Pensar em mim? Mas posso estar a ser egoísta…

Imagem

 

Reconhecer aquilo que desejamos e satisfazer as nossas vontades nem sempre é uma tarefa fácil, sobretudo porque confundimos Auto-cuidado com Egocentrismo. Se decidirmos que aquilo que nós queremos é sempre secundário àquilo que achamos que os outros querem de nós teremos um projecto de vida pouco ambicioso e marcado por insatisfação constante. Pode até obter-se alguma satisfação momentânea mas esta é mais ligada ao alívio, por exemplo, de um medo (e.g. do outro não gostar de nós) do que propriamente à satisfação prazerosa e tranquila de algo (e.g. sentirmos-nos genuinamente apreciados pelos outros com aquilo que é genuinamente o nosso desejo e a nossa vontade).

Para se conseguir atender ao que se precisa é preciso Auto-cuidado. Este sentimento que nutrimos em relação a nós próprios tem raízes no Amor-próprio e na capacidade de considerar as nossas necessidades quando percebemos que algo em nós está a ser puxado para além dos nossos limites. Assim, tomam-se escolhas que priorizam ou contemplam as nossas necessidades e conseguimos alguma gratificação através de acções que desenvolvemos para mostrar aos outros o desejo da nossa vontade ser contemplada. E isto não é definido por evitar algo mas antes por uma direcção para satisfazer algo… como tal, não é Alívio é Satisfação!

Pode então colocar-se a questão, o que é que distingue o Auto-cuidado do Egocentrismo?

Diria que o que distingue um do outro é a regra de utilização. Na primeira é discriminada e flexível e na segunda é indiscriminada e rigidificada.

No Auto-cuidado balança-se com flexibilidade aquilo que eu preciso com a perspectiva do outro e negoceia-se ou decide-se qual a urgência de se ser satisfatoriamente atendido, por si (e.g. consolando-se) ou pelo outro, sendo isto traduzido na expressão do que se pensa ou sente.

No Egocentrismo a regra de priorização da minha pessoa é cristalizada, fixa e tirana porque acho que devo ser sempre atendido primeiro e em qualquer circunstância. Não existe a capacidade de me mover para a perspectiva do outro e de a cruzar com a minha de forma balançada.

Surpreenda-se que também é Egoísta quando está a agir pensando exclusivamente nos outros, afinal de contas está mesmo é apenas preocupado com algo que quer que os outros pensem ou sintam em relação a si e não genuinamente interessado naquilo que é você próprio e no que são verdadeiramente os outros.

 

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Equilibradamente em desequilíbrio

equ inst

Sometimes to loose balance is part of living a balanced life.

Quando pensamos no que é que queremos para a nossa vida, do que é que precisamos para a nossa saúde mental, cada vez mais reconhecemos que precisamos é de equilíbrio, em contraponto a uma busca utópica de um estado permanente de felicidade e bem-estar.

Apesar deste reconhecimento, velhos hábitos são difíceis de deixar, e o risco é desejarmos sim equilíbrio, mas deturparmos o conceito e rigidificarmo-nos numa postura de não nos permitirmos nem grandes desânimos nem grandes entusiasmos, contentarmos-nos com o mediano, como se equilíbrio fosse sinónimo de meio-termo,  nem muito nem pouco, assim-assim.

Clarifiquemos então a ideia de equilíbrio:
Equilíbrio é um “estado” dinâmico de compensação de forças em que, quando puxo para um lado, activo em consequência uma força contrária que puxa para o outro, no sentido de não permitir a queda ou a destruição. Equilíbrio não é portanto um estado estático mas implica um movimento oscilatório entre pólos opostos, sempre com duas forças contrárias e compensatórias a puxar. Equilíbrio não é uma coisa que se adquire mas um processo que se vive.

Paradoxal que possa parecer, estar em equilíbrio implica portanto estar disponível para para o perder aqui e ali.
Neste sentido, talvez a pergunta-chave não seja como é que me equilibro mas como é que me disponibilizo para me desequilibrar.
E disponibilizo-me para me desequilibrar quando me permito sentir o que estou a sentir, seja agradável ou doloroso, quando arrisco experimentar coisas novas, diferentes, quando me permito depender momentaneamente dos outros quando preciso de colo e afastar-me momentaneamente quando preciso de dar os meus passos sozinho… Quando confio que posso dar qualquer passo porque sei que tenho a capacidade de analisar os erros, de analisar o risco, e confio que quando necessário consigo mobilizar recursos num sentido compensatório e recuperar o equilíbrio ou transformá-lo num equilíbrio diferente, mais adequado às novas necessidades ou exigências.

Preciso confiar que consigo estar próximo da queda sem cair. Preciso disponibilizar-me para o desequilíbrio para viver equilibradamente.

Não esqueça: não se atinge o equilíbrio, vive-se equilibradamente em desequilíbrio.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Mutilados emocionalmente

hid

Hoje não quero falar de psicoterapia.

            Na vida dum terapeuta há inúmeras situações em que nos comovemos com o que os pacientes nos contam.

            É natural e mesmo saudável, até certo ponto, nos comovermos.

Etimologicamente falando, “comover” significa “emocionarmos-nos” (movere) “com” alguém – empatia significa isto mesmo – colocarmos-nos na pele do outro, tentarmos sentir o que o outro sente e emocionarmos-nos com o que nos conta, para que possamos apreender, tanto quanto nos é permitido e razoável, a vivência do paciente, também na sua dimensão emocional e existencial.

Mas outras alturas há em que as emoções desencadeadas não são apenas de dor, de tristeza e desespero – outras alturas há em que são despertadas em nós emoções como a raiva e indignação profunda.

De vez em quando, e não tão raramente como seria desejável, somos confrontados nas consultas com situações extremas de maus-tratos, de sadismo psicológico, de humilhações repetidas e abusos continuados no tempo.

Estas pessoas chegam-nos à consulta derrotadas, destruídas, humilhadas, autênticos farrapos humanos cujas vidas são um testemunho de dor infligida por vezes pelas pessoas que eram supostas terem-nas protegido quando ainda não se sabiam defender.

Numa consulta recente atendi um paciente.

Chegou à consulta ansioso, tenso e muito auto-consciente de si próprio.

A sua face transbordava emoções de intenso sofrimento, da tristeza à ansiedade intensa, de expressões de profunda dor a gritos surdos de raiva que tudo fazia para conter.

Descreveu-me uma mãe sádica e abusadora, que o despia à frente das amigas para que pudessem ver o quão pequeno era o pénis do filho ainda criança, e que nos parques infantis se escondia dele e do irmão e só aparecia quando percebia que eles estavam em pânico, a rir, sorrindo e dizendo: “Vocês já estavam a ficar aflitos, não é?”

Falou-me de como sentia que em cada dez vezes, a mãe tinha 9 interacções de maus tratos e de abuso e uma em que mudava diametralmente de registo e lhe dava “uma festa” e “era esta festa que me destruía, percebe, Sr. Dr.?!”

Ou outra paciente, que foi abusada sexualmente durante 2 anos quando tinha apenas 5 pelo irmão da sua ama que era o seu catequista, e ainda que o pai a fechou em casa, sozinha, para a esconder da sua mãe, para fazer “pirraça à mãe” de quem tinha acabado de se divorciar.

Ou outra ainda, cuja mãe se se fechava na casa de banho a gritar que ia morrer, enquanto a filha desesperava em culpa e angústia.

Estas pessoas foram privadas de amor e protecção, negados os seus direitos humanos mais elementares enquanto crianças, e mutiladas emocionalmente.

Deveriam já existir planos psicossociais preventivos mais eficazes, com meios humanos competentes e capazes para acautelar a ocorrência destes maus-tratos e para tratar os pais quando estes não são de todo responsabilizáveis.

E, não sendo isso possível, deveria haver uma justiça capaz de responsabilizar criminalmente os pais que foram dolosamente negligentes ou maltratantes.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapia

As emoções “malditas”…

emoc

Um dos passos mais importantes no trabalho terapêutico é a identificação das emoções, perceber o seu papel específico na vida do indivíduo, compreendendo como a sua inibição, evitamento ou expressão desregulada afeta a vida da pessoa.

Se há emoções com que ninguém parece ter preocupações, como é o caso da alegria, há outras que são olhadas com muita desconfiança, como é o caso da tristeza e da zanga. À tristeza, nalgumas situações (morte de alguém próximo, divórcio), é concedida algum tempo para que seja vivida, tentando-se depois que ela desapareça rapidamente, (“tristezas não pagam dívidas”) pois muitos de nós não nos concedemos, nem a nós nem aos outros, o direito de estar triste, nem queremos viver a vulnerabilidade que representa “estar triste” porque “temos que ser fortes” e… produtivos. Nesta armadilha caiem muitos dos que depois acabam verdadeiramente deprimidos, perdendo o sentido da sua própria vida.

Quanto à zanga, essa é vista ainda com piores olhos, como se fosse uma emoção maldita; ora ela afinal não é nem mais nem menos que as outras emoções, ou seja perfeitamente natural e saudável, acompanhada por transformações psicológicas e fisiológicas com objetivos específicos. Se a tristeza nos leva a chorar as perdas, e o medo nos leva a agir no sentido de nos protegermos, a zanga dá-nos a informação de que há limites que estão a ser ultrapassados e que teremos de tomar providências no sentido de repor justiça, é o que nos permite defender quando nos sentimos atacados, ou seja, tal como as outras emoções, tem uma tendência de resposta natural, adaptativa e essencial à sobrevivência.

 Quem não tem consciência das suas emoções ou as intelectualiza, não as pode utilizar como guia. Se ignorarmos a informação que as emoções nos dão, perdemos o contacto com uma parte de nós. Dado que as emoções têm o seu papel, se são ignoradas, acabam por se mascarar e aparecer com mais intensidade ou doutra forma, (emoções secundárias) vestindo outras roupagens, gerando uma confusão de sentimentos e pensamentos desadaptativos.

A zanga que não é ouvida e/ou consciencializada pode crescer e tornar-se violenta, ela pode ir, desde uma leve irritação até à fúria e pode tomar conta de nós a ponto de ficarmos seus reféns e agirmos a partir dela e não a partir do que ela nos comunica, perdendo qualquer hipótese de mediação e de simbolização.

A tristeza, quando sistematicamente não é ouvida e atendida no seu direito de vivência, pode surgir vestida de zanga e rapidamente transformar-se em revolta e violência.

O medo, quando não é autorizado a existir, pode dar o braço à vergonha, e surgirem ambos mascarados de zanga, (como se o medo fosse para os fracos e a zanga para os fortes).

A própria zanga, tantas vezes é maltratada e calada que, também ela se pode esconder por trás duma aparente tristeza e acabar em depressão.

O hipercontrolo, a negação ou o constante impedimento de expressão da zanga, pode também levar a comportamentos do tipo passivo-agressivo e ao cinismo, ressentimento, amargura e hostilidade, trazendo graves problemas ao nível do relacionamento interpessoal e do bem-estar psicológico.

Se percebermos que a zanga é secundária teremos que validar e autorizar a vivência das emoções que atrás dela se esconderam. A zanga pode também ser instrumental, isto é, utilizada para obter do outro, por exemplo através da intimidação, o que se pretende.

Se a zanga for primária, é necessário vivê-la, perceber donde vem e o que nos quer transmitir. Assim que a escutarmos verdadeiramente será mais fácil regulá-la e agir com maior liberdade, podendo escolher o rumo da nossa acção, sem estar sob o seu controlo, e, pelo contrário, controlá-la, deixando-a fluir de acordo com a nossa vontade.

Depois de nos apossarmos da zanga, poderemos decidir com mais consciência, liberdade e noção das consequências o que fazer com a informação que ela nos trouxe. Nesse processo poderá haver ganhos, perdas, responsabilizações, perdão ou não perdão, mas terá de haver sempre aceitação da situação, para que a zanga deixe de ser perturbadora. Podemos então deixá-la partir, uma vez que já cumpriu o seu propósito.

Emoções “malditas” sejam pois bem-vindas. A riqueza de cada um de nós reside na riqueza da paleta com que vemos e pintamos o mundo. Fugir das emoções, sejam elas quais forem, é tornarmo-nos mais pobres, menos humanos e menos conscientes de nós, podendo conduzir a resultados devastadores. Afinal as emoções são, não só uma das formas através da qual lemos o mundo que nos rodeia, como também uma forma de nós próprios comunicarmos. Utilizar as emoções para comunicar pode ser tão reconfortante como assustador, tão poderoso como desastroso. É também nesta mediação entre o que as emoções nos dizem sobre nós e o que nós pretendemos comunicar, entre o que descobrimos e o que mostramos que reside muito do trabalho terapêutico.

 A melhor forma de encontrar ou reencontrar o nosso equilíbrio psicológico é estar atento às pistas que as emoções nos trazem, cada uma por si, sem as confundir, escutando-as, dialogando com elas, de modo a, por um lado libertarmos o nosso sentir, e por outro, regularmos as nossas acções, de modo a podermos ser mais conscientemente livres.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

 

Sobre a dor II Tentativa de libertação da dor e do sofrimento

Imagem

No texto anterior “Sobre a dor – I” viu-se que quando se fala de dor fala-se também de sofrimento e foi explicada a sua definição. A intervenção, nestes casos, integra duas dimensões: física e psíquica, que aqui desenvolvo.

Existem várias metodologias psicológicas de intervir sobre a dor e o sofrimento, de entre elas:

– Ajudar a pessoa a reencontrar as suas estratégias de lidar com a situação, que se perderam com a dor e o sofrimento. Ao aperceber-se das diferenças nos seus comportamentos, a pessoa nota que sofreu uma reconstrução na qual a sua auto-estima e a sua auto-imagem ficaram alteradas. Este processo aumenta a auto-confiança tão necessária nestes casos e é de grande auxílio para o doente.

– Desenvolver a capacidade de gestão dos recursos da pessoa. Importa no processo terapêutico fomentar uma consciência dos recursos pessoais, sendo que a pessoa se apercebe do seu papel na gestão da sua vida. Essa gerência possibilita uma maior responsabilização do seu estado porque a própria pessoa facilita as decisões preferíveis para ela e que a podem fazer sofrer menos. Procurar colaborar com a dor e o sofrimento na vida da pessoa amplia significativamente a qualidade de vida da pessoa.

– Verbalizar a dor. Esta dimensão de intervenção evidencia todos os pensamentos que causam mais sofrimento como por exemplo verbalizando a dramatização desta forma: “nunca irei ter mais uma vida normal”, “nunca vou conseguir aliviar a dor”, “isto mata-me”, “a minha vida está estragada”. A descoberta destes pensamentos permite a pessoa constatar que estes tipos de pensamentos se diferenciam da verdadeira dor.

Sempre aliada à dimensão psicológica aparece a dimensão física, que não pode ser posta de lado. É também através do corpo que a pessoa sente a dor e o sofrimento. O corpo é então o ponto de união entre as duas dimensões e também entre a dor e o sofrimento.

Em geral, a pessoa com dor ou sofrimento não consegue fazer uma leitura correcta do seu corpo e dificilmente escolhe o que naturalmente seria bom para ela. No caso da doença da fibromialgia, o doente tem dores e sente muita fatiga e vive mal a actividade apesar de muitos estudos científicos apontarem que a actividade é muito boa para estes. Inclusive, especificamente a prática regular do yoga é entendida como sendo uma forma suave de melhorar a sua qualidade de vida.

Mas como é que a psicoterapia pode ajudar a aproximar-se do seu corpo?

Dr. Jon Kabat-Zinn escreve no seu livro sobre “A consciência plena” (Mindfulness) que “através do yoga, da relaxação e da meditação aumenta-se a conexão com o nosso corpo. Assim, conhece-se melhor o corpo. Têm-se mais confiança nele e lê-se com mais precisão os sinais que vai dando e daí pode-se harmonizar o nosso corpo.” Assim, este autor mostra que a aprendizagem corporal permite evoluir na realização do equilíbrio entre o corpo e a mente.

Neste momento estou num projecto para a inserção desta dimensão na minha intervenção psicoterapêutica. Esta aprendizagem é-me conhecida e fácil de implementar uma vez que tenho uma longa experiência de artes corporais.

A forma mais apropriada de intervir no corpo é com a aprendizagem da respiração, do relaxamento e da concentração. Os métodos para chegar a estes objectivos são vários. Apenas vou-me cingir aos que considero essenciais:

– A respiração é a ferramenta que permite regular o ritmo respiratório e deste modo reduzir e acalmar a dor e o sofrimento. Conhecer melhor o seu corpo é uma aprendizagem essencial para quem perdeu o contacto com ele. Ao respirar calmamente, a pessoa torna-se consciente e aproxima-se do seu corpo. Automaticamente, o ritmo cardíaco vai se tranquilizando o que causa na pessoa uma diminuição de dor e sofrimento.

– O relaxamento é também um meio pelo qual a pessoa aprende a distinguir a contracção da descontracção. Aliás, uma pessoa com dor tem tendência a contrair todos os músculos mesmo os que não estão afectados pela doença. Essa aprendizagem diferenciada do corpo permite ao doente obter maior descontracção pelo menos nas zonas não magoadas.

– A concentração é também um meio para atenuar a dor. Este aspecto pode ser realizado através de, por exemplo, a consciência do aqui e agora. Este exercício consiste em focalizar a atenção numa zona de dor. Este género de exercício pode ser difícil de realizar porque a pessoa com dor quer fugir desta zona. Acontece que, paradoxalmente, ajuda-a a aceitar a dor, aliviando-a!

É neste sentido que considero que a intervenção psicoterapêutica ajuda na tentativa de libertação da dor e do sofrimento. A psicoterapia auxilia mesmo a aliviar a dor procedendo desta forma à sua libertação. Igualmente, a intervenção ao nível corporal ajuda a pessoa a utilizar as ferramentas de maneira favorecer a esta diminuição da dor.

Importa realçar que a dor e o sofrimento fazem parte da condição humana e que ninguém está a salvo dessa experiência. Num artigo escrito em 2008 na revista de filosofia francesa online, sobre “A dor e o sofrimento”, um filósofo anónimo escreve que “existe um vínculo entre a dor e o sofrimento: “o sofrimento de viver e a dor de existir”. Essa descrição reforça o quanto a dor e o sofrimento por um lado estão intimamente dependentes um do outro e por outro lado estão ambos ligados à condição humana.

Se o ser humano tem que passar por essa experiência desagradável, o que pode ele fazer para a atenuar?

O meu conhecimento no Yoga transmitiu-me respostas quanto a esta noção de condição humana.

O Yoga é conhecido por todos como sendo uma prática corporal. No entanto, o Yoga faz parte de uma das linhas de pensamento da filosofia clássica Indiana. Destas diferentes linhas de pensamento, as “darshana”, refiro-me particularmente à escola de Patanjali, presumível autor do tratado dos Yoga-Sûtras, obra esta que foi escrita em sânscrito entre os séculos III ao V da Era Comum. Esta obra é considerada como uma das mais importantes do Yoga clássico.

Desta obra, vou mencionar a filosofia dos “klesas”, sofrimento em sânscrito. Segundo Vyasa e Samkhya-Karita (S.K.1), o sofrimento é separado segundo a sua origem em três categorias: aquele que provem da própria pessoa, “adhyatmika”, aquele que provem dos outros, “adhibhautika”, e aquele que provem de calamidades naturais, “adhidaivika”.

A primeira causa de sofrimento que provem da própria pessoa, “adhyatmika”, é aquele a que o Yoga se refere. Dentro das duas outras origens de sofrimento está também incluído o sofrimento de si mesmo. Neste sentido, a origem interior é a fonte principal do sofrimento tanto para a psicologia como para o Yoga.

A definição das “klesas” por Jean Papin no seu livro, “La voie du Yoga”, é traduzida como “as aflições, os sofrimentos que afligem a consciência e a condicionam”. As “klesas” são causas de sofrimento, ou mesmo, formas de pensamentos. A repetição destas leva então ao sofrimento.

As causas de sofrimento, “klesas”, apresentadas por Patanjali são divididas em cinco tipos: ego, “asmita”; medo de morrer, “abhinivesha”; aversão,dvesha”; apego, “raga”; ignorância, “avidhya”.

A ignorância, “avidhya”, é a causa de sofrimento mais subtil e é nela que se originam as quatro outras. Esta é definida por Tara Michäel como “a presença de noções falsas e contrárias a realidade”. É acreditar que se sabe quando se está errado. É confundir uma coisa com seu oposto.

Na obra os Yoga-Sûtras de Patanjali, descrevam-se pormenorizadamente as diferentes causas e depois fornecem-se os meios tanto físicos como psicológicos para acabar com o sofrimento.

O processo das “klesas”, é similar ao processo utilizado na intervenção psicológica da dor e do sofrimento, como foi referido ao evidenciar os pensamentos que afectam o estado da pessoa e o facto destes estarem desviados da verdade. A tomada de consciência dos mecanismos do sofrimento permite à pessoa atenuá-los e até mudá-los.

É igualmente fundamental na intervenção psicoterapêutica, juntar a aprendizagem do conhecimento corporal na diminuição da dor e do sofrimento, como previamente explicado através da respiração, relaxação e concentração.

Procurar eliminar a ignorância, “avidhya”, através da tomada de consciência é um meio para se libertar deste sofrimento e ajuda a caminhar para a liberdade absoluta e para a serenidade. O discernimento, “viveka”, é desenvolver a faculdade de ver com clareza, sem ambiguidade e de forma constante. Ao atingir o discernimento, acaba-se com o sofrimento. A prática do yoga é uma forma de aplicar no nosso quotidiano estes conceitos.

Concluindo, na intervenção psicoterapêutica é capital abranger tanto a parte física como a parte psíquica. Ao aliar a componente da prática física poder-se-á potenciar a libertação da dor e do sofrimento.

Devemos então “aprender a viver de dentro, a sempre agir de dentro…” (in Sri Aurobindo, Cartas sobre o Yoga Vol. 4, p.248) para, ao atingir o autoconhecimento, acabar-se com o sofrimento.

Magali Stobbaerts

Mindfulness – Budismo e Psicoterapia – Actualização

Hoje, ao deambular pelo Medscape nos diferentes artigos acerca de mindfulness, apercebi-me de que já é absolutamente clara a eficácia de prática de Mindfulness quer na patologia depressiva, quer na patologia ansiosa, tendo-se provado eficaz em adultos mas também em crianças (*).

Resta alargar os estudos de eficácia a outras doenças afectivas (Doença Bipolar, p. ex.) e patologias não-afectivas (Psicose Esquizofrénica, Perturbação Delirante, p. ex.) e não me admiraria que revelasse benefícios importantes também nestas doenças.

É natural que se questione qual o mecanismo de eficácia do Mindfulness, mas a resposta só pode ser simples numa prática cujo fundamento é também supremamente simples e apenas um: estar atento e desperto no momento presente.

Não existem outros propósitos e não se pode decompor um fundamento tão simples como este.

É provável que por este mesmo motivo se revele transversalmente eficaz em todas as patologias e idades.

De facto, Mindfulness não trata especificamente qualquer patologia porque                    não é um tratamento.

Mindfulness aprofunda a consciência de si próprio, o encontro consigo próprio, com o Eu mais profundo, com o porto de abrigo mais recôndito que cada ser humano                  traz dentro de si.

Este encontro com o Eu é um encontro que se dá no silêncio da mente e que transcende o habitual ruído produzido pelo ego na manifestação sempiterna dos seus infindáveis dramas, das suas incessantes vitórias e outras tantas derrotas.

O mistério que sobra é este: como pode a prática da atenção consciente sobre o momento presente ter efeitos tão dramáticos sobre a depressão e ansiedade?

Porque de facto, Mindfulness não consiste num trabalho consciente sobre crenças disfuncionais, respostas emocionais desajustadas, reeducação do hiper-controlo, reconstrução da auto-estima, aquisição de competências para relações objectais mais saudáveis, aquisição de novos e mais adaptados estilos relacionais, entre outros objectivos específicos da psicoterapia.

Não. Nada disso.

Resta perguntarmo-nos de onde vem esta Paz que transcende todos os conflitos e resolve imperceptivelmente a inquietação humana?

Não me admiraria que nunca cheguemos a resposta alguma.

Porque nos deparamos com um paradigma fenomenológico não classificável como fenómeno psicológico sequer.

De facto, a consciência é o palco de toda a manifestação psicológica humana, é o pano de fundo de todos os autores da vida psicológica humana, é o substrato vivo onde se desenrola toda a vivência consciente dos fenómenos.

Mindfulness não se foca nos fenómenos mas apenas no aprofundar da consciência.

E a consciência é a única vivência permanente e imperecível do Ser.

Tudo o mais – pensamentos, emoções, e seus derivados mais complexos, como crenças, padrões de resposta emocional, estilos relacionais, entre outros – são sempre expressões efémeras, mais curtas ou mais longas, mas sempre efémeras e (eventualmente) mutáveis mediante trabalho consciente sobre a valência manifestada que se pretende modificar.

Ao fim de 2600 anos da presença do Mindfulness na humanidade – sendo possível que seja mesmo anterior a Buda – descobrimos que este método de aprofundamento espiritual da Consciência é misteriosamente eficaz.

Pela primeira vez surge um método proveniente duma disciplina espiritual milenar, que revela eficácia no alívio do sofrimento humano e que não se foca na modificação e reenquadramento das vivências psicológicas, mas antes no simples aprofundar da vivência Consciente.

É provavelmente que este mistério não venha nunca a ser desvendado.

Porque os mistérios, à semelhança da fenomenologia psicológica, pertencem ao reino da mente, e Mindfulness pertence ao reino do Ser.

Dr. João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

(*) – Artigos no Medscape sobre Mindfulness

Sobre a dor – I

Descartes dor

A dor é uma sensação desagradável que se pode tornar insuportável ou mesmo incapacitante para a pessoa que a sente. Quem tem uma dor, apercebe-se da importância da saúde. Só se tem consciência do corpo quando este dói. É o paradoxo do ser humano: ter consciência do seu corpo só quando este não tem saúde.

Em si, a dor não é má, é um sinal de alarme que nos protege de estímulos agressores. Ao tocarmos numa chama com a mão, a sensação de dor permite-nos retirar a mão do lume e não nos queimarmos. Esta reacção permite protecção e sobrevivência do ser humano. O antropólogo, David Le Breton, escreveu sobre a dor o seguinte: “a dor age como uma sensação que imprime um sentido e dá um sentido e uma informação útil à conduta do homem”. Assim, a dor é física e sensorial.

A medicina classifica a dor basicamente em duas categorias: a dor nociceptiva e a dor neuropática.A dor nociceptiva refere-se a uma função biológica uma vez que alerta o organismo do perigo. A dor neuropática advém de uma lesão ou de uma disfunção no sistema nervoso.

Distinguem-se ainda a dor aguda da dor crónica. A dor aguda é repentina e localizada, por exemplo sentir uma dor de queimadura na mão ao se ter aproximado do fogo. Por outro lado, a dor é crónica quando persiste no tempo e não é facilmente aliviada. A dor crónica pode ir e voltar ou mesmo ser constante. É o caso de quem tem dores de cabeças desde da sua adolescência ou de pessoas mais velhas que possuem dores de coluna. A maior parte das dores agudas duram pouco tempo e têm habitualmente tratamentos eficazes. Mas quando subsistem no tempo, geralmente com menor intensidade, tornam-se crónicas e, muitas vezes, resistentes aos tratamentos farmacológicos – é nessa altura que os médicos aconselham os doentes a aprender a viver com a dor.

No último século, numa cultura que registou um progresso tecnológico vertiginoso em que proliferam analgésicos, antidepressivos e técnicas cirúrgicas cada vez mais apuradas, a dor foi cada vez mais demonizada e desaprenderam-se as estratégias de “coping” (lidar) com a dor. A nossa sociedade vive a dor com aversão, como se o ser humano fosse de todo incapaz de a tolerar. Esta aversão é, em si própria, um obstáculo para quem procura adaptar-se a uma situação de dor crónica.

A dor crónica carece de valor biológico sendo destrutiva do ponto de vista físico, psicológico e social. Só por si, a dor pode causar na pessoa perturbações do sono, torná-la mais irritável, depressiva, desesperada, impotente ou capaz de gerar um sentimento de perda de controlo sobre o seu corpo ou mesmo criar ansiedade. Desta forma, a dor crónica afecta de forma determinante a qualidade de vida.

A dor é um conceito que procura a sua definição desde há muitos séculos. Com Descartes, a dor era definida como a sensação da maquinaria corporal. Aliás, o desenho acima, realizado por ele, mostra o percurso da dor sentida na mão até ao cérebro e a volta da decisão de retirar a mão. Este conceito evoluiu dando nascimento a outros conceitos sobre a dor.

Nos anos 70, o conceito de dor é definido pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (International Association for Study of Pain – IASP) da seguinte forma: “A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou não a lesão real ou potencial dos tecidos, ou descrita em função dessa lesão. A dor é subjectiva. Cada individuo aprende a aplicar o conceito dor a partir das suas experiências traumáticas infantis. Ainda que se trata de uma sensação em uma ou mais partes do corpo, ao ser sempre de carácter desagradável pressupõe uma vivência emocional associada.” Esta definição decreta que a dor é subjectiva.

Já Aristóteles definiu a dor como uma forma de emoção. O autor do “Miniatlas sobre a dor” (2007), Dr. Luis Raúl Lépori, refere que “a dor caracteriza-se não só com os aspectos físicos como psicológicos. Trata-se de uma experiência que não é reprodutível, uma vez que é íntima e intransmissível embora comunicável. Portanto é uma experiência multidimensional, somato-sensitiva, psicológica e sócio-cultural. “ Assim, embora a dor seja um conceito essencialmente fisiológico, ela possui uma noção psicológica.

De facto, a intensidade da vivência dolorosa depende, em muito, da forma como se vive a dor. A dor diferencia de intensidades conforme as circunstâncias. Se decidirmos focar a nossa atenção na dor, se dramatizarmos a vivência da dor, esta torna-se mais intensa. Assim a dor pode ser ínfima ou trágica independentemente da lesão.

Segundo Le Breton, não existe dor sem sofrimento. Uma pequena dor pode gerar grande sofrimento. No sofrimento estão subjacentes os pensamentos e as emoções associados à vivência da dor. Pode apresentar-se sob várias formas: condenação daquilo que se fez, falta de confiança em si próprio, culpabilidade, remorsos, ansiedade, perda, luto, humilhação ou desespero, para citar algumas.

Frequentemente a pessoa chegou ao fim da linha das suas estratégias de “coping” e das intervenções farmacológicas eficazes – já experimentou tudo que está ao seu alcance e nada mais funciona. Está como que bloqueado, centrado unicamente na vivência da dor, incapaz de dar valor às restantes dimensões satisfatórias e realizadoras da sua vida.

São todas estas razões que levam uma pessoa a fazer uma psicoterapia.

Um dos principais objectivos da psicoterapia é o de promover uma integração adequada das dimensões físicas e psíquicas da dor.

Não perca tempo e peça ajuda em caso de dor física ou em caso de sofrimento.

dor

               (Continua…)

 Magali Stobbaerts – Psicoterapeuta

A vulnerabilidade sentida com o “Nunca tinha pensado nisto!?”

Imagem

É comum ouvir em terapia “Nunca tinha pensado nisto!?” que agora me diz ou faz ver. Algumas pessoas acham mesmo que eram “burras”, “limitadas” ou “tapadas” por não conseguirem VER as coisas de outras formas como na ocasião a/o terapeuta lhe devolve, e ficam, de certa forma, incomodadas com a sua incapacidade para ter perspectivado aquilo. Talvez isto seja incomodativo por ser inerentemente experiencial, implicar quase sempre a perda da noção de si próprio e resultar na emergência de uma noção de si diferente da que se conhecia até ao momento.

Sabemos que às coisas novas acresce risco emocional e incerteza (i.e. vulnerabilidade) e também sabemos que, por norma, o conhecimento das coisas traz mais tranquilidade. As pessoas que ficam mais vulneráveis com o “Nunca tinha pensado nisto!?” parecem ser mais resistentes à clareza do que é agora conhecido. Talvez porque os “nuncas” nascem de falsas certezas e deitam por terra essas mesmas certezas ou dogmas ficando-se, assim, sem chão para se ler e se guiar no mundo. A “pancada” do dar-se conta é integrada na pessoa e fá-la sentir, no aqui e agora, coisas novas que a lançam num novo posicionamento existencial de si no mundo. Certamente que isto pode implicar sentir-se vulnerável pois a posição fixa do NUNCA vai sendo substituída por uma outra, a da FLEXIBILIDADE e sob a forma do pode ser.

Para enfrentar este risco torna-se necessária CORAGEM traduzida num peito aberto ou abrir do coração. Assim se conhecem e enfrentam os meandros das nossas vulnerabilidades e a terapia é por excelência um espaço em que estas se descodificam mas com a grande vantagem de ter outro peito aberto à sua disposição para o revezar, caso fique mais inseguro em conhecê-las.

Os momentos mais preciosos em terapia são conseguidos com esta parceria humana de alguém que o ajuda a VER-SE melhor porque se vão mapeando e trabalhando as nossas vulnerabilidades e os nossos recursos. Por isto, VER para mim pode ser expresso em V(verdade) E(experiencial) R(resiliente), porque aquilo que é mais genuíno/verdadeiro entre dois seres humanos gera Confiança, um dos mais poderosos antídotos do medo e um dos maiores aliados do desejo e do amor, por nós e pelos outros.

Rita dos Santos Duarte

Ansiedade: para quê pensar no amanhã se pode viver hoje?

Imagem

A ansiedade é um estado emocional no qual a pessoa se sente tensa com algo que lhe poderá acontecer. Ela poderá ser adequada e ajustada quando o estado de alarme inerente nos protege contra ameaças reais, ou seja, há um estímulo contra o qual reage e do qual nos protege.

A ansiedade é uma das perturbações psicológicas mais prevalentes (15 a 20%) com tendência a agravar-se ao longo do tempo, caso não seja correctamente intervencionada. Quando a ansiedade é desajustada (não tem um estímulo ameaçador real ou há um aumento da sua intensidade e frequência), os seus sintomas físicos (inquietação motora, aceleração cardíaca, dificuldade respiratória, dores musculares, distúrbios digestivos, etc.), cognitivos (diminuição da memória e da atenção, perturbação do pensamento), psicológicos (medo de que algo mau está para acontecer, medo de perder o autocontrole, etc.) e insónias interferem no funcionamento dito normal da pessoa afastando-se da raiz do que a desencadeia, normalmente vulnerabilidades psicológicas recalcadas de forma defensiva. Estas poderão ser vivências interpessoais dolorosas, experiências traumáticas ou problemas na primeira infância que originam uma percepção de incapacidade que se activa face a situações semelhantes no presente através dos sintomas da ansiedade.

Quer seja generalizada (preocupação excessiva com a vida quotidiana como trabalho, relações afectivas, filhos acompanhadas de insónias e cansaço), social (desconforto desencadeado pelo exposição à avaliação social), ataques de pânico (período súbito de um desconforto muito intenso, normalmente acompanhado de tremores, sensação de desespero, náuseas, palpitações e dificuldade em respirar) ou fóbica (medo circunscrito a objectos ou situações concretas) a ansiedade provem de uma antecipação ameaçadora do futuro que impossibilita o sujeito de viver plenamente o presente, no aqui e no agora. A pessoa ansiosa passa a evitar os contextos ou objectos limitando o seu funcionamento em várias áreas (profissional, social ou familiar), o que, apesar do alívio imediato proporcionado, reforçam sentimentos de incapacidade e vulnerabilidade que diminuem a auto-estima.

A pessoa não escolhe ter uma perturbação da ansiedade. Esta surge como sintoma/alarme revelador de vulnerabilidades psicológicas que deverão ser trabalhadas no processo terapêutico. O Modelo Integrativo postula que as técnicas utilizadas no processo terapêutico sejam seleccionadas de forma responsiva, ou seja, de acordo com as características de cada paciente mas, seja através de dessensibilização sistemática, focagem, mindfulness ou outras técnicas, o objectivo é que o paciente reescreva a sua história pessoal, integrando as suas vulnerabilidades, anteriormente expressas nos seus sintomas. De facto, quando são correctamente intervencionados e resolvidos internamente, os sinais de alerta (ansiosos) esfumam-se no ar, deixando a pessoa fluir o presente.

Catarina Barra Vaz

“Quando o milagre acontece (dentro de nós)…”

– O meu pai estava no hospital e eu andava de volta dele como se fosse uma enfermeira. Foram tempos muito difíceis também para mim, porque me custava imenso ver o meu pai naquelas condições. Por um lado eu queria que o meu pai estivesse num lugar melhor, numa clínica com condições, mas por outro lado eu queria que o meu pai fosse acompanhado pelos médicos que sempre o seguiram. E eu andava nesta tortura, quero que ele saia porque o hospital não tem todas as condições que eu desejaria que tivesse, quero que ele fique por causa dos médicos – a minha cabeça vivia nesta tortura! Para o fim eu estava exausta! Até que um dia entrei na capela do hospital e dei por mim ajoelhada e, de repente, virei-me para Deus e disse-lhe: Seja o que tu quiseres! – entreguei tudo! – se o meu pai tem que passar por tudo isto aqui, se é essa a tua vontade, então assim seja! Seja o que tu quiseres. E sabe o que mais?

– Sim?

– Logo que fiz isso veio uma paz enorme. Algo que nem eu sei explicar… Uma paz imensa…

– Eu compreendo. Ficou resolvido o conflito que trazia dentro de si.

– O conflito?

– Sim, entre o que você desejava para o seu pai e o que o seu pai tinha na realidade… Havia um conflito permanente aqui…

– Sim, havia.

– E este conflito era uma forma de estar permanentemente a dizer “não” à realidade.

– Sim.

– E quando se ajoelhou e falou com Deus isso mudou.

– Aí eu entreguei os pontos. Aceitei tudo o que estava a acontecer. Tudo, sem excepção.

– Aí você parou de resistir. Aí decidiu dizer que “sim”, e a resistência à realidade cessou – o conflito ficou resolvido, como que por magia.

– Eu falei para Deus.

– O que quer que tenha feito, o milagre que aconteceu dentro de si chama-se “aceitação”.

Este diálogo com uma paciente minha fez-me recordar o poder inacreditável da aceitação e da experiência quase inenarrável de paz que dela advém.

Fez-me pensar o quanta energia gastamos em pura e simplesmente negar a realidade, e no sofrimento a que nos submetemos desnecessariamente pela nossa incapacidade de nos sintonizarmos, duma forma plena e inteira, com o que nos é oferecido viver.

Vemos esta negação da realidade acontecer todos os dias dentro de nós e à nossa frente, desde alguém que se exaspera com um engarrafamento de trânsito (como que a dizer ao Universo: – Isto não é justo!) à nossa irritação porque o dia de praia veio sem sol e sem calor (como se o Universo tivesse conspirado para arruinar o nosso fim de semana).

Quando tudo o que temos a fazer é parar de negar a realidade, parar de negar o que nos é oferecido viver.

Quando aceitamos profundamente o que acontece aqui e agora, deixamos de desejar que o que está a acontecer seja diferente (como se realmente pudesse sê-lo!).

A aceitação, mais que uma mudança de ponto de vista, é o abdicar de pontos de vista para aceitar o que quer que seja que se esteja a vivenciar.

Mais do que “cair na real”, é aceitar a realidade como se esta fosse a única e melhor forma de tudo acontecer.

É parar de resistir.

“-What we resist, persists.”

Diremos mais: “-What we accept, transforms.”

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta