Sobre o Ciúme

“ – Senhor, cuidado com o Ciúme. É um monstro de olhos verdes, que escarnece da carne de que se alimenta.”

William Shakespeare (in Othello, 3º acto; Iago dirigindo-se a Otelo)

 

Quando falamos de ciúme, ocorre-nos provavelmente, em primeiro lugar, a sua expressão nas relações amorosas, mas podemos encontra-lo em relações fraternais face ao amor/atenção dos pais/cuidadores, entre amigos face a um outro amigo, tido, por qualquer razão, como especial, ou entre colegas em relação a professores, chefias, etc.

Descartes, distinguia entre “ciúme bom” -cuidador, protector- e “ciúme mau” – amor errado, má opinião de si ou do outro-.

Permito-me agarrar naquilo a que Descartes chama “ciúme bom”, e considera-lo uma parte do amor que cuida e protege o ser amado não desejando perdê-lo. Essa parte é de facto amor, quando adaptada à situação e à idade (não se protege e cuida da mesma forma um bebé, uma criança, um adolescente ou um adulto, nem se cuida ou protege nenhum deles sempre da mesma forma), porém, quando se protege e cuida duma forma desadequada, (uma forma que não tem a ver com as necessidades do outro, mas com as do próprio) aí encontramos o “não amar da maneira certa”. O sentimento de posse e o medo de perda tornam-se superiores ao gesto de cuidar e proteger restringindo as necessidades e vontade do outro.

Olhemos para o ciúme como uma reacção complexa a uma ameaça (real ou imaginada) a uma relação de apego diádica que se valoriza. A ameaça é vista como algo ou alguém (rival) que interfere nessa relação.

A reacção que o ciúme gera, envolve emoções complexas, de frustração (um misto de tristeza, zanga e medo) que pode levar à angústia, à raiva e à vergonha por se antever ou imaginar que se perde a “relação de primazia” com o ser (objectificado, porque não livre) que se deseja seu.

Percebemos assim que o ciúme se relaciona sobretudo com o sentimento de posse de alguém de quem o ciumento necessita para ser preferido, para ser amado (já que o próprio não consegue fazê-lo), e não com o amor ao outro ou do outro enquanto livre escolha (já que o próprio receia que ele/ela não o faça, se não for preso/controlado).

“Má opinião de si” dizia Descartes, (Freud falava de “ferida narcísica”), pensemos em termos de um processo de vinculação parental que não foi suficientemente segura durante a infância e que conduziu a uma baixa autoestima, contribuindo para as dificuldades ao nível da maturação emocional e da concepção de si como ser autónomo e “amável” (passível de ser amado). Podemos imaginar que quanto menos segura foi essa vinculação, mais o ciúme pode ter tendência a ser patológico, procurando obcessivamente certificar-se de um apego que paranoicamente vigia, podendo, com isso, acabar por destrui-lo, reconfirmando então os sentimentos de impossibilidade de ser amado e perpetuando o ciclo.

Retomando a citação de Shakespeare, diria que todos nós podemos conviver facilmente com um sorriso de olhos verdes que nos pisca o olho, de vez em quando, de dentro do nosso bolso, alertando-nos para a nossa vulnerabilidade, receios, desejos, ilusões e mágoas, a que talvez devêssemos prestar mais atenção para melhor nos conhecermos. O problema agrava-se quando o sorriso se fecha, nos escapa do bolso e começa a degradar a nossa relação. E pior será, quando o monstro, que se alimenta de quem o alimenta, crescer e atingir proporções que poderão ter terríveis consequências. (Otelo mata a sua mulher, Desdémona)

Quando o ciúme se torna monstro chamamos-lhe patológico, há desconfiança constante, agressão verbal e compulsão a verificar as acções do/a parceiro/a (escutar conversas, ver mensagens e e-mails, ou mesmo segui-lo/la). Curiosamente, estas tentativas de aliviar o desconforto, não só não resultam porque não são duráveis, como têm tendência a agravar-se podendo desembocar em situações de delírio, em que a interpretação da realidade é feita através dos receios do próprio e de imagens, que fantasia e projecta, antecipando-as ou vivendo-as como reais. Estas interpretações delirantes podem levar a conclusões erradas e a acções desastrosas, uma vez que as crenças sobre o que se está a passar não são permeáveis à testagem da realidade. Estes casos, para além de intervenção psicoterapêutica, necessitam de intervenção psiquiátrica, em muitas situações com caracter urgente.

Não nos iludamos; jamais o ciúme poderá ser prova ou resultado de muito amar. É sim, o medo desesperante de abandono, de vazio, de impossibilidade de ser, perante a perda da posse, da exclusividade ou da primazia de quem queremos que nos ame, porque nós não aprendemos a fazê-lo e não acreditamos que alguém o possa fazer, se não estiver sob a nossa vigilância e controlo. Assim… seremos também incapazes de saber amar um outro ser livre. A Corrosão seguirá o seu ciclo, como diz o poeta, “escarnecendo da carne de que se alimenta”

 Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL NO CASAL

Uma grande percentagem de mulheres (na realidade a sua grande maioria) sofre de tensão pré-menstrual (TPM) e todos os meses trava uma dura batalha com o seu corpo e sistema emocional. E infelizmente, na sua generalidade, parece que esta altura do mês se reveste de uma energia tão própria que apenas nos podemos render a expressões como “à beira de um verdadeiro ataque de nervos”….. “alguém me ajude!!!!!”

Entre os vários sintomas que caracterizam esta fase tão especial do mês (cerca de 10 dias a uma semana antes da menstruação) encontram-se:

  • Irritabilidade/Nervosismo/Agitação
  • Ataques de choro/vontade exacerbada de chorar
  • Raiva
  • Insónia
  • Dificuldade de concentração
  • Depressão
  • Sensação de cansaço
  • Ansiedade
  • Baixa autoestima
  • Abdómen e pernas inchadas
  • Prisão de ventre
  • Tensão mamária
  • Aumento de apetite
  • Dores de cabeça/enxaqueca

Estes sintomas podem variar de mulher para mulher nas suas características e intensidade e a forma como cada mulher lida com o respetivo quadro condiciona decisivamente a sua qualidade de vida nesta fase.

Para além do fator individual em causa, o mais comum é que aqueles com quem a mulher se relaciona sejam naturalmente envolvidos neste quadro, sendo que a sua postura face a esta questão pode ser de grande influência na atenuação ou aumento dos sintomas.

No casal, esta altura do mês está muitas vezes associada a um verdadeiro campo de batalha que ao fim de algum tempo pode afetar substancialmente a qualidade e investimento na relação.

São muito comuns as queixas por parte dos homens em relação a esta fase do mês e com o tempo é natural que alguma da sua paciência e compreensão possam começar a desaparecer. Compreender esta dinâmica e assumir uma postura ativa e responsável perante a situação é fundamental para manter o equilíbrio da relação.

É fundamental que, estando ambos envolvidos, trabalhem ativamente e em conjunto para que este período seja o mais pacífico possível. Poderão, inclusivamente, aproveitar esta fase para conhecerem um pouco melhor os seus mecanismos individuais de funcionamento e os padrões disfuncionais na relação e reforçar a intimidade no casal.

Cada um deverá assumir a sua responsabilidade na dinâmica de casal e observar o seu comportamento e a forma como este condiciona o quadro final. Por exemplo, é muito comum que a maior carência e sensibilidade da mulher nesta fase acione no homem a impaciência e agressividade por se sentir impotente para resolver ou melhorar a situação. A mulher poderá sentir-se então ainda mais sensível e incompreendida e o ciclo vai-se mantendo.

Observar ativamente, desenvolver o autocontrole e mecanismos facilitadores ou atenuadores do desconforto são elementos fundamentais ao longo deste processo.

Esta mudança poderá ser apenas individual (levada a cabo por uma das partes) e revelar-se positiva por se traduzir numa mudança do padrão habitual. Contudo, quando assumida e mantida pelos dois elementos do casal torna-se, naturalmente, mais sólida e construtiva.

Quando este processo se torna muito difícil e sentimos que não conseguimos dar a volta sozinhos é útil reconhecê-lo e procurar ajuda.

Realizado com sucesso, este trabalho poderá contribuir para reforçar grandemente a cumplicidade, partilha e autenticidade na relação!

Sofia Rodrigues – Psicóloga e Psicoterapeuta

Sobre a Autonomia

Recentemente li o livro A traição do Eu: O medo da autonomia no homem e na mulher de Arno Gruen, e apercebi-me como de facto tendemos a gerir as nossas vidas de acordo com uma ideia de autonomia incongruente com o que ela realmente implica.

