Receber presentes sem embrulho nem laço!

presente

Na quadra em que estamos é bom relembrar como podemos dar e receber aquilo que não tem preço mas que é infinitamente importante para nós: o valor próprio.

Sabemos que o valor dos presentes que nos oferecem passa essencialmente pela intenção de quem o dá. Porque pensou em nós, nos teve em consideração, nos conhece e nos quer agradar. Mas também sabemos que os melhores presentes que recebemos são aqueles que nos surpreendem e encantam ao mesmo tempo. São estes que nos tocam cá dentro porque recebemos algo adicional ao próprio presente, talvez um reflexo do nosso valor.

Precisamos RECEBER através de acções ou de actividades que nos façam sentir mais completos, mais plenos, mais seguros, com mais valor. Em que sentimos que existe algo de nós que com aquele gesto foi tornado Satisfatoriamente presente. E elas podem ser divididas em solitárias ou partilhadas mas ambas têm a particularidade de nos acrescerem algum bem-estar, prazer, satisfação.

As primeiras acontecem, por exemplo, quando ouvimos uma música ou lemos livro que gostamos, quando desenvolvemos uma paixão por um hobbie, quando contemplamos algo, quando não fazemos absolutamente nada ou quando arranjamos tempo para estarmos sozinhos. Normalmente estas coisas não são reconhecidas como tendo a capacidade de nos fazer receber e muito menos estamos habituados a notar o quanto é bom.

As segundas acontecem, por exemplo, quando passeamos ou estamos com a nossa família, quando recebemos uma sms de alguém querido depois de saber que estivemos doentes ou tristes, quando nos fazem um miminho, quando nos recebem com um abraço ou quando recebemos um sorriso acolhedor e um olhar ternurento.

Serem gentis e atenciosos connosco nem sempre é fácil de ser recebido.  Mas serem muitos expressivos naquilo que nos estão a dar como quando nos dão um “perigoso” Elogio pode erguer a muralha da dificuldade ainda mais. Os tristes hábitos educacionais de não reconhecer o bom porque pode estragar, contamina com a desconfiança, a acção de alguém que nos dá mesmo (e gratuitamente) alguma coisa. Também a cultura do “pagar para ter” é muito empobrecedora destas acções.

Numa perspectiva mais interior, a falta de merecimento é um bom candidato para explicar a resistência em aceitar atenção e reconhecimento de algo que nunca antes tenha sido notado por ninguém, nem mesmo pelo próprio, como tendo valor. Afinal de contas “não merecer” tem uma grande fundação na sofrida falta de visibilidade, valor ou de respeito ao longo da caminhada da vida. Como receber não está associado a uma troca de acções, advém simplesmente do reconhecimento daquilo que somos enquanto seres humanos no mais básico da nossa Existência (i.e. generosos, frágeis, capazes, bonitos, imperfeitos…) acolher uma entrega unidireccional que nos enche de sentimentos que não sabemos muitas vezes o que são, é muito assustador… por serem tão bons e preenchedores e, talvez, por não se ter memória afectiva e corporal do que é sentir-se assim. Falo obviamente de parentes do Amor (alegria, prazer, orgulho, pertença, esperança) que parecem transbordar o corpo e o coração e que fazem soar um sinal de alarme, do perigo de se ser bom talvez J Por isso rejeita-se este estado com o “ser bom demais para mim” entrando-se na ratoeira de não nos sentirmos dignos de receber um simples mas tão belo presente.

A dignidade com que recebemos presentes está intimamente ligada à capacidade de o acolher, isto é, ao sentimento de gratidão pelo bom, bonito, livre, vitalizante, vibrante ou brilhante ser humano, que o outro nos faz sentir SER com o presente que nos dá.

Cada presente destes vale uma vida sem a camuflagem do embrulho ou as amarras do laço!

Rita dos Santos Duarte – Psicoterapeuta

Quem sou eu quando não faço nada?

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“Sou eu…” mas a dúvida instala-se com o fantasma dos lados temíveis desta afirmação tais como: “Sou preguiçoso(a)”, “sou vergonhoso(a)”, “sou insignificante”, “sou uma desilusão”, “sou diferente”, “sou nada…” ameaçadoras respostas para uma inocente questão.

A dificuldade em parar é um problema encontrado por algumas pessoas e que na grande maioria das vezes nem o entendem enquanto tal na sua vida. Na realidade tem sido ou foi durante anos parte da solução que encontraram para manterem o movimento e evitarem o contacto com aspectos de si que estimam, na grande maioria das vezes, serem maus.

O quebrar deste ciclo é dificultado porque, às vezes, até já se experimentou mas foi-se criticado, originando e reforçando assim a pressa e a aflição de não se parar. Ou, de outro modo, porque se tem muito medo de que exista um vazio no “nada” ou de viver uma antecipada auto-decepção com o experimentar que não sou nada de bom se não me mantiver em movimento.

Mas existe uma clara distinção entre aquilo que se sente/acredita acerca de algo e aquilo que imaginamos sentir ou acreditar.

Quando vivemos a paragem conseguimos perceber a segurança ou a vulnerabilidade que a mesma nos acresce, conseguimos perceber a qualidade do que fazemos para os outros e do que fazemos e precisamos para nós próprios. Mas sobretudo leva-nos a conseguir controlar a nossa paragem enquanto uma autorizada e real escolha e não enquanto uma fuga descontrolada que o perigo subjectivo de parar nos traz.

O conceito de “não fazer nada” também está vulgarmente associado a dois P´s importantes: o de Prazer e o de Perdido(a).

O prazer de não fazer nada não se liga bem, por um lado, com a voraz instrução educacional de esforço contínuo na vida e, por outro, com o “E agora?” que a paragem levanta. O autor Jorge Bucay defende sabiamente que o esforço só serve para prisão de ventre pois nada de verdadeiramente valioso na vida se consegue com esforço (não confundir com trabalho, disciplina e dedicação).

Digamos que é um aprender a “não fazer nada” produtivamente! Aquele em que não fazer é fazer. Aquele que se eliminam os resíduos do movimento contínuo e faz nascer/criar coisas substituindo o guião predestinado do nosso quotidiano e de nós próprios.

Esta vivência pode ser um bónus e não uma perda vazia na medida em que descobrimos potências das nossas pessoas que não têm espaço para aparecer com o medo do “nada” ser um “nada” mau.

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

A arte de CONTEMPLAR

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Os “nadas” do quotidiano podem ser o “tudo” no equilíbrio e no bem-estar.

Sintonizarmo-nos com a beleza e riqueza de pequenos momentos da vida é uma habilidade francamente desejável para a nossa harmonia interior. Aquela em que conseguimos focar-nos No Que Está a Acontecer, No Como está a Acontecer e No Como Nos Faz Sentir o Que Está a Acontecer. Falo dos momentos em que utilizamos mais do que um sentido (porque temos 5 disponíveis e só nos focamos apenas em 1 em cada momento) e os convergimos numa experiência única e sensorialmente agradável.

Momentos tão banais como aquele em que saboreamos uma comida/bebida de que gostamos e conseguimos captar o seu cheiro, paladar e textura desde que a olhamos até ao momento em que a colocamos na boca e conseguimos acompanhar, interiormente, a jornada de prazer que vamos sentindo, ao mesmo tempo que percebemos que nos faz ficar mais entusiasmados, mais calmos ou que memórias que vão sendo despertadas ao longo daquela jornada. Descrito parece que demora muito tempo mas na realidade é breve… muito breve, e por isso é tão importante conseguir estarmos ATENTOS e PARAR para nos FOCARMOS na oportunidade destes momentos e os agarrarmos ficando depois disponíveis nas memórias de PRAZER do nosso corpo.

Sejam situações mais ou menos intencionais; como olhar para a imensidão do mar e deixar o rosto e o peito serem aquecidos pelos leves raios de sol de Inverno enquanto cheiramos a brisa marítima OU como dar-se conta de que uma música a tocar na rádio, enquanto está parado(a) no trânsito, lhe desperta saudosa alegria que lhe enche o peito e lhe dá uma misteriosa força para iniciar o seu dia de trabalho; parecem estar presentes sementes comuns ao florescimento do que é vivo e prazeroso na vida.

Talvez estas oportunidades de CONTEMPLAÇÃO, em que puxamos algo exterior com todos os nossos sentidos disponíveis e o transformamos numa experiência ímpar, em que o produto final é resumido a BEM-ESTAR, ajudem a criar VITALIDADE interior, aquela que vai e vem directa ao CENTRO de quem nós somos e que nos faz querer ir mais além na vida.

Os bebés são um grande exemplo nesta arte de transformar os “nadas” em “tudos” quando apenas olham para nós com todos os sentidos, como se nos quisessem puxar para dentro deles com toda a sua força ou como se nos enfeitiçassem com a simplicidade com que ficam regalados… é que eles olham o mundo com todo o equipamento sensorial de que dispõem.

A arte da contemplação é um recurso de saúde mental e espiritual, precocemente desenvolvido pelos seres humanos mas tão facilmente esquecido à medida que vamos crescendo em tamanho.

Pratiquemos a CONTEMPLAÇÃO: CONTEMPLE o mundo e CONTEMPLE-SE a si!

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta