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Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com https://psiworks.pt Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

Aceitação, uma palavra complexa

Aceitação

Aceitação, uma palavra que merece a nossa atenção nesta época de balanços de final de ano e planos para o Ano Novo.

As várias ciências e disciplinas têm um vocabulário que lhes é próprio. Quando o vocabulário não faz parte da linguagem comum, é mais fácil perceber que estamos perante uma linguagem técnica, mas quando são utilizadas palavras que fazem parte do léxico de todos nós, as interpretações tornam-se mais confusas. Tomemos por exemplo a palavra “positivo”, tantas vezes utilizada na linguagem vulgar, para designar algo de bom, mas cujo significado em ciência é apenas o de: estar presente, existir, poder assinalar-se.

Sabemos o quanto um resultado “positivo” numa análise laboratorial, pode revelar-se negativo para o nosso bem-estar…, mas pode também revelar-se positivo, dependendo de a que é que se refere a “positividade”

Em Psicologia, tal como noutras ciências ou áreas específicas do Saber, encontramos muitas palavras que são utilizadas na linguagem comum, mas que se revestem de um significado mais restrito e específico, ou mesmo diferente no âmbito dessa área.

Actualmente ouvimos cada vez mais a palavra “aceitação”.

 “Aceitarmo-nos a nós próprios”; “aceitarmos os outros” “aceitarmos a vida e as suas vicissitudes” “aceitarmos incondicionalmente os nossos filhos”…

Mas o que significa em termos psicológicos de facto “aceitar”?

“Aceitar” significa simplesmente não negar a existência e encarar com verdade o que é, e o que está, englobando essa realidade.

Aceitação não significa aprovação, consentimento ou resignação a essa mesma realidade, isto é, não implica qualquer tipo de aquiescência, abdicação ou renúncia. Implica, isso sim, aceitar a realidade da existência, de forma a podermos responsabilizar-nos por esse facto, conhecimento, ou constatação.

Aceitação é mesmo o primeiro passo para se poder escolher mudar, ou não, o que está e o que é, quando tal é possível, e pacificarmo-nos quando não o é.

Aceitação é sentir e perceber que os outros são o que são e que não podemos querer que eles sejam como nós desejaríamos que fossem

Aceitação é, neste sentido, o contrário de negação. Ao que é negado não é reconhecida existência, logo não fica ao alcance do nosso pensamento ou acção.

Para que possamos pensar sobre, agir, transformar, incorporar, lutar, pacificar, necessitamos em primeiro lugar de aceitar a existência duma determinada realidade, facto, emoção, pensamento.

É apenas a partir dessa plena aceitação e fruto dela, que podemos conscientemente decidir o que fazer.

Olhemos para a realidade do dia a dia:

Se não aceitarmos que estamos doentes, não faremos nada para nos tratar.

Se não aceitamos que alguém legislou mal, não podemos lutar para que legisle bem,

Se não aceitarmos que os nossos filhos precisam de ajuda especializada, não a procuraremos nem os ajudaremos

Se não aceitarmos que os outros são como são, não podemos amá-los incondicionalmente ou afastarmo-nos e protegermo-nos dos seus abusos.

Se não aceitarmos que vida pode ser injusta, nada faremos para que seja mais justa,

Se não aceitarmos a morte como inevitável, não viveremos a vida plenamente.

O mesmo se passa com a nossa realidade interna:

Quando negamos e evitamos as nossas próprias emoções e pensamentos, estamos a impedir-nos de aceitá-los, logo estamos a impedir-nos de agir sobre eles.

Acontece que todos nós temos tendência para negar e/ou evitar o que é desconfortável e doloroso, mas ao fazê-lo, estamos a negar-nos a possibilidade de qualquer mudança. Ficamos pois, cativos da dor, da zanga, da frustração ou da resignação, que nada tem que ver com aceitação.

Aceitar profundamente o que não pode ser mudado é também um passo para a sabedoria de perceber a diferença entre o que pode e não pode ser mudado

(tal como nos recomenda a Oração da Sabedoria)

Nesta época de planos e esperança num novo ano, talvez possamos começar por escutar e olhar a nossa realidade e abraçá-la aceitando-a pelo que é. Por vezes, esta aceitação é o ponto de chegada de que necessitamos para fazer face a determinadas realidades que não podemos controlar e que estão fora da nossa vontade ou acção. Outras vezes, a aceitação é simplesmente o ponto de partida para podermos alterar, transformar, evoluir.

A aceitação plena é uma libertação e, como tal, permite mais escolhas, tomadas de decisão e um maior grau de satisfação connosco e com a vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Receber presentes sem embrulho nem laço!

presente

Na quadra em que estamos é bom relembrar como podemos dar e receber aquilo que não tem preço mas que é infinitamente importante para nós: o valor próprio.

Sabemos que o valor dos presentes que nos oferecem passa essencialmente pela intenção de quem o dá. Porque pensou em nós, nos teve em consideração, nos conhece e nos quer agradar. Mas também sabemos que os melhores presentes que recebemos são aqueles que nos surpreendem e encantam ao mesmo tempo. São estes que nos tocam cá dentro porque recebemos algo adicional ao próprio presente, talvez um reflexo do nosso valor.

Precisamos RECEBER através de acções ou de actividades que nos façam sentir mais completos, mais plenos, mais seguros, com mais valor. Em que sentimos que existe algo de nós que com aquele gesto foi tornado Satisfatoriamente presente. E elas podem ser divididas em solitárias ou partilhadas mas ambas têm a particularidade de nos acrescerem algum bem-estar, prazer, satisfação.

As primeiras acontecem, por exemplo, quando ouvimos uma música ou lemos livro que gostamos, quando desenvolvemos uma paixão por um hobbie, quando contemplamos algo, quando não fazemos absolutamente nada ou quando arranjamos tempo para estarmos sozinhos. Normalmente estas coisas não são reconhecidas como tendo a capacidade de nos fazer receber e muito menos estamos habituados a notar o quanto é bom.

As segundas acontecem, por exemplo, quando passeamos ou estamos com a nossa família, quando recebemos uma sms de alguém querido depois de saber que estivemos doentes ou tristes, quando nos fazem um miminho, quando nos recebem com um abraço ou quando recebemos um sorriso acolhedor e um olhar ternurento.

Serem gentis e atenciosos connosco nem sempre é fácil de ser recebido.  Mas serem muitos expressivos naquilo que nos estão a dar como quando nos dão um “perigoso” Elogio pode erguer a muralha da dificuldade ainda mais. Os tristes hábitos educacionais de não reconhecer o bom porque pode estragar, contamina com a desconfiança, a acção de alguém que nos dá mesmo (e gratuitamente) alguma coisa. Também a cultura do “pagar para ter” é muito empobrecedora destas acções.

Numa perspectiva mais interior, a falta de merecimento é um bom candidato para explicar a resistência em aceitar atenção e reconhecimento de algo que nunca antes tenha sido notado por ninguém, nem mesmo pelo próprio, como tendo valor. Afinal de contas “não merecer” tem uma grande fundação na sofrida falta de visibilidade, valor ou de respeito ao longo da caminhada da vida. Como receber não está associado a uma troca de acções, advém simplesmente do reconhecimento daquilo que somos enquanto seres humanos no mais básico da nossa Existência (i.e. generosos, frágeis, capazes, bonitos, imperfeitos…) acolher uma entrega unidireccional que nos enche de sentimentos que não sabemos muitas vezes o que são, é muito assustador… por serem tão bons e preenchedores e, talvez, por não se ter memória afectiva e corporal do que é sentir-se assim. Falo obviamente de parentes do Amor (alegria, prazer, orgulho, pertença, esperança) que parecem transbordar o corpo e o coração e que fazem soar um sinal de alarme, do perigo de se ser bom talvez J Por isso rejeita-se este estado com o “ser bom demais para mim” entrando-se na ratoeira de não nos sentirmos dignos de receber um simples mas tão belo presente.

A dignidade com que recebemos presentes está intimamente ligada à capacidade de o acolher, isto é, ao sentimento de gratidão pelo bom, bonito, livre, vitalizante, vibrante ou brilhante ser humano, que o outro nos faz sentir SER com o presente que nos dá.

Cada presente destes vale uma vida sem a camuflagem do embrulho ou as amarras do laço!

Rita dos Santos Duarte – Psicoterapeuta

Notas Breves sobre Investigação Qualitativa: Porque A Realidade Não Se Faz Apenas De Números….

estudo de caso

Desde o aparecimento da subdisciplina da psicologia da saúde que a comunidade científica tem vindo a estabelecer um debate sobre a legitimidade da investigação qualitativa, sendo cada vez mais demonstrada a sua importância e utilidade na investigação em saúde (Murray, & Chamberlain, 1998) e tendo obtido um reconhecimento mais evidente nas últimas décadas (Barnett-Page & Thomas, 2009), ainda que não se tenha instituído como uma abordagem considerada equitativa aos métodos quantitativos, usados nos ciclos de investigação estabelecidos. Entre 1998 e 2008, a área dos serviços da saúde e de gestão da investigação tem vindo a ser renovada com o uso de métodos de investigação qualitativa, e os artigos relacionados representam 9% das publicações de jornais da especialidade (sendo os estudos de caso, as entrevistas e fontes documentais, as técnicas de recolha de dados mais usadas), sugerindo uma contribuição incomparável para a base de conhecimento desta área (Weiner, Amick,  Lund, Lee, & Hoff, 2011).

O objectivo da investigação qualitativa é aprender alguns aspectos sobre o “mundo” social e gerar novos conhecimentos aplicáveis ao mesmo (Rossman & Rallis, 1998). Apresenta algumas vantagens epistemológicas, na medida em que os actores são considerados indispensáveis para a compreensão dos comportamentos sociais; éticas e políticas, pois permitem aprofundar as contradições e os dilemas que atravessam a sociedade concreta; e, metodológicas, como um instrumento privilegiado de análise das experiências e do sentido da acção (Poupart, 1997). Como esta metodologia pode ser usada por investigadores de variadas posições epistemológicas, será mais preciso usar-se o termo metodologias qualitativas (Deslauriers, 1997; Willig, 2001). Porém, alguns conceitos são partilhados (Willig, 2001):

  • foco no significado, ou seja, na forma como as pessoas dão sentido ao mundo e o experienciam, em detrimento de relações do tipo causa-efeito;
  • experiência de viver com condições particulares e as formas de lidar com as mesmas (estudos nos meios naturais envolventes);
  • não colocar variáveis de estudo prévias ao processo de investigação, sendo colocadas questões, tais como “Como vivem as pessoas com determinada condição/situação específica?”, “Como gerem as mudanças no trabalho?”, “O que fazem quando formam um grupo?”, etc.

Mais especificamente, o design deste tipo de metodologias tem em conta os seguintes aspectos:

  • a pergunta de investigação (identifica o processo, objecto ou entidade/pessoas);
  • os dados recolhidos tendem a ser naturalistas, e., não são codificados, sumarizados ou categorizados, procurando que a recolha minimize a redução de informação;
  • solicitar feed-back aos participantes pode ser uma forma de garantir a validade dos dados, bem como a recolha efectuada em contextos reais de vida;
  • investigação mais centrada na experiência dos fenómenos com grande detalhe e menos na preocupação com a replicabilidade dos dados, ainda que tal possa acontecer, como sugerem alguns investigadores (Silverman, 1993);
  • a representatividade da amostra é pouco relevante nesta medologia, até porque se trabalha com grupos relativamente pequenos de participantes, que estão directamente relacionados com o objectivo da investigação (estudo de caso, por exemplo). Porém, usar técnicas cumulativas pode ser uma forma de minimizar esta questão;
  • o investigador tem que assegurar aos participantes do estudo: consentimento informado, preservação e garantia de confidencialidade, princípio “do not harm”, liberdade de participação, acesso a todas as informações prévias sobre o estudo, bem como aos resultados e publicações.

Após formulada a questão de investigação será necessário escolher o tipo de técnica mais adequada de recolha da mesma, salientando-se as mais frequentemente usadas: a entrevista semi-estruturada, a observação participante, os diários e os grupos focais.

A entrevista semi-estruturada permite ao investigador ouvir os participantes, em particular, as suas experiências, e consiste num número relativamente pequeno de perguntas abertas (que podem ser descritivas, estruturais, de contraste e avaliativas). A observação participante faz parte de variadas actividades de investigação e é feita no setting natural dos participantes, o observador pode ser incógnito ou reconhecido como o investigador e as observações tendem a não ser standardizadas. O diário não é muito frequente nas investigações da área da psicologia porque constitui um desafio para o participante e para o investigador, podendo ter efeito nas rotinas e expectativas das pessoas. Ainda que se procure que os participantes elaborem um diário não estruturado, o investigador necessita dar algumas directrizes, tais como a frequência de entradas no diário, período de tempo, conteúdo e meio para registo, registando, com as suas próprias palavras, as suas experiências, actividades e sentimentos em relação a um determinado tópico. Por sua vez, os grupos focais apareceram mais recentemente e têm ganho uma crescente popularidade na área qualitativa da psicologia da saúde, uma vez que providenciam uma alternativa às entrevistas semiestruturadas, constituindo-se como uma entrevista em grupo que usa a interacção entre os participantes como uma fonte de dados. O investigador assume o papel de moderador, fazendo as apresentações dos participantes, inserindo as questões em foco e, gentilmente, iniciando a discussão. Os grupos focais podem ser homogéneos vs heterogéneos, pré-existentes vs novos ou interessados vs ingénuos (Willig, 2001).

Estas 4 técnicas irão recolher dados variados, que podem ser analisados através de diferentes métodos de análise, sendo que as técnicas de recolha de dados e os métodos de análise dos mesmos estão intimamente relacionados. Os métodos de análise podem ser combinados entre si e abrangem a análise de conteúdo, análise interpretativa fenomenológica, análise narrativa, grounded theory, análise do discurso, etnografia, análise conversacional, estudo de caso e investigação-acção, sendo alguns explanados seguidamente (Willig, 2001).

A análise de conteúdo foca-se nos fenómenos sociais, sugerindo que os significados são construídos através da interacção social, tendo como objectivo identificar precisamente os temas e padrões comuns dos fenómenos sociais (Braun & Clarke, 2006).

A análise interpretativa fenomenológica centra-se na experiência individual e na forma como os seres humanos adquirem conhecimento sobre o mundo que os rodeia, sendo que o produto final será sempre uma interpretação do investigador sobre a experiência do participante. Este método de análise adequa-se às transcrições das entrevistas semi-estruturadas, sendo realizada, primeiro, uma leitura do texto para elaborar notas que reflectem pensamentos e observações do participante; segundo, uma identificação/nomeação de temas que caracterizam cada secção do texto; e, terceiro, uma tentativa de inserir estrutura na análise, agrupando os temas encontrados, elaborando uma tabela final com os mesmos (Willig, 2001).

A análise narrativa foca-se na experiência individual e nas histórias que as pessoas contam sobre as mesmas. Contar histórias permite dar significado aos eventos do dia-a-dia (formação de significados), restaurar a ordem, dar coerência e explicar incongruências, reconstruir o passado e orientar o futuro, obter ferramentas para a mudança, imagens alternativas e produção de novas perspectivas sobre determinado assunto, rever a identidade e criar novas afiliações (Riessman, 2002).

A “grounded theory” procura facilitar o processo de descoberta e geração de teorias, através da progressiva identificação e integração de categorias de significação dos dados, e, obter, como produto final, uma teoria de compreensão de determinado fenómeno em investigação. Este método é compatível com variadas técnicas de recolha de dados, tais como a entrevista de recolha de dados, observação participante, grupos focais e até os diários (textos e documentos também podem ser alvo deste tipo de análise). O processo fundamental aqui presente é o de codificação, que pode ser feito linha a linha, frase a frase, parágrafo a parágrafo, página a página, secção a secção, etc.

A análise do discurso foca-se na linguagem e engloba: 1) o discurso psicológico: forma como a linguagem é usada para negociar e gerir interacções sociais, assim como para alcançar objectivos interpessoais (qualidades performativas do discurso); 2) a análise de discurso de Michel Foucault: que explora o papel da linguagem na constituição da vida psicológica e social, descrevendo, criticando e explorando o “mundo” discursivo em que a pessoa se insere e as suas implicações na subjectividade e experiência. Idealmente, este método deverá ser usado para analisar textos e conversações que ocorrem naturalmente.

Os estudos de caso não se constituem por si mesmos um método, mas antes uma abordagem ao estudo de entidades singulares, que pode envolver o uso de uma variedade de diversas outras técnicas de recolha de dados e de métodos de análise, caracterizando-se sobretudo, pelo foco na unidade particular de análise: o caso. Este pode ser uma organização, cidade, grupo de pessoas, comunidade, doentes, escolas, intervenções, até mesmo uma nação ou estado. Os estudos de caso podem ser usados em muitas disciplinas (sociologia, história, educação, etc), com métodos quantitativos e também qualitativos, e, recorrendo a entrevistas semi-estruturadas, observação participante, diários, documentos pessoais e oficiais. Os tipos de estudo de caso podem ser intrínsecos vs extrínsecos, simples vs múltiplos e descritivos vs explicativos.

Por fim, salienta-se que na investigação qualitativa os métodos não podem ser vistos como uma espécie de “receita”, ou seja, é sempre necessária criatividade e reflexividade, de forma a serem adaptados à investigação específica que se pretende fazer (Stige, Malterud & Midgarden 2009), bem como ao produto/conclusão final pretendido (p.e. fazer políticas informativas relacionadas com a saúde) (Barnett-Page & Thomas, 2009).

 Referências

Barnett-Page, E., & Thomas, J. (2009). Methods for the synthesis of qualitative research: a critical review. BMC Medical Research Methodology, 9, 59-70.

Braun, V., & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3(2), 77-101.

Davidsen, A. (2013). Phenomenological Approaches in Psychology and Health Sciences. Qualitative Research in Psychology, 10, 318–339.

Deslauriers, J.P. (1997). L’ Índuction Analytique. In Poupart et al., La Recherche Qualitative, Enjeux Épistémologiques em Méthodologiques (pp. 293-309). Canadá: Gaetan Morin.

Murray, M., & Chamberlain, K. (1998). Qualitative research in health psychology: developments and directions. Journal of Health Psychology, 3(3), 291-5. doi: 10.1177/135910539800300301.

Poupart, J. (1997). L’ Entretien de Type Qualitatif: Considérations Épistémologiques, Théoriques, et Méthodologiques. In Poupart et al., La Recherche Qualitative, Enjeux Épistémologiques em Méthodologiques (pp. 173-209). Canadá: Gaetan Morin.

Willig, C. (2001). Introducing Qualitative Research in Psychology, Adventures in theory and method. New York: Open University Press.

Riessman, C.K. (2002). Analysis of Personal Narratives. In Gubrium, J., & Holstein, J. (Eds), Handbook of Interview Research: Context & Method (pp. 695-710). Thousand Oaks CA: SAGE.

Rossman, G., & Rallis, S. (1998). Learning in the Field: An Introduction to Qualitative Research. London: SAGE.

Silverman, D. (1993). Interpreting Qualitative Data: Methods for Analysing Talk, Text and Interaction. London: SAGE.

Stige, B., Malterud, K., & Midtgarden, T. (2009). Toward an agenda for evaluation of qualitative research. Qualitative Health Research, 19(10), 1504–16.

Weiner, B., Amick, H., Lund, J., Lee, S., & Hoff, T. (2011). Use of Qualitative Methods in Published Health Services and Management Research: A 10-Year Review. Medical Care Research and Review, 68(1), 3–33. doi:10.1177/1077558710372810.

Teresa Santos – Psicóloga e Psicoterapeuta

Luto e redes sociais

Luto e redes sociais

  Estamos permanentemente ligados nas redes sociais, partilhando estados, fotografias, fotos, normalmente de momentos agradáveis com a sensação de um contacto imediato com os outros. As mortes recentes de Robin Williams, Rodrigo Menezes, entre outros e milhares de partilhas e comentários associados puseram-me a pensar na temática da morte nas redes sociais.

       De facto, é natural que as redes sociais sejam usadas em momentos de perda, pois a sua imediaticidade e “omnipresença” permitem expressar a dor e receber mensagens de apoio num momento delicado, sentindo a compaixão de quem nos quer bem. Devido à evolução médica, vivemos cada vez menos em presença da morte. Já não se morre tanto em casa como antigamente, a esperança média de vida é maior e as famílias vivem os seus lutos cada vez mais tarde, o que, apesar de bom,  dificulta o processo de luto. Os próprios rituais são cada vez mais rápidos e quase que só se tem direito a chorar, quando ninguém vê, nem escuta. É-nos cada vez mais difícil estar em contacto com a morte e as redes sociais dão-nos uma distância, aparentemente segura e indolor, desse contacto. Afastamo-nos cada vez mais da tristeza. Paradoxalmente, nas mesmas redes, tudo o que é publicado fica registado para sempre, não podendo ser apagado.

     Segundo Worden (1991) o processo de luto, que tem um duração variável consoante o enlutado e o relacionamento deste com o falecido até à fase final da aceitação, envolve as seguintes tarefas:

  • Aceitar a realidade da perda;
  • Ultrapassar a dor da perda;
  • Ajustar-se a um meio em que a pessoa morta não está presente;
  • Retirar a energia emocional da pessoa falecida e reinvesti-la em novas relações.

       Agora imagine o seguinte cenário. Está emigrado num qualquer país asiático, com uma diferença horária de 8 horas de Portugal. O seu irmão morre num acidente de viação de madrugada e os seus pais, em choque, acham melhor, só lhe comunicarem no dia seguinte. Você acorda de manhã, pega no seu telemóvel e vê uma notificação de um amigo seu a lamentar a morte do seu irmão, que você desconhecia. Dá que pensar, não dá?

Catarina Barra Vaz  – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga

 

A “Cinderela” improvável…

cind

Alexandre, engenheiro de electrónica e telecomunicações, um jovem de 32 anos, profissionalmente bem sucedido, inteligente, articulado, dizia-me:

            – É isto que eu não entendo em mim, compreende? Posso achar uma mulher muito interessante, começo a sair com ela, de início corre tudo muito bem e depois lá dou por mim a pensar que seria melhor se ela ganhasse tão bem como eu, senão depois vamos ter chatices porque vai haver esta diferença de ordenados o que vai gerar problemas porque, bem ou mal, quem ficar a ganhar menos vai sentir-se menos bem que aquele que ficar a ganhar melhor, mas depois, no meio destes raciocínios, percebo que não faz sentido nenhum e que é ridículo pensar assim!

            – O que você procura é uma companheira…

            – Sim, exatamente! Mas se não for isto é outra coisa qualquer! No outro dia, quando estava com a Vera comecei a pensar na impressão que ela causaria nos meus amigos e nas mulheres deles. E se eles não gostarem dela? Que figura vou eu fazer? A Vera nem sequer licenciada…

            – E as mulheres dos seus amigos são todas licenciadas?

            – É aqui que se torna outra vez ridículo: De todos os meus amigos mais próximos só um é licenciado e só a mulher dum outro é que é também licenciada! Mas, mais uma vez, nada disto é realmente importante!

            – Alguma importância há-de ter ou estes pensamentos não lhe ocorriam sequer…

            – Mas também não quero uma “tótó” do meu lado, quero uma mulher que saiba falar, que seja divertida, que saiba comunicar…

            – Então, e resumindo, ela tem que ganhar mais ou menos o mesmo, tem que ser licenciada e extrovertida?

            – Já viu o ridículo destes pensamentos?

            – São filtros que você impõe a si próprio – acrescentei.

            – Mas com tantos filtros, uns atrás dos outros, nunca vou encontrar quem quer que seja!

            – Já pensou que pode bem ser essa a função desses filtros todos?

            Alexandre apenas sentia que existia conquanto os outros lhe confirmassem a sua existência, sentia-se aceite na mesma medida da aprovação externa e conduzia a sua vida, bem como a sua auto-estima, na dependência da evidência de ser ou não validado por terceiros.

            Desta forma, atormentava-o a ideia de ficar só porque a solidão significava a vivência de um arrebatador vazio existencial onde Alexandre não conseguia ver-se nem sentir-se, existir ou ser.

            Não compreendia, Alexandre, que não eram os outros que não o viam, que não o aprovavam ou não o aceitavam, mas antes que era ele que não se via a si próprio, não se aprovava ou aceitava senão na lógica, não do que os outros pudessem pensar dele, mas antes do que ele supunha e conjecturava fosse aceitável e aprovável aos olhos dos outros.

            Alexandre vivia cego para si próprio no pressuposto de que só existia se outros reconhecessem essa mesma existência.

            Assim, havia que fugir a todo o custo da experiência de quase morte que representava a solidão.

            Era urgente encontrar uma companheira que o resgatasse desta solidão, que o resgatasse da sua cegueira – e era aí que tudo se tornava mais difícil.

            Alexandre alicerçava a sua incapacidade para um relacionamento mais profundo numa miríade de requisitos que as candidatas deveriam ter.

            Frequentemente iniciava um relacionamento que estaria condenado a acabar pouco tempo depois por um qualquer motivo menos óbvio.

            E assim, convencido de que mais valia esperar pela “mulher certa”, repetia-se a história do príncipe à procura da sua improvável Cinderela.

            E enquanto esperava, abatia-se sobre ele o tão intolerável quanto familiar sentimento ensurdecedor de solidão e abandono: “Com a minha idade, a maioria dos meus amigos já estão todos casados!”

            Enquanto o príncipe se entretinha a comparar as “cinderelas” dos seus pares às suas candidatas, enquanto cedia aos motivos mais tortuosos para as excluir do seu universo afectivo, não tinha que se encarar a ele mesmo, ao seu sentimento de profunda inadequação e incompetência afectiva – o pavor da intimidade não era senão o pavor que alguém descobrisse a sua humanidade e falibilidade por detrás de todas as suas irrazoáveis exigências de perfeição – e descobrindo-o, o devolvesse a ele próprio, falho, imperfeito, humano, mas porventura amado.

(NOTA – O nomes, a idade do paciente e a sua profissão são fictícios.)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

A tristeza e a depressão

tristeza
Só se deprime quem não se deixa entristecer
António Branco Vasco
Esta é sem dúvida uma das frases marcantes do meu percurso académico e a minha experiência clínica tem confirmado todos os dias quão verdadeira ela é.
Talvez soe estranho, estamos habituados a associar a depressão à tristeza e a temer que se nos permitirmos entristecer podemos acabar a deprimir. Por lógico que possa parecer o raciocínio, é na realidade falso.A tristeza é uma emoção com funções adaptativas muito importantes: por um lado mostrarmos aos outros que precisamos de conforto e auxílio no sentido de reduzir o nosso sofrimento psicológico, por outro recolhermo-nos em nós próprios no sentido de ultrapassar as nossas perdas significativas. Ambos estes movimentos (um para o exterior, outro para o interior) são fundamentais para recuperarmos o equilíbrio e voltarmos a investir nas nossas vidas.
A depressão é como uma panela de pressão, cheia de tristeza a ferver e sem que aliviemos o pipo para deixar alguma sair. Ao não nos permitirmos entristecer, não libertamos alguma desta energia dolorosa mas real, e ficamos inundados por ela; no esforço de não a deixarmos sair, bloqueamos todas as saídas, que são também as entradas, e a vida deixa de fluir.Em terapia o que procuramos habitualmente fazer face a quadros de depressão, é reconhecer as frequentes tristezas acumuladas, dar-lhes permissão para se expressarem num ambiente seguro, dar-lhes colo, validação, e perceber o seu significado (de onde é que vêm e o que é que sinalizam). De alguma forma tentamos ajudar a reestabelecer o conforto com a tristeza, a vê-la mais como um aliado e menos como um inimigo.E na medida em que se for permitindo entristecer, acredite, vai estar a proteger-se da depressão.

 Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapêuta

Reconstruir Significados

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Há um livro que às vezes costumo recomendar em psicoterapia. Trata-se de “O homem em busca de um sentido” escrito por Viktor Frankl e narra as suas vivências no campo de concentração em Auschwitz. Frankl já era um reputado terapeuta antes destes acontecimentos, mas acredito que a sua forma de encarar as perdas que sofreu foi determinante para se tornar num marco incontornável (para mim) no contexto terapêutico.

Frankl afirma, e cito apenas de memória, que uma pessoa é capaz de aguentar quase tudo a partir do momento em que atribui um significado ou sentido a tal vivência. Esta atribuição de significado não desresponsabiliza a pessoa, não a resigna ou torna agente incapaz ou passivo perante as circunstâncias. Precisamente o oposto sucede, pois a partir do momento em que a pessoa assume um significado, torna-se menos paralisada e paralisável, menos assustável e assustada, uma presa menos fácil para as angústias, pequenas e grandes, desta vida.

Dezelic apresentou recentemente (em 2014) diversas fontes para construção e extracção de significado para que, perante situações inicialmente avaliadas como potencialmente trágicas, possamos pavimentar um percurso em direcção ao triunfo face às dificuldades. De forma a facilitar a sua recordação e implementação, agrupou tais fontes no modelo REACH. Assim, cada potencial fonte assume-se também como possível foco de intervenção e promoção de resiliência.

• Responsabilidade (consciência de si e dos outros, responsabilidades para consigo e para com outros, auto-descoberta, etc..)
• Experiencial (relação com os outros, com a natureza, com a arte, fé, etc..)
• Atitudinal (atitudes e concomitantes limitações face a circunstâncias e situações)
• Criativa (dons e talentos transformados e projectos, conquistados e promotores de empenho e acção)
• Histórica (legado dos passados já decorridos, legados dos presentes vividos no agora e legados a construir face aos potenciais futuros)

Este enfoque existencial alberga aspectos do famoso triângulo do significado, conjugando criatividade, experiência e atitude.
Às vezes é preciso exercitarmos um pouco mais um ou mais destes componentes, harmonizarmos, de forma responsável, o que está em desalinho. A terapia pode ser o espaço para tal, e é-o tantas vezes.

Ao terapeuta cumpre, como sempre, a função de, nas sombras, deixar o cliente brilhar. Afinal, é da sua existência, da sua responsabilidade e da sua espiritualidade (sim, assumamos!) que tratamos nestas linhas. E é na forma como o terapeuta e o cliente moldam cada um dos componentes e elementos do processo, no tempo e no conteúdo em que o fazem, que esta se torna uma partilha construída a dois, numa relação irrepetível para cada cliente e para cada terapeuta.

Ana Baptista de Oliveira – psicóloga e psicoterapeuta

Comer com consciência

comer saudável

As práticas de mindfulness ou deatenção plena podem e devem ser alargadas a todas as áreas do quotidiano que possamos imaginar.

Ser mindful, estar atento e consciente ao que acontece no Agora, não termina no fim de uma prática de 45 minutos de body scan ou de atenção plena da respiração. A atenção, o estar presente aplica-se a coisas tão simples como uma caminhada ou…comer.

Sim, comer, porque mesmo quando ouvimos alguém dizer que adora comer, essa pessoa não está necessariamente a referir-se a apreciar o sabor do alimento, a sua textura e o seu cheiro. A maioria de nós refere-se a comer frutos secos de uma forma quase compulsiva ou um iogurte em duas colheres de sopa. De pé.. Enquanto damos um olhinho no email que acabou de chegar.

A falha na maioria das dietas assenta no negarmo-nos determinados alimentos. A nossa rejeição esta tão presente como o desejo de comer aquele alimento a que nos negámos.

As práticas meditativas de atenção plena da alimentação podem ajudar a promover uma relação mais saudável com a comida e com o acto de comer. As práticas de mindful eating podem inclusivamente ajudar nos casos de “comer compulsivamente”.

Entre outras, comer com consciência permite-nos perceber quando temos realmente fome e quando estamos saciados, podendo assim decidir acertadamente quando ir comer e quando parar de comer.

Observe-se enquanto come. De cada garfada com intenção e siga o percurso do alimento com tudo o que este pode proporcionar-lhe.

Observe os seus sentimentos e sentidos enquanto come, não depois.

Comer é de facto uma experiência bastante completa e complexa. Envolve os 5 sentidos – vemos, cheiramos, saboreamos, tocamos e ate podemos ouvir-nos a mastigar.

Por isso podemos praticar uma meditação que contemple todos estes sentidos enquanto estamos a comer.

Como comer de forma mindful?

Comece por escolher apenas uma refeição por dia a qual dará a sua atenção completa.

Foque-se no que está a comer. Desligue o computador, ponha de lado o livro, apague a televisão ou qualquer elemento que possa ser distrativo daquele momento em que se vai dedicar apenas a saborear o prato que está à sua frente.

Coma à mesa. Ponha o seu lugar, o individual, o prato e não descure a aparência dessa refeição que preparou para si.

Aprecie e saboreie cada garfada. Sinta o sabor dos alimentos e a forma como se misturam e se alteram enquanto os mastiga.

Faça uma pausa entre cada garfada.

E se possível, se estiver com outros à mesa, partilhe a experiência de comer com consciência.Afinal, comer pode ser um prazer.

Pode notar que no fim desta refeição consciente talvez tenha comido menos do que é habitual. A sua digestão pode ser melhorada já que mastigou e saboreou cada alimento. E talvez tenha apreciado verdadeiramente a sua refeição

de atenção plena podem e devem ser alargadas a todas as áreas do quotidiano que possamos imaginar.

Ser mindful, estar atento e consciente ao que acontece no Agora, não termina no fim de uma prática de 45 minutos de body scan ou de atenção plena da respiração. A atenção, o estar presente aplica-se a coisas tão simples como uma caminhada ou…comer.

Sim, comer, porque mesmo quando ouvimos alguém dizer que adora comer, essa pessoa não está necessariamente a referir-se a apreciar o sabor do alimento, a sua textura e o seu cheiro. A maioria de nós refere-se a comer frutos secos de uma forma quase compulsiva ou um iogurte em duas colheres de sopa. De pé.. Enquanto damos um olhinho no email que acabou de chegar.

A falha na maioria das dietas assenta no negarmo-nos determinados alimentos. A nossa rejeição esta tão presente como o desejo de comer aquele alimento a que nos negámos.

As práticas meditativas de atenção plena da alimentação podem ajudar a promover uma relação mais saudável com a comida e com o acto de comer. As práticas de mindful eating podem inclusivamente ajudar nos casos de “comer compulsivamente”.

Entre outras, comer com consciência permite-nos perceber quando temos realmente fome e quando estamos saciados, podendo assim decidir acertadamente quando ir comer e quando parar de comer.

Observe-se enquanto come. De cada garfada com intenção e siga o percurso do alimento com tudo o que este pode proporcionar-lhe.

Observe os seus sentimentos e sentidos enquanto come, não depois.

Comer é de facto uma experiência bastante completa e complexa. Envolve os 5 sentidos – vemos, cheiramos, saboreamos, tocamos e ate podemos ouvir-nos a mastigar.

Por isso podemos praticar uma meditação que contemple todos estes sentidos enquanto estamos a comer.

Como comer de forma mindful?

Comece por escolher apenas uma refeição por dia a qual dará a sua atenção completa.

Foque-se no que está a comer. Desligue o computador, ponha de lado o livro, apague a televisão ou qualquer elemento que possa ser distrativo daquele momento em que se vai dedicar apenas a saborear o prato que está à sua frente.

Coma à mesa. Ponha o seu lugar, o individual, o prato e não descure a aparência dessa refeição que preparou para si.

Aprecie e saboreie cada garfada. Sinta o sabor dos alimentos e a forma como se misturam e se alteram enquanto os mastiga.

Faça uma pausa entre cada garfada.

E se possível, se estiver com outros à mesa, partilhe a experiência de comer com consciência.Afinal, comer pode ser um prazer.

Pode notar que no fim desta refeição consciente talvez tenha comido menos do que é habitual. A sua digestão pode ser melhorada já que mastigou e saboreou cada alimento. E talvez tenha apreciado verdadeiramente a sua refeição

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta

Quando a resposta é: “Não sei”

Quando a resposta é não sei

Em psicoterapia, ao colocar uma determinada questão a um paciente, deparamo-nos muitas vezes com a resposta: “Não sei”. Até certo ponto, costumo olhar para este “não sei” como se estivesse perante um silêncio, em que me pergunto: “Será um silêncio cheio? ou um silêncio vazio?”. Da mesma forma me interrogo sobre se estarei face a um “não sei” cheio de sabedoria ou a um “não sei” oco ou temeroso.

O “não sei” interpõe uma distância cognitiva entre a pessoa e a possibilidade de saber/conhecer, isto é, entre o Eu e a responsabilidade de reflectir e construir um significado/solução. Mas interpõe também, uma barreira afectiva entre o Eu e a possibilidade de sentir. De sentir algo, tantas vezes doloroso, em que se receia/recusa mergulhar.

Ao terapeuta cabe perceber se está perante uma resposta de zanga, de medo, de vergonha, ou de admiração, face a uma questão que foi percebida como intrusiva, dolorosa, ou desafiante. Poderá ser uma resposta que exprime um conflito entre o desejo e o receio de saber ou expressar, ou mesmo de tornar consciente o que de certa forma já foi pressentido.                                                                                 Contudo, como sabemos, por vezes “não sei” é apenas “não sei”.

Em vez de se olhar o “não sei” exclusivamente como algo que se fecha, podemos vê-lo como algo que se abre. Primeiro teremos de bater à porta, entreabrindo-a, como que a pedir licença para entrar, sabendo que nos temos que mostrar dignos de confiança e validar esse depósito. E finalmente utilizar essa porta como passagem comunicativa por ambos aceite. Afinal, “não saber” é a primeira condição para a investigação e a aprendizagem. Há que mobilizar o potencial do “não sei” para a vontade de saber. Oferecer hipotéticas interpretações é uma possibilidade, mas deve ser feita com as devidas cautelas, sendo uma delas a clara admissão de que Eu não sou Tu. O terapeuta não pode aceder ao mundo interno do paciente se este não lho facultar, nem julgar-se sabedor do que não sabe.

Talvez antes de nos precipitarmos na sugestão de interpretações possamos explorar o âmbito do “não sei” e esperar…

Estará o paciente a dizer-nos:

1- “Não Sei!” (nem quero saber e não estou interessado no tema)?, Ou

2-“nãao ssei…”, (mas isso faz-me lembrar, sentir, pensar…)?, Ou

3- “não sei?” (que curioso nunca tinha pensado nisso, acha mesmo que eu poderei saber?)? Ou

4-“não sei”, quase inaudível (penso que sei, mas ir por aí causa-me dor…)?, ou

5-“não sei…” (talvez saiba, mas se eu ousasse dizer, o que iria pensar de mim ou dos meus?)?, ou

6-“não Sei” (sei, mas não confio o suficiente para dizer)?

O primeiro “Não Sei!” é uma porta que se fecha, com alguma zanga. É claramente uma defesa, vinda dum local de medo ou de negação. Indica que é cedo para ir por aí, a questão é sentida como intrusiva.

O segundo e o terceiro “não sei” estão cheios de potencial, e são uma porta entreaberta que suscita a curiosidade, (embora possam não estar isentos de receio) o primeiro destes dois, “nãao ssei…”, sendo mais introspetivo, convida a um silêncio do terapeuta, que ao criar espaço, permite a viagem interior do paciente. O segundo “não sei?” talvez necessite de um ligeiro encorajamento por parte do terapeuta, por exemplo, um sorriso de assentimento, permitindo depois que o silêncio se instale e possibilite a reflexão e elaboração do cliente.

O quarto “não sei”, parece extremamente vulnerável e necessita de validação empática pelo receio da dor que possa causar o que se venha a descobrir. Neste ponto, é fundamental que o terapeuta mostre reconhecer e valide as partes do Eu em conflito interno.

Os dois últimos “não sei” parecem indicar um conflito entre a vontade de abordar o tema e o receio de o fazer. São um sinal de que a relação terapêutica ainda não é sentida como verdadeiramente segura. Apontam para a necessidade de trabalhar e aprofundar a relação antes de prosseguir.

A confirmar este tactear e sentir do terapeuta, e a importância da sua responsividade mediante o que avalia, temos o facto de a neurociência nos mostrar que a visão de soluções para os problemas parece dar-se quando a parte direita do cérebro trabalha activamente e o lado esquerdo fica mais em repouso, deixando de prestar demasiada atenção aos estímulos externos, sobretudo aos visuais.

Assim, quando presenciamos um “não sei”, qualquer que ele seja, a nossa atenção deve focar-se na entoação e nas pistas não-verbais. Se o “não sei” é acompanhado de um olhar vago, que se afasta do nosso e paira no vazio, podemos ver aí uma oportunidade de não dizermos nada e de deixar que o cliente entre no seu mundo emocional. Se esse encontro for produtivo, poderemos observar uma reação emocional, ou, pode acontecer que o hemisfério esquerdo se active indo em “socorro” do direito, tentando dar sentido à recente sensação. Aqui, o contacto visual e a comunicação verbal serão então restabelecidas e é provável que assistamos a um momento de descoberta, ou, pelo menos, ao abrir claro da porta.

Ao escutarmos “não sei”, teremos muitas vezes que tomar decisões rápidas sobre o que fazer (ou não fazer). Se estiverem reunidas as condições para que a melhor acção seja o silêncio, o terapeuta deve respeitá-lo, permitindo ao cliente encontrar-se com ele próprio e descobrir (-se) sentindo-se acompanhado e seguro nessa viagem.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

O que é o EMDR e como ajuda a ultrapassar as experiências traumáticas

EMDR

EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing – significa Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular.

Trata-se de uma técnica baseada nos movimentos oculares bilaterais desenvolvida em 1987 por uma psicóloga chamada Francine Shapiro. Este método procura dessensibilizar experiências traumáticas através da estimulação bilateral do cérebro.

No entanto, esta metodologia não se focaliza unicamente na estimulação do movimento dos olhos. Actua também sobre os sentimentos difíceis, pensamentos, sensações físicas e comportamentos. A estimulação do movimento ocular não é suficiente para assegurar a eficácia da metodologia. Os estudos mostram que a junção destes diferentes elementos é indispensável para uma terapia eficaz.

A força da metodologia do EMDR reside na rapidez com a qual os pacientes se libertam do peso de sensações negativas, que por vezes suportaram durante vários anos.

O EMDR aplica-se essencialmente no Stress Pós-Traumático. Muitas investigações foram já feitas nesse âmbito, nomeadamente com sobreviventes do World Trade Center, com antigos combatentes de guerra por exemplo (Vietnam, Irão, Iraque) vítimas de crimes vários (assaltos violência e abuso sexual etc), pessoas que assistiram a mortes acidentais ou violentas, ou que sofreram acidentes traumáticos.

Um estudo comparativo entre a lembrança de um mau acontecimento e a lembrança do mesmo acontecimento após ter sido utilizado o EMDR mostra que as pessoas recordam as situações negativas de forma menos intensa e menos sofrida após o trabalho desenvolvido através da estimulação bilateral e do movimento ocular (Estudo de novembro de 2013, Blurring of emotional and non-emotional memories by taxing working memory during recall, Cognition and Emotion by Marcel A. van den Hout, Marloes B. Eidhof, Jesse Verboom, Marianne Littel and Iris M. Engelhard).

Uma outra investigação sobre os benefícios imediatos do EMDR na intervenção com vítimas de violência física e após acidentes no local de trabalho mostra que a intervenção com EMDR algumas horas a seguir à situação traumática, ajuda as vítimas a estabilizar reduzindo a excitabilidade, permitindo-lhes sentir-se mais seguras e limitando a intrusão de sintomas e de comportamentos de evitamento (Investigação de Maio 2013, Benefits of immediate EMDR vs. Eclectic Therapy, Intervention for vistims od Physical Violence and Accidents at the Workplace: a pilot Study by Marie-Jo Brennstuhl, Cyril Tarquinio, Lionel Strub, Sebastien Montel, Jenny Ann Rydberg, Zoi Kapoula).

Também têm sido efectuadas investigações sobre o impacto do EMDR noutras problemáticas tais como: fobias, pânico, depressão, dor crônica, entre outros, com resultados promissores.

O método EMDR já é recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria. Foi também considerada uma abordagem psicoterapêutica baseada em evidência pela NREPP- National Registry of Evidence-based Programs and Practices.

O EMDR é igualmente uma metodologia que pode ser utilizada por diversos modelos teóricos, pois tanto pode ser utilizada num contexto de psicoterapia cognitivo-comportamental, como em psicanálise, psicoterapia dinâmica, ou em Terapia Gestalt. Esta técnica permite também, por exemplo, respeitar o pudor dos pacientes, pois estes têm a possibilidade de escolher se querem, ou não, verbalizar todos os pormenores do seu trauma.

O EMDR consegue uma aproximação “neuro-emocional” ao activar, através do movimento ocular, o sistema nervoso central conduzindo a uma aparente fase de sono paradoxal (Rapid Eye Movement REM) facilitando a troca entre o sistema límbico e o córtex. Os estudos realizados com auxílio de tomografias de alta precisão sugerem que a experiência traumática é tão forte que altera o funcionamento cerebral. Quando o cérebro é submetido a stress crónico, observa-se a actividade de muitas zonas do cérebro. Depois da terapia com EMDR verifica-se que a actividade cerebral diminui drasticamente, dando por isso espaço e oportunidade à aquisição de novas imagens não traumáticas. Os 2 hemisférios trabalham simultaneamente, não só em termos de passado e presente como em termos de emocional e racional.

O EMDR deve ser aplicado por um profissional certificado para o fazer.

Dra Magali Stobbaerts – Professora de Yoga e Psicoterapeuta