente os colocarmos aos outros; isto porque temos uma certa tendência para esperar que os outros cooperem e ressentimo-nos quando nos sentimos abusados, advogando que eles deveriam ser mais maduros, mais compreensivos, mais respeitadores, enfim; e esta postura de nos colocarmos limites a nós implica assumirmos que, apesar de podermos ficar magoados ou desiludidos com as atitudes do outro, é nossa responsabilidade acima de tudo tomarmos uma atitude afirmativa e auto-protetora perante os potenciais abusos dele e mantermo-nos fiéis às nossas decisões.

Os limites mais produtivos, ainda que talvez mais difíceis, precisamente pela responsabilidade que acarretam, passam por:

  • Mantermos a consequência que estipulámos para o comportamento desadequado do outro, seja o mau comportamento de um filho, seja uma postura intrusiva ou abusiva de um amigo ou familiar;
  • “Engolirmos” a necessidade de ganhar as discussões lutando ad aeternum para que o outro compreenda o nosso ponto de vista (ele por seu lado também luta para ser entendido, e nesta luta ambos se esforçam por se fazer ouvir e nenhum realmente se disponibiliza para escutar);
  • Mantermo-nos fiéis e respeitarmos as nossas necessidades nas relações que estabelecemos, sejam elas manter uma certa distância quando o outro é demasiado intrusivo, pedirmos explicações quando o outro é pouco claro, repormos a realidade dos factos quando o outro é injusto, e até pôr um fim na interação ou na relação quando o outro repetidamente é desrespeitador, desconsiderante ou tóxico.

Tudo isto aguentando a angústia e o medo que a situação também nos causa a nós (e lá está, essencialmente medo da perda do outro ou do seu amor).

Parece difícil? Talvez porque realmente o seja, mas quando temos a coragem de nos responsabilizarmos e tomarmos as rédeas da nossa vida, colocando-nos os limites que isso implica, tendemos a acabar por nos sentir mais seguros e satisfeitos nas nossas relações, porque contribuímos para elas se tornarem menos caóticas, menos pesadas, mais saudáveis, mais seguras.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

 

Quando a ansiedade deixa de ser normal

A palavra “ansiedade” provoca, desde logo, em nós uma certa tensão, como se a mesma representasse algo de muito mau. Quantos de nós já ouviu alguém dizer “Sou muito ansioso!” ou “Tenho problemas de ansiedade”? A verdade é que vemos constantemente a palavra ansiedade associada a uma série de outras palavras cuja conotação é negativa, como por exemplo, a palavra “problema”. Bom, mas palavras à parte, o que significa realmente a ansiedade?

Em primeiro lugar, interessa olharmos para a ansiedade como uma emoção, pois é exatamente o que ela é. Perante a antecipação ou expectativa de um acontecimento futuro, a ansiedade surge como resposta, fazendo-nos implementar recursos no sentido de ultrapassarmos determinado desafio ou prepararmo-nos para o mesmo. Imagine, por exemplo, que tem um trabalho importante para fazer e que este tem que estar pronto até daqui a duas semanas. É natural que se sinta ansioso (quanto mais não seja pelo medo que não conseguir entregar o trabalho a tempo), o que vai fazer com que se libertem uma série de neurotransmissores no cérebro, como o cortisol ou a adrenalina, gerando uma série de mudanças físicas como o coração a bater mais acelerado ou aumento da pressão sanguínea que vão fazer com que se movimente em direção à realização e conclusão do trabalho. Provavelmente se não existisse este estado emocional perante o alerta de um prazo para um trabalho, o mesmo nem seria feito! Seja pela antecipação de um prazo apertado de trabalho (trabalho esse que existe mesmo) ou da ideia de poder acontecer algo mau a alguém de quem gosta (que não passa de uma ideia, não havendo nada concreto que o justifique), a todos nós nos toca um pouco desta ansiedade. Assim, a ansiedade que sentimos pode ser normal e surgir em vários contextos, como no trabalho ou nas relações com os outros.

Em segundo lugar, e relacionado com o primeiro, por representar a expectativa ou antecipação de algo, a ansiedade pode ser frequente no nosso dia-a-dia quanto maior for a nossa antecipação em relação ao que está para vir. Como tal, a partir do momento que essa antecipação se torna constante, influenciando a forma como nos sentimos diariamente, essa ansiedade, dita normal, pode deixar de sê-lo. Imagine que deixa de antecipar apenas aquele trabalho que tem um prazo apertado, mas passa a fazê-lo com quase tudo. “E se eu for fazer análises e descobrir que tenho uma doença?”, “O meu amigo não me atendeu o telefone, de certeza que lhe aconteceu algo grave e eu não vou aguentar!”, “E se eu nunca conseguir trabalhar naquilo que quero?”. Repare como a seguir a estes pensamentos, vêm uma data de outros pensamentos que se tornam autênticas histórias de terror na sua cabeça. Como se de repente visse todo um filme sobre a sua vida a acontecer e isso o fosse deixando cada vez mais nervoso, com o coração a palpitar cada vez mais e todo uma sensação de descontrolo a passar-lhe pelo corpo. Repare ainda como todos esses filmes mentais e sensações corporais que deles advêm o deixam desconcentrado, com um medo crescente do que aí vem, com a necessidade de evitar certas coisas para não ter que enfrentar o medo que tem delas, entre muitas outras consequências. Provavelmente o seu dia-a-dia acaba por ficar bastante condicionado por estes sintomas, retirando-lhe a possibilidade de prazer que poderia ter e aumentando os seus níveis de cansaço e mal-estar. Ora é a partir daqui que se torna clara a diferença entre a ansiedade dita normal e a ansiedade patológica.

Como acabamos por perceber, a ansiedade patológica, ou perturbação de ansiedade, seja de que tipo for (pânico, ansiedade generalizada, ansiedade social, entre outras) alimenta-se por si só, como se de um círculo vicioso de tratasse. Quanto mais nos focamos em determinada coisa, mais ansiosos ficamos e maior dimensão ganha tudo aquilo que antecipamos. Assim sendo, a partir do momento que notamos que este círculo vicioso afeta o nosso dia-a-dia, na forma como trabalhamos ou como nos comportamos com os outros, torna-se importante procurar ajuda de um profissional de saúde especializado. A aprendizagem de estratégias para regular a ansiedade faz toda a diferença no aumento da nossa qualidade de vida!

Inês Chiote Rodrigues – Psicóloga Clínica

…DEAD MAN WALKING… Quando o desespero mata a Esperança.

NOTICIA

Imagino-o em casa, depois de ter ido visitar a sua companheira de sempre aos cuidados intensivos.

Imagino-o só, a tentar dar algum sentido à angústia que sentiu quando a viu entubada e com suporte ventilatório.

“Porque é que ela tem que sofrer tanto?” – ter-se-á perguntado.

De vez em quando os alarmes das máquinas disparam e depois calam-se novamente, mas não está lá ninguém para as ouvir senão ele.

De início corria a chamar as enfermeiras, mas estas iam-lhe dizendo que era normal, que as máquinas eram hipersensíveis e disparavam por tudo e por nada.

“Melhor as máquinas com a sua hipersensibilidade… Sempre lhe fazem alguma companhia…” – pensou ele – e deixou de incomodar as enfermeiras. Passou até a gostar que as máquinas apitassem, mas condoía-o o facto de se ir embora e então a esposa ficar completamente só, alheada até da sensibilidade das máquinas.

E essa solidão era-lhe extensível a ele.

Sentado no sofá da sala, era como se um buraco negro se abrisse no chão à sua frente:

        “- Que farei quando ela partir…?  E se calhar já partiu mesmo…”

Por vezes tentava recordar-se da face da sua amada e não conseguia e isso deixava-o ainda mais desesperado: “-Se ela se for eu nem me vou conseguir recordar da face dela!”

Estava confuso, baralhado, ele sabia que “todos teríamos que morrer um dia”, mas nunca sonhara que fosse tão difícil.

Olhava para a sua frente e não conseguia vislumbrar um futuro sem ela. Era como se verdadeiramente lhe amputassem a alma. Iria transformar-se numa alma errante e fugidia – um “dead man walking” – à espera da sua hora para se juntar a ela definitivamente.

Toda a esperança lhe escapava entre os dedos e o buraco negro aumentava e engolia-o numa angústia insuportável.

Não conseguia antever nada de bom senão o inferno na Terra.

Foi ao seu quarto e abriu a única gaveta do armário que estava sempre fechada.

Tirou a seu revólver 38 e foi direito ao hospital, repetindo para si mesmo:

“- Não vou deixar a minha mulher morrer sozinha…”

Casos como este são bem mais frequentes que o noticiado.

Decidi escrever acerca desta notícia sobretudo para exemplificar um fenómeno frequente na Depressão e que não acontece em nenhuma outra doença orgânica: A Depressão tem esta particularidade de “atacar” o ser humano na última coisa a morrer – A Esperança.

Como diz o meu colega António Sampaio, mais nenhuma doença faz isso, nem mesmo o cancro.

É como se um vírus infectasse a alma e lhe retirasse esta arma que nos dá resiliência e alguma imunidade contra as adversidades, porque sem esperança baixamos os braços e desistimos.

É preciso estarmos atentos porque muitas vezes as depressões são silenciosas e a desesperança e as ideias suicidas dos nossos mais queridos podem estar a desfilar à frente deles sem que tenhamos a mínima noção disso.

O que fazer?

Perguntar.

Perguntar sem medo, sem qualquer receio de ser mal interpretado.

“- O que se passa? Anda a pensar em quê?”

E explicitamente tentar saber: “Tem tido pensamentos de fazer mal a si próprio? Não tenha medo de me dizer. Eu preciso de saber porque me preocupo consigo.”

Temos que lidar com a Depressão com a mesma falta de piedade com que ela mata, mas com o dobro da dose em carinho para quem está a sofrer com ela.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

As “Vozes” que dialogam: Psicoterapia, Rádio, Criatividade e o além mais…

O chão que (re)pisamos…”

Um processo psicoterapêutico começa no instante preciso do início de uma sessão… no primeiro olhar, no primeiro momento em que o sofrimento do outro toca o psicólogo/psicoterapeuta. Assim se inicia a “viagem” de descoberta, em que o libreto se escreve a dois, esboçando os contornos de uma história contorcionista…

Inevitavelmente, muitos são os momentos em que, para o psicólogo/psicoterapeuta, fazer o que já se sabe, por si só, não chega… Sobretudo quando se torna evidente que não está a resultar. Portanto, com alguma probabilidade, continuar a fazer o mesmo que já se percebeu que não funciona, mantendo premissas profissionais estanques e pouco flexíveis pode conduzir a um processo de frustração e de impasse terapêutico. O “chão que pisamos” é caminhado em círculos e torna-se imperativo ao psicólogo/psicoterapeuta pensar em formas de sair deste movimento e avançar com o processo… No fundo, parafraseando António Branco Vasco, torna-se fundamental encontrar formas de ser responsivo e ir ao encontro das necessidades psicológicas e características do paciente.

Espera-se, por isso, que a frustração e o impasse sentidos pelo psicólogo/psicoterapeuta possam ter um papel central no sentido de o impelir a fazer uma auto-reflexão, que não é mais do que um desafio a si próprio, aos seus limites, medos e inseguranças… E ter a ousadia, a coragem e a audácia para trilhar novos “caminhos”. Assim, o processo psicoterapêutico é algo em construção… que coloca ao psicólogo/psicoterapeuta o imperativo de procurar, inovar, pesquisar e, sobretudo, ousar criar algo diferente, onde a persistência e a tenacidade são fundamentais para se criar o tal libreto com modificações, novos registos e dinâmicas. O que implica, também, uma espécie de segurança insegura e de um arriscar calculado…

A Psicologia e a Psicoterapia parecem “beber” deste mesmo princípio de criatividade, onde prima uma necessidade intrínseca de reinvenção, de adaptação e de improviso… um processo lento construído pelas “mãos” de ambos os “artistas”: psicólogo/psicoterapeuta e paciente. “Mãos” que limam arestas, que aprimoram detalhes, que colam partes, separam outras, e que reconstroem peças à medida das diferentes perspectivas de luminosidade, que os raios de luz permitem vislumbrar ao incidir sobre elas.

E depois, é necessária a serenidade, a serenidade observante mas internamente produtiva e validante do psicoterapeuta, que lhe permite transmitir um significado ao outro e “emocionalizar” conteúdos… de criar uma homeostase “des-homeostasizante” que se vai auto-regulando… Assim como o movimento das ondas do mar, por vezes agitadas com marés revoltas, mas que se conseguem apaziguar e transformar em momentos de acalmia, onde a cadência do som constante produz um efeito tranquilizador.

Um exemplo inspirador de “chão a pisar”? A Rádio Aurora – A Outra Voz*

Com base no que foi exposto anteriormente, e mais especificamente focando o conceito de criatividade, quase que surge uma reflexão inevitável… como é que no decorrer da sua prática clínica, frequentemente solitária, os técnicos conseguem ter estes vislumbres do diferente, que se pautam por arriscar, inovar e trazer algo de novo? Talvez não exista uma única resposta a esta questão, mas, de facto, são necessários mais clicks de mudança e de criatividade ao longo da prática profissional. E, esta é, possivelmente, uma premissa básica igualmente partilhada pelo paradigma generalizado das intervenções realizadas na área da saúde mental. Nesse sentido, vou “levar-vos” a um lugar em particular que tem por nome de Rádio Aurora – A Outra Voz, um exemplo de algo diferente realizado no contexto psiquiátrico hospitalar em Portugal. Assim, começa:

Entra-se pela porta de um hospital psiquiátrico… e sente-se o peso da sua história ao longo dos anos à medida que se caminha erraticamente por entre os edifícios, ruas internas e passeios… entrecortadas pelo verde das árvores, dos raios de sol que atravessam a folhagem, e do som dos pássaros fugazes, ou dos “pássaros de fogo” em direcção ao aeroporto, que tendem a aparecer…

Após alguns minutos a caminhar, entra-se num edifício, sobem-se escadas, contornam-se corredores e chega-se a uma varanda. Sim, finalmente alcança-se uma varanda composta por um gradeamento singelo, meia dúzia de cadeiras, uma mesa comprida, aparelhos de som e vista para o jardim… Uma daquelas varandas tipicamente simples, e que tal como a maioria das coisas simples, deixa desde logo antever um enorme poder. Neste caso, o poder de unir pessoas, agregar pensamentos, partilhar/ouvir/gerar ideias. O poder de somente estar, ser… e ter uma voz.

Nesta varanda a que vos “levo”, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, é realizado um programa de rádio original e invulgar no nosso país. Criado em 2009, destaca-se por ser pioneiro no combate à discriminação e estigma face à doença mental. Tem por nome Rádio Aurora – A Outra Voz. Os responsáveis pela gravação do programa são uma equipa dinâmica constituída por utentes do próprio Centro Hospitalar (residentes ou externos, que aí realizam o seu acompanhamento médico) e um dos psicólogos iniciadores do mesmo (Nuno Faleiro da Silva). Neste Programa são entrevistados e ouvidos variados convidados, planeiam-se antecipadamente as questões a fazer… e, na hora de “subir o pano” faz-se silêncio porque se vai iniciar o “espectáculo”…

E, no seio de uma intervenção deste tipo que permite dar “voz” às necessidades e vontades dos próprios utentes, foi elaborado um conjunto belo de palavras sob a forma de uma “Carta aos Psicólogos”**. Não só a beleza das palavras aqui é espelhada, mas igualmente outra beleza se destaca… o facto de esta Carta conter, em si mesma, um reforço na primeira voz do que já vem sendo indicado na literatura e no Código de Ética e Deontologia dos Psicólogos sobre:

  1. Necessidades em termos de políticas na área da saúde mental e questões (contempladas no Código de Ética e Deontologia dos Psicólogos):

  • “… estreita relação entre psicólogos, psiquiatras e toda a equipa de técnicos que acompanham os pacientes”;

  • “…todos os utentes deviam ter acesso a consultas de psicologia gratuitas ou a preços acessíveis”;

  • “… devem-nos tratar com todo o respeito e dignidade, e ao que dizemos dar credibilidade”.

  1. Características relevantes dos psicólogos/psicoterapeutas (escuta activa, empatia, validação):

  • “…Os psicólogos deviam dar feedback aos utentes”;

  • “… é muito importante saber escutar e saber também interagir com o doente… e respeitá-lo e de certa forma amá-lo”;

  • “… interessarem-se por nós e tentarem ajudar na concretização realmente efectiva da realização dos nossos sonhos”;

  • “… devem dar a segurança aos doentes”;

  • “… apoiar em todas as situações”;

  • “… aos psicólogos cabe activamente escutar, valorizar, incentivar e animar. E quando for preciso ajudar a direccionar, e sempre que achem necessário para a psiquiatria nos encaminhar”.

 

De facto, provavelmente não existe uma resposta única e ideal para “como fazer diferente” e ser criativo, tanto em intervenções individualizadas como em grupo, mas talvez o conteúdo desta “Carta aos Psicólogos” possa abrir luzes nos caminhos dos técnicos da área da saúde psicológica e mental. No sentido de perceber que os pacientes são mais resilientes do que inicialmente se pensa, sendo necessário envolver activamente a sua “voz” na procura de soluções criativas para os seus problemas reais. E, por fim, que esta Carta seja igualmente uma lembrança diária da importância do papel do psicólogo/psicoterapeuta:

Por vezes os psicólogos são mesmo a única pessoa,

Com quem podemos sobre nós abertamente conversar…

E conscientes deste facto devem estar.

Dêem o vosso melhor, trabalhem com dedicação e amor,

Dêem tudo de vós e ouçam realmente a nossa voz…”

E estas palavras ficam a bailar-me na mente, quase como se fossem uma espécie de “declaração de amor”, fazendo lembrar novamente António Branco Vasco quando diz que “amar é simplesmente deixar ser”…

* Facebook da Rádio Aurora – A Outra Voz: https://www.facebook.com/radioaurora.outravoz/

Programas em arquivo: http://www.rum.pt/shows/radio-aurora-a-outra-voz

** A versão completa da “Carta aos Psicólogos” pode ser ouvida no link: https://soundcloud.com/radio-aurora-a-outra-voz/cartapsicologos.

Teresa Santos- Psicóloga e Psicoterapeuta