O bem que o mal nos faz

falha e sucsso

Não são raras as vezes que me perguntam “porquê?”.

Aqui incluem-se variantes como o “porque é que eu sou assim?”, o “porque é que isto me acontece a mim?”, o “porque é que não resulta o que tento fazer para mudar?”.

Inerente a esta frustração e desespero está um passado de tentativas da pessoa se libertar das antigas formas de fazer, pensar, sentir e estar. Está uma sucessiva narrativa de coligir recursos e estendê-los na direcção que se achou a mais adequada … sem sucesso. Está uma repetição de fracassos.

Este fracasso até pode ser bom, desde que bem aproveitado, penso e digo muitas vezes. Quando devolvo este desafio, a surpresa de quem me escuta acompanha um incrédulo “como assim?”. Thomas Edison falhou diversas vezes até ser bem sucedido. Não é o ter conseguido inventar a lâmpada (e outros diversas engenhocas) que eleva Thomas Edison, mas sim a sua extraordinária capacidade de persistir e inovar perante o erro.

O movimento IFF, intelligent fast failure, traduz esta ideia de uma forma bastante concisa. Falhar é humano e é uma aprendizagem em potential. O erro não está em falhar, mas sim em não aprender com o erro. Assim, quem erra mais tem mais oportunidade de testar, afinar e adaptar as suas estratégias … ou seja, falhar a curto prazo tem o paradoxal efeito de nos poder tornar mais bem sucedidos a longo prazo! Desde que tenhamos a capacidade de analisarmos a situação e reconhecermos o que poderia ter sido diferente, o que poderia ter sido melhor. O conceito não se esgota no fracasso, mas sim na forma inteligente de lidarmos e aprendermos com ele.

Esta pequena e quase irrisória mudança de perspectiva tem um potencial de aceitação e mudança bastante impactante. Retira algum do desconforto e do sofrimento na medida em que atribui à pessoa o poder (e a responsabilidade) de continuar a tentar.

Este são dois dos grandes desafios da psicoterapia: a promoção da esperança da possibilidade de mudança e a responsabilização da pessoa em mudar, não necessariamente apenas as circunstâncias externas mas também (sobretudo) a forma como lida com estas circunstâncias.

Aqui parece-me relevante voltar a uma das minha distinções favoritas. De facto, será assim tão importante perceber o porquê de algo? Talvez seja mais enriquecedor compreender o para quê de certas situações. Qual a necessidade que cumpre? Qual o papel que desempenha no teatro da nossa vivência? O que haverá de positivo ou apaziguador nas situações que nos magoam e fazem sofrer? Se não houver a compreensão do papel que determinada relação ou mesmo um comportamento tem na nossa vida, não o poderemos mudar.

Aparentemente, à primeira vista, nada de “bom” parece vir do sofrimento. Mas na verdade, a aparência pode tantas vezes ser ilusória. A experiência mostra-nos como o fracasso e a dor podem ser bem superados e dar origem a uma vivência interior mais rica, com uma nitidez mais verdadeira. Torna-se central o papel activo da pessoa, para que não se caia no erro (pelo menos, não repetidamente) de achar que o sofrimento é bom. Sofrer não é bom, mas paralisar na indefinição de alternativas também não…

A psicoterapia não se trata de desenvolver super poderes. Apenas de exercitar competências que nos tornem mais felizes.

 

Ana Baptista Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta

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