E se em vez de sair da sua zona de conforto a aumentar?

Espalhou-se pela internet, há uns tempos atrás, esta imagem alusiva à distância entre a nossa zona de conforto e a zona onde a magia acontece.

Image

Esta imagem tem alguns problemas: por um lado, dá a ideia de que ou estamos numa zona ou estamos na outra e que há uma distância imensa entre as duas; por outro, não clarifica como é que se passa de uma zona para a outra, passa a ideia de que temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto de confiança para algo absolutamente estranho e desconhecido para que a vida passe a ser como gostávamos que ela fosse; por último, ainda que para os mais aventureiros este salto possa ser estimulante, para o comum dos mortais esta imagem pode trazer uma certa angústia, a sensação de que a distância é demasiado grande e o salto demasiado assustador, nunca conseguirei chegar onde a magia acontece.

Por estes motivos, prefiro esta segunda imagem, mais realista, menos angustiante e mais esclarecedora.

Image

Nesta imagem compreendemos que para a magia acontecer não temos que sair da nossa zona de conforto e dar um salto no escuro, temos sim que AUMENTAR a nossa zona de conforto para que ela inclua a zona onde a magia acontece.

A mudança não tem que passar por uma transformação radical em que deixamos de ser quem somos para passarmos a ser ou a estar num ponto completamente diferente; mudança pode muito bem ser, e é-o a maioria das vezes, um acumular de pequenos ganhos, de pequenas experiências no limiar da nossa zona de conforto, que se vão tornando seguras, sólidas, e nos permitem gradualmente ir mais além.

Quando voltar a ver a primeira imagem, não se assuste, acrescente-lhe mentalmente círculos maiores de potencial de crescimento, e acredite, através deles, passo a passo, vai chegar exactamente aonde quer.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

A arte de CONTEMPLAR

PSITALK's avatarPSITALK

Image

Os “nadas” do quotidiano podem ser o “tudo” no equilíbrio e no bem-estar.

Sintonizarmo-nos com a beleza e riqueza de pequenos momentos da vida é uma habilidade francamente desejável para a nossa harmonia interior. Aquela em que conseguimos focar-nos No Que Está a Acontecer,No Como está a Acontecer e No Como Nos Faz Sentir o Que Está a Acontecer. Falo dos momentos em que utilizamos mais do que um sentido (porque temos 5 disponíveis e só nos focamos apenas em 1 em cada momento) e os convergimos numa experiência única e sensorialmente agradável.

Momentos tão banais como aquele em que saboreamos uma comida/bebida de que gostamos e conseguimos captar o seu cheiro, paladar e textura desde que a olhamos até ao momento em que a colocamos na boca e conseguimos acompanhar, interiormente, a jornada de prazer que vamos sentindo, ao mesmo tempo que percebemos que nos faz ficar…

View original post mais 315 palavras

A arte de CONTEMPLAR

Image

Os “nadas” do quotidiano podem ser o “tudo” no equilíbrio e no bem-estar.

Sintonizarmo-nos com a beleza e riqueza de pequenos momentos da vida é uma habilidade francamente desejável para a nossa harmonia interior. Aquela em que conseguimos focar-nos No Que Está a Acontecer, No Como está a Acontecer e No Como Nos Faz Sentir o Que Está a Acontecer. Falo dos momentos em que utilizamos mais do que um sentido (porque temos 5 disponíveis e só nos focamos apenas em 1 em cada momento) e os convergimos numa experiência única e sensorialmente agradável.

Momentos tão banais como aquele em que saboreamos uma comida/bebida de que gostamos e conseguimos captar o seu cheiro, paladar e textura desde que a olhamos até ao momento em que a colocamos na boca e conseguimos acompanhar, interiormente, a jornada de prazer que vamos sentindo, ao mesmo tempo que percebemos que nos faz ficar mais entusiasmados, mais calmos ou que memórias que vão sendo despertadas ao longo daquela jornada. Descrito parece que demora muito tempo mas na realidade é breve… muito breve, e por isso é tão importante conseguir estarmos ATENTOS e PARAR para nos FOCARMOS na oportunidade destes momentos e os agarrarmos ficando depois disponíveis nas memórias de PRAZER do nosso corpo.

Sejam situações mais ou menos intencionais; como olhar para a imensidão do mar e deixar o rosto e o peito serem aquecidos pelos leves raios de sol de Inverno enquanto cheiramos a brisa marítima OU como dar-se conta de que uma música a tocar na rádio, enquanto está parado(a) no trânsito, lhe desperta saudosa alegria que lhe enche o peito e lhe dá uma misteriosa força para iniciar o seu dia de trabalho; parecem estar presentes sementes comuns ao florescimento do que é vivo e prazeroso na vida.

Talvez estas oportunidades de CONTEMPLAÇÃO, em que puxamos algo exterior com todos os nossos sentidos disponíveis e o transformamos numa experiência ímpar, em que o produto final é resumido a BEM-ESTAR, ajudem a criar VITALIDADE interior, aquela que vai e vem directa ao CENTRO de quem nós somos e que nos faz querer ir mais além na vida.

Os bebés são um grande exemplo nesta arte de transformar os “nadas” em “tudos” quando apenas olham para nós com todos os sentidos, como se nos quisessem puxar para dentro deles com toda a sua força ou como se nos enfeitiçassem com a simplicidade com que ficam regalados… é que eles olham o mundo com todo o equipamento sensorial de que dispõem.

A arte da contemplação é um recurso de saúde mental e espiritual, precocemente desenvolvido pelos seres humanos mas tão facilmente esquecido à medida que vamos crescendo em tamanho.

Pratiquemos a CONTEMPLAÇÃO: CONTEMPLE o mundo e CONTEMPLE-SE a si!

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Stress – Parte II – Estratégias de regulação

btb2

No texto anterior, defini Stress, a sua tipologia e consequências para quem o sofre, nomeadamente, irritabilidade, insónias, dificuldade de concentração, abuso de substâncias, como a cafeína e o álcool, dores de costas, etc.

Proponho agora que responda a algumas questões de forma a avaliar se está a sofrer de stress neste momento:

– Evita, a todo o custo, falar sobre o seu trabalho, ou fala abundantemente sobre ele (ou outro acontecimento stressor)?

– Consegue definir momentos “apenas” para si, cuidando-se?

– Fica ansioso quando recebe emails, SMS ou telefonemas de trabalho?

– Sente-se regularmente sozinho e desamparado?

– Alimenta-se adequadamente ao longo do dia e respeita os seus intervalos para refeição?

–  Sente-se cansado ou tem tido problemas de saúde regularmente, por mais pequenos que lhe pareçam?

– Sente que não pode falhar?

– Tem momentos de prazer na sua profissão? E na sua vida pessoal?

–  Dá por si a “desligar” durante o horário de trabalho?

– Acorda de noite a pensar em trabalho ou noutro stressor, não tendo um sono reparador?

Caso tenha respondido afirmativamente à maioria das questões anteriores, deixo algumas estratégias [1] que poderá adoptar para regulá-lo por forma a que possa viver de uma forma mais equilibrada e consequentemente, com maior bem-estar:

  1. Faça exercício físico;
  2. Faça intervalos;
  3. Evite o consumo de substâncias;
  4. Durma bem;
  5. Foque-se em terminar uma tarefa de cada vez;
  6. Aprenda a falhar;
  7. Use o sentido de humor;
  8. Tenha uma rede social e/ou familiar;
  9. Equilibre expectativas: seja realista, a perfeição não existe;
  10. Aprenda a dizer “Não”;
  11. Defina prioridades;
  12. Recompense-se a si próprio;
  13. Tenha hobbies;
  14. Respire, relaxe, medite …

A propósito do último ponto partilho o link de um vídeo sobre a importância da respiração e dicas de como a integrar no seu quotidiano: 8 segundos para stressar menos.

No próximo texto abordarei a meditação, cujos ganhos para o bem-estar e consequente redução do stress estão cientificamente provados.

Comece a praticar uma vida menos stressante. O seu bem-estar agradecer-lhe-á!


[1]    Poderá ver mais estratégias na imagem do post.

Catarina Barra Vaz – Neuropsicóloga, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Discriminação na nossa era

Imagem

Na semana passada ouvi a seguinte notícia: “Um jovem homossexual de 21 anos atirou-se do 11º andar de um prédio”.

            Não é a primeira vez que ouço um anúncio deste tipo, mas desta vez, não me foi possível ficar indiferente a uma notícia tão violenta.

            Como disse o autor Dostoïevski: “Todos os homens são responsáveis, e eu mais que os outros”. Considerando que escrever sobre o assunto é uma forma de responsabilização, decidi fazê-lo debruçando-me sobre a questão da homossexualidade.

            Enquanto psicoterapeuta, a minha contribuição é tentar perceber a pessoa na situação e, em seguida, propor algumas ferramentas úteis e simples para evitar que um jovem sofra tanto, ao ponto de pôr fim à sua vida.

            Neste sentido, pretendo ajudar também a esclarecer qualquer pessoa interessada pelo assunto, como por um exemplo, um familiar ou um amigo.

            A definição etimológica de homossexual é a seguinte:

  • Homo: quer dizer igual, semelhante, do mesmo modo, (em grego antigo, “μός “, homos).
  • Sexual: referente ao sexo, (em latim “Sexu”, quer dizer sexo).

            No dicionário da Porto Editora, a definição de homossexualidade é a “atracção sexual entre indivíduos do mesmo sexo”. A definição no Wikipedia acrescenta que é também “o que sente atracção física, estética e ou emocional para outro ser do mesmo sexo ou género”. Aliás, também menciona que a homossexualidade faz parte da sexualidade humana e que estes comportamentos se encontram igualmente no reino animal nomeadamente nalguns mamíferos.

            A homossexualidade é uma das quatro categorias de orientação sexual: heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade e assexualidade. Dentro da categoria da homossexualidade, existem vários tipos de homossexuais: lésbicas, gays, transexuais, intersexuais.

Ao tentar categorizar os comportamentos de orientação sexual de uma pessoa, estas categorizações podem tornar-se confusas. Pois, o comportamento depende não só da forma de pensar e sentir a vida como também do padrão transmitido pelos pais, pela sociedade e ainda da cultura em que se enquadra. O comportamento pode até alterar ao longo da vida.

            Na tentativa de compreender o comportamento sexual dos humanos, o investigador Kinsey pesquisou e apresentou 2 relatórios relacionados com o comportamento sexual humano; um sobre o homem em 1948, e, outro sobre a mulher em 1953. Estes resultados salientaram que os hábitos sexuais dos americanos eram muito mais liberais do que se imaginava na época.

            Relativamente ao comportamento sexual do homem, os estudos demonstraram que 10% dos homens americanos eram predominantemente homossexuais independentemente dos tipos de profissões e dos níveis sociais.

            Com objectivo de avaliar o comportamento sexual do homem, o Kinsey criou uma escala de avaliação homossexual e heterossexual de 6 níveis. A grande novidade da escala de Kinsey é de ter estimado que a homossexualidade existia num continuum mais do que na separação entre os homossexuais e os heterossexuais. Alias, é desta forma introduzido o conceito da bissexualidade.

Esta escala de avaliação da sexualidade evita a categorização de uma pessoa num grupo específico de orientação sexual, dando a possibilidade de traduzir melhor a realidade, com uma maior variedade de possibilidades de orientação sexual.

            Em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria (AAP) considerou a homossexualidade como uma desordem patológica. Os profissionais de medicina e da saúde mental evidenciaram que o facto de ser homossexual não constituía obstáculo nem para trabalhar, nem para estabelecer relações interpessoais, nem para obter uma vida saudável e feliz. Em 1973, a associação (AAP) retirou a homossexualidade do DSM (Manual de Diagnostico e estatística de Doenças Mentais). No entanto, só em 1990, é que a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a homossexualidade da classificação internacional de doenças. A homossexualidade deixou então de ser considerada como uma doença. O facto de ter sido retirada a homossexualidade do DSM e da lista OMS reforça a ideia de que uma pessoa atraída pelo mesmo sexo não pertence a um grupo diferente dos outros seres humanos.

            No que diz respeito à legislação em Portugal, a homossexualidade foi descriminalizada em 1982. Em 2001, as Uniões de Facto são estendidas a casais de pessoas de mesmo sexo.

            Em 2004, a orientação sexual é incluída na Constituição Portuguesa como um princípio de igualdade. O artigo 240 do novo Código Penal de Setembro de 2007 considera crime qualquer forma de discriminação de orientação sexual.

            Desde Março 2011, depois de muitos anos de violações de Direitos Humanos, as pessoas transexuais têm finalmente direito à escolha da sua identidade sexual.

            Importa referir que ainda no nosso século a persecução da homossexualidade é punida em 80 países e condenada à morte em 9 países.

O livro chamado “Parler de l’homosexualité”, escrito pelo pastor Philippe Auzenet, descreve o comportamento homossexual demonstrando que não existe uma única homossexualidade mas vários tipos de homossexualidades. Porém, o autor ao tentar encontrar as razões que tornaram a pessoa homossexual, como por exemplo a disfunção familiar, acaba por reduzir a pessoa a uma causa e discrimina-a. Logo, a caracterização da causa é tão discriminatória quanto o categorizar das diferentes orientações sexuais.

A maioria dos estudos realizados neste domínio tenta categorizar as pessoas segundo as suas orientações sexuais. O problema da discriminação por grupos leva a que uma pessoa não se sinta não integrada e consequentemente rejeitada, além de traduzir dificilmente a realidade vivida.

            Contudo, a autora Marina Castaneda que escreveu um livro, “Comprendre l’homosexualité”, salienta sobre a identidade homossexual que o mais importante não é a pessoa se definir como homossexual ou heterossexual, mas antes deixar que a pessoa se identifique como ela própria o sente e pense. Essa abordagem acentua que a pessoa tem que se encontrar e identificar em função dela mesma independentemente das suas orientações.

            A escala de Kinsey proporciona uma solução por evitar a discriminação uma vez que não existe um limite que separa um grupo de outro.

            No sentido de intervir por forma a evitar a discriminação é fundamental que uma pessoa que possua uma atracção por alguém do mesmo sexo, não se sinta diferente dos outros, sobretudo quando se fala na adolescência que é a fase em que a integração nos grupos se torna elementar para a construção da identidade do futuro adulto. O “coming out”, ou seja, deixar de esconder a sua orientação sexual na época da adolescência, é uma fase muito vulnerável para a pessoa porque está fragilizada com a eventual hostilidade de colegas especialmente em meios escolares, ou ainda, com o medo da reacção dos pais.

            A vulnerabilidade da pessoa pode rapidamente transformar-se em depressão e até pode levar a comportamentos de risco como o uso de substâncias ilícitas. A notícia mostra quanto o risco pode ser elevado para uma pessoa que se sente discriminada. Muitas organizações homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais afirmam que o risco de suicídio é muito mais elevado para pessoas com orientações sexuais não heterossexuais por estas serem mais usualmente rejeitadas.

            O presidente dos Estado Unidos de América, Barack Obama apoia uma campanha contra o bullying e fez um discurso em 2010, relativo a perseguição de jovens homossexuais nas escolas. Neste discurso diz, “não estás sozinho, não fizestes nada de mal, não mereces ser mal tratado e tens o mundo inteiro à tua espera, cheio de possibilidades”.

O discurso do presidente Obama transmite a ideia de que qualquer jovem tem o direito de pensar e sentir livremente, não devendo ser a sexualidade uma razão para se ser ou se sentir rejeitado. Ao mesmo tempo, realça a importância de se sentir integrado na sociedade. É uma mensagem de esperança com compreensão da situação por um lado e, por outro lado, um sentido de não discriminação. Desta forma, apoia os jovens que se sentem diferentes, rejeitados e abandonados. A forma de abordar a problemática, que foi mostrando compreensão, é uma maneira de prevenir o sofrimento.

O psicoterapeuta humanista, Carl Rogers, (1902-1987) – autor da terapia centrada na pessoa – destaca que o papel do psicoterapeuta é de ajudar a pessoa a encontrar o seu caminho. Para este efeito, ele valoriza a cooperação no processo psicoterapêutico cujo objectivo é tornar a pessoa ela mesma, libertando-se deste modo de sofrimento. Este método é também eficaz em qualquer tipo de relacionamento: na educação entre professor e aluno, no trabalho, na família, nas relações interpessoais.

No âmbito de facilitar o relacionamento de ajuda, o psicoterapeuta intervém segundo 3 dimensões que são definidas por Carl Rogers da seguinte maneira: a consideração positiva incondicional, a empatia e a congruência.

  • A consideração positiva incondicional é aceitar a pessoa tal como ela é no aqui e agora. É igualmente exprimir uma apreciação positiva sobre ela. Desta forma, a pessoa sente-se um ser humano como os outros o que lhe traz afecto e, igulamente, incentivo para continuar.
  •  A empatia consiste na capacidade de se colocar no lugar do outro, utilizando a reformulação ou a repetição dos elementos chaves da situação.
  • A congruência refere-se a coerência interna do próprio psicoterapeuta no sentido do outro sentir a autenticidade e sinceridade de outra pessoa.

Ao usar estas 3 dimensões de cooperação, qualquer pessoa pode aliviar alguém em sofrimento.

Igualmente é importante intervir junto destas pessoas, desenvolvendo uma relação de confiança para facilitar que a pessoa se abra e que se encontre.

É extremamente importante que as pessoas mais próximas, tais como pais e amigos, não neguem, nem rejeitem os sentimentos e pensamentos da pessoa, que normalmente já se sente rejeitada e discriminada. Desta forma contribuem para um sentimento de reconhecimento da pessoa, desenvolvem a auto-confiança e evitam o aumento do sofrimento da pessoa.

Convém também intervir no sentimento de vergonha que a pessoa sente pelo mau estar da sua identidade. O apoio é no sentido de transformá-lo num sentimento de orgulho. Ao libertar-se do sentimento de vergonha, a pessoa cresce com um sentimento de auto-confiança e desta forma afasta-se do sentimento de discriminação.

            O objectivo principal é o de conseguir aceitar-se a si próprio tal como se é, viver a vida amorosa e sexual de forma saudável.

            A frase de Neitzsche “Torne-se em quem você é” é o objectivo principal da ajuda para os jovens que se sentem discriminados.

Magali Stobbaerts – Psicóloga Clínica  e Psicoterapeuta

“É urgente brincar…”, sobretudo em idade pré-escolar!

“Privar uma criança de brincar é privá-la do prazer de viver”

Françoise Dolto

Imagem

Actualmente vivemos numa sociedade em que tudo se faz “a correr”… O tempo é um bem precioso e a gestão do mesmo acaba por ser uma arte de mestria. Esta constante vivência em “correria”, onde tudo é agendado ao minuto, contamina inevitavelmente o dia-a-dia das crianças, preenchido pela presença no jardim-de-infância ou na escola, e, simultaneamente, em inúmeras actividades extra-curriculares. A própria evolução urbanística conduz a uma vivência confinada a espaços físicos restritos e limitados (exp: o apartamento e os edifícios citadinos em que se situam os jardins de infância, escolas e pátios de recreio), acompanhados de muitas regras constantes e restritivas: “Está quieto”, “Não mexas nisso”, “Não te sentes no chão”, que “bombardeiam” as crianças todos os dias.

Também esta “pressa” e ânsia de acelerar processos que deveriam ser naturais ao longo do crescimento, conduz a um contacto cada vez mais precoce com aprendizagens excessivamente escolares (ainda em período pré-escolar), em detrimento de outras, que contribuem para a aquisição e desenvolvimento de competências psicossociais e de auto-regulação emocional. Mais importante do que saber ler, escrever ou contar quando se entra na escola, é fundamental aquirir e construir previamente uma matriz psicossocial individual segura, capaz de receber e transformar esses conteúdos escolares. Esta matriz passa por a criança ser minimamente autónoma e confiante para estar numa sala de aulas, respeitar figuras de autoridade e regras estabelecidas, interagir/comunicar com os outros (professor, funcionários, colegas, etc), colocar dúvidas, fazer perguntas, tomar decisões, criar soluções e resolver problemas.

Assim, frequentemente a actividade por excelência que as caracteriza – o brincar – fica esquecida no meio da rotina e da vivência diárias. Durante muito tempo pensou-se que brincar não teria utilidade biológica ou social, mas na realidade, brincar é, por excelência, um dos fenómenos mais comuns e naturais da infância, assumindo-se como uma forma de estabelecer interacções sociais e um meio poderoso de aprendizagem sobre o mundo. Ora, tal actividade fundamental não é específica do Homem, sendo igualmente partilhada por outras espécies.

Desta forma, a actividade lúdica permite estabelecer um elo de ligação entre as crianças sendo um poderoso auxiliar na construção da relação com os outros e com o meio que as rodeia. Detentora de um papel fundamental no desenvolvimento emocional, cognitivo e social, possibilita a estimulação da criatividade e o desenvolvimento da autonomia, da linguagem e de papéis sociais (fundamentais para a vida adulta), dotando a criança de maiores capacidades para pensar e resolver problemas. De facto, através do brincar a criança vai-se familiarizando com as regras sociais e tomando contacto com experiências novas: ela explora, pesquisa, experimenta e aprende. Experimenta com relativa segurança ou com o mínimo de riscos (porque são situações puramente imaginárias) novos comportamentos físicos ou sociais, num contexto familiar e contentor, com a vantagem dos comportamentos lúdicos serem, em grande parte revogáveis: o que se faz “a brincar” não tem as consequências habituais de um comportamento semelhante feito “a sério”. O jogo é algo com impunidade relativa e características não sérias. Toda e qualquer brincadeira requer que as crianças tenham consciência destes aspectos e que emitam e reconheçam o sinal que se traduz por: “isto é uma brincadeira…”.

Brincar permite ainda que a criança se mantenha fisicamente activa, que desenvolva a personalidade e as competências sociais, ajudando-a a lidar com emoções e sentimentos, possibilitando:

  • encenar experiências emocionais (por exemplo: separação dos pais, situações de luto, alterações significativas na vida da criança, sentimentos de alegria, tristeza, ciúme, medo, etc);
  • “libertar” tensões (por exemplo: alívio da dor, desconforto, frustração);
  • pesquisar (observar, explorar, descobrir);
  • treinar as competências de autonomia e de independência (actividade espontânea e voluntária, implicando empenhamento activo por parte da criança);
  • divertir-se (sem objectivos específicos, apenas algo agradável e positivo).

À medida que a criança cresce, assiste-se a uma evolução social de situações em que brinca sozinha, para brincadeiras cada vez mais cooperativas. Ser, ter, fazer, tomar, dar, amar, odiar, viver, morrer, todos estes verbos não ganham sentido senão através do jogo. O brincar assume, desta forma, uma preparação para as acções e comportamentos da idade adulta.

Por tudo isto, para além do espaço do jardim de infância/escola e das actividades extra-curriculares (predomínio das regras e de momentos organizados/estruturados) é também fundamental:

  • Aceitar e ter em conta que o brincar está presente desde o nascimento. Antes do aparecimento da linguagem a criança já comunica com os adultos através da mímica, nos gestos, nas actividades corporais e sensoriais. Por volta dos 3 meses um dos primeiros jogos com o adulto é o de esconder o rosto e mostrá-lo de novo, depois surgem actividades de exploração e manipulação dos objectos do meio, jogos em torno do ter e guardar (encher objectos com coisas que se transportam), e, mais tarde, jogos de fazer coisas (puzzles, construções). A partir da idade em que a criança começa a andar é necessário destacar em especial os jogos com água, areia, ou terra, aos jogos de enchimento e de esvaziamento de recipientes. Este é o momento da explosão da curiosidade investigadora e manipuladora dos objectos, tudo suscita perguntas e tudo se tenta agarrar, despedaçar, fragmentar.
  • Variar os brinquedos da criança. Quando a criança já descobriu as dificuldades de um jogo e as ultrapassou, poucas são as surpresas ou interrogações. É preciso variar os brinquedos e jogos de forma a estimular os sentidos, a criatividade e a inteligência da criança. Pode-se tentar fazer troca de brinquedos com outras crianças ou procurar ludotecas que ajudem nesse sentido. (Nota: aqui entendem-se jogos de ludoteca os livros para crianças, os jogos de construção, os jogos de motricidade, inventivos, criativos, de lógica, etc; não são de forma alguma incluídos os peluches, a boneca preferida, enfim, os brinquedos que são “os primeiros amores” da criança, que ela usa para adormecer, ou para se acalmar quando os pais estão ausentes).
  • Reforçar com os pais que o “tempo de qualidade” para a brincadeira é preferível ao “tempo de quantidade”. São preferíveis 15/20 m., por exemplo, em que os pais apenas focam a sua atenção no estar e brincar com a criança, do que ter 3 horas em que, no meio de outras tarefas, se vai falando e interagindo. Esses momentos de “qualidade” podem mesmo ser combinados com a criança, de modo a que esta perceba que, nesse tempo, o adulto vai estar disponível só para si.
  • A brincadeira não deve ter muitos “nãos” (por exemplo: “não corras”, “não saltes”, etc). Para brincar a criança tem que se sentir numa atmosfera segura e de não ameaça, portanto, a guarda contínua dos pais e/ou educadores podem dificultar a tarefa espontânea de brincar. As crianças precisam de limites para se sentirem seguras, mas isso não significa que não possam exprimir os seus desejos, as suas alegrias e as suas tristezas (que devem ser ouvidas pelo adulto).
  • Brincar ao ar livre, onde podem ser efectuadas actividades diferentes das realizadas no espaço físico limitado da casa, ou do jardim de infância/escola. O espaço envolvente representa para as crianças um desejo muito intenso, é a ânsia de mover-se, correr, descobrir coisas novas, enfim… sentir a vida quase através dos “poros da pele”. Porém, deve também ter-se em conta que algumas crianças brincam ficando apenas a olhar, ouvir, cheirar, sentir. São prazeres passivos, inteligentes, observadores, e, por vezes, mesmo meditativos.
  • Reduzir a pressão na aprendizagem de conteúdos escolares, ainda no período pré-escolar. Nesta fase o que se torna realmente necessário é que a criança brinque, consiga enquadrar-se e socializar com o grupo, que respeite as regras da sala, que aprenda a ouvir os outros, que se concentre numa actividade (jogo, desenho, história, etc) e a conclua dentro das suas capacidades, que desenvolva a motricidade, a criatividade e a capacidade de pensar sobre as coisas. Basicamente a criança necessita de crescer, ganhar maturidade e competências pessoais e sociais, para futuramente, estar mentalmente disponível para aprender a ler, escrever e contar, quando chegar o momento de ingressar na escola.

Teresa Santos – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Stress

Imagem

Stress

Parte 1 – O que é?

A sociedade moderna encara, na maior parte das vezes, o Stress como algo negativo, mas, na sua definição, “o Stress é um conjunto de reacções orgânicas e psicológicas de adaptação que o organismo emite quando é exposto a qualquer estímulo que o excite, irrite, amedronte ou o faça muito feliz (Hans Selye) ”.

Determinados acontecimentos de vida de vários tipos como viuvez, divórcio, doença ou incapacidade física, casamento, desemprego, guerra, catástrofes naturais, nascimento de um filho, excesso de trabalho, entre outros provocam um desequilíbrio entre as solicitações que são feitas ao individuo e os recursos de que dispõe para lhes responder.

Biologicamente, face a este desequilíbrio, a hormona cortisol é produzida e libertada, aumentando a pressão arterial, o açúcar no sangue e a tensão física e psicológica. O organismo entra em modo de sobrevivência parando de renovar células e tecidos para concentrar toda a energia que consegue.

Contudo, na maioria das vezes temos e conseguimos utilizar estratégias de coping (enfrentar/lidar) para restabelecer a ordem interior, eliminando o stress. Assim, o stress só constitui um risco para a segurança e a saúde quando se torna persistente.

Podemos então diferenciar vários tipos de Stress (usando a terminologia anglo-saxónica):

Stress agudo: em situações extremas, normalmente de perigo de vida, como cenários de guerra, catástrofes naturais e acidentes em que é desencadeada a resposta de luta ou fuga

Stress crónico: oriundo da vida diária como contas, filhos, trabalho, etc., quando ignorado e persistente.

Eustress: originado por acontecimentos de vida positivos como nascimento de um filho, casamento, promoção, etc.

Distress: com origem em acontecimentos de vida negativos como viuvez, divórcio, desemprego, dificuldades no trabalho, etc.

Deve-se ressalvar que por vezes, níveis de stress medianos aumentam e melhoram o desempenho do indivíduo.

Nos casos de distress, especialmente crónico, podemos destacar vários efeitos no indivíduo:

-Emocionais: irritabilidade, ansiedade, perturbações do sono, depressão, hipocondria, alienação, esgotamento, problemas familiares;

-Cognitivos: dificuldades de concentração, de memória, de aprendizagem e de tomada de decisão;

-Comportamentais: impulsividade, abuso de substâncias, perda de apetite ou grande aumento;

-Fisiológicos: dores lombares, défice imunitário, úlceras, problemas cardíacos, hipertensão, anergia, problemas de pele.

No próxima publicação abordarei estratégias de regulação do stress por forma a, caso se encontre em stress, possa viver de uma forma mais equilibrada e consequentemente, com maior bem-estar.

Catarina Barra Vaz – Neuropsicóloga, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Desequilibradamente normal… como a torre de Pisa.

pisa

I

VÔO ONÍRICO

«Estou num hall circular rodeado de portas. Numa delas lê-se: Departamento de ESTATÍSTICA. Entro. Vejo linhas e gráficos, distribuições de indivíduos, a maior parte representada pela mesma cor, e uns quantos por cores diferentes, a maioria não é de raça branca, a maioria está mal alimentada e em extrema pobreza, a maioria tem muitas crianças que morrem. Estará a maioria da população aqui representada? A maioria será o “normal”? Isto será o “equilíbrio”? Sinto um nó no estômago, não aguento estar mais aqui.

De novo no hall, dirijo-me para outra porta. Nesta está escrito: Departamento de MEDICINA. Entro num espaço vazio, não consigo agarrar nada, parece uma câmara de despressurização, o mundo da ausência… Claro! Ambiente esterilizado, ausência de doença. Será isto a normalidade? Avanço mais um pouco e vejo duas setas, uma para a direita indica: Patologia –presença de doença ou sintomas, vou dar uma espreitadela… Parece que cheguei a uma “farmoteca”, (ou a uma “bibliofarma” –como preferirem) alinham-se prateleiras e mais prateleiras com livros e caixas, tudo numa invejável organização, e ainda mapas com taxonomias e fichas dicotómicas.. Reparo numa espécie de guarda-vento: Terapêuticas Estruturais; não resisto a espreitar pelo vidro: dum lado alinham-se instrumentos cirúrgicos, do outro uma panóplia de tubos de ensaio e canalizações de vidro com neurotransmissores a subir e a descer. Ao fundo da sala outro guarda- vento diz Gabinete de Genética. Volto ao local onde estavam as duas setas, a que apontava para o lado esquerdo dizia: Saúde. Ummm… Saúde – “Estado completo de bem-estar físico mental e social” – Será que podemos considerar que normalidade, equilíbrio e saúde (mental) são sinónimos? Curioso, aqui há outro acesso ao Gabinete de Genética e ainda um guichet onde se lê: Política Educativa e Socio-Económica.

   Enquanto penso neste assunto, saio do… hospital (era o que parecia) e regresso ao hall circular, transponho outra porta, Departamento da CULTURA. À minha frente está um quadro onde leio: “Visitei uma terra onde as pessoas punham paus com cerdas na boca e faziam sons estranhos com a garganta como se estivessem a espantar espíritos, depois cuspiam uma espuma e quando acabavam pareciam estar felizes” Que povo e que ritual excêntrico seria este? Reparo numas letras mais pequenas e curvo-me para ler: “Excerto da descrição dum aborígene do comportamento -lavar os dentes – “. Na minha mente surgem pequenos “post-it(s)”: “preconceito”, “avaliação descontextualizada”, e ainda um outro: Será o conceito de normalidade transcultural”? Só fará sentido se for!

Mais uma vez estou no hall, olho à procura de outra entrada, ali está. Nesta porta bem esculpida e trabalhada está escrito: Departamento de PROCESSOS PSICOLÓGICOS. Parece que entrei num coliseu. Uma série de equilibristas treinam, num ambiente quase circense. Não percebo qual é a pista desta porta, mas deve ter alguma…esta viagem deve ter um padrão. Penso…. Nome da porta: Departamento de Processos psicológicos… olho em volta e há várias outras portas iluminadas por entre as bancadas, posso ler junto do foco de luz o nome de algumas: Cognitivos, afetivos (vinculação), Inconscientes, de Aprendizagem, de Desenvolvimento, Estruturais… aãã? Processos estruturais? Esta porta parece-me deslocada…, talvez não, poderão os processos ser independentes da estrutura? Talvez esta porta dê também acesso à sala de genética do hospital, afinal olhando a patologia como um ponto de desembarque de causas próximas e remotas, de diátese e de stress… de vulnerabilidade e resiliência…um processo contínuo de interação entre bioquímico e ambiental, externo e interno…  Para!  Volta a concentra-te no que vês na arena central! Observo: As pessoas caem, tentam o reequilíbrio, umas vezes quase paradas outras vezes andando ou socorrendo-se de um parceiro ou de uma vara, e quando finalmente conseguem, sorriem…Sim, é isso, a normalidade enquanto processo interactivo entre o indivíduo e o meio, numa tentativa constante de equilíbrio. Uma normalidade que não é um dado adquirido, é conquistada ao longo do tempo e é conseguida num diálogo entre mudança e estabilidade, desequilíbrio e equilíbrio. Será então normalidade a possibilidade de dançar entre equilíbrio e desequilíbrio gerando bem-estar?. A facilidade em encontrar esse ponto estaria na estrutura, (diátese) a habilidade para manter, perder e readquirir esse ponto, estaria nos condicionamentos do meio (stress) e nos processos…

Ansiosamente regresso ao hall, há ainda mais portas, estou cansada, mas quero entrar numa que me pareceu de sonho. Onde era? Que dizia? Cá está ela: Departamento Utópico. Entro. Num dos cantos está uma fonte com água límpida onde, para além da minha imagem reflectida, cintilam moedas. Devo estar na fonte dos desejos. Desejos de felicidade. Vejo o reflexo na água que nunca se agarra, o brilho quimérico das moedas… e no entanto esta é a mais bela sala que visitei, parece uma galeria de arte com sonoridades celestiais…a sala do almejar… e contudo… há algo que falta.  Será a felicidade uma utopia? Deito uma moeda na fonte e a minha imagem reflectida na água movimenta-se. É isso, movimento! A única sala em que havia Vida era a anterior, a sala do Departamento de Processos Psicológicos. Parece-me ainda ouvir o eco “dança geradora de bem-estar”,

Regresso ao hall.  O sol, espraiando-se no vitral da abóbada da Torre das Portas aquece-me, quase me cega e… acordo»

II

OLHAR VIGIL

Olhemos então para a “normalidade” tentando defini-la pela positiva e enquanto conceito que deve ser transcultural, incluir aspectos estruturais (ser)(traços) e processuais (motivacionais, estar a ser, ir sendo) (dimensões), dinâmica (ir sendo com, e transformando-se a partir de, num processo de transferência,), dialéctica (em movimento constante com avanços e recuos, equilíbrios e desequilíbrios), desenvolvimentista (características sociais, educativas relacionais, auto conhecimento, etapas e fases) incluir o que o próprio sente,  reflecte e observa sobre si e os outros, e o que os outros observam, sentem e reflectem sobre ele.

A desordem não está no desequilíbrio ocasional, que faz parte do processo dinâmico dialético que é a vida, mas apenas em traços extremos, inadaptativos, inflexíveis e/ou causando sofrimento, que impedem o reencontro com o equilíbrio.

Talvez possamos dizer que a noção de normalidade, enquanto torre vertical, deve ser entendida, como mero constructo teórico, utópico, uma vez que, as várias funções (ou necessidades/identidade/ níveis/traços – dependendo dos autores -) não necessitam de um equilíbrio vertical (tal como a Torre de Pisa), nem estático, mas tão só de um equilíbrio, que mantenha intercepções (pontos de equilíbrio) de vários (factores, funções, dimensões etc.,)  ou seja sem desregulações ou disrupções do processo de desenvolvimento individual e inter-relacional.

A normalidade estará então na possibilidade e capacidade de (re)encontrar (ir encontrando) um ponto (sucessivos pontos) de equilíbrio gerador(es) de bem-estar, capaz(es) de satisfazer as necessidades do próprio concomitantemente com as necessidades do meio ao longo das várias fases da vida.

Todos nós temos a riqueza e a raridade da Torre de Pisa, variamos no grau de inclinação, no lado, na exposição solar, na ornamentação, no estilo, etc. Esse facto, dá-nos a nossa individualidade. O nosso bem-estar reside na capacidade de convivermos com essa individualidade de forma saudável, mais do que na tentativa desesperada de “sermos direitos”, de “sermos como os outros”, ou de “sermos como um (qualquer utópico) modelo”. O nosso bem-estar reside também na capacidade de evitarmos o desmoronamento, reconhecendo os exageros prolongados e a rigidez, que poderão estar a impedir o reequilíbrio. Saber viver connosco e com os outros, eis a dança mais desafiante e fantástica da vida.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Pseudodemência depressiva – quando a depressão parece demência e a demência parece depressão.

Imagem

A depressão afecta uma em dez pessoas com idades acima dos 65 anos, sendo a perturbação mais comum ao nível da saúde mental em idosos e é frequentemente desvalorizada por pacientes, técnicos de saúde e familiares, sendo considerada como parte integrante do envelhecimento.

Isto talvez porque na depressão na terceira idade, além da apatia e fraca motivação, também típicos do envelhecimento, existem normalmente poucas queixas de tristeza que, por sua vez, é muitas vezes substituída por hipocondria e preocupações somáticas. No entanto, a depressão tem vindo a aumentar reduzindo a qualidade de vida, aumentando incapacidades físicas, sendo uma das principais causas de dependência funcional de outros cuidadores para actividades da vida diária como higiene e alimentação e é uma dos maiores preditores de suicídio na terceira idade.

Muitas das vezes, a depressão na terceira idade vem acompanhada de perdas cognitivas, sendo nestes casos denominada de “pseudodemência depressiva” – o que dificulta o diagnóstico diferencial entre depressão e demência. Muitos dos sintomas depressivos como a desmotivação, apatia, embotamento afectivo, dificuldades de concentração, discurso e psicomotricidade lentificadas, são também sintomas de quadros demenciais.

Sendo assim, como podemos diferenciar depressão e demência na terceira idade?

A ordem de ocorrência dos sintomas constitui um factor que ajuda na diferenciação entre depressão e demência pois normalmente os doentes cujas alterações cognitivas procederam os sintomas depressivos parecem ter maior probabilidade de estarem a desenvolver uma “verdadeira” demência, do que aqueles nos quais a sintomatologia depressiva precedeu às alterações cognitivas.

Pessoas com depressão, catastrofizam as suas dificuldades mnésicas e podem até ter resultados inferiores à média nos testes de memória, mas isto apenas acontece, não por dificuldades mnésicas reais, mas por pouca motivação para o desempenho de tarefas. Normalmente apresentam maiores dificuldades na memória a longo prazo, o que poderá ser confirmado através de uma avaliação neuropsicologia que escrutina as várias memórias. É também fundamental avaliar se as dificuldades mnésicas se instalaram súbita ou gradualmente e se se o idoso tem historial familiar de depressão ou demência.

No entanto, muito frequentemente, um quadro clínico de demência pode acompanhar-se de depressão, o que dificulta o diagnóstico diferencial.

O diagnóstico diferencial deverá ser preferencialmente realizado por um médico especialista, nomeadamente da especialidade de Neurologia ou Psiquiatra.

De entre os vários exames complementares que poderão ser requisitados, tais como a T.A.C. (Tomografia Axial Computorizada) ou R.M. (Ressonância Magnética) crânio-encefálicas, é também aconselhável a realização de uma avaliação neuropsicológica.

A título ilustrativo deixo uma tabela com o resumo das principais diferenças entre depressão e demência na terceira idade.

    Depressão                                                        Demência

Inicio bem demarcado                                          Início indistinto

História familiar de depressão                         História familiar de demência

Queixas de perdas cognitivas                          Poucas queixas (do próprio) de                                                                                                        perdas cognitivas

História de dificuldades psicológicas            História de dificuldades psicológicas                     ou de crise de vida recente                        ou de crise de vida pouco frequente

Perdas cognitivas posteriores                       Perdas cognitivas anteriores                              à sintomatologia depressiva                       anteriores aos sintomas depressivos

Pouco esforço durante a aplicação                  Frequente luta para executar do                            exame neuropsicológico                                    as tarefas cognitivas

Maiores défices na memória                          Maiores défices na memória                                      a longo prazo                                                       a curto prazo

Melhoria de défices cognitivos                          Melhoria pouco significativa dos défices com medicação anti-depressiva                        com antidepressivos

Catarina Barra Vaz – Neuropsicóloga, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Em que consiste e quais os seus sintomas

É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

Imagem

Iniciamos hoje uma série de 4 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ? É possível prever as crises?
IV – Mitos, crenças e receios 

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda fases mista.

Durante a fase maníaca, a pessoa pode sentir-se cheia de energia, optimismo, auto-confiança, desinibida, a velocidade do pensamento está acelerada, frequentemente fala muito e depressa, saltando, por vezes, de pensamento em pensamento, como que perdendo o fio à meada, produzindo um discurso confuso ou mesmo incoerente. A memória de curto prazo pode estar afectada, tal como a capacidade de concentração, distraindo-se com uma enorme facilidade.

Pode manifestar ideias de grandiosidade que não têm qualquer fundamento real, pode estar convencido de ser muito rico ou de ter poderes divinos ou sobrenaturais. Pode estar irritável explodindo com pequenos contratempos. De igual forma, por ser muito impulsivo e irritável, é frequente envolver-se em confrontos físicos. Esta fase – a que se chama de fase maníaca – é caracterizada por uma hiperactividade física e mental. O desejo sexual aumenta, a par com desinibição, podendo envolver-se em comportamentos sexuais de risco que normalmente não empreenderia. Pode manifestar ainda uma generosidade excessiva ou descontrolada, havendo o risco de se endividar.

Há frequentemente insónia, com redução drástica da necessidade de dormir, podendo a pessoa dormir apenas 2 a 3 horas por noite.

No entanto, podem existir fases de hipomania, nas quais estes sintomas se apresentam de forma mais atenuada, com sensação de grande energia interior, pensamento mais rápido mas sem desorganização, com hiperactividade, redução da necessidade de dormir, aumento da produtividade. A pessoa poderá ainda apresentar-se mais alegre, mais expansiva e optimista.

Estas fases podem passar despercebidas aos familiares e amigos como fases dum humor anormalmente elevado, porque não há compromisso na capacidade de desempenhar o seu trabalho. Muito pelo contrário, nestas fases, a impressão de terceiros é que a pessoa, habitualmente deprimida, está numa “fase boa” ou, no máximo, “um pouco mais acelerada”.

Na fase depressiva apresenta-se triste, desmotivado, manifesta um grande cansaço, com perda da iniciativa, perda do desejo sexual, perda do interesse por si próprio e pelos outros, podendo negligenciar os cuidados pessoais e isolar-se do mundo. Pode verbalizar baixa auto-estima e sentimentos de desespero, podendo até tentar o suicídio.

A depressão pode ser major, se for muito incapacitante, com compromisso da capacidade do individuo em cumprir as suas tarefas profissionais, gerando perda de autonomia e dependência progressivamente maior de terceiros (frequentemente até para as actividades elementares da vida diária) ou, ainda, quando a depressão se revela grave pela existência persistente de ideias de suicídio. Pode ainda a pessoa apresentar sintomas psicóticos, ou seja, sintomas que revelam um corte com a realidade, apresentando crenças ou convicções que não correspondem à realidade, como por exemplo, acreditar que está na falência, que está enfermo duma doença física grave e fatal ou a convicção de ser o responsável por todos os males do mundo. Pode ainda ter alucinações auditivo-verbais, ouvir vozes sem que consiga identificar a origem destas, que o insultam, recriminam ou desmoralizam.

A depressão minor distingue-se por ser um quadro menos grave, sem uma repercussão tão grave na vida do paciente como a depressão major. Frequentes vezes, o indivíduo não sente haver necessidade de interromper a sua actividade profissional e nunca aparecem sintomas psicóticos.

São ainda muito frequentes, nas pessoas com doença bipolar, as fases mistas, em que se misturam, ao mesmo tempo, sintomas das fases maníaca e depressiva, em que a pessoa pode manifestar tristeza, chorando facilmente, mas também inquietação marcada (com uma sensação de nervoso muidinho que a impede de descansar), ansiedade muito acentuada (podendo até ter ataques de pânico), irritabilidade marcada com explosividade (podendo zangar-se com amigos e família sem grandes motivos válidos) e insónia.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta