Somos como somos ou podemos mudar?

Somos como somos E podemos mudar.

Somos? ou vamos Sendo?

Somos E vamos Sendo.

Somos um conjunto de aspectos mais ou menos estruturais, comuns a uma espécie, a uma génese, a uma herança genética e cultural/ambiental.

E

Vamos Sendo um conjunto de processos dinâmicos, dialeticos de interacções constantes com o meio em que estamos inseridos (afectivo/relacional, social, cultural). que interaje constantemente com os traços próprios de quem somos e de quem nos vamos construindo.

Somos uma obra única e em constante mutação, que, à medida que se vai desenvolvendo vai acrescentando novos materiais, uns por necessidade, outros porque se nos colam… E, outras vezes vai prescindindo de materiais iniciais, uns porque já não fazem falta, outros por que nos foram sonegados. Há assim potencializações e despotencializações constantes, que afectam o nosso processo de auto-construção e dos quais nem sempre estamos conscientes.

Independentemente do que somos e trazemos connosco à nascença, tudo o que vamos sendo depende da nossa interacção com todos e tudo o que nos rodeia. Essas tensões e distensões provocadas pelas diversas forças que operam no processo de auto-construção nem sempre são claras ou lógicas, e muitas vezaes são contraditórias e causam sofrimento. São fruto de inúmeros e complexos processos Psicológicos.

A escuta das nossas emoções primárias (surpresa, medo, zanga, tristeza, alegria, nojo) e a atenção ao diálogo que estabelecemos com elas (ou que outros estabeleceram com elas) e ao que conduziram secundariamente, são essenciais para nos podemos compreender e construir de forma equilibrada e satisfatória.

A desregulação emocional não está na desordem/desequilíbrio ocasional, que faz parte do processo dinâmico dialético que é a vida, e que ocasionalmente, nos é tão necessária para uma reordenação e reorganização interna, mas apenas em traços extremos, inadaptativos, inflexíveis e/ou causando sofrimento contínuo, que impedem o reencontro com o equilíbrio.

O que fomos absorvendo, o que se nos foi “colando” e o que fomos prescindindo, sem querermos, sem nos apercebermos, ou, porque nos foi útil/inútil em determinada altura, deve ir sendo filtrado ou recuperado, para podermos tomar posse de quem vamos sendo, de uma forma mais consciente e livre, pois afinal, somos o que somos, em constante mutação e somos possuidores de um enorme potencial de mudança e adaptação.

A responsabilidade de sermos livres e nos sentirmos realizados é nossa. Contudo, esta tarefa nem sempre é fácil e é natural que requeira ajuda profissional num momento ou noutro das nossas vidas. Ir esculpindo o nosso Ser é obra nossa.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Luzes, câmara, luzes e … mudança!

luzes, camara

Quantas vezes já deu por si a pensar que a sua vida dava um filme?
Não necessariamente um filme de humor nem uma comédia, e também não teria de ser uma tragédia, mas um filme claramente surreal, cheio de peripécias que, por vezes, dispensaria de bom grado.
Se foram muitas estas vezes em que tudo lhe parece acontecer, talvez seja altura de tentar perceber quem anda a escrever os papéis que lhe tem cabido interpretar. E, aproveitando o ensejo, tentar perceber o que o leva a continuar a desempenhar esses papéis em vez de experimentar novos desafios na arte da representação (ou, na verdade, de viver a vida!).

Muitas vezes encontramo-nos presos a um determinado estilo de papéis que, num determinado momento da nossa história, nos foi pedido (ou até exigido) que representássemos. Fomos aquele herói improvável que avançou de forma destemida apesar das contrariedades. Ou fomos a personagem ingénua que confiou cegamente na capacidade de protecção dos outros e no fim se encontrou a braços com uma reviravolta (não tão) surpreendente. Também nos pode acontecer sermos apontados como o déspota tirano, ou até o vilão que, bem lá no fundo, até tem sentimentos, mas a quem ninguém dá a devida atenção e a oportunidade de se redimir.
Até aqui, tudo bem. O problema, como acontece tantas vezes nas versões de Hollywood, é que um determinado actor ou actriz, quando desempenha um papel demasiado bem, acaba quase sempre por ser procurado novamente para continuar a representar esse tipo de papéis. Em quase exclusividade. Lá está, exactamente como em Hollywood, sem grandes hipóteses de poder surpreender o público com novas competências e personagens.

Somos, desde pequenos, estimulados e incentivados a desempenhar um determinado tipo de papel ao longo das variadas relações que estabelecemos. Assim, vamos exercitando as nossas capacidades e competências sobretudo num espectro relativamente estruturado de guiões. Acabamos por nos tornar especialistas num tipo de papel, que é como quem diz, num emaranhado de padrões de relacionamento com os outros e connosco que acaba por ser repetido, mesmo que não entendamos o porquê.
Num desenvolvimento saudável e potenciador, a vida acaba por nos expor a determinadas situações que nos desafiam a fazer diferente do que já tínhamos feito até então. Compete-nos a arte de aprendermos a flexibilizar e de sermos melhores protagonistas em cada guião diferenciado com que temos de lidar. Por vezes temos de ser vilões, outras vezes a figura em apuros, outras vezes o super-herói. E algumas vezes, temos de perceber que o filme em que nos encontramos não é sequer para ser protagonizado por nós e que o nosso papel será apenas uma tímida interpretação secundária. Ou mesmo uma ligeira e fugaz figuração.

Mas quando não conseguimos quebrar este padrão, expomo-nos a situações que nos podem trazer sofrimento, ao tentarmos repetir sempre o mesmo papel. Por vezes, representar o mesmo papel quando toda a narrativa mudou, torna-se desadequado e quem mais sofre é quem insiste em desempenhar um papel que agora é desnecessário e até possivelmente inconveniente. E é neste momento que a tomada de consciência deste “guião de vida” do qual nos fizemos reféns se torna importante. É importante reconhecer este padrão, este “papel-tipo” em que a pessoa se coloca, para poder sequer ousar experimentar fazer e ser diferente. Na verdade, a maior parte das vezes, a pessoa está tão habituada a este papel-tipo que o veste quase como uma segunda pele e sem sequer se aperceber que é bem mais do que a personagem que tantas vezes interpreta.
Por isso, representar outros papéis é algo que envolve uma determinação e um esforço que a pessoa tipicamente não esta a espera. Parece ser tão mais fácil regressar a esta personagem de outrora, mesmo que ela traga sofrimento.
Recordando Shakespeare, o mundo é um palco e a vida é uma peça sem ensaios. Permito-me acrescentar que o processo terapêutico pode ser o mais próximo possível do ensaio geral que a vida nos possibilita.

Um passo seguinte, ousado, mais exigente, ocorre quando nos libertamos destes papéis e passamos a ter autonomia e liberdade para reescrevemos os nossos filmes e nos apoderarmos da forma como conduzimos esta vida em que participamos. Tornamo-nos argumentistas. Produtores. Realizadores. Com direito a fracassos e a sucessos. Por vezes aplausos, outras, silêncio. Algumas, aplausos merecidos, outros fingidos, alguns silêncios estranhos, outros reconfortantes.

De facto, os grandes artistas são aqueles que conseguem adaptar-se ao registo de cada obra na qual participam, quer a representar, a escrever, produzir e até a realizar.
Sejamos os melhores produtores, argumentistas e protagonistas desta nossa peça. Porque é nossa. Única. E contínua…

Ana Baptista de Oliveira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Texturas e sentidos em psicoterapia – a importancia de sair da cabeça

texturas e sentidos em psicoterapia

Sabemos que o corpo é sábio e imenso em potencial. O que não dizemos verbalmente, por vergonha, medo, ou falta de consciência, o corpo expressa de forma mais ou menos clara, mais ou menos directa. Certamente que se recorda de determinadas situações em que claramente o que disse e o que manifestou através da sua expressão corporal não foram de modo algum congruentes e, quase invariavelmente, a mensagem com maior impacto foi a não verbal.

O estado natural do ser é em constante auto-regulação, avaliação do meio, adaptação, mudanca, e o corpo (e no corpo) essa mudança traduz-se também nas sensações que experimentamos e que, muitas vezes, sao renegadas para um lugar secundário no nosso dia a dia.

Embora seja possivel aceder ao fenomeno introspectivo e cognoscente atraves da palavra e da narrativa, este fenomeno torna-se ainda mais completo quando recorremos também a experiência inteira e esta, claramente, envolve o corpo.

É muito dificil ajudar a pessoa a “sair da cabeça” e passar o testemunho à sabedoria do corpo. Implica desvalorizar o muitas vezes sobrestimado primado da razao, e é também oportunidade de nos encontrar-mos mais inteiros, mais completos.

Como é essa tristeza? Essa alegria? Esse medo? Essa zanga? De que cor? A que cheira? Qual a sua textura? O que sente quando (situação dificil, prazerosa, relevante para o cliente)? E onde sente isso? E como é ser essa sensação? Não é um desafio fácil para a maioria das pessoas, que está habituada a recorrer sobretudo às palavras para identificar o que sentem (ou, mais vezes ainda, o que pensam sobre como se sentem).

Os benefícios de atentarmos a mais experiência do corpo passam também pela maior consciência que a pessoa ganha de si e da maior atenção que aprende a dar ao seu estar e ser, no aqui e agora presente. Além disso, tornamo-nos mais capazes de nos darmos conta das reacções que se despoletam no nosso corpo perante determinados eventos internos, externos ou meramente imaginados.

E quando nos damos conta, podemos eventualmente apercebermo-nos de como esses eventos nos induzem sentimentos dos quais, à partida, não nos conseguiamos aperceber e, portanto, não conseguiamos identificar. Algo se passava no nosso corpo que não so não descodificavamos mas também não nos permitiamos sentir.

Um pouco mais longe, se não nos permitimos sentir, não nos autorizamos a ser congruentes com a nossa existência interna. O corpo, sabiamente, expressa esta existência, quer a nossa cabeça tenha competências para traduzir e descodificar esta expressao.

Por vezes, darmo-nos conta do que sentimos facilita que percebamos o que precisamos. Por outro lado, permite-nos um acesso mais informado e completo as narrativas construidas.

Esta maior capacidade de nos apercebemos do que acontece no meio em volta e também em nos permite-nos explorar esta consciência também como ferramenta interventiva no processo terapêutico.

Sair da cabeça é também praticar o prazer e o lazer, é identificarmos e permitirmo-nos expor ao que nos é agradável, ao que nos conecta ao aqui e agora, seja através de práticas de visualização, respiração, meditação, desporto, canto, ouvir (boa!) música, escrevermos, cozinharmos, enfim, o que quer que funcione para cada um de nós.

Porque há alturas para fazer as coisas com cabeça, claro que sim. E também há alturas em que é mesmo preciso sair da cabeça!

Ana Baptista Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta

O bem que o mal nos faz

falha e sucsso

Não são raras as vezes que me perguntam “porquê?”.

Aqui incluem-se variantes como o “porque é que eu sou assim?”, o “porque é que isto me acontece a mim?”, o “porque é que não resulta o que tento fazer para mudar?”.

Inerente a esta frustração e desespero está um passado de tentativas da pessoa se libertar das antigas formas de fazer, pensar, sentir e estar. Está uma sucessiva narrativa de coligir recursos e estendê-los na direcção que se achou a mais adequada … sem sucesso. Está uma repetição de fracassos.

Este fracasso até pode ser bom, desde que bem aproveitado, penso e digo muitas vezes. Quando devolvo este desafio, a surpresa de quem me escuta acompanha um incrédulo “como assim?”. Thomas Edison falhou diversas vezes até ser bem sucedido. Não é o ter conseguido inventar a lâmpada (e outros diversas engenhocas) que eleva Thomas Edison, mas sim a sua extraordinária capacidade de persistir e inovar perante o erro.

O movimento IFF, intelligent fast failure, traduz esta ideia de uma forma bastante concisa. Falhar é humano e é uma aprendizagem em potential. O erro não está em falhar, mas sim em não aprender com o erro. Assim, quem erra mais tem mais oportunidade de testar, afinar e adaptar as suas estratégias … ou seja, falhar a curto prazo tem o paradoxal efeito de nos poder tornar mais bem sucedidos a longo prazo! Desde que tenhamos a capacidade de analisarmos a situação e reconhecermos o que poderia ter sido diferente, o que poderia ter sido melhor. O conceito não se esgota no fracasso, mas sim na forma inteligente de lidarmos e aprendermos com ele.

