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Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com https://psiworks.pt Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

O Eu no nascimento de um filho

Falamos constantemente no filho sonhado, já imaginado como Ser antes de o ser, de como na nossa mente surgem imagens dos seus olhos, cor do cabelo, até de como será quando for grande.

Deseja-se e prepara-se um filho sonhando-o em casal ou nos momentos de quietude em que guardamos a imagem só para nós.

Podemos ter já a preocupação do que acontecerá ao casal enquanto relação a dois para além do trio que se forma, para além do pai e mãe que nascem. E possível e importante planear esta manutenção de espaço a dois, que será menor concerteza e aceitar que dentro do espaço família, ainda que numa fase inicial a indisponibilidade para se ser a dois seja maior, a dinâmica muda. Somos casal, somos pai, somos mãe e somos pais. As atenções, cuidados e amor estão muito direcionados, se não totalmente, para aquele que é o nosso bebé.

A par com todas estas mudanças de papéis, existe um lado prático. As tarefas multiplicam-se, o cansaço acumula-se, o tempo diminui e escapa. Podemos e devemos também preparar-nos para estes primeiros momentos mais exigentes, recorrendo a nossa rede de suporte, delegando tarefas, pedindo ajuda.

Quantos mais “tenho que fazer” conseguirmos delegar, mais tempo e espaço mental teremos para nos dedicarmos ao amor incondicional de cuidar do nosso bebé e de nos cuidarmos enquanto casal.

Contudo, falamos de papéis, de pai, mãe, casal. E o Eu? O que acontece ao Eu individual? O Eu que lia, que cultivava um certo desapego agora aparentemente impossível.

A mãe, não que não se depare com esta perda temporária de ser, existir individualmente, começa este processo de aceitação e partilha desde o momento em que o próprio corpo deixa de ser apenas dela. A adaptação a uma perda que será sempre temporária de se existir enquanto ser individual comeca 40 semanas antes do nascimento. Abdica da forma física, de vícios, de determinados alimentos e já não é só uma mas duas desde a concepção. O que não impede que sinta esta perda do Eu aquando do nascimento do filho, implica apenas que idealmente esta abdicação, espaço mental e emocional para o bebé já começou 9 meses antes.

O pai vive esta experiência de forma necessariamente diferente. Não significando que não partilha todas as fases da gravidez, que não tenha uma atitude empática, que não altere a sua rotina ou empenho no trabalho em prol da família alargada que se desenha, fá-lo de forma externa. O confronto com a perda do espaço individual ocorre aquando do nascimento do filho.

As solicitações e disponibilidade, a abdicação, o cuidar do bebé, a maior ajuda nas tarefas domésticas que se multiplicam, a par de um regresso a vida laboral que ocorre normalmente antes do da mãe, podem levar a um sentimento de opressão, de morte do Eu naquilo que era a sua liberdade individual de cumprir-se enquanto ser único.

Poder-se-a cumprir e realizar enquanto pai, marido, casal ou profissional. E tal pode ser suficiente e preenchê-lo. Todavia pode também conduzir a uma necessidade de fuga, de um regresso a um tempo e um espaço em que se era por si só, quando não há aceitação que esta é uma fase mais exigente e absorvente. Porque o sempre e o nunca são palavras perigosas e não reais. Porque a projeção no futuro de um espaço individual que nunca mais existirá oprimira qualquer um que se preze enquanto Eu.

Aceitemos então este momento de dedicação ao ser amado, acabado de nascer. E reencontrar-nos-emos depois enquanto ser individual nesta nova dinâmica, conciliando-o com todos os outros pápeis que desempenhamos. Porque a vida fluie e mudança e adaptação são constantes. E o Eu permanecerá e terá tempo e espaço. E é também na relação e na família que se trabalham e respeitam os espaços para se ser – Eu, Tu, o Pai, a Mãe, o Bebé, o Casal.

“Larga a pedra da margem do rio, a do que já foi e flui com a água para aquilo que é Agora, construindo o que será depois.”

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta

Elogio -benefício e dependência-, Auto-estima e Bem-estar

elogio

O elogio pode definir-se como sendo um louvor, ou seja, é a expressão de uma opinião favorável e de apreço por alguma coisa e, ou, por alguém.

O apreço, é um componente do amor e da amizade. Todos nós, enquanto seres sociais e em relação, gostamos de nos sentir apreciados pelos que nos são mais próximos e significativos, pois essa é uma forma de nos sentirmos gostados e amados.

Um indivíduo adulto, em princípio, não deve ter necessidade de ser elogiado por pessoas que não lhe sejam particularmente chegadas, embora possa gostar de sentir o seu trabalho reconhecido, pois isso reforça o seu sentido de competência.

A investigação já mostrou o caminho que conduz as crianças a tornarem-se adultos autónomos, sem necessidade absoluta de reforços externos (o que não significa não ver o seu trabalho dignamente remunerado ou respeitado). A Teoria da auto-determinação de Ryan e Deci, diz-nos que a motivação regulada por factores externos (como, por exemplo, o elogio), será posteriormente introjectada, depois identificada e integrada, isto é, transformar-se-á, progressivamente, numa motivação muito próxima da intrínseca, que não necessita de reforço externo e que nos é natural. Para que este caminho seja possível é necessário que a criança se vá sentindo:

competente (ter confiança nas suas capacidades para conseguir os seus objectivos)

,– autónoma (sentir algum grau de liberdade – adaptada à idade – para tomar as suas decisões sem se sentir pressionada ou recriminada) e

– apoiada (ter relações interpessoais satisfatórias e colaborativas).

Assim, podemos perceber que a ausência de elogios sinceros específicos e bem orientados na infância contribui para a pouca perceção de competência.

Este facto poderá reflectir-se na vida adulta, quer ao nível das tomadas de decisão na vida pessoal e profissional, quer ao nível da dependência do elogio, para ser possível sentir algum valor pessoal. Como se a essência da pessoa tivesse ficado nas mãos de outros a quem atribuímos o poder de a controlar…

Não havendo reconhecimento externo, ou a pessoa aprendeu a funcionar suficientemente bem com os seus padrões e reforços internos, ou seja, independentes do reforço externo que recebe, ou a sua motivação diminui, podendo mesmo conduzir a estados depressivos.

O elogio e a crítica construtiva são guias preciosos de orientação para se perceber o que fazer e como fazer.

Pode ser mais importante uma crítica construtiva, do que um falso elogio. A crítica nunca deve ser humilhante e não deve ser dirigida à pessoa, mas sim ao seu comportamento específico em determinada circunstância. Uma criança nunca deve sentir que o amor por ela está, ou fica posto, em causa “se”… (qualquer coisa que não agrade aos pais).

Se tudo é sempre bom e elogiado ou se tudo é sempre mau e nunca elogiado, a criança não tem guias externos que possa ir interiorizando ao logo do seu desenvolvimento.

O elogio deve ser específico a determinada tarefa ou comportamento, contribuindo, assim, para que a criança se aperceba do que é capaz (percepção de auto-eficácia) e sirva, também, como guia motivador do caminho a seguir.

Quando elogiamos alguém, devemos ser genuínos, não bajuladores ou manipuladores, focando-nos no que queremos elogiar. Os elogios devem dirigir-se ao empenho, envolvimento, método, bem-estar, auto-satisfação, etc.

A criança deve ser elogiada sobretudo no sentido de se sentir bem com o que faz, devendo ser realçado: o empenho com que se dedicou à tarefa, a satisfação que sentiu ao fazê-la ou ao terminá-la, o tempo que lhe dedicou, ou as descobertas que fez no percurso. Porque, se o resultado não foi bom, não vale a pena dizer que foi. Contudo, se o empenho foi grande, se o trabalho foi bem planeado, ou feito com dedicação, então essa deve ser a parte a merecer o elogio.

Isto não é o que algumas escolas obcecadas com rankings, ou empresas, querem ouvir, mas o importante para o bem-estar psicológico do indivíduo é o processo e não o resultado.

Quando se elogiam os resultados e não os processos, estamos a transmitir um sinal de que o importante é chegar lá e não como chegar lá. (Daí à batota e à corrupção vai um passo). Além disso, não estaremos a contribuir para o saborear dos processos, nem para a sua introjecção, dificultando assim, a integração da motivação, e contribuindo para que se mantenha a necessidade de reforço externo. Ao premiar resultados, que podem ter pouco a ver com o trabalho e a realidade específica da criança, podemos estar a definir metas absolutas, que para alguns serão inatingíveis, o que fará com que se desmotivem, à partida, para qualquer trabalho que, sabem, nunca irá chegar aos resultados que são esperados, e os únicos que, aparentemente, merecem ser elogiados. A criança, em vez de aprender a tirar satisfação do que faz e dos seus próprios progressos, aprende que há um lugar inatingível onde ela nunca chegará, podendo sentir-se responsável pela desilusão dos seus pais que não se podem orgulhar dela. Fica assim esquecido, o valor fundamental da auto-realização, continuando-se a fomentar a dependência da “cenoura” (reforço externo) para se ter a sensação de sucesso.

Este tipo de ênfase conduz, na maior parte das vezes a adultos que, sendo bons ou mesmo muito bons no que fazem, (e teoricamente bem sucedidos) encerram em si, uma enorme sensação de vazio, de ansiedade generalizada e de desconhecimento de si próprios, vivendo quase permanentemente em desassossego e com uma auto-estima baixa, apesar dos “sucessos”.

A baixa auto-estima está sobretudo associada a uma expressão deficiente dos afectos, ou seja, a um amor que é percebido pela criança como sendo condicional e relacionado com os seus feitos, resultados ou comportamentos.

As crianças com baixa auto-estima não se sentem amadas pelo que são, mas pelo que fazem

A baixa auto-estima está associada a dois estilos educativos, nomeadamente ao estilo autoritário com altos graus de exigência combinado com pouca demonstração de afecto e ao estilo permissivo, ou seja, sem regras e afectivamente desligado. No primeiro caso, os elogios são muito raros, pois a criança necessita de atingir os altos padrões exigidos pelos pais, e ainda assim, o elogio pode vir com um “mas”, como é o caso de frases como: «Estiveste bem, mas não fizeste mais do que a tua obrigação», ou «Nada mal, mas podias ter feito ainda melhor». É assim passada a ideia de que nunca nada é suficiente para se merecer um elogio (sem “mas”), ou para se estar à altura das expectativas dos pais/cuidadores. No segundo caso, pode haver elogios, só que estes são arbitrários, sem critério, o mesmo podendo acontecer com as críticas que podem “chover”, aleatoriamente, pois não há uma real atenção à criança nem às suas necessidades. Elogios e críticas surgem assim ligados à boa ou má disposição dos pais, e não a qualquer tentativa de guiar a criança com coerência.

Um dos objectivos da educação – e da psicoterapia, enquanto reexperienciação e reparação de processos danosos – será tornar o adulto capaz de ser juiz de si próprio, logo, capaz de se conhecer e saber avaliar o seu trabalho, e sentir quando está plenamente satisfeito com o que fez, ou não. Esta regulação entre a auto-satisfação e a tolerância à auto-insatisfação é essencial para a nossa sensação de Realização Pessoal e de Bem-estar Psicológico

A auto-satisfação terá tendência a proporcionar tranquilidade, enquanto a auto-insatisfação poderá funcionar como motivação para a aprendizagem.

Se nos reportarmos ao Modelo de Complementaridade Paradigmática (MCP) de António Branco Vasco, um, dos sete pares de necessidades psicológicas, é precisamente: Tranquilidade —- Actualização/exploração. Outro dos pares é: Auto-estima —- Auto-crítica.

Será fácil perceber a importância do elogio e da crítica construtiva durante a infância, para a boa regulação destas duas necessidades, de polaridades opostas, mas dialeticamente complementares; por um lado, a capacidade para a pessoa se sentir satisfeita consigo própria (auto-estima) e por outro lado, a capacidade para identificar, tolerar e aprender com insatisfações pessoais (auto-crítica).

De acordo com o autor do MCP, é, precisamente, o processo contínuo de negociação e balanceamento das duas polaridades que permite o Bem-estar Psicológico.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

 

A trágica magia das emoções:

“Se eu não ligar, vai desaparecer.”

magia das emoçoes

Reconhecer e gerir emoções são sem dúvida algumas das grandes mais-valias associadas a um processo psicoterapêutico. A dificuldade em identificar e expressar o que se sente, para algumas pessoas surge como algo muito assustador começando elas a desenvolver, ao longo da vida, estratégias de evitamento das suas emoções com o objectivo de não serem vítimas das mesmas. Isto acontece, sobretudo, porque a ideia de se ser uma pessoa que expressa emoções é facilmente confundida com a ideia de ser uma pessoa emocional e esta, por sua vez, com a de ser uma pessoa descontrolada e/ou fraca.

A forma como nos damos conta das nossas emoções é através das nossas sensações internas. São estas sensações que nos informam sobre as emoções que sentimos.  Grosso modo, pessoas com dificuldade de gestão emocional não conseguem identificar as suas sensações internas e traduzi-las em emoções porque facilmente se desligam ou desviam a sua atenção das mesmas. A grande maioria das vezes, o que lhes serve de base para fazerem isto chama-se medo, e também é uma emoção. Outras quando dão por si já estão inundadas emocionalmente e começam a expressar-se abertamente ao mundo quando na realidade o que desejavam era esconder o que sentem.

Para identificar e gerir emoções é preciso acolhê-las. Quando temos medo das nossas emoções procuramos lutar contra elas (rejeitando-as) e esta é a melhor maneira de lhes dar força. Aceitá-las é bem mais eficaz porque quando reconhecidas e escutadas, elas acalmam-se.

As emoções são movimentos da nossa vida interior por isso acolha-as com ternura e respeito. Sendo empáticos connosco próprios, elas não têm necessidade de solução. A única coisa de que se tem necessidade quando se vive uma emoção… é poder vivê-la até ao fim. Imagine o cenário de estar em casa (i.e. dentro do seu corpo), ouvir os passos de alguém em direcção à sua porta (i.e. aperceber-se de uma sensação ainda não identificada no seu corpo) e alguém lhe bater à porta (i.e. dar-se conta definitivamente de que aquela sensação corresponde a determinada emoção). Se não lhe abrir a porta (distraindo-se com outra coisa) vai conseguir com que fique do lado de fora, por algum tempo, mas ela vai insistir novamente para entrar. Com isto, pode começar a sentir uma sensação de pressão/tensão porque existe um rio de energia fora da sua casa que quer entrar e você não deixa. Sabemos que vai querer entrar, nem que seja por uma janela, porque a mensagem que aquela emoção lhe traz é importante para si (i.e. que está triste, zangado, revoltado ou até que gosta de alguém). Insistindo em não deixar entrar, aquilo que vai acontecer, sobretudo se for prolongado no tempo, é que começará a ganhar a sensação de que venceu a batalha e se protegeu do efeito daquela emoção em si próprio. Mas na realidade aquilo que acontece é que, como está numa luta contra aspectos de si próprio, ao afastá-los irá afastar-se do verdadeiro conhecimento de si. Mantida esta estratégia de evitamento pode, com o passar dos anos, começar a sentir-se cansado, entorpecido, preso, confuso e, por vezes, ser mesmo assaltado por uma tristeza ou um medo estranhos. Mesmo quando a vida até nem lhe corre mal.

Por isto, o melhor mesmo é abrir a porta à emoção, deixá-la entrar na sua sala estar, sentar-se com ela e deixá-la percorrer livremente o seu espaço apercebendo-se de que sensações o(a) faz sentir. Por exemplo, se for tristeza pode sentir necessidade de chorar, se for medo, um aperto no estômago, se for zanga, uma vontade de se mexer e libertar-se, se for amor, um quente no peito que encaixa/devolve o coração à sua caixinha. Dê-lhe atenção e assim perceberá mais facilmente a mensagem que lhe traz. Aperceba-se de como e onde a emoção está no seu corpo e pode até falar com ela para melhor a descodificar. Para isto pode fazer-lhe algumas perguntas como: o que é que eu quero, de que é que eu preciso, o que é que me apetece. As respostas a estas questões vão ajudá-lo a perceber o que a sua emoção precisa e isso vai ajudá-lo(a) a acalmar-se no corpo, tornando um visitante indesejável num hóspede conhecido. É bem melhor autorizar a entrada de alguém em nossa casa do que ser vítima de um assalto, não acha?

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga e Psicoterapeuta

“Deixar fazer tudo ou não deixar fazer nada… Estará no meio a virtude?”

estilos parent

Os estilos e práticas parentais parecem ter um papel fundamental na socialização, podendo facilitar ou dificultar os vários desafios que se apresentam ao adolescente (Sprinthall & Collins, 1999), uma vez que os pais têm um papel fulcral de suporte emocional (Wenz-Gross et al., 1997). Os modelos parentais, as expectativas e os métodos educativos determinam largamente o reportório de comportamentos da criança, bem como as suas atitudes e objectivos, verificando-se que a família (primeiro grupo social da criança) tem um papel decisivo no desenvolvimento da criança (Camacho, 2009), na transmissão de atitudes, regras e comportamentos que estão na base de tomada de decisões com consequências a longo prazo (Simões, Matos, Ferreira, & Tomé, 2009).

A literatura apresenta 3 estilos parentais, usados por pais na educação dos filhos (Baumerind, 1987): estilo autoritário, estilo permissivo e estilo democrático (muitas vezes traduzido como autoritativo, numa alusão incorrecta ao termo inglês authoritative). O estilo autoritário apresenta elevados níveis de controlo e padrões de comportamento muito rígidos, envolvendo a punição e a violência como formas de reposição da autoridade (relativamente à qual foram violadas as normas instituídas). Este estilo parental está associado a um ambiente familiar pouco afectivo. O estilo permissivo encontra-se em oposição ao estilo autoritário, existindo poucas ou nenhumas regras e, como tal, a violação das normas e consequente punição é algo que não existe. Geralmente prevalece a vontade da criança ou do adolescente. O estilo democrático diferencia-se dos anteriores, na medida em que envolve um elevado controlo comportamental, e, simultaneamente, um elevado nível de suporte e afectividade. Constitui-se como um estilo que promove a independência e sentido de responsabilidade, identificando os pais como figuras de autoridade, mas uma autoridade fundamentada. A definição de regra é realizada tendo em atenção as necessidades e interesses dos jovens, bem como a explicação das consequências associadas aos comportamentos, e, este estilo associa-se a uma maior assertividade e responsabilidade social dos jovens.

As práticas que definem um estilo parental parecem ser algo mais ou menos estável nas famílias (Loeber et al. 2000). No entanto, a eficácia de determinado estilo parental está também dependente das características da própria criança, e, por exemplo, as crianças fortemente reactivas e muito irritáveis, estão em risco de desenvolver problemas de comportamento se os pais utilizarem um estilo com elevados níveis de punição ou baixos níveis de afecto (Hemphill, & Sanson, 2001).

Uma boa comunicação parece ser um factor determinante para o bem-estar e ajustamento global do adolescente (Hartos, & Power, 1997), e, a comunicação entre pais e filhos permite a afirmação da individualidade e a identificação com os pais, sendo importante que estes percebam que o diálogo com os filhos poderá ser poucas vezes agradável e deixar uma sensação de que a mensagem não passou ou fez eco do outro lado (Braconnier, & Marcelli, 2000). Geralmente, é com a mãe que os adolescentes têm mais facilidade em comunicar (Settertobulte, 2000), e, dados do estudo nacional do Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS) indicam que falar com o pai é mais fácil para os rapazes, e falar com ambos os pais é mais fácil para os adolescentes mais novos (Matos & Equipa Aventura Social, 2000, 2006, 2010), constatando-se uma diminuição nessa facilidade à medida que a idade vai aumentando (Camacho, 2009).

Todavia, parece que o fundamental é dar o direito à diferença, favorecer as ligações afectivas, estar disponível e saber ouvir os seus filhos. Para além disso, é importantes os pais falarem “com” os filhos e não apenas “para” os filhos. (Sprinthall & Collins, 1999). Estudos demonstram que os adolescentes de ambientes familiares ajustados, em que as famílias são fonte de afecto e suporte, são mais competentes socialmente e referem mais amizades positivas (Lieberman, Doyle, & Markiewicz, 1999).

Assim, de um modo geral existe um consenso de que práticas muito liberais/permissivas, ou, em contraste, muito autoritárias/punitivas, não são as mais indicadas As primeiras não permitem ao jovem perceber os limites na vida familiar e social, e, as segundas, não possibilitam à criança libertar a sua agressividade no seio da família, pelo que terá de o fazer em outros contextos (p.e. na rua ou escola) (Favre & Fortin, 1999).

Desta forma, tanto em crianças mais pequenas como em adolescentes, uma relação de apego seguro, um estilo parental democrático, a promoção de relações sociais, a resposta às necessidades dos filhos, uma saúde mental adequada dos pais e uma boa rede de suporte social dos mesmos apresentam-se como factores de protecção no desenvolvimento social e pessoal (Moreno, 2004a,; Moreno, 2004b).

Teresa Santos – Psicóloga, Psicoterapeuta e Investigadora

 

Necessidades Psicológicas

Necessidades Psicológicas (5)

Todos nós temos as nossas necessidades próprias que variam consoante a fase da nossa vida e a importância que atribuímos a cada uma delas.

O modelo de necessidades mais conhecido globalmente é a pirâmide de Maslow que defende a existência de três grandes tipos de necessidades:

Necessidades básicas: Fisiológicas (alimento, repouso, vestuário, habitação) e Segurança (saúde, emprego, propriedade, família e recursos);

Necessidades Psicológicas: Amor/Relacionamento (amizade, família, intimidade sexual) e Estima (Auto-estima, auto-confiança, respeito dos outros)

Necessidades de Auto-realização: Realização pessoal (moralidade, solução de problemas, aceitação da realidade)

António Branco Vasco, professor e psicoterapeuta português, defende que as necessidades psicológicas são as condições que precisamos para o nosso bem-estar psicológico, para nos sentirmos bem connosco próprios e consequentemente com os outros e com o mundo.

Identifica 14 necessidades psicológicas vitais, cujo grau de satisfação é sinalizado pelas emoções e resulta de um processo contínuo de negociação e balanceamento das 7 polaridades dialéticas:

Prazer: capacidade de conseguir disfrutar de momentos que oferecem prazer, bem-estar e retirar sensações agradáveis dessas experiências.

Dor: capacidade de tolerar o sofrimento, de o encarar e aceitar como produtivo e inevitável perante circunstâncias dolorosas e entendê-lo como algo com que é possível crescer e aprender

Proximidade: Capacidade para estabelecer e manter relações íntimas

Diferenciação: Capacidade de se diferenciar e ser determinado nas suas escolhas que define quem é

Produtividade: Capacidade para alcançar e realizar acções importantes para o próprio

Lazer: Capacidade de relaxar e estar confortável com essa sensação de relaxamento

Controlo: Capacidade de o indivíduo influenciar o ambiente que o rodeia

Cooperação ou Cedência: Capacidade de delegar e abdicar de recompensas imediatas por outras melhores no futuro, na partilha do controlo pessoal

Exploração ou Actualização: Capacidade de explorar e de se expor ao que é novo

Tranquilidade: Capacidade de se aproveitar o que se tem no momento presente

Coerência do Self: Congruência entre o que pensa, sente e faz

Incoerência do Self: Capacidade de tolerar conflitos e incongruências ocasionais

 

Auto-Estima: Capacidade de se sentir satisfeito consigo próprio

Auto-Crítica: Capacidade de identificar, tolerar e aprender a partir das insatisfações pessoais

Os estudos feitos com base neste modelo apontam a regulação das necessidades de Tranquilidade, Proximidade, Auto-crítica e Auto-estima como melhor predictor de bem-estar.

De forma a sentir-me melhor consigo próprio, proponho que reflita sobre o seu grau de satisfação actual em cada uma das 14 necessidades psicológicas e procure o que lhe faz falta em cada uma delas. Deixo-lhe aqui algumas sugestões, necessidade a necessidade:

Prazer: Faça o que lhe dá prazer e esteja atento às sensações corporais;

Dor: Relativize a dor, tomando consciência de que ela não dura para sempre e procure retirar conhecimento dessa experiência;

Proximidade: Procure estar com as pessoas de quem gosta e conhecer pessoas novas;

Diferenciação: Mesmo sendo diferente das dos outros, afirme as suas escolhas, emoções ou ideias, de forma assertiva, tendo a noção que tem o direito à sua individualidade;

Produtividade: Planeie e execute actividades importantes para si e parabenize-se quando tenta alcançar os seus objectivos;

Lazer: mesmo que tenha coisas por fazer tire momentos para descansar e relaxar;

Controlo: Tome consciência das coisas em que tem controlo na sua vida ou que dependem de si

Cooperação/Cedência: Observe as coisas que não dependem somente de si, delegue/peça ajuda em tarefas que o sobrecarreguem;

Actualização/Exploração: Faça coisas novas e atente ao que aprendeu de novo a cada dia;

Tranquilidade: Observe o que tem de bom no momento presente;

Coerência do Self: Esteja atento ao que pensa, sente e faz e perceba se existe coerência nestes momentos;

Incoerência do Self: Atente aos seus conflitos interiores, se faz coisas contra os seus valores ou emoções e reflicta sobre as suas possíveis causas;

Auto-estima: Registe o que gosta em si

Auto-crítica: Observe as coisas a melhorar em si.

Catarina Barra Vaz – Psicoterapeuta e Neuropsicóloga

A Paz, às vezes, chega mais tarde…

perdão

– Eu estava mais que bem até receber este telefonema – disse, enquanto olhava para as unhas como que verificando nervosamente se estavam bem pintadas.

Falava do tio paterno que tinha telefonado ao fim de 30 anos, pedindo-lhe para se encontrarem, que queria vê-la, que queria fazer as pazes com ela antes de morrer.

– Ele agiu muito mal com os meus pais e eles cortaram relações com ele e desde essa altura nunca mais ouvi falar dele. Ele deixou de fazer parte da minha vida quando eu era ainda adolescente, ele esqueceu-me e eu esqueci-me dele. Ele desapareceu da minha vida, mas para lhe ser sincera – da forma como eu sinto isto – ele nunca fez parte dela sequer. Ele desapareceu quando eu era ainda muito nova. Para lhe ser sincera, ele é-me completamente indiferente e agora cai aos trambolhões, vindo dum passado que eu já tinha esquecido, para pedir a minha bênção antes de morrer?

Voltou a olhar para as unhas, a esticar os dedos e rodar as mãos como se este interminável exercício pudesse aliviar o turbilhão de emoções que a assaltava.

– Pelos vistos, ele não lhe é completamente indiferente? – acentuei.

Parou, olhou-me fixamente e disse-me:

– É, sim. Ele é-me completamente indiferente. Se eu soubesse que ele iria novamente desaparecer e ficar mais 30 anos ou a eternidade sem dar mais notícias isso não me incomodaria absolutamente nada. O que me incomoda é que há uma parte de mim que apetece encontrar-se com ele e dizer-lhe que não perdoa, o quanto eu ainda me sinto magoada pela forma como ele fez sofrer os meus pais. Mas há também uma outra parte de mim que acha tudo isto irrelevante, que todos os seres humanos cometem erros – nomeadamente eu – e que errar é inerente à condição humana. Sabe, eu não tenho sequer que o perdoar, compreendo que ele tenha feito as escolhas que achou mais certas mas não concordo com essas escolhas e as escolhas que ele fez revelam um carácter e uma estatura moral – ou a ausência dela – que eu não apreciaria em ninguém e que eu nunca aceitaria num amigo meu, quanto mais num familiar. Eu quero-o longe de mim – como sempre esteve – mas não acho que tenha que o perdoar de nada. Mais ainda, eu não quero esse poder de o perdoar ou não, eu não aceito esse poder, eu nem sequer pedi esse poder.

– Mas o que me diz é que há uma parte de si que não quer perdoar…

– Sim. Há uma parte de mim que gostaria de lhe dizer que a minha mágoa por ter feito os meus pais sofrer não desapareceu e não vai desaparecer por ele cair do céu aos trambolhões a pedir para fazer as pazes comigo.

– Ele disse mesmo isso? “Fazer as pazes”? – perguntei.

– Exactamente. Fazer as pazes. – repetiu – Mas ele não entende que a paz que ele procura só poderá encontra-la dentro dele? Que acima de tudo ele tem que perdoar-se a si próprio? Que por muito que eu não o perdoe ou que lhe repita cem vezes que está perdoado ou que nada tenho que lhe perdoar, ele só vai encontrar a paz que deseja quando, bem no coração da alma dele, ele se perdoar a si próprio?

– Acho que você chegou a uma conclusão importante: você não é nem nunca poderá ser responsável pela paz ou ausência de paz de outro ser humano.

– Nem quero esse poder, compreende? Não pedi, não quero, nem acho justo que me seja delegado – logo por ele – esse poder. Cabe-lhe a ele perdoar-se ou não, independentemente do que eu sinta em relação a isso.

– Portanto, você não tem que se confrontar com ele para o perdoar ou não. Mas há uma parte de si que não o perdoa…

– Há uma parte de mim que ainda está magoada com ele.

– E que não o perdoa.

– Há uma parte de mim que gostava de fazer-lhe ver que a minha absolvição não faz desaparecer a minha mágoa.

– E que por isso não o perdoa.

Parou por alguns segundos e disse:

– Está fora de questão esse assunto do perdão. Não me reconheço esse direito nem esse poder. Só ele pode encontrar a paz dentro dele. Eu não sou tida nem achada, nem me acho tida ou achada para o que só ele pode fazer, dele para com ele.

– Muito bem, você conseguiu responsabilizá-lo pela inquietude dele e pela responsabilidade de encontrar nele mesmo a paz que ele procurava através do seu perdão, mas isso não me parece deixá-la a si em paz consigo própria…

– Talvez eu não me perdoe por não conseguir ultrapassar a mágoa que sinto em relação a ele. Porque eu gostava que fosse como ele pensa, que por uma arte de mágica eu pudesse estalar os dedos e fazer desaparecer toda a mágoa dentro de mim. Eu gostaria que fosse assim, mas a mágoa que eu sinto não desaparece só porque eu gostaria que desaparecesse.

– Mas a condição para se sentir em paz consigo própria é fazer desaparecer toda a mágoa num estalar de dedos, num passe de mágica?

– Isso não é simplesmente possível. Eu não consigo fazer isso acontecer assim dessa forma.

– Claro que não consegue. Nem é suposto que consiga. Você não é nenhum robô com um botão “on” e “off”. Não é assim que funciona a mente humana, não é assim que funciona a Natureza.

– Mas perdoar – para mim e para comigo mesma – é também ultrapassar esta mágoa, este ressentimento. E eu quero perdoar, entende? Eu quero ultrapassar isto.

– O primeiro passo você já o fez. Foi admitir para si própria que está ressentida e que a sua intenção genuína para consigo mesma é que este ressentimento desapareça. Que você conscientemente não quer sentir esta emoção em relação a esta pessoa. No fundo, o que me está a dizer é: eu estarei em paz comigo mesma quando eu não sentir qualquer ressentimento em relação a esta pessoa.

– Então aí o perdão será completo – rematou.

– Para si – acrescentei.

– Para mim?

– Sim. Para si, como você mesma disse. Mas isso pode não acontecer tão cedo, não acontecerá certamente amanhã, nem por nenhuma arte de mágica.

– E até lá? Que faço eu quando me der conta que este ressentimento ainda não desapareceu, mesmo que eu deseje que ele desapareça?

– Até lá você tem que aceitar essa sua limitação. Tem que aceitar que a mente humana lida com as emoções como pode, guarda-as na memória e que pode revivê-las vinte anos mais tarde com a mesma intensidade arrebatadora. Que as suas aspirações actuais podem já nem concordar com essas emoções que isso não as vai fazer desaparecer por magia. Tem que aceitar a sua condição humana e, se quiser, tem que se perdoar pela sua humanidade, na sua humanidade.

Ficou em silêncio por alguns instantes, as mãos repousando, desta vez em paz, sobre os joelhos.

E disse:

– Mas sabe? Mesmo assim eu não quero esta pessoa na minha vida.

– É uma pessoa que você não escolheria para o seu círculo de amizades?

– Nem para minha família, se pudesse escolher quem pertenceria ou não à minha família.

– Entendo. E isso é totalmente legítimo. Você pode e deve escolher quem você deseja que faça parte da sua vida e excluir quem você não deseja que faça parte dela.

Este foi um resumo de um conjunto de sessões com uma paciente e com esta paciente, entre outras coisas que aprendi, retive que:

Perdoar não é esquecer.

            Perdoar é muito mais que absolver.

            Perdoar pode ter que passar por nos perdoarmos a nós mesmos por não conseguirmos perdoar como desejaríamos.

            Perdoamos o quanto somos capazes, conscientes de que a Paz poderá tardar. Aceitarmos a nossa condição humana permite-nos viver em Paz com as limitações inerentes à nossa humanidade.

            Perdoar não implica recebermos nas nossas vidas quem não desejamos que faça parte dela.

            Nunca conseguiremos perdoar de coração se não formos completamente honestos connosco mesmos. O que, aliás, nem vale a pena tentar.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

O bem que o mal nos faz

falha e sucsso

Não são raras as vezes que me perguntam “porquê?”.

Aqui incluem-se variantes como o “porque é que eu sou assim?”, o “porque é que isto me acontece a mim?”, o “porque é que não resulta o que tento fazer para mudar?”.

Inerente a esta frustração e desespero está um passado de tentativas da pessoa se libertar das antigas formas de fazer, pensar, sentir e estar. Está uma sucessiva narrativa de coligir recursos e estendê-los na direcção que se achou a mais adequada … sem sucesso. Está uma repetição de fracassos.

Este fracasso até pode ser bom, desde que bem aproveitado, penso e digo muitas vezes. Quando devolvo este desafio, a surpresa de quem me escuta acompanha um incrédulo “como assim?”. Thomas Edison falhou diversas vezes até ser bem sucedido. Não é o ter conseguido inventar a lâmpada (e outros diversas engenhocas) que eleva Thomas Edison, mas sim a sua extraordinária capacidade de persistir e inovar perante o erro.

O movimento IFF, intelligent fast failure, traduz esta ideia de uma forma bastante concisa. Falhar é humano e é uma aprendizagem em potential. O erro não está em falhar, mas sim em não aprender com o erro. Assim, quem erra mais tem mais oportunidade de testar, afinar e adaptar as suas estratégias … ou seja, falhar a curto prazo tem o paradoxal efeito de nos poder tornar mais bem sucedidos a longo prazo! Desde que tenhamos a capacidade de analisarmos a situação e reconhecermos o que poderia ter sido diferente, o que poderia ter sido melhor. O conceito não se esgota no fracasso, mas sim na forma inteligente de lidarmos e aprendermos com ele.

Esta pequena e quase irrisória mudança de perspectiva tem um potencial de aceitação e mudança bastante impactante. Retira algum do desconforto e do sofrimento na medida em que atribui à pessoa o poder (e a responsabilidade) de continuar a tentar.

Este são dois dos grandes desafios da psicoterapia: a promoção da esperança da possibilidade de mudança e a responsabilização da pessoa em mudar, não necessariamente apenas as circunstâncias externas mas também (sobretudo) a forma como lida com estas circunstâncias.

Aqui parece-me relevante voltar a uma das minha distinções favoritas. De facto, será assim tão importante perceber o porquê de algo? Talvez seja mais enriquecedor compreender o para quê de certas situações. Qual a necessidade que cumpre? Qual o papel que desempenha no teatro da nossa vivência? O que haverá de positivo ou apaziguador nas situações que nos magoam e fazem sofrer? Se não houver a compreensão do papel que determinada relação ou mesmo um comportamento tem na nossa vida, não o poderemos mudar.

Aparentemente, à primeira vista, nada de “bom” parece vir do sofrimento. Mas na verdade, a aparência pode tantas vezes ser ilusória. A experiência mostra-nos como o fracasso e a dor podem ser bem superados e dar origem a uma vivência interior mais rica, com uma nitidez mais verdadeira. Torna-se central o papel activo da pessoa, para que não se caia no erro (pelo menos, não repetidamente) de achar que o sofrimento é bom. Sofrer não é bom, mas paralisar na indefinição de alternativas também não…

A psicoterapia não se trata de desenvolver super poderes. Apenas de exercitar competências que nos tornem mais felizes.

 

Ana Baptista Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Culpa ou Responsabilidade?

sentimento-de-culpa

Já experimentou o sentimento de culpa? Recorda-se do peso que sentiu? De ficar como que paralisado, como se nada o pudesse tirar dali, desse sítio escuro e pesado? É de facto o efeito que a culpa tem em nós, ela paralisa, bloqueia, impede o avanço, dificulta a reparação.

Sim, porque muitas vezes fizemos de facto coisas erradas, magoámos pessoas, fomos rudes ou negligentes, procrastinámos, não cumprimos os nossos objectivos por desleixo ou falta de organização, ou falta de motivação; e sim, de facto fomos nós os agentes, éramos nós que estávamos lá, a bola estava nas nossas mãos.

Mas a questão é: somos culpados ou somos responsáveis?

E poderá até parecer-vos redundante, poderão dizer-me “dá tudo no mesmo”. Mas sugiro que experimentem. De cada vez que derem por vocês a dizer “eu sou culpado” ou “a culpa é minha”, experimentem logo de seguida mudar para “eu sou responsável”, “a responsabilidade é minha”, e fiquem um bocadinho a olhar para vocês mesmos, não com os olhos de fora mas com os olhos de dentro, e apercebam-se se alguma coisa muda na forma como o vosso corpo reage, como o vosso corpo sente estas frases. O peso é o mesmo, ou há algo de diferente, talvez mais leve? Continuam a sentir aquela paralisia ou parece que a informação flui melhor, que é mais fácil sair daquele sítio escuro e doloroso onde caímos quando nos desiludimos connosco mesmos?

A diferença entre a culpa e a responsabilidade é que a culpa paralisa enquanto a responsabilidade mobiliza. O culpado fica estagnado no erro, a remoê-lo, a martirizar-se, sem conseguir sair dali. O responsável olha para o erro, tenta compreendê-lo, e percebe ainda que se foi responsável por ele, também é responsável pelo reparo, ou pela mudança.

O culpado desespera quando vê como a sua casa está desarrumada e fica a maltratar-se por ter deixado chegar a este ponto, o responsável entristece-se com a desarrumação a que se permitiu chegar, mas agarra em si próprio e começa peça a peça a arrumar.

Quando der por si a fazer coisas recorrentes de que não gosta, de que se ressente, obrigue-se a fazer esta mudança, transforme a culpa em responsabilidade, dê-se espaço e estímulo para reparar o erro, para mudar. E não se apresse demais, as mudanças e as reparações levam o seu tempo.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Psicoterapia corporal

corpo e mente

Introdução

 A psicoterapia desenvolveu-se imenso nestes últimos anos com as distinções entre emoções cognições e sentimentos deixando de lado a valência do corpo. Deste modo, a parte corporal não acompanhou com o mesmo progresso.

Tanto a minha formação em psicologia cognitiva e integrativa como na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen permitiram-me tomar consciência de que certos conhecimentos sobre as posturas corporais podem ajudar, concretamente, pessoas em sofrimento.

Acredito que uma psicoterapia englobando tanto as cognições e emoções como o corpo é uma forma de terapia mais integrativa e holística para o ser humano.

A aprendizagem corporal possibilita uma tomada de consciência que é um primeiro passo para a cura. Essa aprendizagem corporal torna-se assim um meio terapêutico.

As diferentes psicoterapias existentes estão preocupadas com o funcionamento da psique, isto é, como uma pessoa se sente e se representa. A psique refere-se ao acesso explícito ou implícito: Explícito através da comunicação verbal entre uma pessoa e outra, como o psicólogo, e implícito, na forma como se sente na relação.

No entanto, as psicoterapias corporais veiculam uma experiência de um “saber fazer” que possui milhares de anos. As investigações científicas ainda não investiram neste domínio. As psicoterapias corporais utilizam em geral o acesso explícito. As técnicas corporais são aproveitadas no sentido de reforçar o diálogo, sendo o corpo a ferramenta de comunicação.

De forma a explicar melhor esta perspetiva, vou fundamentar primeiro a valência da cognição e depois a valência do corpo.

  

Cognição:

As investigações na área da ciência cognitiva e neuropsicologia por António Rosa Damásio, médico neurologista formado na faculdade de Lisboa, actualmente professor de Neurociência na University of Southern California, relevam factos que constituem as ideias dos livros “O Sentimento de si” (2000) e “ Ao encontro de Espinoza” (2004). Os resultados destas observações permitiram clarificar as emoções e os sentimentos como se pode notar na Figura 1. As emoções são exteriorizadas e os sentimentos são interiorizados. Desta forma, as emoções são literalmente “corporalizadas” pois as emoções estão intimamente ligadas às sensações. O sentimento sucede quando a pessoa toma consciência da emoção, e se apega a ela de forma estável.

Damasio

 Corpo: 

Quanto à experiência milenar de um “saber fazer” da parte corporal, vou citar apenas 3 livros que considero fundamental para a psicoterapia corporal:

1 Tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali

O tratado de “Yoga Sutra” de Patanjali, transcrito no seculo III ao IV depois da era comum, é considerado o texto mais fundamental do Yoga clássico, e transmite a importância do trabalho com o corpo. Embora o Yoga seja conhecido por todos como sendo uma prática corporal, mais do que isso o Yoga é uma das grandes linhas do pensamento indiano, mais concretamente de uma escola (“darshana”) de filosofia clássica Hindu. Um aforismo desta obra é o Yoga-Sutra I.2: “Yogash chitta vritti nirodha”, “o Yoga é a interrupção da atividade automática do mental.” (Françoise Mazet (1991)). A interpretação deste aforismo destaca a ligação directa da mente ao corpo.

2 “Hara, centro vital do Homem”, Karfrief Graf Durkheim

O autor Karfrief Graf Durkheim e o seu livro “Hara, Centro vital do homem” é referido em actividades como o Aikido. O conceito, “Hara”, baseia-se essencialmente no centro de gravidade do corpo situado ao nível do ventre. Segundo as palavras deste autor, “não é suficiente aperceber-se inconscientemente da existência do centro vital, tem que se conseguir igualmente sentir conscientemente o significado do centro de gravidade adequado, e esta experiência influência então conscientemente a nossa atitude”.

Segundo o autor, o ser humano tem naturalmente essa sensação de “Hara”, no entanto, o autor alerta para o facto de que o mais importante é sentir conscientemente o significado, ou seja, é como se só através da consciêncialização desta sensação se tornasse possível ter uma atitude correcta perante a vida. Esta passagem aponta para a ligação directa entre a sensação corporal e a consciência.

  1. “Esprit zen, esprit neuf” do autor Shunryu Suzuki

Existem outras actividades como a meditação, por exemplo o Zazen, que, similarmente, salientam a noção da consciência do momento presente. O autor Shunryu Suzuki do livro chamado “Esprit zen, esprit neuf” (1977), escreve o seguinte: “O nosso pensamento deveria ser concentrado. Isto é, deveria conseguir a consciência do momento presente”. Esta citação estabelece que estar consciente é estar concentrado no aqui e agora procurando não ser perturbado pelos pensamentos passados ou futuros, apenas tentar estar no presente.

Todas estas referências, tanto da época dos Vedas como actualmente das observações de António Damásio, perspetivam o corpo como um meio de trabalho e acentuam que a noção de consciência é essencial.

A psicoterapia corporal procura aceder às dificuldades da pessoa primeiro de uma forma implícita e em seguida explícita. Primeiro a pessoa descobre por ela própria que tipos de emoções ou pensamentos lhes transmite o corpo (implícita). Posteriormente, a pessoa comunica ao outro (explícita). A intervenção focaliza-se então na tentativa de mudança, no sentido de se sentir melhor ao conseguir regular melhor a situação actual e a descobrindo para onde se poderá encaminhar

Desta forma, a psicoterapia engloba tanto as cognições como o corpo. Para facilitar a compreensão, desenhei um esquema que mostra como as três dimensões estão interligadas e fazem parte de um todo. (Figura 2)

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 Quais são as técnicas usadas para chegar a este objectivo?

Nesta perspectiva, é importante criar uma ponte entre a mente e o corpo facilitando a tomada de consciência das emoções, possibilitando uma escuta do corpo. É fundamental permitir que surjam e fluam as emoções sem medo, sem bloqueá-las e sem escondê-las. A proposta é utilizar o corpo como instrumento de trabalho para atingir as diferentes noções que vão ajudar a pessoa em sofrimento.

ioga

A minha forma de atingir este objectivo é o uso da minha experiência na área do corpo e do movimento com o Yoga, o Aikido e o TenChi-Tessen. Portanto, refere-se tanto a posturas (ver as Figuras 3 a 7) como a movimentos.

Para atingir as emoções, procura-se aproximar a pessoa do seu conhecimento corporal mais subtil. Ao referir a noção de subtil, refiro-me essencialmente à consciência da importância da respiração, contração e descontração, entre outros.

As agitações mentais são todos os tipos de pensamentos e emoções que interrompem ou perturbem a consciência do estar no presente. Estas agitações também afetam o corpo e, consequentemente todos os comportamentos da pessoa.

A ideia é tomar consciência do impacto destas perturbações, e conseguir mais facilmente prevenir e tomar medidas que permitam acalmar a mente e o corpo. Deste modo, a pessoa vai melhorar a gestão das suas preocupações, aumentando o seu sentir bem. A descoberta destas ferramentas para muitas pessoas e crianças, nomeadamente ansiosos, ajudá-las-á a viver melhor o seu quotidiano. Tomar consciência das emoções sofridas é um primeiro passo para a cura porque ajuda a avançar para uma futura mudança. Desta forma, a pessoa liberta-se progressivamente do sofrimento do qual não consegue sair. Este caminho vai ao encontro de uma psicoterapia em que a pessoa se aproxima do seu “Ser”.

Referências

– António Rosa Damásio, (2000). “O Sentimento de si”, Publicações Europa-América.- – – António Rosa Damásio, (2004). “Ao encontro de Espinoza”, Publicações Europa-América.

–  Françoise Mazet (1991).“Yoga Sutras”, Patanjali, Tradução do sânscrito e comentários, Albin Michel, “Le yoga est l’arrêt de l’activité automatique du mental”, p. 20.

– Karfrief Graf Durkheim, (1974).“Hara, Centre vital de l’homme”, Le Courrier du Livre, Paris,”Il ne suffit pas de percevoir inconsciemment l’existence du centre vital, il faut également avoir ressenti la signification du centre de gravité juste et cette expérience influe alors conscienmment sur toute notre attitude.” p. 63.

– Shunryu Suzuki (1977).“Esprit zen, esprit neuf”, Editions du Seuil, Inédit Sagesses, “Notre pensée devrait être concentrée. C’est cela la conscience présente.” p. 145.

Magali Stobbaerts -Psicoterapeuta e professora de Yoga

Ano que ainda vai novo

Ano Novo brinde

O Ano Novo é por excelência a época para resoluções, compromissos e o estabelecimento de objectivos. Contudo, todos os anos vemos alguns dos feitos a que nos propusemos ficarem pelo caminho, adiados para outra altura, que por vezes nunca chega. E ano após ano há itens que se repetem na lista, arrastando com eles a convicção de que não iremos, mais uma vez, conseguir atingi-los.

Quantos mais objectivos falhamos, mais agudizada fica a certeza – frequentemente não real – de que não temos capacidades ou não somos suficientemente bons, o que pode conduzir a um decréscimo na nossa autoconfiança. Assim, é importante percebermos que muitas vezes a falha não se encontra nas nossas características pessoais, mas na forma como definimos os nossos objectivos.

Proponho então que, ao definir as resoluções para este ano, tenha em conta os seguintes aspectos:

  • Defina um objectivo realista. Se quer deixar de fumar, por exemplo, e actualmente fuma três maços de tabaco por dia, talvez seja melhor propor-se a reduzir gradualmente a quantidade de cigarros diários em vez de parar de forma abrupta.
  • Olhe para si com atenção e descubra que recursos possui para levar a cabo o objectivo a que se propõe. Da mesma forma, identifique o que ainda precisa de desenvolver em si.
  • Ao definir um objectivo, divida-o em etapas que facilitem o seu caminho e lhe deem linhas orientadoras, tornando a sua meta em algo menos distante e que vai alcançando de forma gradual. Um objectivo não tem de ser uma tarefa hercúlea!
  • Não exija o mesmo de si todos os dias – se dormiu 8 horas e tudo corre normalmente na sua vida, é natural que se empenhe mais nas tarefas daquele dia; se, por outro lado está doente ou dormiu apenas 3 horas, não pode esperar o mesmo. Permita-se aceitar que cada dia é diferente e que isso não significa fracasso.
  • Peça ajuda. Ter uma boa rede de suporte permitir-lhe-á não só partilhar as suas dificuldades como não perder o seu objectivo de vista.

Catarina Satúrio Pires – Psicoterapeuta