Arrogantes (também) somos nós!

Já nos conhecemos bem. Afinal, temos passado horas e horas a escutarmo-nos. O João é um tipo inteligente e com o coração no sítio. Veio para “desatar alguns nós que me atormentam”, disse-me, a primeira vez que se sentou comigo.

  Diz-me, com a voz trémula: sabe, acho que há um lado meu arrogante, que me tem tramado a vida. Acho que sempre o tive. Lembra-se daquela história do grupo de jovens? Eu era muito novo. Era o mais novo do grupo. Era para aí a 2ª reunião que ia. Estava inseguro. E sabe como é que é quando se está inseguro: metemo-nos em bicos de pés. Uma das raparigas, mais velha do que eu, não sabia quem era o Guterres. Ele era primeiro-ministro na altura. Bem, eu do alto do meu ar mais pedante disse-lhe qualquer coisa como: “Não sabes quem é o Guterres? Que falta de cultura política!” Fez-se um silêncio na sala. A rapariga riu-se e encaixou com uma categoria de fazer inveja. O meu irmão olhou-me com uns olhos de: foge-me da frente que nunca mais vou esquecer. No final, sozinhos, deu-me uma descasca, que ainda hoje lhe agradeço. E sabe, a rapariga, depois daquele meu laivo de arrogância sem fim, teve a bondade de ser minha amiga. Ainda hoje somos amigos. Ela até podia não saber quem era o Guterres, mas de pessoas, meu Deus, de pessoas, dava-me cinco a zero! Depois foi o que você sabe: no Liceu, entre as borbulhas e as Doc biqueira de aço, estava longe de me sentir um ás de trunfo. Eu acho que as pessoas até gostavam de mim, mas faltava-me a confiança para ir a jogo, à homem. Lá saber quem era o Guterres e o Clinton, lá isso eu sabia, mas já como ser acutilante com as miúdas… ainda tinha muito que aprender! A Faculdade foi um upgrade extraordinário na minha vida. Perceber que me conseguia sintonizar com pessoas com histórias tão diferentes da minha, acho que me ajudou a tornar um bocadinho mais seguro, um bocadinho mais humilde. Travou este meu lado mais arrogante, mas não o matou de vez. Que o diga a minha primeira namorada da Faculdade, a quem fiquei a dever alguns pedidos de desculpas, dívida que entretanto saldei. A insegurança dos primeiros anos de trabalho, acho que o reacendeu um bocadinho. Que o digam alguns operadores de call center, com quem tive verdadeiro vómitos violentos e arrogantes. Sabe, eu acho que tenho um lado verdadeiramente humilde. Sou amável com as pessoas e adoro misturar-me com elas, reconhecer-lhes o mérito e encantar-me com as suas qualidades. Mas, às vezes, meu Deus, às vezes, pareço um touro enraivecido, a espumar arrogância por todos os poros, como se o mundo se tivesse realmente unido para me tramar. Tenho pensado muito nisso, desde que, há umas semanas, acordei um dia tão azedo, mas tão azedo, que me zanguei com Deus (como poderia ele existir se a minha vida estava tão longe de ser a que sonhei?!), com os meus pais, com a minha namorada, consigo, com o céu estrelado e com tudo o que mexesse ou estivesse parado, acho eu! Sabe, entretanto, acho que houve duas coisas que me fizeram parar para pensar. O Bernardo [um grande amigo, de há muitos anos] disse-me, a propósito das lutas da vida, uma coisa que me ficou a martelar na cabeça: “A verdade é que, chegada a hora, não somos melhores do que ninguém”. A outra, tal como naquela vez, no grupo de jovens, foi o meu irmão que ma disse. Não foi muito mais do que um: “às vezes também tens de ter calma”. A princípio senti aquilo como castrador. Só aumentou o meu sentimento de cruzado contra o mundo. Mas a verdade é que, pouco depois, me fez cair em mim. Fez-me pensar em como, tantas e tantas vezes, me ponho numa posição sobranceira perante a vida, como se fosse a última bolacha do pacote. E a verdade é que não sou! Fiquei ali uns dias derreado, tristonho, metido comigo, envergonhado, muito envergonhado acho eu. Mas, a verdade é que foi libertador! Por mais paradoxal que possa parecer, perceber que não sou a última bolacha do pacote serenou-me! Por mais estranho que possa parecer, perceber que tenho de ser mais humilde deu-me esperança no futuro e força para o fazer acontecer! Engraçado como sermos mais humildes nos torna mais seguros. Lembrei-me do Bob Dylan quando, na sua Blowin´in the Wind, se pergunta: How many roads must a man walk down before we can call him a man?, percebi que ainda ando a aprender como é que se pode ser assertivo e humilde ao mesmo tempo, e acho que fiquei um bocadinho mais amigo da vida, de Deus, dos meus pais, da minha namorada, dos meus amigos, do céu estrelado, de tudo o que mexe e que está parado!

 Se, como nos ensina Bion, a arrogância (como a inveja destrutiva, a violência ou a indiferença) vem direitinha da parte psicótica da personalidade, esta capacidade extraordinária de nos escutarmos, de nos pormos em causa, de discorrermos sobre as nossas histórias, ligando-as, de repararmos erros, de nos perdoarmos e de aprendermos com a experiência, será – creio – a forma mais efetiva de, humildemente, nos encantarmos pela vida, agarrando-a pelos colarinhos!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue – sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais – está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

José Sargento – Psicólogo clínico e Psicoterapeuta

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