Esta pequena e quase irrisória mudança de perspectiva tem um potencial de aceitação e mudança bastante impactante. Retira algum do desconforto e do sofrimento na medida em que atribui à pessoa o poder (e a responsabilidade) de continuar a tentar.

Este são dois dos grandes desafios da psicoterapia: a promoção da esperança da possibilidade de mudança e a responsabilização da pessoa em mudar, não necessariamente apenas as circunstâncias externas mas também (sobretudo) a forma como lida com estas circunstâncias.

Aqui parece-me relevante voltar a uma das minha distinções favoritas. De facto, será assim tão importante perceber o porquê de algo? Talvez seja mais enriquecedor compreender o para quê de certas situações. Qual a necessidade que cumpre? Qual o papel que desempenha no teatro da nossa vivência? O que haverá de positivo ou apaziguador nas situações que nos magoam e fazem sofrer? Se não houver a compreensão do papel que determinada relação ou mesmo um comportamento tem na nossa vida, não o poderemos mudar.

Aparentemente, à primeira vista, nada de “bom” parece vir do sofrimento. Mas na verdade, a aparência pode tantas vezes ser ilusória. A experiência mostra-nos como o fracasso e a dor podem ser bem superados e dar origem a uma vivência interior mais rica, com uma nitidez mais verdadeira. Torna-se central o papel activo da pessoa, para que não se caia no erro (pelo menos, não repetidamente) de achar que o sofrimento é bom. Sofrer não é bom, mas paralisar na indefinição de alternativas também não…

A psicoterapia não se trata de desenvolver super poderes. Apenas de exercitar competências que nos tornem mais felizes.

 

Ana Baptista Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Ano que ainda vai novo

Ano Novo brinde

O Ano Novo é por excelência a época para resoluções, compromissos e o estabelecimento de objectivos. Contudo, todos os anos vemos alguns dos feitos a que nos propusemos ficarem pelo caminho, adiados para outra altura, que por vezes nunca chega. E ano após ano há itens que se repetem na lista, arrastando com eles a convicção de que não iremos, mais uma vez, conseguir atingi-los.

Quantos mais objectivos falhamos, mais agudizada fica a certeza – frequentemente não real – de que não temos capacidades ou não somos suficientemente bons, o que pode conduzir a um decréscimo na nossa autoconfiança. Assim, é importante percebermos que muitas vezes a falha não se encontra nas nossas características pessoais, mas na forma como definimos os nossos objectivos.

Proponho então que, ao definir as resoluções para este ano, tenha em conta os seguintes aspectos:

  • Defina um objectivo realista. Se quer deixar de fumar, por exemplo, e actualmente fuma três maços de tabaco por dia, talvez seja melhor propor-se a reduzir gradualmente a quantidade de cigarros diários em vez de parar de forma abrupta.
  • Olhe para si com atenção e descubra que recursos possui para levar a cabo o objectivo a que se propõe. Da mesma forma, identifique o que ainda precisa de desenvolver em si.
  • Ao definir um objectivo, divida-o em etapas que facilitem o seu caminho e lhe deem linhas orientadoras, tornando a sua meta em algo menos distante e que vai alcançando de forma gradual. Um objectivo não tem de ser uma tarefa hercúlea!
  • Não exija o mesmo de si todos os dias – se dormiu 8 horas e tudo corre normalmente na sua vida, é natural que se empenhe mais nas tarefas daquele dia; se, por outro lado está doente ou dormiu apenas 3 horas, não pode esperar o mesmo. Permita-se aceitar que cada dia é diferente e que isso não significa fracasso.
  • Peça ajuda. Ter uma boa rede de suporte permitir-lhe-á não só partilhar as suas dificuldades como não perder o seu objectivo de vista.

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta

Aceitação, uma palavra complexa

Aceitação

Aceitação, uma palavra que merece a nossa atenção nesta época de balanços de final de ano e planos para o Ano Novo.

As várias ciências e disciplinas têm um vocabulário que lhes é próprio. Quando o vocabulário não faz parte da linguagem comum, é mais fácil perceber que estamos perante uma linguagem técnica, mas quando são utilizadas palavras que fazem parte do léxico de todos nós, as interpretações tornam-se mais confusas. Tomemos por exemplo a palavra “positivo”, tantas vezes utilizada na linguagem vulgar, para designar algo de bom, mas cujo significado em ciência é apenas o de: estar presente, existir, poder assinalar-se.

Sabemos o quanto um resultado “positivo” numa análise laboratorial, pode revelar-se negativo para o nosso bem-estar…, mas pode também revelar-se positivo, dependendo de a que é que se refere a “positividade”

Em Psicologia, tal como noutras ciências ou áreas específicas do Saber, encontramos muitas palavras que são utilizadas na linguagem comum, mas que se revestem de um significado mais restrito e específico, ou mesmo diferente no âmbito dessa área.

Actualmente ouvimos cada vez mais a palavra “aceitação”.

 “Aceitarmo-nos a nós próprios”; “aceitarmos os outros” “aceitarmos a vida e as suas vicissitudes” “aceitarmos incondicionalmente os nossos filhos”…

Mas o que significa em termos psicológicos de facto “aceitar”?

“Aceitar” significa simplesmente não negar a existência e encarar com verdade o que é, e o que está, englobando essa realidade.

Aceitação não significa aprovação, consentimento ou resignação a essa mesma realidade, isto é, não implica qualquer tipo de aquiescência, abdicação ou renúncia. Implica, isso sim, aceitar a realidade da existência, de forma a podermos responsabilizar-nos por esse facto, conhecimento, ou constatação.

Aceitação é mesmo o primeiro passo para se poder escolher mudar, ou não, o que está e o que é, quando tal é possível, e pacificarmo-nos quando não o é.

Aceitação é sentir e perceber que os outros são o que são e que não podemos querer que eles sejam como nós desejaríamos que fossem

Aceitação é, neste sentido, o contrário de negação. Ao que é negado não é reconhecida existência, logo não fica ao alcance do nosso pensamento ou acção.

Para que possamos pensar sobre, agir, transformar, incorporar, lutar, pacificar, necessitamos em primeiro lugar de aceitar a existência duma determinada realidade, facto, emoção, pensamento.

É apenas a partir dessa plena aceitação e fruto dela, que podemos conscientemente decidir o que fazer.

Olhemos para a realidade do dia a dia:

Se não aceitarmos que estamos doentes, não faremos nada para nos tratar.

Se não aceitamos que alguém legislou mal, não podemos lutar para que legisle bem,

Se não aceitarmos que os nossos filhos precisam de ajuda especializada, não a procuraremos nem os ajudaremos

Se não aceitarmos que os outros são como são, não podemos amá-los incondicionalmente ou afastarmo-nos e protegermo-nos dos seus abusos.

Se não aceitarmos que vida pode ser injusta, nada faremos para que seja mais justa,

Se não aceitarmos a morte como inevitável, não viveremos a vida plenamente.

O mesmo se passa com a nossa realidade interna:

Quando negamos e evitamos as nossas próprias emoções e pensamentos, estamos a impedir-nos de aceitá-los, logo estamos a impedir-nos de agir sobre eles.

Acontece que todos nós temos tendência para negar e/ou evitar o que é desconfortável e doloroso, mas ao fazê-lo, estamos a negar-nos a possibilidade de qualquer mudança. Ficamos pois, cativos da dor, da zanga, da frustração ou da resignação, que nada tem que ver com aceitação.

Aceitar profundamente o que não pode ser mudado é também um passo para a sabedoria de perceber a diferença entre o que pode e não pode ser mudado

(tal como nos recomenda a Oração da Sabedoria)

Nesta época de planos e esperança num novo ano, talvez possamos começar por escutar e olhar a nossa realidade e abraçá-la aceitando-a pelo que é. Por vezes, esta aceitação é o ponto de chegada de que necessitamos para fazer face a determinadas realidades que não podemos controlar e que estão fora da nossa vontade ou acção. Outras vezes, a aceitação é simplesmente o ponto de partida para podermos alterar, transformar, evoluir.

A aceitação plena é uma libertação e, como tal, permite mais escolhas, tomadas de decisão e um maior grau de satisfação connosco e com a vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

A Resiliência da Fragilidade

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How fragile we are” assim diz a música do Sting que canta e relembra a fragilidade do ser humano quando as estrelas ficam zangadas. Mas, curiosamente, conhecendo os lugares pouco luminosos para onde estas estrelas nos levam também conhecemos um outros, aqueles em que se testa o quanto aguentámos a zanga estrelícia e esses fortalecem-nos, relembrando a máxima “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”. E forte não é sempre erguido. É antes umas vezes erguido outras caído o que importa é saber que podemos cair e que, nalgum momento, também nos conseguiremos erguer.

A proposta é de que conhecendo a fragilidade (a nossa, dos outros e a da própria vida) tem-se OPORTUNIDADE para também conhecer a RESILIÊNCIA. Este é um conceito complexo mas que, essencialmente, pretende definir a capacidade das pessoas lidarem com problemas, superar obstáculos e/ou resistir à adversidade de situações (traumas, stress, etc.) sem entrar em ruptura psicológica. Ou seja, mantendo-se próximo do que era o seu estado anterior à situação, não ficando preso na dor da experiência.

Parece-me que a viver a vulnerabilidade humana resulta de uma percepção/avaliação de se estar em risco numa situação e, perante isto, assumirmos que a única hipótese é encaixarmo-nos na nossa fragilidade com os nossos sentimentos, corpo, coração e alma. Vivemo-la e descobrimos os cambiantes da sua dor. Chorar, gritar, desesperar, zangar são acções válidas e necessárias na fragilidade porque a partir delas conhecemos aspectos como o alívio, o apoio, a tranquilidade, a esperança e até o amor. Estas dimensões passam a ser conhecidas porque admitimos que tudo é autorizado a ser vivido na situação fragilizante e porque esta permissão torna mais claro o que é e não é de valor na vida.

Para se ser resiliente temos que conhecer e abraçar, por momentos, o nosso risco, desprotecção e depois ir descobrindo, conhecendo e abraçando o que o atenua ou afasta. Um grande bónus disto é o crescimento pessoal que acontece. Afinal, existe um movimento adaptativo de MUDANÇA no ser humano que tem como orientação o que é agradável e vivo por oposição ao que é desagradável e árido. Este movimento implica TEMPO real (dias, meses, anos) e está presente em todos nós talvez sob o desígnio de instinto de melhor sobrevivência.

Os momentos em que nos sentimos sozinhos, tristes ou desprotegidos fazem parte da condição humana mas a forma como os agarramos e os integramos é que faz com que sejamos mais ou menos resilientes atribuindo piores ou melhores argumentos à vida, tal como diz a música:

Tomorrow’s rain will wash the stains away

But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant

To clinch a lifetime’s argument

  Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Sobre a Psicologia Clínica e Psicoterapia… Ou, Breve Tentativa De Desmistificar Ambas

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Psicologia? Muitas as definições ao longo da história, muitas as ideias do senso comum.. Porque sorri o bebé, porque os filhos se rebelam contra os pais, porque nos lembramos de andar de bicicleta vinte anos após a última experiência, porque cantam os pássaros, porque falam, amam e guerreiam os homens?

Ora, a grande tarefa da Psicologia consiste precisamente em responder a esta última questão: O que fazem os homens e porque o fazem? E tudo isto são comportamentos e a psicologia é a ciência que os estuda a todos.

Partindo do pressuposto que a vida é repleta de comportamentos realizados, bem como de razões para serem feitos, é também importante pensar que existem consequências associadas aos mesmos, frequentemente difíceis de lidar ou gerir. Desta forma, pode ser necessário e pertinente recorrer a um psicólogo em momentos de vida mais complicados, como por exemplo, quando um processo de adaptação não corre como era esperado, quando existem comportamentos desajustados e desenquadrados, quando se é confrontado com situações de perda/rotura, quando se têm que tomar decisões difíceis, com vantagens/desvantagens várias e ambivalentes, ou quando existe sofrimento associado a uma vivência em particular.

Muitas vezes, nessas situações o pensamento inicia num ciclo vicioso do qual é difícil sair e a pessoa é conduzida frequentemente a becos sem saída e a caminhos labirínticos de sofrimento psicológico, desconforto e angústia. O primeiro passo, ou seja, reconhecer e ter consciência da situação em que se está é frequentemente o mais difícil, seguido da necessidade de mudança, como algo fundamental a realizar.

Contudo, também se verificam situações em que não existe aparente sofrimento psicológico, e aí, outras razões podem conduzir a uma consulta ao psicólogo, tais como a procura de auto-conhecimento e de desenvolvimento/crescimento pessoais.

Para além do contexto individual psicoterapêutico, a Psicologia tem também um papel fundamental em tudo o que implique mudança de comportamentos, podendo interligar com outras áreas específicas, na promoção da educação para a saúde e melhoria de hábitos e estilos de vida saudáveis, tão actualmente referidos nos contextos de prevenção de condições de saúde (agudas ou crónicas).

Porém, para muitos a Psicologia continua a estar associada unicamente às questões da saúde mental (por exemplo: perturbações da ansiedade, da personalidade, dos estados de humor, etc.) e de forma comum pensa-se que as preocupações e problemas mais relacionados com o quotidiano (por exemplo, alterações de emprego, de casa, situações de perda e rupturas relacionais, preocupações com o desempenho escolar e comportamento dos filhos, etc.) podem apenas ser resolvidos porque partilhados com amigos, familiares, colegas… Porém, convém pensar que estes são entes queridos com quem se estabelece um outro tipo de relação (de amizade, de amor, etc.), que não são técnicos especializados e que não podem assumir este “pesado” papel. Assim, estas questões precisam ser encaminhadas para o contexto psicoterapêutico, que pode mesmo evitar que estas se cristalizem em “gavetas internas” para sempre seladas, acabando por ter consequências futuras graves no bem-estar e qualidade de vida gerais, bem como noutras áreas do funcionamento pessoal e no relacionamento com os outros.

Portanto, quando o sofrimento psicológico se instala e os recursos para lidar com o mesmo escasseiam é necessário encontrar apoio especializado, neste caso o psicólogo (ou até um outro técnico de saúde mental) que ouve, compreende, aceita, ajuda a pensar sobre os problemas e acompanha o caminho da mudança.

Mas, apenas procurar ajuda no local certo não basta: a pessoa também tem que ter consciência da necessidade em se implicar, ela própria, no processo, num caminho a dois. O psicólogo não vai por si só resolver os problemas, não vai apresentar soluções mágicas, nem tem “comprimidos” fantásticos para apagar estas “dores”… Esta “caminhada” não é um processo fácil, compreende um longo e às vezes sinuoso caminho a percorrer, mas necessário para o restabelecimento do equilíbrio psicológico.

É também fundamental estabelecer uma boa relação com o psicólogo, sendo este um aspecto crucial a ter em conta para o processo terapêutico ser levado a “bom porto”. A pessoa deve sentir-se num clima de confiança, compreensão e empatia. Se tal não acontecer, é legítimo que experimente e consulte um outro psicólogo.

Portanto, a Psicologia deve ser encarada, cada vez mais, como algo que faz parte dos cuidados globais de saúde a ter consigo próprio, comparável a ter um sintoma físico, por exemplo, uma constipação, e, dirigir-se ao local exacto para a tratar, neste caso o médico especialista. Se é natural ir ao médico e cuidar do corpo quando ele dá sinais físicos de aviso, o que será que impede de, com a mesma naturalidade ir ao psicólogo, quando a mente também envia “sinais de aviso”? Porque será que se evita prestar os mesmos cuidados à nossa saúde psicológica, pensando erroneamente que os problemas acabarão por passar por si mesmo? Preconceitos, ideias pré-concebidas, crenças, estigma?!…  Pois, aqui poderá estar o ponto de partida, porque está ao alcance de cada pessoa começar a fazer a diferença para uma melhor saúde psicológica.

E, como se de “constipações” se tratassem, estes “avisos psicológicos”, quando não “curados” podem também acabar por reaparecer mais cedo ou mais tarde, podendo chegar mesmo até, às proporções de uma “pneumonia”…

Passos Importantes

  • Identifique se existe alguma situação que lhe provoca sofrimento e desconforto psicológicos.
  • Não avalie a sua reacção pela forma como os outros lidam com essa mesma situação. Não se esqueça que algo que lhe é penoso, pode não o ser para outra pessoa.
  • Ainda que esteja inseguro e com dúvidas em relação a ir à consulta, dê pelo menos oportunidade a si mesmo para experimentar.
  • Marque uma 1ª sessão.

Tenha consciência que este é um caminho a dois, que implica compromisso e envolvimento do próprio no seu processo terapêutico…

Teresa Santos – Psicóloga Clínica

 

E se em vez de sair da sua zona de conforto a aumentar?

Espalhou-se pela internet, há uns tempos atrás, esta imagem alusiva à distância entre a nossa zona de conforto e a zona onde a magia acontece.

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Esta imagem tem alguns problemas: por um lado, dá a ideia de que ou estamos numa zona ou estamos na outra e que há uma distância imensa entre as duas; por outro, não clarifica como é que se passa de uma zona para a outra, passa a ideia de que temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto de confiança para algo absolutamente estranho e desconhecido para que a vida passe a ser como gostávamos que ela fosse; por último, ainda que para os mais aventureiros este salto possa ser estimulante, para o comum dos mortais esta imagem pode trazer uma certa angústia, a sensação de que a distância é demasiado grande e o salto demasiado assustador, nunca conseguirei chegar onde a magia acontece.

Por estes motivos, prefiro esta segunda imagem, mais realista, menos angustiante e mais esclarecedora.

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Nesta imagem compreendemos que para a magia acontecer não temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto no escuro, temos sim que AUMENTAR a nossa zona de conforto para que ela inclua a zona onde a magia acontece.

A mudança não tem que passar por uma transformação radical em que deixamos de ser quem somos para passarmos a ser ou a estar num ponto completamente diferente; mudança pode muito bem ser, e é-o a maioria das vezes, um acumular de pequenos ganhos, de pequenas experiências no limiar da nossa zona de conforto, que se vão tornando seguras, sólidas, e nos permitem gradualmente ir mais além.

Quando voltar a ver a primeira imagem, não se assuste, acrescente-lhe mentalmente círculos maiores de potencial de crescimento, e acredite, através deles, passo a passo, vai chegar exactamente aonde quer.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Aceitação

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Aceitar o que o presente nos dá, a nossa história pessoal, as nossas vulnerabilidades e os nosso erros é muitas vezes um processo doloroso mas sem ele dificilmente conseguiremos estar plenamente no aqui e no agora.

Errar faz parte da condição humana e é uma fonte preciosa de aprendizagem. De facto aprendemos em todos os caminhos principalmente nos piores ou mais difíceis que muitas das vezes são os que nos tornam mais resilientes e nos obrigam a evoluir.

Esta auto-aceitação deve ser activa e validante ou seja, não uma resignação e desistência de si ou dos outros, caso contrário não haverá espaço para a mudança e crescimento pessoal.

A aceitação de acontecimentos, traumáticos ou não, da nossa história pessoal é também crucial para o nosso bem-estar psicológico. Todas as nossas experiências contribuem para o que somos e ao apagarmo-las ou recalcarmo-las da nossa memória consciente, estamos também a negar o que somos, incluindo as nossas qualidades.

Muitos dos pedidos em psicoterapia prendem-se com o desejo de mudar algo no próprio, com o qual se sente insatisfeito. Esta mudança só poderá ocorrer depois de nos aceitarmos. Muitas vezes basta esta aceitação para surgirem as mudanças desejadas. Por exemplo, quem deseja ser menos ansioso, ao aceitar a sua própria ansiedade simbolizando-a e integrando-a deixa de ficar tão constrangido com a mesma, baixando os níveis desta.

Assim, como OSHO postula, “Aceite-se como é, você é único, incomparável”.

Catarina Barra Vaz – PSICÓLOGA CLÍNICA E PSICOTERAPEUTA