Segundo o autor, “a autonomia é o estado de integração em que uma pessoa se encontra em plena concordância com os seus sentimentos e as suas necessidades. (…) Da autonomia faz parte a capacidade de ter um Eu alicerçado no acesso a sentimentos e necessidades genuínos.” (págs. 17 e 18).
Paradoxalmente, geralmente associamos a pessoa autónoma à pessoa independente, controlada, bem adaptada socialmente, por muito que esta pessoa possa não reconhecer qualquer sentimento de tristeza, zanga, medo, ou qualquer necessidade de proximidade, de conforto.

Ao colocarmos este peso na ideia de autonomia, colocamo-nos necessariamente em conflito entre um Eu ideal (supostamente autónomo porque independente e controlado), favorecido pela sociedade ocidental actual, e o Eu real (genuinamente autónomo, mas não reconhecido socialmente como tal), que por vezes tem dores, que tem fragilidades, que precisa de proximidade e de conforto. Estranhamente, este é o Eu socialmente rotulado como fraco e dependente.
Assim, quando puxamos o suposto lado da autonomia (portanto o independente e controlado), reprimimos a possibilidade de satisfação no contacto com a nossa realidade interna e a possibilidade de conforto na interdependência (no equilíbrio entre a proximidade e o isolamento). Criamos a fantasia que ou somos “autónomos” e fortes ou somos dependentes e fracos, sem percebermos que proximidade e autonomia não são incompatíveis, eu não preciso de me isolar para ser autónomo e posso retirar conforto na proximidade sem me tornar dependente.

É muito importante percebermos que a nossa saúde mental não passa por nos adaptarmos às expectativas dos outros negligenciando-nos a nós próprios; a nossa saúde mental passa por encontrarmos, mantendo-nos próximos aos outros, um espaço para reconhecermos e cuidarmos das nossas emoções e necessidades.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Somos como somos ou podemos mudar?

Somos como somos E podemos mudar.

Somos? ou vamos Sendo?

Somos E vamos Sendo.

Somos um conjunto de aspectos mais ou menos estruturais, comuns a uma espécie, a uma génese, a uma herança genética e cultural/ambiental.

E

Vamos Sendo um conjunto de processos dinâmicos, dialeticos de interacções constantes com o meio em que estamos inseridos (afectivo/relacional, social, cultural). que interaje constantemente com os traços próprios de quem somos e de quem nos vamos construindo.

Somos uma obra única e em constante mutação, que, à medida que se vai desenvolvendo vai acrescentando novos materiais, uns por necessidade, outros porque se nos colam… E, outras vezes vai prescindindo de materiais iniciais, uns porque já não fazem falta, outros por que nos foram sonegados. Há assim potencializações e despotencializações constantes, que afectam o nosso processo de auto-construção e dos quais nem sempre estamos conscientes.

Independentemente do que somos e trazemos connosco à nascença, tudo o que vamos sendo depende da nossa interacção com todos e tudo o que nos rodeia. Essas tensões e distensões provocadas pelas diversas forças que operam no processo de auto-construção nem sempre são claras ou lógicas, e muitas vezaes são contraditórias e causam sofrimento. São fruto de inúmeros e complexos processos Psicológicos.

A escuta das nossas emoções primárias (surpresa, medo, zanga, tristeza, alegria, nojo) e a atenção ao diálogo que estabelecemos com elas (ou que outros estabeleceram com elas) e ao que conduziram secundariamente, são essenciais para nos podemos compreender e construir de forma equilibrada e satisfatória.

A desregulação emocional não está na desordem/desequilíbrio ocasional, que faz parte do processo dinâmico dialético que é a vida, e que ocasionalmente, nos é tão necessária para uma reordenação e reorganização interna, mas apenas em traços extremos, inadaptativos, inflexíveis e/ou causando sofrimento contínuo, que impedem o reencontro com o equilíbrio.

O que fomos absorvendo, o que se nos foi “colando” e o que fomos prescindindo, sem querermos, sem nos apercebermos, ou, porque nos foi útil/inútil em determinada altura, deve ir sendo filtrado ou recuperado, para podermos tomar posse de quem vamos sendo, de uma forma mais consciente e livre, pois afinal, somos o que somos, em constante mutação e somos possuidores de um enorme potencial de mudança e adaptação.

A responsabilidade de sermos livres e nos sentirmos realizados é nossa. Contudo, esta tarefa nem sempre é fácil e é natural que requeira ajuda profissional num momento ou noutro das nossas vidas. Ir esculpindo o nosso Ser é obra nossa.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Estar deprimido….. como lidar com a depressão?

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Hoje em dia, são cada vez mais os relatos de casos de depressão ou de um humor grandemente depressivo.  Contudo, é importante ter em consideração que existem diferenças entre um quadro de “Depressão” e oscilações normais de humor.

Todos nós temos dias em que nos sentimos mais animados e positivos e dias em que nos sentimos com menos energia e motivação. Estas oscilações emocionais fazem parte do próprio sistema de homeostasia emocional do nosso corpo e são perfeitamente normais. O ideal será respeitar ao máximo estas emoções, observá-las, aceitá-las e descobrir a melhor forma de lidar com estas variações de humor.

De notar que aceitar e respeitar uma emoção não significa inércia ou que nada façamos para encontrar uma forma de lidar eficazmente com esta. Por exemplo, se nos estivermos a sentir particularmente tristes ou com falta de energia podemos ser ativos na procura de uma estratégia positiva que nos permita subir um pouco a nossa energia e nos proporcione prazer. Estas alternativas dependerão de cada individuo, dos seus gostos e preferências e do seu próprio mecanismo de funcionamento individual. Para algumas pessoas, um passeio junto ao mar opera milagres, para outras poderá ser a companhia dos que lhe são queridos, uma sessão de exercício físico, ou mesmo, a combinação de várias atividades.

Quando os sintomas “depressivos” persistem durante um período de tempo contínuo e prolongado podemos então falar de um quadro depressivo, com diferentes níveis de intensidade.

A depressão diferencia-se então das normais mudanças de humor pela gravidade e permanência dos sintomas. Está associada, muitas vezes, a ansiedade e/ou pânico.

Os sintomas mais comuns são:

  • Desinteresse, apatia e tristeza;
  • Modificação do apetite (falta ou excesso de apetite);
  • Perturbações do sono (sonolência ou insónia);
  • Fadiga, cansaço e perda de energia;
  • Sentimentos de inutilidade, de falta de confiança e de autoestima, sentimentos de culpa e sentimento de incapacidade;
  • Falta ou alterações da concentração;
  • Preocupação com o sentido da vida e com a morte;
  • Alterações do desejo sexual;
  • Irritabilidade;
  • Manifestação de sintomas físicos, como dor muscular, dor abdominal, enjoo.

 

Muitas vezes o indivíduo pode evitar procurar ajuda especializada, ao sentir-se embaraçado e humilhado por não ser capaz de executar uma determinada tarefa ou atividade ou por “não ter razões para estar deprimido”.

No entanto, existem ainda casos em que a depressão é considerada como uma parte inevitável e normal da vida, sendo por isso, negligenciada.

A depressão clínica é uma condição séria e ameaçadora da vida. Quando o nosso funcionamento se deteriora e os pensamentos são cada vez mais sombrios e sobrecarregados devemos procurar ajuda adequada e iniciar o mais rapidamente possível uma abordagem psicológica/psicoterapêutica.

Durante este processo, é muito importante ter em consideração uma série de aspetos, sendo que o primeiro passo passará sempre, inevitavelmente, pela consciência e aceitação da sua situação e pelo desejo de mudança:

  • Procurar adotar uma alimentação saudável e ter um sono regular (6 a 8 horas, consoante as necessidades individuais). Se existirem insónias, ler ou dedicar-se a alguma atividade e no dia seguinte tentar acordar à hora planeada ou não muito mais tarde. Tentar não dormir durante o dia, para que o corpo sinta sono no período normal da noite.
  •  A prática regular de técnicas de respiração e meditação constitui um valioso contributo na recuperação e prevenção futura.
  • Praticar exercício físico que produz a estimulação de adrenalina (durante) e endorfinas (após), proporcionando energia e uma sensação de bem-estar.
  • Praticar atividades prazerosas e contrariar a inércia que aumenta a sensação de inutilidade e derrota. Elaborar uma pequena lista com algumas tarefas que sejam realistas e concretizáveis (ir adaptando consoante a evolução), tentar que sejam agradáveis mas se não o forem não se culpabilizar ou martirizar. Insistir e pensar em novas alternativas.
  • Procurar a companhia de amigos, sair, conversar, partilhar.
  • Identificação de pensamentos negativos e destrutivos e substituí-los por pensamentos positivos e mais adaptados.

A ajuda psicológica/psicoterapêutica poderá constituir-se como um auxiliar muito positivo de identificação de fatores disfuncionais, de criação de alternativas e estratégias adequadas para lidar e ultrapassar o quadro depressivo, e na planificação e gestão de novas rotinas e hábitos de vida.

Sofia Rodrigues – Psicóloga clínica e Psicoterapeuta

SOBRE A ANSIEDADE

ansiedade

Go to the heart of danger for there you will find safety

[Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança]

Provérbio Chinês

Proponho uma reflexão sobre o que são e de onde vêm as perturbações da ansiedade.
A ansiedade é matreira: dirige a nossa atenção para as nossas sensações corporais ou para estímulos externos percepcionados como perigosos, para esconder o significado implícito deste medo exagerado. A pessoa ansiosa como que foge de si própria, desenvolve estratégias de evitamento que se materializam nos sintomas de ansiedade e, neste esforço de evitar o contacto com as suas feridas psicológicas, vai reforçando mais e mais a sua percepção negativa de si.

Como é que se desenvolve uma perturbação da ansiedade?
Cada vez mais se reconhece que as perturbações da ansiedade têm origem em experiências de vida dolorosas: experiências traumáticas, traições por outros significativos, respostas ineficazes a acontecimentos de vida, entre outros. Estas experiências criam feridas do self, percepções negativas de si, como incapaz de lidar com os desafios da vida, e estas feridas são tão poderosas, estão tão presentes na vida das pessoas (embora de uma forma implícita, não consciente), que as tornam hipersensíveis a qualquer situação no presente que se assemelhe de alguma forma a estas memórias dolorosas, que active a ferida. No esforço de prevenir a exposição a estas feridas, desenvolvem-se estratégias de protecção desadequadas, que são os sintomas mais visíveis da ansiedade.

Como é que se quebra este ciclo de sintomatologia ansiosa?
Apesar destes comportamentos de protecção desadequados trazerem algum alívio imediato por impedirem o contacto com as feridas, tendem a agravar o sofrimento por reforçarem a perspectiva negativa de si, como incapaz, desadequado, vulnerável…
Apesar do sofrimento imediato que acarreta entrar em contacto com as nossas feridas psicológicas e com as memórias dolorosas que lhes deram origem, é este contacto, no seio de uma relação terapêutica segura e apoiante, que permitirá atender a elementos adaptativos que não foram anteriormente processados e recuperar uma imagem de si mais positiva, capaz de mobilizar recursos para lidar de forma eficaz com os desafios da vida.

Confie no provérbio chinês, é no âmago do perigo que encontrará a segurança.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

É sempre tempo de construir o caminho

caminhos

Tantas vezes fazemos planos para o novo ano, mas na realidade todos os dias são oportunidades de construirmos o nosso caminho, seja prosseguindo o que iniciámos, seja interrompendo, seja mudando o curso, ou simplesmente alterando a velocidade e/ou a direcção.

Fazer caminhadas, prática aconselhável para a nossa saúde e ao alcance de todos, é o que acontece quando numa determinada altura decidimos caminhar num determinado local, durante um determinado tempo. No entanto, duma forma ou de outra, todos nós, sem tomar expressamente a decisão de o fazer, andamos quando nos deslocamos de um lado para o outro, ainda que seja pouco, ainda que seja em locais poluídos, ainda que seja de forma pouco consciente ou escolhida, apenas porque é a forma de nos deslocarmos para fazer isto ou aquilo, mas, por vezes também, sem que daí resultem grandes benefícios para a saúde.

Vemos portanto, que podemos caminhar sem grande consciência de o fazer, ou podemos fazê-lo de um modo mais consciente e voluntário, porque gostamos, ou para nos sentirmos mais saudáveis.

Tomemos agora a nossa vida como um caminho… Como nos diz o poeta António Machado: Não há caminho, o caminho faz-se ao andar.

O caminho é o espaço que separa o nosso nascimento da nossa morte. É o tempo -duração- que medeia entre o primeiro choro e o último suspiro. Mas esse espaço/tempo somos nós que o preenchemos. Os passos serão nossos, o ritmo será nosso e as direcções escolhidas também. Então o caminho é o percurso que formos construindo entre esses dois marcos.

É certo que a liberdade nunca é total (de resto, se o fosse, impediria qualquer compromisso…), é certo também que, para além da herança genética, o ambiente sócio-económico, cultural, educacional e político do país, local, família, tempo em que nascemos, são alguns dos factores determinantes. Há sempre constrangimentos. Todos os temos, maiores ou menores, duma ou de outra ordem. Mas existe sempre, também, espaço para transformação e mudança, espaço de liberdade e crescimento, também estes, factores determinantes.

Quando sentimos esse espaço de liberdade como não suficiente, talvez seja necessário começar por alarga-lo, já que nos sufoca e nos impede de andar.

Contudo, é bom não esquecer, que muitas vezes, somos nós próprios, por variadíssimas razões, a prender-nos, a tolher a nossa própria liberdade, a impedir-nos de caminhar.

Ficamos então a funcionar num espaço/tempo entre nascimento e morte como se esse fosse o nosso próprio percurso, aquele que o destino nos concedeu, não tendo consciência que essa existência sem marca, não tem de ser a nossa vida, sendo apenas o tempo, o acaso e as circunstâncias a desenrolarem-se e a exporem-se perante nós, ficando nós como espectadores que reagem ou não, mas não agem nem sobre si nem sobre o ambiente.

Ao perdermos a oportunidade de transformar a nossa existência/duração e as suas circunstâncias na nossa própria vida, ao não agarramos nessa existência – essa massa informe – para lhe dar forma, limitamo-nos a habitar um espaço e um tempo, sem vontade nem alento, como se alguém, que não nós, pudesse indicar-nos e escolher o nosso caminho melhor do que nós mesmos.

Se qualquer de nós é único, porque haveria de ser o nosso caminho ou o ritmo a que o percorremos, igual ao de um outro?

Como poderá qualquer outro ter a ousadia de saber qual deverá ser o meu caminho?

Por vezes andamos perdidos e confusos. Se aceitarmos esse tempo como necessário e como fazendo parte do nosso caminho, um compasso de espera para tomarmos decisões, poderemos tolerar melhor esses momentos de incerteza. Tão desajustado e perigoso pode ser navegar continuamente contra a corrente, como deixar-nos constantemente ir ao seu sabor. No primeiro caso podemos consumir demasiada energia e não conseguirmos usufruir de tranquilidade, no segundo caso, podemos desaguar onde não queremos, sem nos realizamos, sem nos cumprirmos. Saber escolher alturas e tempos para optar por um ou por outro é fundamental.

Caminhar com saúde mental é construir o caminho sabendo dosear esforço e repouso, sabendo observar, escutar, sentir, reflectir, agir e reagir, sabendo planear, mas também improvisar e aceitar o imprevisto.

É fundamental ganhar consciência de que a vida não é nem uma corrida, nem um concurso de perfeição, nem uma competição. É uma construção pessoal única, irrepetível e inigualável. Sempre!

Esse processo de criação do nosso próprio caminho está cheia de aprendizagens, em que os “erros” fazem parte. Medo de errar é medo de viver, é receio de caminhar e, no entanto, a morte não chegará mais tarde por isso, apenas surgirá com um sabor mais amargo, o sabor do vazio de não se ter construído um caminho.

Caminhar é uma descoberta, do próprio, dos outros e da vida, porque, se “não há caminho”, então ele não é mais do que o nosso próprio desenvolvimento e construção, às vezes por tentativa e erro, em que não deve haver receio de retroceder, de cair, de sair magoado, de fazer um desvio, de parar… Enfim, de fazer desse caminhar uma aventura, nuns dias mais ousada, noutros mais previsível e calma, numas alturas com acontecimentos que nos transcendem, noutras, colhendo os frutos do que fomos semeando (conscientemente ou não…), por vezes sozinhos, outras acompanhado, numa viagem que se deseja plena de autorrealização.

Quanto mais realizados nos sentirmos neste caminhar, melhor será a nossa saúde e bem-estar, melhor estaremos connosco e com os outros, mais preparadas estaremos para o final do caminho.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta