Maria já não sabe o que fazer…

Maria já não sabe o que fazer. Tudo na sua vida parece cinzento.

Tem uma família perfeita, um marido que faz tudo por ela, dois filhos que adoram a mãe, uma vida abastada, como ela nunca imaginou ter. Uma casa a seu gosto, que teve sempre a liberdade e a possibilidade de a decorar como quis, dois carros, uma casa na praia, uma casa no campo, um trabalho que antes adorava. Tudo na sua vida não justificava o seu sentir.

O que se passava com ela?

Desde há algum tempo que tudo parecia insípido, insuficiente, que nada lhe dava prazer, e tudo era feito com esforço. Um peso nos seus ombros, um aperto no peito que nunca lhe dava descanso. O tempo não ajudava. Quanto mais o tempo passava, mais a vida lhe parecia difícil. E ainda por cima, para ela, nada disto fazia sentido.

Como tinha ela chegado a este ponto?

Deixara de ser esposa, não conseguia ser mãe, nem se sentia pessoa. Arrastava-se da cama para o sofá, e do sofá para a cama. Abria o frigorífico e parecia que nada lhe apetecia, e com isso já perdera peso, e quando se olhava ao espelho, um dos seus maiores inimigos, parecia uma amostra do já tinha sido. E pensava todos os dias na ingratidão que era o seu ser: não tinha razão para assim se sentir. E isso ainda a deitava mais abaixo.

Outrora já tinha sido feliz.

Lembra-se distantemente desses momentos, onde a vida lhe sorria, onde ela era capaz. Sentimento agora desaparecido, a capacidade. E olhava à sua volta e ainda mais triste se sentia. Ouvia tantos que lhe diziam que também estavam deprimidos e seguiam com a sua vida. Que trabalhavam, enquanto ela estava de baixa há tanto tempo, que já medo sentia de voltar aquele lugar, que eram pais e mães, que eram pessoas, enquanto ela se sentia uma manta de retalhos, e que nunca mais sairia deste fosso de lodo que a prendia, e quanto mais ela batalhara no passado, mais enterrada ficava.

Era tão difícil para ela admitir que precisava de ajuda. Isso seria a confirmação do fracasso que se sentia. O marido já insistira, mas ela sentia que sozinha não conseguiria voltar à sua vida. E mais uma ouvia: “Eu também estou deprimida, mas sabes não me posso dar ao luxo de ficar em casa”, como se fosse um luxo ao capricho o seu sofrimento. E mais uma vez lhe diziam, amigos e estranhos “tens de te erguer de novo, faz um esforço”, e mais uma vez ninguém percebia que ela tentava todos os dias, e que o que fazia era o que conseguia. E quanto mais ouvia estas coisas pior se sentia.

Olhava para os olhos tristes dos filhos, que sentiam que a mãe já quase não existia, e para ela era mais uma facada no peito que sentia. Seria então uma opção?

Considerando que existem sete mil milhões de pessoas no mundo, e que a Organização Mundial de Saúde refere que existe uma média de cento e vinte e um milhões de pessoas com um quadro que permite um diagnóstico de um quadro clínico de depressão, nas suas diversas manifestações, vemos então que existe uma prevalência de 1,7% da população que é portadora desta doença.

Então porque ouvimos tantas pessoas que se afirmam estar deprimidas?

Isto inicialmente deve-se ao desenvolvimento massivo a nível de países, e que é verificado que quanto mais o país é desenvolvido, com visões mais capitalistas, tem mais psiquiatras por metro quadrado, podemos então afirmar que existem fatores extra biológicos que justificam esse mesmo quadro clínico. Ou seja, quanto mais temos acesso a diferentes objetos de desejo, variedade de produtos, e afins, maior se torna a nossa lista de necessidades, e a não concretização das mesmas aumentam exponencialmente o sentimento de insuficiência na nossa vida.

Pegando no exemplo, inclusivamente nacional, e olhando para as pequenas comunidades do interior de Portugal, em que o acesso a recursos diversificados é limitado pelo isolamento dessas regiões, a lista de necessidade sendo ela mais reduzida, mais facilmente as pessoas sentem os seus desejos satisfeitos, e logo diminuem algumas variáveis que contribuem para quadros depressivos.

Por outro lado, existem vários tipos de depressão, em que alguns tipos se tornam essências à aceitação de perdas naturais da nossa vida, como por exemplo a morte de um pai ou mãe numa idade avançada, de forma a não se desenvolver um quadro de luto patológico, outras tem uma valência mais biológica, em que elas perduram mesmo mudando algumas condições externas à pessoa, tendo nestes casos que se recorrer à introdução de psicofármacos.

Em ambos os casos o acesso a psicoterapia é essencial no seu tratamento.

Então porque é que tanta gente se auto-rotula como depressivas, e além disso parecem que conseguem viver sem qualquer limitação evidente?

Isto deve-se ao facto da banalização da palavra depressão.

Os quadros clínicos de depressão, devem ser avaliados e diagnosticados por técnicos de saúde mental, pois muitas vezes se confundem sentimentos de tristeza que podem ser semelhantes aos verificados nos casos de depressão clínica, que contribuem para esta denominação incorreta e uso excessivo deste termo.

Estar triste pode ser um estado de ânimo adaptativo e normal e não deve ser confundido com tristeza.

Quando olhamos para os critérios necessários para este diagnóstico, o primeiro e primordial, é a interferência de forma evidente destes mesmos sintomas na vida quotidiana da vida do paciente. Outros são os critérios que vos convido a pesquisarem, em que podemos afirmar que os mais conhecidos são sentimentos de tristeza profunda e melancolia mantidos durante um período alargado de tempo, uma incapacidade de olhar para si e para o futuro de forma justa e realista, pois parece que este quadro nos coloca um filtro cinzento à frente dos nossos olhos, e que faz com que tenhamos uma visão em túnel e que impossibilite uma plasticidade de conseguirmos dar significado diferente às diferentes áreas da vida da pessoa.

A banalização desta palavra contribuiu para dificultar a perceção do que verdadeiramente se trata quando falamos de depressão.

Comentários como “eu também estou deprimida e sigo com a minha vida” ou “tens de fazer um esforço” ou “tu podes dar-te ao luxo de estares deprimida” vêm corroborar a ideia negativa que os doentes sofrem de depressão, podendo nem ser este caso.

Como antes foi referido esta doença é verificada em quase duas pessoas em cem e, pelo que sabemos, parece ser uma doença mais prevalente do que é na realidade.

Procure ajuda especializada se começar a ter os sintomas mais conhecidos da depressão, para corretamente ser avaliada e ser tratada atempadamente, pois quanto mais tempo se vive com a doença, mais difícil se torna sobreviver a ela!

 

Pedro Garrido – Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta

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“Amor nos tempos de cólera”, a MARTA e um exercício

amor em tpos cólera

Gabriel Garcia-Márquez escreveu uma das que é considerada unanimemente, uma das obras-primas da literatura. Remete-nos para um mundo intenso de emoções, de sensações, de um tanto que (todos) temos cá dentro, nos limites da nossa pele.

Ainda assim, para hoje, atrevo-me apenas a divagar sobre o título. Há toda uma riqueza nestas palavras, o amor nos tempos de cólera. Permitam-me, por conforto e conveniência para o tema, deixar de lado a cólera enquanto enfermidade, para nos centrarmos na cólera enquanto emoção intensa de raiva e zanga.

Já sabemos que, para bem da nossa saúde mental, as emoções são para ser vividas e experienciadas de forma segura e saudável. Vários autores tentam chegar a um consenso relativamente as emoções que podemos designar como transversais. Façamos a ressalva, estamos a falar de emoções e não da sua expressão facial, e estamos propositadamente a evitar termos como “universais” e “primárias”, de pendor teórico bastante marcado.

Consideremos então, novamente por conveniência, o seguinte rol de emoções transversais, ao qual (a quem) carinhosamente chamaremos MARTA.

  • Medo
  • Alegria
  • Raiva (há quem prefira “zanga”, mas por conforto para a MARTA, iremos manter raiva)
  • Tristeza
  • Atracção (e o seu oposto, a repulsa)

Ora bem, nem todos temos MARTAs na nossa vida, pelo menos da forma mais plena. Sugiro um rápido (mas nem por isso mais fácil) exercício. Ordene as emoções que aqui abordamos consoante a frequência com as experiencia (note que experienciar e expressar sao aspectos diferentes, por exemplo, pode estar zangado com um familiar mas não o expressar). Ja está? Repare que nem sempre é nítido acedermos ao nosso estado emocional (salvo em momentos de assinalável intensidade). Este é o primeiro passo do exercício.

O segundo desafio consiste em tentar perceber, ao longo da sua vida, a sua configuração emocional da MARTA se alterou, ou seja, se as emoções que experiencia mais frequentemente têm sido as mesmas (ou qual foi a direcção da mudança). Para os mais ávidos do registo mais pragmático, uma linha horizontal separada a intervalos regulares (5 ou 10 anos) pode ser uma boa ideia. Este é o segundo passo do exercício.

Na primeira parte do exercício, terá ficado com uma sequência de emoções, seja MARTA ou qualquer outra combinação possível, em que a primeira será a emoção que reconhece como sendo aquela que mais facilmente vivência (independentemente de a expressar, ou não), e dessa até chegar à última, que será a emoção que reconhece como mais dificilmente experienciada.

É importante estar atento. A tarefa é a de se permitir tomar maior consciência das emoções que ficaram em 4o e 5o lugar. Regra geral, são emoções que não nos permitimos sentir, ou através dos nossos diálogos internos, das expectativas e das regras vigentes na sociedade (todos “sabemos” que um homem não chora, uma menina não se zanga, etc..), na família, na escola, ou num determinado grupo ao qual queremos pertencer. Portanto, é útil apercebermo-nos que nos foi permitido expressar? E, por outro lado, o que nos foi proibido expressar?

No outro extremo, as emoções que conquistaram o 1o e 2o lugar são, muito possivelmente, aquelas que estão a ser experienciadas em regime de sobre-compensação. Ou seja, a sua vivência permite, eventualmente, mascara, iludir ou até não sentir as emoções que ficaram no fim da tabela. Não se quer com isto dizer que não estejamos de facto a experiênciar essa emoção, apenas estamos a focar na frequência com que essa vivência pode estar a substituir a expressão da emoção original. Esta emoção original seria aquela que, efectivamente, a pessoa exprimiria de forma plena e que lhe permitiria satisfazer a necessidade do momento que conduziu ao seu aparecimento.

Por exemplo, se colocou a raiva no último lugar da sua matriz emocional, e a tristeza em primeiro ou segundo lugar, poderíamos imaginar que em determinadas situações em que se poderia ter zangado (a raiva é uma emoção bastante activa em termos fisiológicos), se terá entristecido (sendo a tristeza uma emoção menos activa, e potencialmente mais lúcida e nítida).

Em complemento, o momento de retrospectiva do exercício apura-nos a capacidade de reflexão sobre os nossos momentos emocionais ao longo da vida (os mais marcantes, mas também os que correspondem a alturas menos intensas).

Esta movimentação pode ser relevante para nos darmos conta de eventuais padrões de expressão emocional num determinado sistema (família, escola, grupos de pares, etc.). Identificar estes padrões idealizados permite-nos também aumentar a consciência dos padrões proibidos, ao longo do tempo. Se tiver havido mudança na configuração da sua matriz emocional, poderá depreender-se que, ao longo do tempo, a pessoa foi capaz de flexibilizar a sua vivência emocional. Por outro lado, se a sua MARTA se manteve mais ou menos constante, tenha em atenção que uma configuração mais rígida inflexível poderá estar mais associada a uma menor capacidade de regulação de experiências emocionais e, eventualmente, a uma menor satisfação.

Voltemos a Gabriel, confirmando que o amor nos tempos de cólera também pode ser a tristeza nos momentos de medo ou a alegria nos momentos de tristeza. Apresentemos estas possibilidades às nossas vivências, permitamo-nos navegar entre o pode ser intenso e marcante, mas também plácido e sereno.

No fundo, pretendemos caminhar no sentido de aceder de forma segura ao mais autêntico das nossas emoções e, assim, saber de que precisamos para sermos mais plenos …

Ana Baptista de Oliveira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Magoar ou entristecer?

magoar ou entristecer

“Não consigo lidar com o facto de se lhe expressar o que sinto vou magoá-lo/a”

A ideia de que expressar emoções desagradáveis ao outro, sobre o outro, implica magoá-lo é algo que os meus pacientes me trazem com frequência para as sessões.

A possibilidade de magoar o outro é tão aversiva que parece haver uma preferência por anular a expressão das próprias emoções, mesmo que isso acarrete incoerência e sofrimento para o próprio.

Esta dificuldade dos meus pacientes em serem coerentes com as suas emoções no relacionamento com os outros mexia particularmente comigo e debrucei-me a reflectir sobre o que é que me desconcertava nesta dificuldade tão comum.

Comecei então a pensar, o que é isto de magoar o outro? Quando é que magoamos o outro? Magoar parece-me implicar uma certa desconsideração, uma forma descuidada de tratar o outro, seja no adoptar de uma postura agressiva, ou no adoptar de uma postura negligente. Diria que magoar implica não considerar o outro na equação. E a realidade é que não era isto que eu via tendencialmente nos meus pacientes, pelo contrário, parecia-me que equacionavam tanto o outro que se esqueciam de si próprios.

E comecei a pensar… será de facto que magoamos os outros quando partilhamos, de uma forma cuidada, as nossas opiniões divergentes ou as nossas emoções menos agradáveis perante eles? E surgiu-me esta diferença: magoar ou entristecer?

Se me apontam características menos positivas minhas, eu fico triste; se me dizem “já não sinto por ti o que sentia”, eu fico triste; se não partilham a mesma opinião que eu sobre um tema que me é querido, eu posso ficar triste também; mas magoada?

Quando, por tanto engolirem o que pensam a meu respeito, explodem um dia e me mostram os meus defeitos de forma agressiva, eu fico magoada; quando me dizem “gosto de ti da mesma forma” mas toda a expressão não verbal, nomeadamente o afastamento ou a irritação, mostra o contrário, eu fico magoada; quando, por terem uma opinião diferente da minha num tema importante para mim, criticam a minha opinião de forma desrespeitosa, eu fico magoada.

A diferença não está em expressar ou ocultar o que sentimos, a diferença está no cuidado que temos perante o outro quando o expressamos.

E talvez alguns me possam dizer: “mas eu também não quero entristecê-lo/a”. Eu aí diria que podermos dar atenção às nossas tristezas e ficar a dar-lhes algum colo quando surgem é essencial para arrumarmos as nossas dores e podermos então abrir-nos a novas possibilidades. Por outro lado, ao ocultar verbalmente o que a nossa expressão corporal não consegue esconder, podemos estar já a magoar.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga clínica e Psicoterapeuta

A tristeza e a depressão

tristeza
Só se deprime quem não se deixa entristecer
António Branco Vasco
Esta é sem dúvida uma das frases marcantes do meu percurso académico e a minha experiência clínica tem confirmado todos os dias quão verdadeira ela é.
Talvez soe estranho, estamos habituados a associar a depressão à tristeza e a temer que se nos permitirmos entristecer podemos acabar a deprimir. Por lógico que possa parecer o raciocínio, é na realidade falso.A tristeza é uma emoção com funções adaptativas muito importantes: por um lado mostrarmos aos outros que precisamos de conforto e auxílio no sentido de reduzir o nosso sofrimento psicológico, por outro recolhermo-nos em nós próprios no sentido de ultrapassar as nossas perdas significativas. Ambos estes movimentos (um para o exterior, outro para o interior) são fundamentais para recuperarmos o equilíbrio e voltarmos a investir nas nossas vidas.
A depressão é como uma panela de pressão, cheia de tristeza a ferver e sem que aliviemos o pipo para deixar alguma sair. Ao não nos permitirmos entristecer, não libertamos alguma desta energia dolorosa mas real, e ficamos inundados por ela; no esforço de não a deixarmos sair, bloqueamos todas as saídas, que são também as entradas, e a vida deixa de fluir.Em terapia o que procuramos habitualmente fazer face a quadros de depressão, é reconhecer as frequentes tristezas acumuladas, dar-lhes permissão para se expressarem num ambiente seguro, dar-lhes colo, validação, e perceber o seu significado (de onde é que vêm e o que é que sinalizam). De alguma forma tentamos ajudar a reestabelecer o conforto com a tristeza, a vê-la mais como um aliado e menos como um inimigo.E na medida em que se for permitindo entristecer, acredite, vai estar a proteger-se da depressão.

 Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapêuta

Dificuldades na intervenção na Depressão

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Portugal é o país europeu e o segundo do mundo com maior taxa de depressão na ordem dos 25%, pelo que, apesar das variáveis com melhor predição no sucesso terapêutico serem as carcterísticas do próprio paciente e a relação terapêutica em vez do correcto dignóstico de Eixo I, é urgente compreendê-la e antecipar dificuldades específicas.

Na maior parte das vezes, a depressão tem na sua base uma vivência de abandono ou perda, que face a um deteminado acontecimento de vida, activa crenças de incapacidade, falha, culpabilidade invadindo o funcionamento relacional, profississional e social de quem a sofre e aniquilando uma vivência tranquila do aqui e agora. Parafraseando o Professor Coimbra de Matos “nada ou pouco interessa no presente real e pouco ou nada é imaginado como bom ou apetecível no amanhã”.

A lentificação e a falta de prazer poderão constituir dificuldades ao terapeuta, nomeadamente, impaciência face à sua genuína vontade de ajudar o paciente. É também necessário que o clínico se sinta confortável para lidar com a temática da morte, tantas vezes presente, quer em pensamentos quer em acção, na depressão. Face à tristeza, é natural sentir compaixão, e por vezes,  um impulso de tirar a pessoa do seu “buraco negro”, que deveremos refrear. A validação e a empatia assumem aqui um papel fundamental. Deveremos “ver” a sua história na sua prespectiva, sem julgamento, reconhecendo o seu sofrimento, e mostrando que estaremos ao lado dele, sem pressa. Só assim, este poderá reescrevê-la, aceitá-la e, mais tarde, implementar as mudanças necessárias para recuperar o contacto consigo e com o mundo. Qualquer ganho, por mais pequeno que seja, como por exemplo, ficar na cama 14 horas e 45 minutos por dia em vez das15 horas habituaus deverá ser reforçado.

Assim, deveremos ser responsivos na nossa intervenção, ou seja, o processo terapêutico deverá ser como uma dança, cujo ritmo é dado pelo paciente, com o objectivo comum de melhoria do seu bem-estar.

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga

 

 

 

 

 

Pseudodemência depressiva – quando a depressão parece demência e a demência parece depressão.

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A depressão afecta uma em dez pessoas com idades acima dos 65 anos, sendo a perturbação mais comum ao nível da saúde mental em idosos e é frequentemente desvalorizada por pacientes, técnicos de saúde e familiares, sendo considerada como parte integrante do envelhecimento.

Isto talvez porque na depressão na terceira idade, além da apatia e fraca motivação, também típicos do envelhecimento, existem normalmente poucas queixas de tristeza que, por sua vez, é muitas vezes substituída por hipocondria e preocupações somáticas. No entanto, a depressão tem vindo a aumentar reduzindo a qualidade de vida, aumentando incapacidades físicas, sendo uma das principais causas de dependência funcional de outros cuidadores para actividades da vida diária como higiene e alimentação e é uma dos maiores preditores de suicídio na terceira idade.

Muitas das vezes, a depressão na terceira idade vem acompanhada de perdas cognitivas, sendo nestes casos denominada de “pseudodemência depressiva” – o que dificulta o diagnóstico diferencial entre depressão e demência. Muitos dos sintomas depressivos como a desmotivação, apatia, embotamento afectivo, dificuldades de concentração, discurso e psicomotricidade lentificadas, são também sintomas de quadros demenciais.

Sendo assim, como podemos diferenciar depressão e demência na terceira idade?

A ordem de ocorrência dos sintomas constitui um factor que ajuda na diferenciação entre depressão e demência pois normalmente os doentes cujas alterações cognitivas procederam os sintomas depressivos parecem ter maior probabilidade de estarem a desenvolver uma “verdadeira” demência, do que aqueles nos quais a sintomatologia depressiva precedeu às alterações cognitivas.

Pessoas com depressão, catastrofizam as suas dificuldades mnésicas e podem até ter resultados inferiores à média nos testes de memória, mas isto apenas acontece, não por dificuldades mnésicas reais, mas por pouca motivação para o desempenho de tarefas. Normalmente apresentam maiores dificuldades na memória a longo prazo, o que poderá ser confirmado através de uma avaliação neuropsicologia que escrutina as várias memórias. É também fundamental avaliar se as dificuldades mnésicas se instalaram súbita ou gradualmente e se se o idoso tem historial familiar de depressão ou demência.

No entanto, muito frequentemente, um quadro clínico de demência pode acompanhar-se de depressão, o que dificulta o diagnóstico diferencial.

O diagnóstico diferencial deverá ser preferencialmente realizado por um médico especialista, nomeadamente da especialidade de Neurologia ou Psiquiatra.

De entre os vários exames complementares que poderão ser requisitados, tais como a T.A.C. (Tomografia Axial Computorizada) ou R.M. (Ressonância Magnética) crânio-encefálicas, é também aconselhável a realização de uma avaliação neuropsicológica.

A título ilustrativo deixo uma tabela com o resumo das principais diferenças entre depressão e demência na terceira idade.

    Depressão                                                        Demência

Inicio bem demarcado                                          Início indistinto

História familiar de depressão                         História familiar de demência

Queixas de perdas cognitivas                          Poucas queixas (do próprio) de                                                                                                        perdas cognitivas

História de dificuldades psicológicas            História de dificuldades psicológicas                     ou de crise de vida recente                        ou de crise de vida pouco frequente

Perdas cognitivas posteriores                       Perdas cognitivas anteriores                              à sintomatologia depressiva                       anteriores aos sintomas depressivos

Pouco esforço durante a aplicação                  Frequente luta para executar do                            exame neuropsicológico                                    as tarefas cognitivas

Maiores défices na memória                          Maiores défices na memória                                      a longo prazo                                                       a curto prazo

Melhoria de défices cognitivos                          Melhoria pouco significativa dos défices com medicação anti-depressiva                        com antidepressivos

Catarina Barra Vaz – Neuropsicóloga, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

As emoções “malditas”…

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Um dos passos mais importantes no trabalho terapêutico é a identificação das emoções, perceber o seu papel específico na vida do indivíduo, compreendendo como a sua inibição, evitamento ou expressão desregulada afeta a vida da pessoa.

Se há emoções com que ninguém parece ter preocupações, como é o caso da alegria, há outras que são olhadas com muita desconfiança, como é o caso da tristeza e da zanga. À tristeza, nalgumas situações (morte de alguém próximo, divórcio), é concedida algum tempo para que seja vivida, tentando-se depois que ela desapareça rapidamente, (“tristezas não pagam dívidas”) pois muitos de nós não nos concedemos, nem a nós nem aos outros, o direito de estar triste, nem queremos viver a vulnerabilidade que representa “estar triste” porque “temos que ser fortes” e… produtivos. Nesta armadilha caiem muitos dos que depois acabam verdadeiramente deprimidos, perdendo o sentido da sua própria vida.

Quanto à zanga, essa é vista ainda com piores olhos, como se fosse uma emoção maldita; ora ela afinal não é nem mais nem menos que as outras emoções, ou seja perfeitamente natural e saudável, acompanhada por transformações psicológicas e fisiológicas com objetivos específicos. Se a tristeza nos leva a chorar as perdas, e o medo nos leva a agir no sentido de nos protegermos, a zanga dá-nos a informação de que há limites que estão a ser ultrapassados e que teremos de tomar providências no sentido de repor justiça, é o que nos permite defender quando nos sentimos atacados, ou seja, tal como as outras emoções, tem uma tendência de resposta natural, adaptativa e essencial à sobrevivência.

 Quem não tem consciência das suas emoções ou as intelectualiza, não as pode utilizar como guia. Se ignorarmos a informação que as emoções nos dão, perdemos o contacto com uma parte de nós. Dado que as emoções têm o seu papel, se são ignoradas, acabam por se mascarar e aparecer com mais intensidade ou doutra forma, (emoções secundárias) vestindo outras roupagens, gerando uma confusão de sentimentos e pensamentos desadaptativos.

A zanga que não é ouvida e/ou consciencializada pode crescer e tornar-se violenta, ela pode ir, desde uma leve irritação até à fúria e pode tomar conta de nós a ponto de ficarmos seus reféns e agirmos a partir dela e não a partir do que ela nos comunica, perdendo qualquer hipótese de mediação e de simbolização.

A tristeza, quando sistematicamente não é ouvida e atendida no seu direito de vivência, pode surgir vestida de zanga e rapidamente transformar-se em revolta e violência.

O medo, quando não é autorizado a existir, pode dar o braço à vergonha, e surgirem ambos mascarados de zanga, (como se o medo fosse para os fracos e a zanga para os fortes).

A própria zanga, tantas vezes é maltratada e calada que, também ela se pode esconder por trás duma aparente tristeza e acabar em depressão.

O hipercontrolo, a negação ou o constante impedimento de expressão da zanga, pode também levar a comportamentos do tipo passivo-agressivo e ao cinismo, ressentimento, amargura e hostilidade, trazendo graves problemas ao nível do relacionamento interpessoal e do bem-estar psicológico.

Se percebermos que a zanga é secundária teremos que validar e autorizar a vivência das emoções que atrás dela se esconderam. A zanga pode também ser instrumental, isto é, utilizada para obter do outro, por exemplo através da intimidação, o que se pretende.

Se a zanga for primária, é necessário vivê-la, perceber donde vem e o que nos quer transmitir. Assim que a escutarmos verdadeiramente será mais fácil regulá-la e agir com maior liberdade, podendo escolher o rumo da nossa acção, sem estar sob o seu controlo, e, pelo contrário, controlá-la, deixando-a fluir de acordo com a nossa vontade.

Depois de nos apossarmos da zanga, poderemos decidir com mais consciência, liberdade e noção das consequências o que fazer com a informação que ela nos trouxe. Nesse processo poderá haver ganhos, perdas, responsabilizações, perdão ou não perdão, mas terá de haver sempre aceitação da situação, para que a zanga deixe de ser perturbadora. Podemos então deixá-la partir, uma vez que já cumpriu o seu propósito.

Emoções “malditas” sejam pois bem-vindas. A riqueza de cada um de nós reside na riqueza da paleta com que vemos e pintamos o mundo. Fugir das emoções, sejam elas quais forem, é tornarmo-nos mais pobres, menos humanos e menos conscientes de nós, podendo conduzir a resultados devastadores. Afinal as emoções são, não só uma das formas através da qual lemos o mundo que nos rodeia, como também uma forma de nós próprios comunicarmos. Utilizar as emoções para comunicar pode ser tão reconfortante como assustador, tão poderoso como desastroso. É também nesta mediação entre o que as emoções nos dizem sobre nós e o que nós pretendemos comunicar, entre o que descobrimos e o que mostramos que reside muito do trabalho terapêutico.

 A melhor forma de encontrar ou reencontrar o nosso equilíbrio psicológico é estar atento às pistas que as emoções nos trazem, cada uma por si, sem as confundir, escutando-as, dialogando com elas, de modo a, por um lado libertarmos o nosso sentir, e por outro, regularmos as nossas acções, de modo a podermos ser mais conscientemente livres.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta