Sobre a Psicologia Clínica e Psicoterapia… Ou, Breve Tentativa De Desmistificar Ambas

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Psicologia? Muitas as definições ao longo da história, muitas as ideias do senso comum.. Porque sorri o bebé, porque os filhos se rebelam contra os pais, porque nos lembramos de andar de bicicleta vinte anos após a última experiência, porque cantam os pássaros, porque falam, amam e guerreiam os homens?

Ora, a grande tarefa da Psicologia consiste precisamente em responder a esta última questão: O que fazem os homens e porque o fazem? E tudo isto são comportamentos e a psicologia é a ciência que os estuda a todos.

Partindo do pressuposto que a vida é repleta de comportamentos realizados, bem como de razões para serem feitos, é também importante pensar que existem consequências associadas aos mesmos, frequentemente difíceis de lidar ou gerir. Desta forma, pode ser necessário e pertinente recorrer a um psicólogo em momentos de vida mais complicados, como por exemplo, quando um processo de adaptação não corre como era esperado, quando existem comportamentos desajustados e desenquadrados, quando se é confrontado com situações de perda/rotura, quando se têm que tomar decisões difíceis, com vantagens/desvantagens várias e ambivalentes, ou quando existe sofrimento associado a uma vivência em particular.

Muitas vezes, nessas situações o pensamento inicia num ciclo vicioso do qual é difícil sair e a pessoa é conduzida frequentemente a becos sem saída e a caminhos labirínticos de sofrimento psicológico, desconforto e angústia. O primeiro passo, ou seja, reconhecer e ter consciência da situação em que se está é frequentemente o mais difícil, seguido da necessidade de mudança, como algo fundamental a realizar.

Contudo, também se verificam situações em que não existe aparente sofrimento psicológico, e aí, outras razões podem conduzir a uma consulta ao psicólogo, tais como a procura de auto-conhecimento e de desenvolvimento/crescimento pessoais.

Para além do contexto individual psicoterapêutico, a Psicologia tem também um papel fundamental em tudo o que implique mudança de comportamentos, podendo interligar com outras áreas específicas, na promoção da educação para a saúde e melhoria de hábitos e estilos de vida saudáveis, tão actualmente referidos nos contextos de prevenção de condições de saúde (agudas ou crónicas).

Porém, para muitos a Psicologia continua a estar associada unicamente às questões da saúde mental (por exemplo: perturbações da ansiedade, da personalidade, dos estados de humor, etc.) e de forma comum pensa-se que as preocupações e problemas mais relacionados com o quotidiano (por exemplo, alterações de emprego, de casa, situações de perda e rupturas relacionais, preocupações com o desempenho escolar e comportamento dos filhos, etc.) podem apenas ser resolvidos porque partilhados com amigos, familiares, colegas… Porém, convém pensar que estes são entes queridos com quem se estabelece um outro tipo de relação (de amizade, de amor, etc.), que não são técnicos especializados e que não podem assumir este “pesado” papel. Assim, estas questões precisam ser encaminhadas para o contexto psicoterapêutico, que pode mesmo evitar que estas se cristalizem em “gavetas internas” para sempre seladas, acabando por ter consequências futuras graves no bem-estar e qualidade de vida gerais, bem como noutras áreas do funcionamento pessoal e no relacionamento com os outros.

Portanto, quando o sofrimento psicológico se instala e os recursos para lidar com o mesmo escasseiam é necessário encontrar apoio especializado, neste caso o psicólogo (ou até um outro técnico de saúde mental) que ouve, compreende, aceita, ajuda a pensar sobre os problemas e acompanha o caminho da mudança.

Mas, apenas procurar ajuda no local certo não basta: a pessoa também tem que ter consciência da necessidade em se implicar, ela própria, no processo, num caminho a dois. O psicólogo não vai por si só resolver os problemas, não vai apresentar soluções mágicas, nem tem “comprimidos” fantásticos para apagar estas “dores”… Esta “caminhada” não é um processo fácil, compreende um longo e às vezes sinuoso caminho a percorrer, mas necessário para o restabelecimento do equilíbrio psicológico.

É também fundamental estabelecer uma boa relação com o psicólogo, sendo este um aspecto crucial a ter em conta para o processo terapêutico ser levado a “bom porto”. A pessoa deve sentir-se num clima de confiança, compreensão e empatia. Se tal não acontecer, é legítimo que experimente e consulte um outro psicólogo.

Portanto, a Psicologia deve ser encarada, cada vez mais, como algo que faz parte dos cuidados globais de saúde a ter consigo próprio, comparável a ter um sintoma físico, por exemplo, uma constipação, e, dirigir-se ao local exacto para a tratar, neste caso o médico especialista. Se é natural ir ao médico e cuidar do corpo quando ele dá sinais físicos de aviso, o que será que impede de, com a mesma naturalidade ir ao psicólogo, quando a mente também envia “sinais de aviso”? Porque será que se evita prestar os mesmos cuidados à nossa saúde psicológica, pensando erroneamente que os problemas acabarão por passar por si mesmo? Preconceitos, ideias pré-concebidas, crenças, estigma?!…  Pois, aqui poderá estar o ponto de partida, porque está ao alcance de cada pessoa começar a fazer a diferença para uma melhor saúde psicológica.

E, como se de “constipações” se tratassem, estes “avisos psicológicos”, quando não “curados” podem também acabar por reaparecer mais cedo ou mais tarde, podendo chegar mesmo até, às proporções de uma “pneumonia”…

Passos Importantes

  • Identifique se existe alguma situação que lhe provoca sofrimento e desconforto psicológicos.
  • Não avalie a sua reacção pela forma como os outros lidam com essa mesma situação. Não se esqueça que algo que lhe é penoso, pode não o ser para outra pessoa.
  • Ainda que esteja inseguro e com dúvidas em relação a ir à consulta, dê pelo menos oportunidade a si mesmo para experimentar.
  • Marque uma 1ª sessão.

Tenha consciência que este é um caminho a dois, que implica compromisso e envolvimento do próprio no seu processo terapêutico…

Teresa Santos – Psicóloga Clínica

 

E se em vez de sair da sua zona de conforto a aumentar?

Espalhou-se pela internet, há uns tempos atrás, esta imagem alusiva à distância entre a nossa zona de conforto e a zona onde a magia acontece.

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Esta imagem tem alguns problemas: por um lado, dá a ideia de que ou estamos numa zona ou estamos na outra e que há uma distância imensa entre as duas; por outro, não clarifica como é que se passa de uma zona para a outra, passa a ideia de que temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto de confiança para algo absolutamente estranho e desconhecido para que a vida passe a ser como gostávamos que ela fosse; por último, ainda que para os mais aventureiros este salto possa ser estimulante, para o comum dos mortais esta imagem pode trazer uma certa angústia, a sensação de que a distância é demasiado grande e o salto demasiado assustador, nunca conseguirei chegar onde a magia acontece.

Por estes motivos, prefiro esta segunda imagem, mais realista, menos angustiante e mais esclarecedora.

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Nesta imagem compreendemos que para a magia acontecer não temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto no escuro, temos sim que AUMENTAR a nossa zona de conforto para que ela inclua a zona onde a magia acontece.

A mudança não tem que passar por uma transformação radical em que deixamos de ser quem somos para passarmos a ser ou a estar num ponto completamente diferente; mudança pode muito bem ser, e é-o a maioria das vezes, um acumular de pequenos ganhos, de pequenas experiências no limiar da nossa zona de conforto, que se vão tornando seguras, sólidas, e nos permitem gradualmente ir mais além.

Quando voltar a ver a primeira imagem, não se assuste, acrescente-lhe mentalmente círculos maiores de potencial de crescimento, e acredite, através deles, passo a passo, vai chegar exactamente aonde quer.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Aceitação

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Aceitar o que o presente nos dá, a nossa história pessoal, as nossas vulnerabilidades e os nosso erros é muitas vezes um processo doloroso mas sem ele dificilmente conseguiremos estar plenamente no aqui e no agora.

Errar faz parte da condição humana e é uma fonte preciosa de aprendizagem. De facto aprendemos em todos os caminhos principalmente nos piores ou mais difíceis que muitas das vezes são os que nos tornam mais resilientes e nos obrigam a evoluir.

Esta auto-aceitação deve ser activa e validante ou seja, não uma resignação e desistência de si ou dos outros, caso contrário não haverá espaço para a mudança e crescimento pessoal.

A aceitação de acontecimentos, traumáticos ou não, da nossa história pessoal é também crucial para o nosso bem-estar psicológico. Todas as nossas experiências contribuem para o que somos e ao apagarmo-las ou recalcarmo-las da nossa memória consciente, estamos também a negar o que somos, incluindo as nossas qualidades.

Muitos dos pedidos em psicoterapia prendem-se com o desejo de mudar algo no próprio, com o qual se sente insatisfeito. Esta mudança só poderá ocorrer depois de nos aceitarmos. Muitas vezes basta esta aceitação para surgirem as mudanças desejadas. Por exemplo, quem deseja ser menos ansioso, ao aceitar a sua própria ansiedade simbolizando-a e integrando-a deixa de ficar tão constrangido com a mesma, baixando os níveis desta.

Assim, como OSHO postula, “Aceite-se como é, você é único, incomparável”.

Catarina Barra Vaz – PSICÓLOGA CLÍNICA E PSICOTERAPEUTA

Querer é Poder – Motivação em Psicoterapia

Querer é Poder, diz a sabedoria popular. Efectivamente, faz parte do senso comum a ideia de que o alcance de metas ou objectivos pessoalmente significativos depende em larga medida de factores motivacionais, ou seja, que a motivação é um factor de sucesso para qualquer processo de mudança.

Mas, então, de que falamos quando falamos de motivação? Referimos-nos a uma disposição do indivíduo para agir de forma dirigida a metas que valoriza. No entanto, esta não é uma dimensão de tudo ou nada, em que uns bem-aventurados são abençoados por esta graça enquanto outros estão condenados a viver insatisfeitos com a sua situação presente mas sem a força motriz para iniciar a mudança desejada. Pelo contrário, trata-se de um composto de diferentes dimensões, passíveis de desenvolvimento e optimização.

Uma das dimensões importantes para a motivação é a insatisfação com o estado actual relativo às mais diversas matérias, sendo que só esse desejo de mudança possibilita e incentiva o esforço necessário para a alcançar. No entanto, podemos identificar diferentes motivos por que a pessoa deseja a mudança, sejam eles mais externos ou mais interiorizados. Por exemplo, comparemos um adolescente que ajuda os pais nas tarefas domésticas porque sabe que terá um reforço da sua mesada (motivo externo) com outro que ajuda nas tarefas porque gosta de ver a casa arrumada, isto é, que interiorizou as razões para a sua contribuição. Não é difícil imaginar o que aconteceria se o reforço externo – o aumento da mesada – desaparecesse, a participação muito provavelmente desapareceria no primeiro caso, enquanto no segundo não afectaria o comportamento do adolescente.

Este exemplo ilustra um dos princípios base da teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985), isto é, de que todo o comportamento humano pode ser compreendido como se enquadrando num contínuo entre a regulação externa ou motivação extrínseca e a autonomia, ou verdadeira auto-regulação, e que esta última é mais estável e duradoura e tem mais efeitos positivos sobre o bem-estar do que a regulação controlada pelo exterior.

De igual modo, quando alguém inicia um processo psicoterapêutico certamente é porque se encontra insatisfeito com alguma esfera da sua vida pessoal, seja ela na relação consigo mesmo ou com os outros. No entanto, os motivos para a sua insatisfação poderão ser externos – “Acho que não tenho nenhum problema com o álcool, mas a minha mulher já me ameaçou com o divórcio se não parar de beber” – ou internos – “Não consigo controlar o consumo de álcool o que só me tem trazido dissabores”. Daqui decorre que o trabalho a realizar no primeiro caso será explorar inicialmente motivos internos para a mudança, ou seja, perceber de que modo é que o consumo de álcool colide com valores centrais do indivíduo antes de encetar qualquer tentativa de controle do consumo, enquanto no segundo se poderá trabalhar mais rapidamente as estratégias para redução e/ou eliminação do consumo de álcool.

Efectivamente, uma das premissas da Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985) defende que na presença de determinadas condições de apoio, a motivação previamente controlada pelo exterior pode ser interiorizada e transformada em motivação autónoma. Então e que condições de apoio são essas? Os contextos que mais satisfazem as necessidades psicológicas do indivíduo são aqueles que mais apoiam o seu processo de interiorização.

 

Necessidades Psicológicas:

  • Relação: necessidade de experienciar uma ligação com os outros e de ter relações sociais satisfatórias e apoiantes;
  • Autonomia: necessidade de se sentir autónomo nas suas acções, em vez de se sentir controlado ou coagido a agir;
  • Competência: confiança nas suas aptidões e na capacidade de alcançar resultados.

 

Daqui decorre que o/a psicoterapeuta será tão mais eficaz no apoio ao desenvolvimento da motivação para a mudança quanto estabelecer uma relação de trabalho com a pessoa em que esta se sinta valorizada e a sua perspectiva do problema respeitada, em que se definam objectivos escolhidos pelo cliente e face aos quais identifique motivos internos para a mudança. Alcançadas estas duas etapas, poder-se-á então estimular a confiança e competência do próprio para mudar a sua forma de pensar, sentir e/ou agir de modo a ficar mais satisfeito na relação consigo, com os outros ou com o mundo que o rodeia.

 

Resumindo, em psicoterapia, a acção é filha do pensamento. É na relação terapêutica que se estimula a reflexão sobre o problema que o indivíduo tem em mãos e sobre os resultados que quer alcançar, para que a mudança, quando ocorra, seja afectiva e efectiva.

 

Inês Simões