Dialéctica entre proximidade e autonomia

“”Intimidade sem autonomia é dependência”

António Branco Vasco

Na Primavera o reino animal apaixona-se pois sai do seu casulo ficando mais disponível para os outros. Apaixonamo-nos e procuramos uma fusão com o outro como se o Eu deixasse de existir para passarmos exclusivamente a sermos Nós. Esta aproximação, além de biológica cumpre uma das nossas necessidades psicológicas vitais, a proximidade. Todos nós somos seres gregários e precisamos de nos sentir íntimos de outros e esta simbiose, na qual olhamos apenas um para o outro, ajuda-nos a sentirmo-nos compreendidos e aceites. Ficamos dependentes do olhar do outro, todo e qualquer comportamento seu tem repercussões gigantescas em nós. O outro passa a ser como o ar que respiramos, essencial à nossa existência.

Mas, como seres incomparáveis que somos, há sempre um momento em qualquer relação em que as nossas necessidades não são iguais à do outro e necessitamos de nos afirmar, expressando as nossas crenças, sentimentos ou desejos e, apesar do objectivo comum da relação, estes podem não ser concordantes como as do outro. Quando esta expressão de individuação não é aceite pelo outro ou pensamos que não a devemos manifestar surgem tensões, agressividade, afastamento ou frustração. Esta (proximidade e autonomia) é uma das dialécticas vitais à nossa existência mas também uma das mais difíceis das relações humanas.

De facto, temos de estar conscientes que este balanço entre proximidade e diferenciação é essencial ao nosso bem-estar psicológico (Modelo da Complementaridade Paradigmática, António Branco Vasco, 2001). Assim sendo, não devemos ter receio quando necessitamos de expressar a nossa individualidade ou quando o outro o faz.

Catarina Barra Vaz

Sobre a Primavera…

Passados o Outono e o Inverno, chegamos à Primavera, estação da renovação.

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Pois está na hora de voltar a olhar para fora, trazer para fora o que está aí dentro, esta é a estação.

O sol e a brisa agradável puxam-nos para sair, voltarmos-nos para o exterior e inspirarmos-nos nas árvores e nas plantas para também nós renascermos e florescermos.
Está na hora de servir à mesa o que cozinhou no Inverno, cuidar das suas necessidades, concretizar os seus projectos.

Ao contrário do Inverno, estação de questões e reflexões, esta é uma estação de acções e de afirmações. Já deve ter reparado que o meu tom neste texto é também mais afirmativo, mais directivo.
Nesta estação, pegue em si próprio e saia para a rua, feche os olhos e sorria a sentir a brisa na face e o calor do sol na pele, abra os braços e espreguice-se, arregace as mangas e ponha cá para fora o que até agora manteve apenas dentro.

  • Recupere relações que sejam importantes para si e que estejam a ficar perdidas, tome a iniciativa.
  • Arrisque nos projectos que tão bem esteve a marinar no Inverno; não se desproteja demasiado mas também não se contenha em demasia, não adie desnecessariamente, lembre-se que esta é a estação de acções e de afirmações.
  • Redecore a sua casa, pelo menos a sua casa interior, dê-lhe um toque mais leve, mais descontraído, faça por gostar de a habitar. 
  • Experimente coisas novas, actividades novas, comidas novas, pessoas novas; expanda-se e redescubra-se nestas novas experiências.

E não se esqueça, cuide de si, renove-se, esta é a estação.

Joana Fojo Ferreira
Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – IV

Mindfulness psitalk 4

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Considerações finais

Assim, o mindfulness pode ser encarado como um instrumento
à disposição de qualquer orientação psicoterapêutica.

Mas no sentido mais puro, mindfulness é um objectivo a alcançar e não um meio para atingir um fim.

No sentido último, mindfulness é tudo menos terapia, já que a terapia trata a mente com o objectivo de a adequar, enquanto instrumento, ao seu portador – adequar a mente para que este possa, com o devido treino – psicoterapia – torná-lo um instrumento valioso e adequado para que a sua vivência do mundo e de si próprio aconteça sem sofrimento desnecessário ou, havendo sofrimento, haja adquirido as competências psicológicas para o vivenciar de forma adaptativa.

No sentido budista, mindfulness é um instrumento de desidentificação com toda e qualquer vivência, interna ou externa.

Assim, a meditação budista – centrada no mindfulness – serve para a descoberta de si próprio e para a superação da identificação das vivências do Ser com o mundo externo ou interno, já que é enquanto o Ser vive convencido da realidade e substância do seu ego, identificado e iludido – é nessa ignorância de Si próprio – que reside todo o sofrimento.

Um dia um Mestre Zen foi em visita ao mosteiro de outro Mestre Zen.

Chovia muito e depois de chegar ao Mosteiro foi recebido pelo seu homónimo com esta questão:

“- Quando você chegou ao Mosteiro chovia muito?”

“-Sim, chovia bastante.”

“-Arrumou as suas sandálias e o seu guarda-chuva quando chegou?”

“-Sim, arrumei.”

“-E arrumou o guarda-chuva do lado esquerdo ou do lado direito das sandálias?”

O Mestre que havia acabado de chegar não soube responder e reza a história que ficou mais dez anos a aprender com o Mestre que o acolheu e lhe fez aquela pergunta desconcertante.

Este é um koan Zen que ouvi pela primeira vez numa aula de meditação na União Budista e a interpretação que me ocorreu é o quão pouco nós habitamos no Aqui e no Agora, o quanto passamos a maior parte do nosso tempo vigil com uma limitada consciência da nossa vivência no presente.

Frequentemente oiço dizer (e oiço-me dizer): “O tempo voa.” “Ainda ontem fiz (isto ou aquilo que aconteceu há 20 anos)”; “Parece que foi ontem (há 10 ou 20 anos) que aquilo aconteceu”.

Se é verdade que a vivência do tempo é tremendamente relativa, também é um facto que a sensação de “desperdício” é tanto mais significativa quando ganhamos consciência que vivemos a nossa vida longe do Aqui e do Agora, porque quanto mais longe do Aqui e do Agora menos intensa e habitada à a experiência humana.

Por outro lado, quando se vive com intensidade uma determinada experiência pode também acontecer esta noção de ausência de vivência temporal. Se estivermos absortos num determinado espectáculo e a viver intensamente todas as incidências do mesmo por vezes temos a percepção que o tempo “passou num ápice”.

O que aconteceria se nos dispuséssemos a aprender a viver a maior parte da nossa vida intensamente? A habitar conscientemente cada pequeno momento? A viver cada segundo com a sofreguidão de quem vai morrer amanhã?

Será que a nossa história seria a mesma?

O que seria que nos disporíamos a escrever?

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

MINDFULNESS – BUDISMO E PSICOTERAPIA – IV

Mindfulness psitalk 4

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Considerações finais

Assim, o mindfulness pode ser encarado como um instrumento
à disposição de qualquer orientação psicoterapêutica.

Mas no sentido mais puro, mindfulness é um objectivo a alcançar e não um meio para atingir um fim.

No sentido último, mindfulness é tudo menos terapia, já que a terapia trata a mente com o objectivo de a adequar, enquanto instrumento, ao seu portador – adequar a mente para que este possa, com o devido treino – psicoterapia – torná-lo um instrumento valioso e adequado para que a sua vivência do mundo e de si próprio aconteça sem sofrimento desnecessário ou, havendo sofrimento, haja adquirido as competências psicológicas para o vivenciar de forma adaptativa.

No sentido budista, mindfulness é um instrumento de desidentificação com toda e qualquer vivência, interna ou externa.

Assim, a meditação budista – centrada no mindfulness – serve para a descoberta de si próprio e para a superação da identificação das vivências do Ser com o mundo externo ou interno, já que é enquanto o Ser vive convencido da realidade e substância do seu ego, identificado e iludido – é nessa ignorância de Si próprio – que reside todo o sofrimento.

Um dia um Mestre Zen foi em visita ao mosteiro de outro Mestre Zen.

Chovia muito e depois de chegar ao Mosteiro foi recebido pelo seu homónimo com esta questão:

“- Quando você chegou ao Mosteiro chovia muito?”

“-Sim, chovia bastante.”

“-Arrumou as suas sandálias e o seu guarda-chuva quando chegou?”

“-Sim, arrumei.”

“-E arrumou o guarda-chuva do lado esquerdo ou do lado direito das sandálias?”

O Mestre que havia acabado de chegar não soube responder e reza a história que ficou mais dez anos a aprender com o Mestre que o acolheu e lhe fez aquela pergunta desconcertante.

Este é um koan Zen que ouvi pela primeira vez numa aula de meditação na União Budista e a interpretação que me ocorreu é o quão pouco nós habitamos no Aqui e no Agora, o quanto passamos a maior parte do nosso tempo vigil com uma limitada consciência da nossa vivência no presente.

Frequentemente oiço dizer (e oiço-me dizer): “O tempo voa.” “Ainda ontem fiz (isto ou aquilo que aconteceu há 20 anos)”; “Parece que foi ontem (há 10 ou 20 anos) que aquilo aconteceu”.

Se é verdade que a vivência do tempo é tremendamente relativa, também é um facto que a sensação de “desperdício” é tanto mais significativa quando ganhamos consciência que vivemos a nossa vida longe do Aqui e do Agora, porque quanto mais longe do Aqui e do Agora menos intensa e habitada à a experiência humana.

Por outro lado, quando se vive com intensidade uma determinada experiência pode também acontecer esta noção de ausência de vivência temporal. Se estivermos absortos num determinado espectáculo e a viver intensamente todas as incidências do mesmo por vezes temos a percepção que o tempo “passou num ápice”.

O que aconteceria se nos dispuséssemos a aprender a viver a maior parte da nossa vida intensamente? A habitar conscientemente cada pequeno momento? A viver cada segundo com a sofreguidão de quem vai morrer amanhã?

Será que a nossa história seria a mesma?

O que seria que nos disporíamos a escrever?

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Assertividade – Como se afirmar sem gritar.

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Diz-se que a sociedade de hoje está muito egoísta mas, na verdade, em muitos momentos sentimos dificuldade em afirmar o que somos, pensamos e sentimos em diversos contextos (profissional, social, familiar, conjugal, etc).

De facto, muitas vezes se confunde agressividade com assertividade. A grande diferença entre ambas é que na primeira afirmamos-nos atacando, não dando espaço ao/s outro/s enquanto que na segunda somos capazes de reconhecer o outro que é necessariamente diferente de nós, com as suas expectativas, crenças e sentimentos, dando-lhe espaço para manifestar-se. No fundo, para sermos assertivos temos de aceitar que eu não sou o outro nem o que o outro espera de mim, mas também o inverso, e que os conflitos, sejam internos (connosco próprios) ou externos (com outro/s) fazem parte da existência humana.

Além da aceitação da diferença e do conflito, a assertividade pressupõe auto-estima, ou seja, gostarmos de nós próprios, para termos capacidade e nos julgarmos merecedores de satisfazer as nossas necessidades. Quando a auto-estima é deficitária, por norma, temos uma atitude passiva, pondo o controlo no outro. Não reconhecemos os nossos direitos e não os reivindicamos o que pode gerar um ciclo vicioso pernicioso: “ninguém me respeita”, “abusam sempre de mim”, etc., quando somos nós próprios que o permitimos.

Existe também o comportamento manipulativo no qual, de forma discreta, damos a entender que atendemos às necessidades dos outros, mas só o fazemos para ter ganhos próprios. Primeiramente poderá ser confundido com assertividade, mas quando descoberto, minará as relações interpessoais.

É salutar que em situações em que nos sintamos mais vulneráveis adoptemos uma assertividade mais defensiva e agressiva enquanto que quando nos sentimos protegidos e aceites a tendência é uma assertividade mais passiva, pois não temos necessidade de nos afirmar.

A assertividade pode ser aprendida e desenvolvida. Habitualmente, temos mais dificuldade em determinados settings (por exemplo, não temos qualquer questão com os nossos familiares, mas não conseguirmos ser assertivos com o nosso chefe), ou seja a pessoa não se categoriza assertiva em termos absolutos mas sim contextualmente.

Ao sermos mais assertivos aumentamos o respeito por nós próprios e autoconfiança no relacionamento com os outros, não tendo uma necessidade constante de aprovação. Consequentemente, os outros respeitar-nos-ão mais e teremos relações interpessoais mais satisfatórias.

Catarina Barra Vaz

BUDISMO E PSICOTERAPIA – III

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Mindfulness na Psicoterapia

Uma definição básica de mindfulness será a de “presença consciente momento-a-momento” (“moment-by-moment awareness”).

Quando transportado para a arena psicoterapêutica, a sua definição expande-se para incluir a dimensão do não-julgamento, na definição de mindfulness de Jon Kabat-Zinn: “the awareness that emerges through paying attention on purpose, in the present moment, and nonjudgementally to the unfolding of the experience moment by moment”.

A dimensão de não-julgamento quando enfrentamos uma dificuldade física ou emocional permite que consigamos vivenciar a experiência mais próxima do que ela exactamente é.

A aceitação é outro dos objectivos do mindfulness e que surge quase por extensão do não-julgamento e traz ao mindfulness uma dimensão de conforto (“kindness or friendliness”).

Do ponto de vista da perspectiva do mindfulness, a aceitação refere-se à vontade ou disposição consciente de aceitar o que quer que aconteça momento-a-momento, tornando-se conscientes das mesmas e aceitando-as quer tragam prazer ou dor.

A aceitação não encoraja os comportamentos desadaptados.

De facto, a aceitação precede a mudança.

A dimensão do não-julgamento e, por extensão, da aceitação – incluídas na pré-atitude com que a experiência problemática é vivenciada de forma presente e consciente permitem, não apenas a exposição à situação problemática, mas também o desmantelar de eventuais condicionamentos aversivos e substituição de emoções aversivas pela dimensão da aceitação.

Por exemplo, nas Perturbações de Ansiedade, há uma aprendizagem por vezes de anos na evitação do estímulo ansiogénico e a perspectiva do confronto com o estímulo ansiogénico despoleta só por si uma vivência ansiosa.

O cliente é encorajado a estabelecer uma relação diferente e aceitante com a ansiedade, a procurar vivenciá-la com curiosidade e aceitação, sabendo que se trata duma emoção defensiva que pretendeu salvaguardá-lo de determinada experiência dolorosa.

O cliente é ensinado a olhar para a ansiedade como uma emoção “amiga” e protectora que perdeu a proporção da sua intensidade e oportunidade.

Mas, mais do que uma complicada reestruturação cognitiva, o importante é ensinar o cliente a vivenciar a ansiedade com curiosidade, sem julgamento, e com uma atitude aceitante para com a emoção e para consigo próprio.

Mais do que a simples exposição, é exposição com uma tonalidade vivencial de intensa aceitação e atitude de auto-cuidado: “Quando a ansiedade vier, e se não for muito intensa, perceba que chegou uma emoção que pretende protegê-lo. Aliás, nunca quis outra coisa, mas esta sua amiga “ansiedade” perdeu a noção de quando deve aparecer e como. Assim, aparece nos momentos mais imprevistos e sempre aos gritos. Quando ela chegar e ainda vier de mansinho, tente ouvi-la, tente percebê-la. Ela vem sempre para o proteger, para o ajudar. Não tenha medo dela. Tente compreendê-la, mesmo que lhe seja difícil. Quando ela chegar abrace-a e fique com ela um bocado. Aprenda a conhecê-la.

Se acabar por ter um ataque de pânico, não culpe a ansiedade, não se culpe.

Não some uma emoção negativa a outra.

Você está a começar a aprendizagem de uma nova relação com a sua ansiedade, e isso passa por deixar de a evitar.

Isso passa por aceitá-la. E por se aceitar.”

Mas este é apenas um exemplo da aplicação do mindfulness na terapia cognitiva, mas o mindfulness pode fazer parte de qualquer orientação psicoterapêutica.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

MINDFULNESS – BUDISMO E PSICOTERAPIA III

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Mindfulness na Psicoterapia

Uma definição básica de mindfulness será a de “presença consciente momento-a-momento” (“moment-by-moment awareness”).

Quando transportado para a arena psicoterapêutica, a sua definição expande-se para incluir a dimensão do não-julgamento, na definição de mindfulness de Jon Kabat-Zinn: “the awareness that emerges through paying attention on purpose, in the present moment, and nonjudgementally to the unfolding of the experience moment by moment”.

A dimensão de não-julgamento quando enfrentamos uma dificuldade física ou emocional permite que consigamos vivenciar a experiência mais próxima do que ela exactamente é.

A aceitação é outro dos objectivos do mindfulness e que surge quase por extensão do não-julgamento e traz ao mindfulness uma dimensão de conforto (“kindness or friendliness”).

Do ponto de vista da perspectiva do mindfulness, a aceitação refere-se à vontade ou disposição consciente de aceitar o que quer que aconteça momento-a-momento, tornando-se conscientes das mesmas e aceitando-as quer tragam prazer ou dor.

A aceitação não encoraja os comportamentos desadaptados.

De facto, a aceitação precede a mudança.

A dimensão do não-julgamento e, por extensão, da aceitação – incluídas na pré-atitude com que a experiência problemática é vivenciada de forma presente e consciente permitem, não apenas a exposição à situação problemática, mas também o desmantelar de eventuais condicionamentos aversivos e substituição de emoções aversivas pela dimensão da aceitação.

Por exemplo, nas Perturbações de Ansiedade, há uma aprendizagem por vezes de anos na evitação do estímulo ansiogénico e a perspectiva do confronto com o estímulo ansiogénico despoleta só por si uma vivência ansiosa.

O cliente é encorajado a estabelecer uma relação diferente e aceitante com a ansiedade, a procurar vivenciá-la com curiosidade e aceitação, sabendo que se trata duma emoção defensiva que pretendeu salvaguardá-lo de determinada experiência dolorosa.

O cliente é ensinado a olhar para a ansiedade como uma emoção “amiga” e protectora que perdeu a proporção da sua intensidade e oportunidade.

Mas, mais do que uma complicada reestruturação cognitiva, o importante é ensinar o cliente a vivenciar a ansiedade com curiosidade, sem julgamento, e com uma atitude aceitante para com a emoção e para consigo próprio.

Mais do que a simples exposição, é exposição com uma tonalidade vivencial de intensa aceitação e atitude de auto-cuidado: “Quando a ansiedade vier, e se não for muito intensa, perceba que chegou uma emoção que pretende protegê-lo. Aliás, nunca quis outra coisa, mas esta sua amiga “ansiedade” perdeu a noção de quando deve aparecer e como. Assim, aparece nos momentos mais imprevistos e sempre aos gritos. Quando ela chegar e ainda vier de mansinho, tente ouvi-la, tente percebê-la. Ela vem sempre para o proteger, para o ajudar. Não tenha medo dela. Tente compreendê-la, mesmo que lhe seja difícil. Quando ela chegar abrace-a e fique com ela um bocado. Aprenda a conhecê-la.

Se acabar por ter um ataque de pânico, não culpe a ansiedade, não se culpe.

Não some uma emoção negativa a outra.

Você está a começar a aprendizagem de uma nova relação com a sua ansiedade, e isso passa por deixar de a evitar.

Isso passa por aceitá-la. E por se aceitar.”

Mas este é apenas um exemplo da aplicação do mindfulness na terapia cognitiva, mas o mindfulness pode fazer parte de qualquer orientação psicoterapêutica.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Querer é Poder – Motivação em Psicoterapia

Querer é Poder, diz a sabedoria popular. Efectivamente, faz parte do senso comum a ideia de que o alcance de metas ou objectivos pessoalmente significativos depende em larga medida de factores motivacionais, ou seja, que a motivação é um factor de sucesso para qualquer processo de mudança.

Mas, então, de que falamos quando falamos de motivação? Referimos-nos a uma disposição do indivíduo para agir de forma dirigida a metas que valoriza. No entanto, esta não é uma dimensão de tudo ou nada, em que uns bem-aventurados são abençoados por esta graça enquanto outros estão condenados a viver insatisfeitos com a sua situação presente mas sem a força motriz para iniciar a mudança desejada. Pelo contrário, trata-se de um composto de diferentes dimensões, passíveis de desenvolvimento e optimização.

Uma das dimensões importantes para a motivação é a insatisfação com o estado actual relativo às mais diversas matérias, sendo que só esse desejo de mudança possibilita e incentiva o esforço necessário para a alcançar. No entanto, podemos identificar diferentes motivos por que a pessoa deseja a mudança, sejam eles mais externos ou mais interiorizados. Por exemplo, comparemos um adolescente que ajuda os pais nas tarefas domésticas porque sabe que terá um reforço da sua mesada (motivo externo) com outro que ajuda nas tarefas porque gosta de ver a casa arrumada, isto é, que interiorizou as razões para a sua contribuição. Não é difícil imaginar o que aconteceria se o reforço externo – o aumento da mesada – desaparecesse, a participação muito provavelmente desapareceria no primeiro caso, enquanto no segundo não afectaria o comportamento do adolescente.

Este exemplo ilustra um dos princípios base da teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985), isto é, de que todo o comportamento humano pode ser compreendido como se enquadrando num contínuo entre a regulação externa ou motivação extrínseca e a autonomia, ou verdadeira auto-regulação, e que esta última é mais estável e duradoura e tem mais efeitos positivos sobre o bem-estar do que a regulação controlada pelo exterior.

De igual modo, quando alguém inicia um processo psicoterapêutico certamente é porque se encontra insatisfeito com alguma esfera da sua vida pessoal, seja ela na relação consigo mesmo ou com os outros. No entanto, os motivos para a sua insatisfação poderão ser externos – “Acho que não tenho nenhum problema com o álcool, mas a minha mulher já me ameaçou com o divórcio se não parar de beber” – ou internos – “Não consigo controlar o consumo de álcool o que só me tem trazido dissabores”. Daqui decorre que o trabalho a realizar no primeiro caso será explorar inicialmente motivos internos para a mudança, ou seja, perceber de que modo é que o consumo de álcool colide com valores centrais do indivíduo antes de encetar qualquer tentativa de controle do consumo, enquanto no segundo se poderá trabalhar mais rapidamente as estratégias para redução e/ou eliminação do consumo de álcool.

Efectivamente, uma das premissas da Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985) defende que na presença de determinadas condições de apoio, a motivação previamente controlada pelo exterior pode ser interiorizada e transformada em motivação autónoma. Então e que condições de apoio são essas? Os contextos que mais satisfazem as necessidades psicológicas do indivíduo são aqueles que mais apoiam o seu processo de interiorização.

 

Necessidades Psicológicas:

  • Relação: necessidade de experienciar uma ligação com os outros e de ter relações sociais satisfatórias e apoiantes;
  • Autonomia: necessidade de se sentir autónomo nas suas acções, em vez de se sentir controlado ou coagido a agir;
  • Competência: confiança nas suas aptidões e na capacidade de alcançar resultados.

 

Daqui decorre que o/a psicoterapeuta será tão mais eficaz no apoio ao desenvolvimento da motivação para a mudança quanto estabelecer uma relação de trabalho com a pessoa em que esta se sinta valorizada e a sua perspectiva do problema respeitada, em que se definam objectivos escolhidos pelo cliente e face aos quais identifique motivos internos para a mudança. Alcançadas estas duas etapas, poder-se-á então estimular a confiança e competência do próprio para mudar a sua forma de pensar, sentir e/ou agir de modo a ficar mais satisfeito na relação consigo, com os outros ou com o mundo que o rodeia.

 

Resumindo, em psicoterapia, a acção é filha do pensamento. É na relação terapêutica que se estimula a reflexão sobre o problema que o indivíduo tem em mãos e sobre os resultados que quer alcançar, para que a mudança, quando ocorra, seja afectiva e efectiva.

 

Inês Simões

A vivência saudável do luto (ou quando chorar faz bem)…

O luto é sofrimento, é a dor que uma pessoa sente na perda de alguém ou de alguma coisa que é fundamental para sua estabilidade. Esta perda pode corresponder não só à perda de um parente, de um cônjuge, um filho, um amigo, ou também uma doença, um trabalho, uma casa. É um choque no qual a pessoa perde a vontade de trabalhar, ou mesmo, de viver. O mundo de cores esmorece-se, como se o tempo parasse e se fixasse naquele acontecimento. O Luto, tal como outros traumatismos, pode ser vivido como algo insuperável, com a impressão de que o mundo vai desabar e um sentimento de grande desnorte.

Num luto, aparecem sentimentos tais como a tristeza, a raiva, a culpa, a ansiedade, a solidão, a fadiga e o desamparo.

Estes sentimentos não são sinais de doença.

O luto é uma reacção normal e adaptativa a uma situação de perda.

Segundo o investigador Bowlby, aqueles que evitam vivenciar o luto conscientemente, sucumbem à depressão ou pode desenvolver doenças psicossomáticas como eczemas, asmas, úlceras, dores de costas ou enxaquecas.

O registo cultural da sociedade ocidental não favorece a expressão dos sentimentos de dor. Antes estimula a pessoa voltar a vida normal o mais rápido possível. Ensina igualmente o controlo de si e a sofrer em silêncio sem mostrar os sentimentos.

Antigamente, existiam muitos mais rituais de luto. Os mais próximos reuniam-se, vestiam-se de preto e organizavam refeições de convívio. As pessoas falavam assim do desaparecido e em conjunto lembravam-se dos bons momentos passados juntos. Esses rituais possibilitavam voltar à vida social, profissional e afectiva de forma menos dolorosa, por terem tido a oportunidade de assimilar e evoluir na emoção da dor.

Na realidade, o luto não é um estado, mas um processo.

“Estar de luto” é estar fechado no sentimento de dor e de sofrimento, ou seja, é como viver na dor unicamente.

Mas, “fazer o luto” é estar num processo emocional que leva à aceitação de emoções.

Neste sentido, o autor John William Worden define 4 etapas de luto saudável que podem se tornar patológicas quando a pessoa em luto não as ultrapassa.

A primeira etapa é “aceitar a realidade da perda”. Muito frequentemente a dor é muito intensa e pode levar à entrada num estado de “negação”, em que há uma recusa da pessoa em acreditar no que está a acontecer. Neste caso, a psicoterapia ajuda a ultrapassar o estado de negação, aceitando o acontecimento.

Depois aparece a segunda etapa que é “elaborar a dor da perda”. Ora, nem todos vivem a dor com a mesma intensidade e pode se tornar difícil se a pessoa não a consegue identificar. Neste caso, a pessoa em luto usa estratégias como por exemplo parar o pensamento para não sentir, desenvolver pensamentos de desprazeres sobre a pessoa que morreu, ou mesmo, idealizar a pessoa que faleceu. A psicoterapia permite a pessoa aperceber-se da dificuldade em sentir. A pessoa consegue passar ao passo seguinte quando identifica a dor do luto que não é só emocional, mas também física e comportamental.

Na terceira etapa, a pessoa em luto tem que “se adaptar e ajustar ao meio ambiente”. Por ter perdido com a morte certos papéis que tinha anteriormente, a pessoa necessita de recriar um novo papel diante da sociedade. A pessoa pode desenvolver muitas dificuldades de adaptação e de ajuste ao novo meio ambiente. Para certos casos de lutos, a pessoa precisa igualmente de se ajustar aos valores fundamentais da vida. Todas estas dificuldades são trabalhadas na psicoterapia de forma que a pessoa possa passar para uma nova fase.

A última etapa é “deslocar a emoção”. Nesta fase, quando atingida, a pessoa consegue pensar e falar da pessoa que morreu sem dor. É um sinal que terminou o luto, não significando que a pessoa deixe de ter sentimentos de tristeza ou que tenha esquecido a pessoa que faleceu. Esta fase é igualmente trabalhada numa psicoterapia. O objectivo de ajudar a fazer o luto é que a pessoa não carregue esta dor para o resto da vida.

Por fim, uma nota acerca de como falar com uma pessoa que acabou de perder alguém.

Devem-se evitar comentários como; “vais ver, vais conseguir ultrapassar”, “vais voltar a fazer a tua vida”, “com o tempo tudo voltara ao normal”, “teve o seu tempo na terra”, “faz outra criança e vais ver que vais esquecer”. Estes comentários não ajudam, porque estão em contracorrente com a tristeza avassaladora que a pessoa em luto está a sentir.

Muitas vezes é melhor ficar em silêncio. A simples presença da família e dos amigos é já por si muito reconfortante. Se escolher falar, pode usar uma forma mais apoiante, em que opte por validar os sentimentos que estão a ser vividos: “É tão catastrófico que não tenho palavras, mas gosto muito de ti”.

A psicoterapia é de grande ajuda para a pessoa em luto.Esta tem a oportunidade aceitar a sua perda, entrar em contacto com a sua dor, elaborar acerca dela e redescobrir o seu lugar no mundo, em relação a si mesma e aos outros.

Magali Stobbaerts

BUDISMO E PSICOTERAPIA – II

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Voltar ao estado de recém-nascido

O desapego e a desidentificação são, assim, dois dos pilares fundamentais do pensamento budista.

A prática de mindfulness, mais do que uma finalidade em si mesma, é para o budista a etapa última no processo de desapego e desidentificação.

Desapegado dos desejos comuns à maioria dos seres humanos o aspirante já não vive a vida quotidiana mergulhado num sem número de projectos e actividades que visam a satisfação dos mesmos – já não almeja prazer, nem poder, nem status, nem posses materiais, nem vive obcecado com a ideia do sofrimento se não conseguir satisfazer o objecto dos seus desejos e por fim vive desapegado da vida e do medo de morrer.

Mas o passo mais difícil é o da desidentificação das próprias emoções e pensamentos, já que não é tão óbvio, mesmo para quem tenha uma educação budista, que os pensamentos, emoções e pensamentos não sejam mais do que instrumentos que o Ser utiliza, tal como a roupa que veste ou os alimentos que ingere.

Na prática do mindfulness o aspirante permite que os pensamentos, as emoções e as sensações aconteçam com a pré-atitude de se desapegar dos mesmos, de os vivenciar sem neles se reter, deixando-os fluir como fotogramas de um filme que se desenrola à frente dos seus olhos, sem se comprometer na construção de qualquer narrativa ou interpretação dos mesmos.

Não se trata de parar de pensar ou parar de sentir até porque, numa fase inicial, é simplesmente impossível que tal aconteça.

Uma imagem budista retrata a mente como uma macaco agitado que passa o tempo todo disponível a saltar de galho em galho, em livre associação, sem qualquer disciplina e a esmagadora maioria dos seres humanos vive a maior parte da sua vida entretido e adormecido a acompanhar cada salto do macaco e a identificar-se com todos os movimentos destes.

No mindfulness o aspirante sabe que o macaco não vai parar de saltar – é da natureza da mente não estar quieta – o macaco vai continuar, durante algum tempo, a saltar de galho em galho, de pensamento em pensamento, de emoção em emoção – a diferença é que o aspirante se decide a parar de prestar atenção aos saltos do macaco e a valorizá-los como se os seus pensamentos fossem a única vida psíquica possível.

O aspirante não vai poder ignorar os pensamentos, as emoções e as sensações, mas também não se vai deter neles. Sabendo que qualquer evento psíquico é efémero, vai deixar de lhes prestar atenção.

Aos poucos – diz a experiência dos praticantes – a mente começa a acalmar, os pensamentos tornam-se menos frequentes e começa a haver espaços entre os pensamentos – como se o habitual nevoeiro de ruído psíquico se começasse a dissipar.

Aqui surge habitualmente a pergunta: então o que fica se pararmos de pensar?                    Um vazio?

Para uma mente viciada na actividade cognitiva, emocional e sensorial compulsiva, a ideia de um vazio sem pensamentos, emoções ou sensações é sentida com horror, como se o mindfulness fosse um mero exercício de niilismo psíquico.

O que sobra quando o nevoeiro se dissipa não é certamente e apenas a ausência de nevoeiro.

Para quem consiga experimentar, os primeiros momentos de mindfulness são vividos com uma lucidez e uma clareza antes desconhecida e uma paz interior igualmente inédita.

No mindfulness não sobra o vazio, mas antes a consciência pura que subjaz, não só a todos os eventos psíquicos, mas à própria consciência de Si.

Mindfulness é a consciência de si próprio não contaminada pela actividade compulsiva da mente.

Mindfulness é a consciência a vivenciar-se a si própria.

Pela primeira vez, o aspirante pode ter uma noção clara e límpida da consciência pura que traz dentro de si, sem qualquer condicionamento, sem qualquer juízo de valor, sem história anterior, sem ansiedade pelo futuro.

Não é sequer preciso prestar atenção a coisa nenhuma porque a consciência pura é atenta por natureza.

Difícil de compreender?

Um dia permita-se observar um bebé que ainda não saiba proferir uma única palavra.

Observe-o num momento em que ele não sinta fome, nem sede, não sinta sono, nem qualquer outro desconforto físico.

Olhe e observe-o.

Vai perceber que ele está extremamente atento e, ao mesmo tempo, na vivência duma imensa paz, uma quietude inenarrável.

Onde ele está?

Onde todos deveríamos estar: no Aqui e no Agora.

Nós não temos outro remédio senão viver no aqui e no Agora.

A única escolha que nos é permitida é a de tentar fazê-lo com consciência ou sem ela.

Assim sendo, não é possível estar senão no Aqui e no Agora.

Sem nevoeiro, se possível.

Então mindfulness é isso?

Voltar ao estado da mente que eu tinha quando era um recém-nascido?

Tire a mente da equação.

E agora tente…

Mindfulness é a vivência do Ser que vivencia a consciência pura.

Sem mente.

(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta