As “Vozes” que dialogam: Psicoterapia, Rádio, Criatividade e o além mais…

O chão que (re)pisamos…”

Um processo psicoterapêutico começa no instante preciso do início de uma sessão… no primeiro olhar, no primeiro momento em que o sofrimento do outro toca o psicólogo/psicoterapeuta. Assim se inicia a “viagem” de descoberta, em que o libreto se escreve a dois, esboçando os contornos de uma história contorcionista…

Inevitavelmente, muitos são os momentos em que, para o psicólogo/psicoterapeuta, fazer o que já se sabe, por si só, não chega… Sobretudo quando se torna evidente que não está a resultar. Portanto, com alguma probabilidade, continuar a fazer o mesmo que já se percebeu que não funciona, mantendo premissas profissionais estanques e pouco flexíveis pode conduzir a um processo de frustração e de impasse terapêutico. O “chão que pisamos” é caminhado em círculos e torna-se imperativo ao psicólogo/psicoterapeuta pensar em formas de sair deste movimento e avançar com o processo… No fundo, parafraseando António Branco Vasco, torna-se fundamental encontrar formas de ser responsivo e ir ao encontro das necessidades psicológicas e características do paciente.

Espera-se, por isso, que a frustração e o impasse sentidos pelo psicólogo/psicoterapeuta possam ter um papel central no sentido de o impelir a fazer uma auto-reflexão, que não é mais do que um desafio a si próprio, aos seus limites, medos e inseguranças… E ter a ousadia, a coragem e a audácia para trilhar novos “caminhos”. Assim, o processo psicoterapêutico é algo em construção… que coloca ao psicólogo/psicoterapeuta o imperativo de procurar, inovar, pesquisar e, sobretudo, ousar criar algo diferente, onde a persistência e a tenacidade são fundamentais para se criar o tal libreto com modificações, novos registos e dinâmicas. O que implica, também, uma espécie de segurança insegura e de um arriscar calculado…

A Psicologia e a Psicoterapia parecem “beber” deste mesmo princípio de criatividade, onde prima uma necessidade intrínseca de reinvenção, de adaptação e de improviso… um processo lento construído pelas “mãos” de ambos os “artistas”: psicólogo/psicoterapeuta e paciente. “Mãos” que limam arestas, que aprimoram detalhes, que colam partes, separam outras, e que reconstroem peças à medida das diferentes perspectivas de luminosidade, que os raios de luz permitem vislumbrar ao incidir sobre elas.

E depois, é necessária a serenidade, a serenidade observante mas internamente produtiva e validante do psicoterapeuta, que lhe permite transmitir um significado ao outro e “emocionalizar” conteúdos… de criar uma homeostase “des-homeostasizante” que se vai auto-regulando… Assim como o movimento das ondas do mar, por vezes agitadas com marés revoltas, mas que se conseguem apaziguar e transformar em momentos de acalmia, onde a cadência do som constante produz um efeito tranquilizador.

Um exemplo inspirador de “chão a pisar”? A Rádio Aurora – A Outra Voz*

Com base no que foi exposto anteriormente, e mais especificamente focando o conceito de criatividade, quase que surge uma reflexão inevitável… como é que no decorrer da sua prática clínica, frequentemente solitária, os técnicos conseguem ter estes vislumbres do diferente, que se pautam por arriscar, inovar e trazer algo de novo? Talvez não exista uma única resposta a esta questão, mas, de facto, são necessários mais clicks de mudança e de criatividade ao longo da prática profissional. E, esta é, possivelmente, uma premissa básica igualmente partilhada pelo paradigma generalizado das intervenções realizadas na área da saúde mental. Nesse sentido, vou “levar-vos” a um lugar em particular que tem por nome de Rádio Aurora – A Outra Voz, um exemplo de algo diferente realizado no contexto psiquiátrico hospitalar em Portugal. Assim, começa:

Entra-se pela porta de um hospital psiquiátrico… e sente-se o peso da sua história ao longo dos anos à medida que se caminha erraticamente por entre os edifícios, ruas internas e passeios… entrecortadas pelo verde das árvores, dos raios de sol que atravessam a folhagem, e do som dos pássaros fugazes, ou dos “pássaros de fogo” em direcção ao aeroporto, que tendem a aparecer…

Após alguns minutos a caminhar, entra-se num edifício, sobem-se escadas, contornam-se corredores e chega-se a uma varanda. Sim, finalmente alcança-se uma varanda composta por um gradeamento singelo, meia dúzia de cadeiras, uma mesa comprida, aparelhos de som e vista para o jardim… Uma daquelas varandas tipicamente simples, e que tal como a maioria das coisas simples, deixa desde logo antever um enorme poder. Neste caso, o poder de unir pessoas, agregar pensamentos, partilhar/ouvir/gerar ideias. O poder de somente estar, ser… e ter uma voz.

Nesta varanda a que vos “levo”, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, é realizado um programa de rádio original e invulgar no nosso país. Criado em 2009, destaca-se por ser pioneiro no combate à discriminação e estigma face à doença mental. Tem por nome Rádio Aurora – A Outra Voz. Os responsáveis pela gravação do programa são uma equipa dinâmica constituída por utentes do próprio Centro Hospitalar (residentes ou externos, que aí realizam o seu acompanhamento médico) e um dos psicólogos iniciadores do mesmo (Nuno Faleiro da Silva). Neste Programa são entrevistados e ouvidos variados convidados, planeiam-se antecipadamente as questões a fazer… e, na hora de “subir o pano” faz-se silêncio porque se vai iniciar o “espectáculo”…

E, no seio de uma intervenção deste tipo que permite dar “voz” às necessidades e vontades dos próprios utentes, foi elaborado um conjunto belo de palavras sob a forma de uma “Carta aos Psicólogos”**. Não só a beleza das palavras aqui é espelhada, mas igualmente outra beleza se destaca… o facto de esta Carta conter, em si mesma, um reforço na primeira voz do que já vem sendo indicado na literatura e no Código de Ética e Deontologia dos Psicólogos sobre:

  1. Necessidades em termos de políticas na área da saúde mental e questões (contempladas no Código de Ética e Deontologia dos Psicólogos):

  • “… estreita relação entre psicólogos, psiquiatras e toda a equipa de técnicos que acompanham os pacientes”;

  • “…todos os utentes deviam ter acesso a consultas de psicologia gratuitas ou a preços acessíveis”;

  • “… devem-nos tratar com todo o respeito e dignidade, e ao que dizemos dar credibilidade”.

  1. Características relevantes dos psicólogos/psicoterapeutas (escuta activa, empatia, validação):

  • “…Os psicólogos deviam dar feedback aos utentes”;

  • “… é muito importante saber escutar e saber também interagir com o doente… e respeitá-lo e de certa forma amá-lo”;

  • “… interessarem-se por nós e tentarem ajudar na concretização realmente efectiva da realização dos nossos sonhos”;

  • “… devem dar a segurança aos doentes”;

  • “… apoiar em todas as situações”;

  • “… aos psicólogos cabe activamente escutar, valorizar, incentivar e animar. E quando for preciso ajudar a direccionar, e sempre que achem necessário para a psiquiatria nos encaminhar”.

 

De facto, provavelmente não existe uma resposta única e ideal para “como fazer diferente” e ser criativo, tanto em intervenções individualizadas como em grupo, mas talvez o conteúdo desta “Carta aos Psicólogos” possa abrir luzes nos caminhos dos técnicos da área da saúde psicológica e mental. No sentido de perceber que os pacientes são mais resilientes do que inicialmente se pensa, sendo necessário envolver activamente a sua “voz” na procura de soluções criativas para os seus problemas reais. E, por fim, que esta Carta seja igualmente uma lembrança diária da importância do papel do psicólogo/psicoterapeuta:

Por vezes os psicólogos são mesmo a única pessoa,

Com quem podemos sobre nós abertamente conversar…

E conscientes deste facto devem estar.

Dêem o vosso melhor, trabalhem com dedicação e amor,

Dêem tudo de vós e ouçam realmente a nossa voz…”

E estas palavras ficam a bailar-me na mente, quase como se fossem uma espécie de “declaração de amor”, fazendo lembrar novamente António Branco Vasco quando diz que “amar é simplesmente deixar ser”…

* Facebook da Rádio Aurora – A Outra Voz: https://www.facebook.com/radioaurora.outravoz/

Programas em arquivo: http://www.rum.pt/shows/radio-aurora-a-outra-voz

** A versão completa da “Carta aos Psicólogos” pode ser ouvida no link: https://soundcloud.com/radio-aurora-a-outra-voz/cartapsicologos.

Teresa Santos- Psicóloga e Psicoterapeuta

Histórias de (in)verosimilhança: O maior cego é mesmo aquele que não quer ver?

A Anormalidade já não é o que era – II

Histórias de (in)verosimilhança: O maior cego é mesmo aquele que não quer ver?

A reflexão de hoje surge após ter lido a seguinte notícia publicada em Outubro passado (ver links abaixo):

Concretizou sonho de se tornar cega

Woman who dreamed about being blind had DRAIN CLEANER poured in her eyes by a sympathetic psychologist to fulfil her lifelong wish – and now she’s never been happier

eye

Será que é “normal” o que para quase todos os seres humanos é absolutamente incompreensível?

Um dos aspectos que torna a experiência humana compreensível à generalidade dos seres humanos é a verosimilhança.

É fácil de empatizar com alguém que acabou de ter uma experiência de luto, com alguém que desenvolve uma ansiedade fóbica à condução após um acidente de viação, com alguém que faz um surto psicótico após uma situação de stress intenso ou mesmo com um anti-social que viveu a infância num ambiente desestruturado e violento.

É a verosimilhança destas experiências que nos permite empatizar com as pessoas que as vivenciaram.

Mas como “calçar os sapatos” de alguém de deseja cegar para encontrar conforto?

Como empatizar com o inverosímil?

O que seria mais adequado fazer face a este desejo de cegar?

Tentar convencer esta pessoa que o seu desejo de se privar da visão é uma anormalidade que precisa de tratamento?

Mesmo que todo o seu ser vibre de dor enquanto não for efectivamente privada de ver?

E quem define este desejo de privação como uma anormalidade?

Não conseguindo “calçar os sapatos de quem deseja cegar” conseguiremos empatizar com a dor de quem sofre por conseguir ver (a ponto de desejar cegar)?

Durante muitos anos a homossexualidade era considerada uma doença, um desvio aberrante, e hoje aberrante é aquele que discrimina pela orientação sexual.

Para podermos evoluir, acabámos por nos focar na verosimilhança da dor que advinha da discriminação, incompreensão e indiferença.

Será que foi também esse o foco do terapeuta neste caso?

Qual a (in)verosimilhança que se segue? A eutanásia activa? O suicídio assistido?

De facto, este tema deixou-me com mais interrogações que respostas e não creio sequer que caiba apenas à Medicina ou à Psicologia a resposta a estas perguntas.

Mas fica a inquietação (provocatória):

Se você fosse o terapeuta, como decidiria?

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Sobre a Psicologia Clínica e Psicoterapia… Ou, Breve Tentativa De Desmistificar Ambas

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Psicologia? Muitas as definições ao longo da história, muitas as ideias do senso comum.. Porque sorri o bebé, porque os filhos se rebelam contra os pais, porque nos lembramos de andar de bicicleta vinte anos após a última experiência, porque cantam os pássaros, porque falam, amam e guerreiam os homens?

Ora, a grande tarefa da Psicologia consiste precisamente em responder a esta última questão: O que fazem os homens e porque o fazem? E tudo isto são comportamentos e a psicologia é a ciência que os estuda a todos.

Partindo do pressuposto que a vida é repleta de comportamentos realizados, bem como de razões para serem feitos, é também importante pensar que existem consequências associadas aos mesmos, frequentemente difíceis de lidar ou gerir. Desta forma, pode ser necessário e pertinente recorrer a um psicólogo em momentos de vida mais complicados, como por exemplo, quando um processo de adaptação não corre como era esperado, quando existem comportamentos desajustados e desenquadrados, quando se é confrontado com situações de perda/rotura, quando se têm que tomar decisões difíceis, com vantagens/desvantagens várias e ambivalentes, ou quando existe sofrimento associado a uma vivência em particular.

Muitas vezes, nessas situações o pensamento inicia num ciclo vicioso do qual é difícil sair e a pessoa é conduzida frequentemente a becos sem saída e a caminhos labirínticos de sofrimento psicológico, desconforto e angústia. O primeiro passo, ou seja, reconhecer e ter consciência da situação em que se está é frequentemente o mais difícil, seguido da necessidade de mudança, como algo fundamental a realizar.

Contudo, também se verificam situações em que não existe aparente sofrimento psicológico, e aí, outras razões podem conduzir a uma consulta ao psicólogo, tais como a procura de auto-conhecimento e de desenvolvimento/crescimento pessoais.

Para além do contexto individual psicoterapêutico, a Psicologia tem também um papel fundamental em tudo o que implique mudança de comportamentos, podendo interligar com outras áreas específicas, na promoção da educação para a saúde e melhoria de hábitos e estilos de vida saudáveis, tão actualmente referidos nos contextos de prevenção de condições de saúde (agudas ou crónicas).

Porém, para muitos a Psicologia continua a estar associada unicamente às questões da saúde mental (por exemplo: perturbações da ansiedade, da personalidade, dos estados de humor, etc.) e de forma comum pensa-se que as preocupações e problemas mais relacionados com o quotidiano (por exemplo, alterações de emprego, de casa, situações de perda e rupturas relacionais, preocupações com o desempenho escolar e comportamento dos filhos, etc.) podem apenas ser resolvidos porque partilhados com amigos, familiares, colegas… Porém, convém pensar que estes são entes queridos com quem se estabelece um outro tipo de relação (de amizade, de amor, etc.), que não são técnicos especializados e que não podem assumir este “pesado” papel. Assim, estas questões precisam ser encaminhadas para o contexto psicoterapêutico, que pode mesmo evitar que estas se cristalizem em “gavetas internas” para sempre seladas, acabando por ter consequências futuras graves no bem-estar e qualidade de vida gerais, bem como noutras áreas do funcionamento pessoal e no relacionamento com os outros.

Portanto, quando o sofrimento psicológico se instala e os recursos para lidar com o mesmo escasseiam é necessário encontrar apoio especializado, neste caso o psicólogo (ou até um outro técnico de saúde mental) que ouve, compreende, aceita, ajuda a pensar sobre os problemas e acompanha o caminho da mudança.

Mas, apenas procurar ajuda no local certo não basta: a pessoa também tem que ter consciência da necessidade em se implicar, ela própria, no processo, num caminho a dois. O psicólogo não vai por si só resolver os problemas, não vai apresentar soluções mágicas, nem tem “comprimidos” fantásticos para apagar estas “dores”… Esta “caminhada” não é um processo fácil, compreende um longo e às vezes sinuoso caminho a percorrer, mas necessário para o restabelecimento do equilíbrio psicológico.

É também fundamental estabelecer uma boa relação com o psicólogo, sendo este um aspecto crucial a ter em conta para o processo terapêutico ser levado a “bom porto”. A pessoa deve sentir-se num clima de confiança, compreensão e empatia. Se tal não acontecer, é legítimo que experimente e consulte um outro psicólogo.

Portanto, a Psicologia deve ser encarada, cada vez mais, como algo que faz parte dos cuidados globais de saúde a ter consigo próprio, comparável a ter um sintoma físico, por exemplo, uma constipação, e, dirigir-se ao local exacto para a tratar, neste caso o médico especialista. Se é natural ir ao médico e cuidar do corpo quando ele dá sinais físicos de aviso, o que será que impede de, com a mesma naturalidade ir ao psicólogo, quando a mente também envia “sinais de aviso”? Porque será que se evita prestar os mesmos cuidados à nossa saúde psicológica, pensando erroneamente que os problemas acabarão por passar por si mesmo? Preconceitos, ideias pré-concebidas, crenças, estigma?!…  Pois, aqui poderá estar o ponto de partida, porque está ao alcance de cada pessoa começar a fazer a diferença para uma melhor saúde psicológica.

E, como se de “constipações” se tratassem, estes “avisos psicológicos”, quando não “curados” podem também acabar por reaparecer mais cedo ou mais tarde, podendo chegar mesmo até, às proporções de uma “pneumonia”…

Passos Importantes

  • Identifique se existe alguma situação que lhe provoca sofrimento e desconforto psicológicos.
  • Não avalie a sua reacção pela forma como os outros lidam com essa mesma situação. Não se esqueça que algo que lhe é penoso, pode não o ser para outra pessoa.
  • Ainda que esteja inseguro e com dúvidas em relação a ir à consulta, dê pelo menos oportunidade a si mesmo para experimentar.
  • Marque uma 1ª sessão.

Tenha consciência que este é um caminho a dois, que implica compromisso e envolvimento do próprio no seu processo terapêutico…

Teresa Santos – Psicóloga Clínica

 

Dificuldades na intervenção na Depressão

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Portugal é o país europeu e o segundo do mundo com maior taxa de depressão na ordem dos 25%, pelo que, apesar das variáveis com melhor predição no sucesso terapêutico serem as carcterísticas do próprio paciente e a relação terapêutica em vez do correcto dignóstico de Eixo I, é urgente compreendê-la e antecipar dificuldades específicas.

Na maior parte das vezes, a depressão tem na sua base uma vivência de abandono ou perda, que face a um deteminado acontecimento de vida, activa crenças de incapacidade, falha, culpabilidade invadindo o funcionamento relacional, profississional e social de quem a sofre e aniquilando uma vivência tranquila do aqui e agora. Parafraseando o Professor Coimbra de Matos “nada ou pouco interessa no presente real e pouco ou nada é imaginado como bom ou apetecível no amanhã”.

A lentificação e a falta de prazer poderão constituir dificuldades ao terapeuta, nomeadamente, impaciência face à sua genuína vontade de ajudar o paciente. É também necessário que o clínico se sinta confortável para lidar com a temática da morte, tantas vezes presente, quer em pensamentos quer em acção, na depressão. Face à tristeza, é natural sentir compaixão, e por vezes,  um impulso de tirar a pessoa do seu “buraco negro”, que deveremos refrear. A validação e a empatia assumem aqui um papel fundamental. Deveremos “ver” a sua história na sua prespectiva, sem julgamento, reconhecendo o seu sofrimento, e mostrando que estaremos ao lado dele, sem pressa. Só assim, este poderá reescrevê-la, aceitá-la e, mais tarde, implementar as mudanças necessárias para recuperar o contacto consigo e com o mundo. Qualquer ganho, por mais pequeno que seja, como por exemplo, ficar na cama 14 horas e 45 minutos por dia em vez das15 horas habituaus deverá ser reforçado.

Assim, deveremos ser responsivos na nossa intervenção, ou seja, o processo terapêutico deverá ser como uma dança, cujo ritmo é dado pelo paciente, com o objectivo comum de melhoria do seu bem-estar.

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga

 

 

 

 

 

Discriminação na nossa era

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Na semana passada ouvi a seguinte notícia: “Um jovem homossexual de 21 anos atirou-se do 11º andar de um prédio”.

            Não é a primeira vez que ouço um anúncio deste tipo, mas desta vez, não me foi possível ficar indiferente a uma notícia tão violenta.

            Como disse o autor Dostoïevski: “Todos os homens são responsáveis, e eu mais que os outros”. Considerando que escrever sobre o assunto é uma forma de responsabilização, decidi fazê-lo debruçando-me sobre a questão da homossexualidade.

            Enquanto psicoterapeuta, a minha contribuição é tentar perceber a pessoa na situação e, em seguida, propor algumas ferramentas úteis e simples para evitar que um jovem sofra tanto, ao ponto de pôr fim à sua vida.

            Neste sentido, pretendo ajudar também a esclarecer qualquer pessoa interessada pelo assunto, como por um exemplo, um familiar ou um amigo.

            A definição etimológica de homossexual é a seguinte:

  • Homo: quer dizer igual, semelhante, do mesmo modo, (em grego antigo, “μός “, homos).
  • Sexual: referente ao sexo, (em latim “Sexu”, quer dizer sexo).

            No dicionário da Porto Editora, a definição de homossexualidade é a “atracção sexual entre indivíduos do mesmo sexo”. A definição no Wikipedia acrescenta que é também “o que sente atracção física, estética e ou emocional para outro ser do mesmo sexo ou género”. Aliás, também menciona que a homossexualidade faz parte da sexualidade humana e que estes comportamentos se encontram igualmente no reino animal nomeadamente nalguns mamíferos.

            A homossexualidade é uma das quatro categorias de orientação sexual: heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade e assexualidade. Dentro da categoria da homossexualidade, existem vários tipos de homossexuais: lésbicas, gays, transexuais, intersexuais.

Ao tentar categorizar os comportamentos de orientação sexual de uma pessoa, estas categorizações podem tornar-se confusas. Pois, o comportamento depende não só da forma de pensar e sentir a vida como também do padrão transmitido pelos pais, pela sociedade e ainda da cultura em que se enquadra. O comportamento pode até alterar ao longo da vida.

            Na tentativa de compreender o comportamento sexual dos humanos, o investigador Kinsey pesquisou e apresentou 2 relatórios relacionados com o comportamento sexual humano; um sobre o homem em 1948, e, outro sobre a mulher em 1953. Estes resultados salientaram que os hábitos sexuais dos americanos eram muito mais liberais do que se imaginava na época.

            Relativamente ao comportamento sexual do homem, os estudos demonstraram que 10% dos homens americanos eram predominantemente homossexuais independentemente dos tipos de profissões e dos níveis sociais.

            Com objectivo de avaliar o comportamento sexual do homem, o Kinsey criou uma escala de avaliação homossexual e heterossexual de 6 níveis. A grande novidade da escala de Kinsey é de ter estimado que a homossexualidade existia num continuum mais do que na separação entre os homossexuais e os heterossexuais. Alias, é desta forma introduzido o conceito da bissexualidade.

Esta escala de avaliação da sexualidade evita a categorização de uma pessoa num grupo específico de orientação sexual, dando a possibilidade de traduzir melhor a realidade, com uma maior variedade de possibilidades de orientação sexual.

            Em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria (AAP) considerou a homossexualidade como uma desordem patológica. Os profissionais de medicina e da saúde mental evidenciaram que o facto de ser homossexual não constituía obstáculo nem para trabalhar, nem para estabelecer relações interpessoais, nem para obter uma vida saudável e feliz. Em 1973, a associação (AAP) retirou a homossexualidade do DSM (Manual de Diagnostico e estatística de Doenças Mentais). No entanto, só em 1990, é que a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a homossexualidade da classificação internacional de doenças. A homossexualidade deixou então de ser considerada como uma doença. O facto de ter sido retirada a homossexualidade do DSM e da lista OMS reforça a ideia de que uma pessoa atraída pelo mesmo sexo não pertence a um grupo diferente dos outros seres humanos.

            No que diz respeito à legislação em Portugal, a homossexualidade foi descriminalizada em 1982. Em 2001, as Uniões de Facto são estendidas a casais de pessoas de mesmo sexo.

            Em 2004, a orientação sexual é incluída na Constituição Portuguesa como um princípio de igualdade. O artigo 240 do novo Código Penal de Setembro de 2007 considera crime qualquer forma de discriminação de orientação sexual.

            Desde Março 2011, depois de muitos anos de violações de Direitos Humanos, as pessoas transexuais têm finalmente direito à escolha da sua identidade sexual.

            Importa referir que ainda no nosso século a persecução da homossexualidade é punida em 80 países e condenada à morte em 9 países.

O livro chamado “Parler de l’homosexualité”, escrito pelo pastor Philippe Auzenet, descreve o comportamento homossexual demonstrando que não existe uma única homossexualidade mas vários tipos de homossexualidades. Porém, o autor ao tentar encontrar as razões que tornaram a pessoa homossexual, como por exemplo a disfunção familiar, acaba por reduzir a pessoa a uma causa e discrimina-a. Logo, a caracterização da causa é tão discriminatória quanto o categorizar das diferentes orientações sexuais.

A maioria dos estudos realizados neste domínio tenta categorizar as pessoas segundo as suas orientações sexuais. O problema da discriminação por grupos leva a que uma pessoa não se sinta não integrada e consequentemente rejeitada, além de traduzir dificilmente a realidade vivida.

            Contudo, a autora Marina Castaneda que escreveu um livro, “Comprendre l’homosexualité”, salienta sobre a identidade homossexual que o mais importante não é a pessoa se definir como homossexual ou heterossexual, mas antes deixar que a pessoa se identifique como ela própria o sente e pense. Essa abordagem acentua que a pessoa tem que se encontrar e identificar em função dela mesma independentemente das suas orientações.

            A escala de Kinsey proporciona uma solução por evitar a discriminação uma vez que não existe um limite que separa um grupo de outro.

            No sentido de intervir por forma a evitar a discriminação é fundamental que uma pessoa que possua uma atracção por alguém do mesmo sexo, não se sinta diferente dos outros, sobretudo quando se fala na adolescência que é a fase em que a integração nos grupos se torna elementar para a construção da identidade do futuro adulto. O “coming out”, ou seja, deixar de esconder a sua orientação sexual na época da adolescência, é uma fase muito vulnerável para a pessoa porque está fragilizada com a eventual hostilidade de colegas especialmente em meios escolares, ou ainda, com o medo da reacção dos pais.

            A vulnerabilidade da pessoa pode rapidamente transformar-se em depressão e até pode levar a comportamentos de risco como o uso de substâncias ilícitas. A notícia mostra quanto o risco pode ser elevado para uma pessoa que se sente discriminada. Muitas organizações homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais afirmam que o risco de suicídio é muito mais elevado para pessoas com orientações sexuais não heterossexuais por estas serem mais usualmente rejeitadas.

            O presidente dos Estado Unidos de América, Barack Obama apoia uma campanha contra o bullying e fez um discurso em 2010, relativo a perseguição de jovens homossexuais nas escolas. Neste discurso diz, “não estás sozinho, não fizestes nada de mal, não mereces ser mal tratado e tens o mundo inteiro à tua espera, cheio de possibilidades”.

O discurso do presidente Obama transmite a ideia de que qualquer jovem tem o direito de pensar e sentir livremente, não devendo ser a sexualidade uma razão para se ser ou se sentir rejeitado. Ao mesmo tempo, realça a importância de se sentir integrado na sociedade. É uma mensagem de esperança com compreensão da situação por um lado e, por outro lado, um sentido de não discriminação. Desta forma, apoia os jovens que se sentem diferentes, rejeitados e abandonados. A forma de abordar a problemática, que foi mostrando compreensão, é uma maneira de prevenir o sofrimento.

O psicoterapeuta humanista, Carl Rogers, (1902-1987) – autor da terapia centrada na pessoa – destaca que o papel do psicoterapeuta é de ajudar a pessoa a encontrar o seu caminho. Para este efeito, ele valoriza a cooperação no processo psicoterapêutico cujo objectivo é tornar a pessoa ela mesma, libertando-se deste modo de sofrimento. Este método é também eficaz em qualquer tipo de relacionamento: na educação entre professor e aluno, no trabalho, na família, nas relações interpessoais.

No âmbito de facilitar o relacionamento de ajuda, o psicoterapeuta intervém segundo 3 dimensões que são definidas por Carl Rogers da seguinte maneira: a consideração positiva incondicional, a empatia e a congruência.

  • A consideração positiva incondicional é aceitar a pessoa tal como ela é no aqui e agora. É igualmente exprimir uma apreciação positiva sobre ela. Desta forma, a pessoa sente-se um ser humano como os outros o que lhe traz afecto e, igulamente, incentivo para continuar.
  •  A empatia consiste na capacidade de se colocar no lugar do outro, utilizando a reformulação ou a repetição dos elementos chaves da situação.
  • A congruência refere-se a coerência interna do próprio psicoterapeuta no sentido do outro sentir a autenticidade e sinceridade de outra pessoa.

Ao usar estas 3 dimensões de cooperação, qualquer pessoa pode aliviar alguém em sofrimento.

Igualmente é importante intervir junto destas pessoas, desenvolvendo uma relação de confiança para facilitar que a pessoa se abra e que se encontre.

É extremamente importante que as pessoas mais próximas, tais como pais e amigos, não neguem, nem rejeitem os sentimentos e pensamentos da pessoa, que normalmente já se sente rejeitada e discriminada. Desta forma contribuem para um sentimento de reconhecimento da pessoa, desenvolvem a auto-confiança e evitam o aumento do sofrimento da pessoa.

Convém também intervir no sentimento de vergonha que a pessoa sente pelo mau estar da sua identidade. O apoio é no sentido de transformá-lo num sentimento de orgulho. Ao libertar-se do sentimento de vergonha, a pessoa cresce com um sentimento de auto-confiança e desta forma afasta-se do sentimento de discriminação.

            O objectivo principal é o de conseguir aceitar-se a si próprio tal como se é, viver a vida amorosa e sexual de forma saudável.

            A frase de Neitzsche “Torne-se em quem você é” é o objectivo principal da ajuda para os jovens que se sentem discriminados.

Magali Stobbaerts – Psicóloga Clínica  e Psicoterapeuta

Mutilados emocionalmente

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Hoje não quero falar de psicoterapia.

            Na vida dum terapeuta há inúmeras situações em que nos comovemos com o que os pacientes nos contam.

            É natural e mesmo saudável, até certo ponto, nos comovermos.

Etimologicamente falando, “comover” significa “emocionarmos-nos” (movere) “com” alguém – empatia significa isto mesmo – colocarmos-nos na pele do outro, tentarmos sentir o que o outro sente e emocionarmos-nos com o que nos conta, para que possamos apreender, tanto quanto nos é permitido e razoável, a vivência do paciente, também na sua dimensão emocional e existencial.

Mas outras alturas há em que as emoções desencadeadas não são apenas de dor, de tristeza e desespero – outras alturas há em que são despertadas em nós emoções como a raiva e indignação profunda.

De vez em quando, e não tão raramente como seria desejável, somos confrontados nas consultas com situações extremas de maus-tratos, de sadismo psicológico, de humilhações repetidas e abusos continuados no tempo.

Estas pessoas chegam-nos à consulta derrotadas, destruídas, humilhadas, autênticos farrapos humanos cujas vidas são um testemunho de dor infligida por vezes pelas pessoas que eram supostas terem-nas protegido quando ainda não se sabiam defender.

Numa consulta recente atendi um paciente.

Chegou à consulta ansioso, tenso e muito auto-consciente de si próprio.

A sua face transbordava emoções de intenso sofrimento, da tristeza à ansiedade intensa, de expressões de profunda dor a gritos surdos de raiva que tudo fazia para conter.

Descreveu-me uma mãe sádica e abusadora, que o despia à frente das amigas para que pudessem ver o quão pequeno era o pénis do filho ainda criança, e que nos parques infantis se escondia dele e do irmão e só aparecia quando percebia que eles estavam em pânico, a rir, sorrindo e dizendo: “Vocês já estavam a ficar aflitos, não é?”

Falou-me de como sentia que em cada dez vezes, a mãe tinha 9 interacções de maus tratos e de abuso e uma em que mudava diametralmente de registo e lhe dava “uma festa” e “era esta festa que me destruía, percebe, Sr. Dr.?!”

Ou outra paciente, que foi abusada sexualmente durante 2 anos quando tinha apenas 5 pelo irmão da sua ama que era o seu catequista, e ainda que o pai a fechou em casa, sozinha, para a esconder da sua mãe, para fazer “pirraça à mãe” de quem tinha acabado de se divorciar.

Ou outra ainda, cuja mãe se se fechava na casa de banho a gritar que ia morrer, enquanto a filha desesperava em culpa e angústia.

Estas pessoas foram privadas de amor e protecção, negados os seus direitos humanos mais elementares enquanto crianças, e mutiladas emocionalmente.

Deveriam já existir planos psicossociais preventivos mais eficazes, com meios humanos competentes e capazes para acautelar a ocorrência destes maus-tratos e para tratar os pais quando estes não são de todo responsabilizáveis.

E, não sendo isso possível, deveria haver uma justiça capaz de responsabilizar criminalmente os pais que foram dolosamente negligentes ou maltratantes.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapia