Elogio -benefício e dependência-, Auto-estima e Bem-estar

elogio

O elogio pode definir-se como sendo um louvor, ou seja, é a expressão de uma opinião favorável e de apreço por alguma coisa e, ou, por alguém.

O apreço, é um componente do amor e da amizade. Todos nós, enquanto seres sociais e em relação, gostamos de nos sentir apreciados pelos que nos são mais próximos e significativos, pois essa é uma forma de nos sentirmos gostados e amados.

Um indivíduo adulto, em princípio, não deve ter necessidade de ser elogiado por pessoas que não lhe sejam particularmente chegadas, embora possa gostar de sentir o seu trabalho reconhecido, pois isso reforça o seu sentido de competência.

A investigação já mostrou o caminho que conduz as crianças a tornarem-se adultos autónomos, sem necessidade absoluta de reforços externos (o que não significa não ver o seu trabalho dignamente remunerado ou respeitado). A Teoria da auto-determinação de Ryan e Deci, diz-nos que a motivação regulada por factores externos (como, por exemplo, o elogio), será posteriormente introjectada, depois identificada e integrada, isto é, transformar-se-á, progressivamente, numa motivação muito próxima da intrínseca, que não necessita de reforço externo e que nos é natural. Para que este caminho seja possível é necessário que a criança se vá sentindo:

competente (ter confiança nas suas capacidades para conseguir os seus objectivos)

,– autónoma (sentir algum grau de liberdade – adaptada à idade – para tomar as suas decisões sem se sentir pressionada ou recriminada) e

– apoiada (ter relações interpessoais satisfatórias e colaborativas).

Assim, podemos perceber que a ausência de elogios sinceros específicos e bem orientados na infância contribui para a pouca perceção de competência.

Este facto poderá reflectir-se na vida adulta, quer ao nível das tomadas de decisão na vida pessoal e profissional, quer ao nível da dependência do elogio, para ser possível sentir algum valor pessoal. Como se a essência da pessoa tivesse ficado nas mãos de outros a quem atribuímos o poder de a controlar…

Não havendo reconhecimento externo, ou a pessoa aprendeu a funcionar suficientemente bem com os seus padrões e reforços internos, ou seja, independentes do reforço externo que recebe, ou a sua motivação diminui, podendo mesmo conduzir a estados depressivos.

O elogio e a crítica construtiva são guias preciosos de orientação para se perceber o que fazer e como fazer.

Pode ser mais importante uma crítica construtiva, do que um falso elogio. A crítica nunca deve ser humilhante e não deve ser dirigida à pessoa, mas sim ao seu comportamento específico em determinada circunstância. Uma criança nunca deve sentir que o amor por ela está, ou fica posto, em causa “se”… (qualquer coisa que não agrade aos pais).

Se tudo é sempre bom e elogiado ou se tudo é sempre mau e nunca elogiado, a criança não tem guias externos que possa ir interiorizando ao logo do seu desenvolvimento.

O elogio deve ser específico a determinada tarefa ou comportamento, contribuindo, assim, para que a criança se aperceba do que é capaz (percepção de auto-eficácia) e sirva, também, como guia motivador do caminho a seguir.

Quando elogiamos alguém, devemos ser genuínos, não bajuladores ou manipuladores, focando-nos no que queremos elogiar. Os elogios devem dirigir-se ao empenho, envolvimento, método, bem-estar, auto-satisfação, etc.

A criança deve ser elogiada sobretudo no sentido de se sentir bem com o que faz, devendo ser realçado: o empenho com que se dedicou à tarefa, a satisfação que sentiu ao fazê-la ou ao terminá-la, o tempo que lhe dedicou, ou as descobertas que fez no percurso. Porque, se o resultado não foi bom, não vale a pena dizer que foi. Contudo, se o empenho foi grande, se o trabalho foi bem planeado, ou feito com dedicação, então essa deve ser a parte a merecer o elogio.

Isto não é o que algumas escolas obcecadas com rankings, ou empresas, querem ouvir, mas o importante para o bem-estar psicológico do indivíduo é o processo e não o resultado.

Quando se elogiam os resultados e não os processos, estamos a transmitir um sinal de que o importante é chegar lá e não como chegar lá. (Daí à batota e à corrupção vai um passo). Além disso, não estaremos a contribuir para o saborear dos processos, nem para a sua introjecção, dificultando assim, a integração da motivação, e contribuindo para que se mantenha a necessidade de reforço externo. Ao premiar resultados, que podem ter pouco a ver com o trabalho e a realidade específica da criança, podemos estar a definir metas absolutas, que para alguns serão inatingíveis, o que fará com que se desmotivem, à partida, para qualquer trabalho que, sabem, nunca irá chegar aos resultados que são esperados, e os únicos que, aparentemente, merecem ser elogiados. A criança, em vez de aprender a tirar satisfação do que faz e dos seus próprios progressos, aprende que há um lugar inatingível onde ela nunca chegará, podendo sentir-se responsável pela desilusão dos seus pais que não se podem orgulhar dela. Fica assim esquecido, o valor fundamental da auto-realização, continuando-se a fomentar a dependência da “cenoura” (reforço externo) para se ter a sensação de sucesso.

Este tipo de ênfase conduz, na maior parte das vezes a adultos que, sendo bons ou mesmo muito bons no que fazem, (e teoricamente bem sucedidos) encerram em si, uma enorme sensação de vazio, de ansiedade generalizada e de desconhecimento de si próprios, vivendo quase permanentemente em desassossego e com uma auto-estima baixa, apesar dos “sucessos”.

A baixa auto-estima está sobretudo associada a uma expressão deficiente dos afectos, ou seja, a um amor que é percebido pela criança como sendo condicional e relacionado com os seus feitos, resultados ou comportamentos.

As crianças com baixa auto-estima não se sentem amadas pelo que são, mas pelo que fazem

A baixa auto-estima está associada a dois estilos educativos, nomeadamente ao estilo autoritário com altos graus de exigência combinado com pouca demonstração de afecto e ao estilo permissivo, ou seja, sem regras e afectivamente desligado. No primeiro caso, os elogios são muito raros, pois a criança necessita de atingir os altos padrões exigidos pelos pais, e ainda assim, o elogio pode vir com um “mas”, como é o caso de frases como: «Estiveste bem, mas não fizeste mais do que a tua obrigação», ou «Nada mal, mas podias ter feito ainda melhor». É assim passada a ideia de que nunca nada é suficiente para se merecer um elogio (sem “mas”), ou para se estar à altura das expectativas dos pais/cuidadores. No segundo caso, pode haver elogios, só que estes são arbitrários, sem critério, o mesmo podendo acontecer com as críticas que podem “chover”, aleatoriamente, pois não há uma real atenção à criança nem às suas necessidades. Elogios e críticas surgem assim ligados à boa ou má disposição dos pais, e não a qualquer tentativa de guiar a criança com coerência.

Um dos objectivos da educação – e da psicoterapia, enquanto reexperienciação e reparação de processos danosos – será tornar o adulto capaz de ser juiz de si próprio, logo, capaz de se conhecer e saber avaliar o seu trabalho, e sentir quando está plenamente satisfeito com o que fez, ou não. Esta regulação entre a auto-satisfação e a tolerância à auto-insatisfação é essencial para a nossa sensação de Realização Pessoal e de Bem-estar Psicológico

A auto-satisfação terá tendência a proporcionar tranquilidade, enquanto a auto-insatisfação poderá funcionar como motivação para a aprendizagem.

Se nos reportarmos ao Modelo de Complementaridade Paradigmática (MCP) de António Branco Vasco, um, dos sete pares de necessidades psicológicas, é precisamente: Tranquilidade —- Actualização/exploração. Outro dos pares é: Auto-estima —- Auto-crítica.

Será fácil perceber a importância do elogio e da crítica construtiva durante a infância, para a boa regulação destas duas necessidades, de polaridades opostas, mas dialeticamente complementares; por um lado, a capacidade para a pessoa se sentir satisfeita consigo própria (auto-estima) e por outro lado, a capacidade para identificar, tolerar e aprender com insatisfações pessoais (auto-crítica).

De acordo com o autor do MCP, é, precisamente, o processo contínuo de negociação e balanceamento das duas polaridades que permite o Bem-estar Psicológico.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

 

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