Os nossos sintomas são os nossos despertadores

sintomas-despertadores
“Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança”
Provérbio Chinês
A experiência de desenvolver um problema psicológico como ataques de pânico, ansiedade generalizada, depressão,… é frequentemente avassaladora. Por um lado há a sensação de perda de controlo de si, por outro lado os sintomas parecem ser desprovidos de sentido e há uma incompreensão muito grande de si próprio, e muitas vezes vem a vergonha e a culpa, vergonha da vulnerabilidade que os sintomas revelam e culpa por não ter sido capaz de evitar estas manifestações e por continuar sem as perceber.
Se prolongado no tempo, especialmente para problemas do foro da ansiedade, além da exacerbação dos sintomas iniciais, tendem a surgir novos, mais obsessivos e compulsivos, mais distantes da raiz do problema, e a incompreensão de si próprio é cada vez maior.Muitas vezes não há de facto um sentido directo e claro para a sintomatologia, o que ela faz é sinalizar uma vulnerabilidade, como um despertador com alarme em crescendo, que se não é desligado ao início vai tocando com um volume cada vez mais alto até ser ouvido e atendido.
A mensagem dos sintomas é “go to the heart of danger, [vai ao âmago do perigo], não fujas, olha, procura, percebe; para te libertares”.
O despertador/sintoma é só um sinalizador que vai tocando mais forte à medida que a insegurança aumenta, que o medo aumenta, sempre a pedir “não fujas, olha, fica”.Tomarmos consciência das nossas vulnerabilidades, dos pontos em que somos particularmente sensíveis, assusta, mexe com o nosso medo do descontrolo, da falta de poder sobre nós próprios, sem percebermos que tanto menos poder temos quanto mais ignoramos/negamos as nossas vulnerabilidades; quanto mais eu as conheço, compreendo e aceito, mais controlo tenho na realidade, porque mais sei com o que posso contar e posso mobilizar recursos para reparar ou apaziguar o problema de base, a essência.

Este é o trabalho que procuramos fazer em psicoterapia, traduzir sintomas (sinais, despertadores) em vulnerabilidades, em necessidades por satisfazer, em assuntos inacabados a processar e resolver, porque por doloroso que seja tomar consciência de aspectos sensíveis de nós, da nossa história, e percebermos as implicações que eles têm na nossa vida, no nosso funcionamento, é um trabalho fulcral, é o desligar o despertador e levantar da cama, é o retomar as rédeas, o controlo, é mobilizar para resolver.

Primeiro filho – uma nova etapa

primeiro filho, uma nova etapa

Estou grávida, vou ser Mãe – Esta primeira tomada de consciência pode gerar um turbilhão de emoções dependendo das circunstâncias de quem as vive.

Dizem-nos as estatísticas sobre os casais que procuram terapia de casal, que muitos dos seus problemas começaram com o nascimento do primeiro filho. Seria pois enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, não olhar de frente para tudo o que se passa quando esperamos um filho.

Desejar a gravidez é o primeiro passo para que esta revolução chamada maternidade e paternidade se constitua como um processo tranquilo. Planeada ou não, recebida com maior ou menor surpresa, a partir do momento em que a mãe deseja ter o seu filho a alegria e a preocupação parecem querer dar as mãos.

Talvez a primeira aprendizagem a fazer, seja mesmo a de saber ouvir as preocupações para que nos possamos ocupar delas, perceber que receios escondem, tomar medidas sobre o que está ao nosso alcance fazer para que tudo corra o melhor possível, e saber conviver com essa “poeira” chamada ansiedade, pois o que não podemos controlar, não deve ensombrar a alegria do caminho.

A Gravidez, esses 9 meses que antecedem o grande dia, são um período de preparação fundamental, em que se visitam memórias, algumas vezes conflituosas, que podem vir acompanhadas de medo e angústia do que desconhecemos, mas também de dúvidas sobre as nossas capacidades, e sobre nós, quer enquanto pessoas complexas com partes menos claras e evidentes, quer enquanto mães e pais iminentes. Este é também um tempo de adaptação às transformações físicas e psicológicas, que possibilita a aprendizagem, a preparação, a antecipação de mudanças e que funciona como uma oportunidade de integrar passado e futuro num presente saudável e luminoso.

A Gravidez (ou o tempo de espera para adopção) pode ser um momento de grande desenvolvimento pessoal, que a natureza nos chama a fazer em acelerado. O Eu-filha/o vai agora passar a ser Eu-mãe ou Eu-pai. O Eu-cuidado – até há pouco tempo, melhor ou pior, cuidado por outros, muitas vezes não sabendo ainda cuidar de Si próprio do ponto de vista psicológico – vê-se agora com a nobre e grandiosa missão de passar a ser um Eu-cuidador. Esta mudança terá que estar, ela própria, grávida de aceitação dessa responsabilidade e do seu significado. Aproveitemos pois a gravidez, como mais um momento de desenvolvimento pessoal consciente.

Tal como irá agendar as suas idas ao médico, análises, ecografias, cuidar da alimentação, preparar-se para o parto e para receber o seu filho, também não hesite em pedir ajuda profissional, se a sua ansiedade for muito grande, se recear não estar à altura das transformações que se adivinham, ou se virem ao de cima conflitos que julgava ultrapassados. Cuidar de si, e da sua família actual, é preparar o melhor ambiente para o seu filho que vai nascer.

É da relação entre mãe e pai que nasce um filho. Esta, por vezes “não verdade,” do ponto de vista sexual, reprodutivo, ou mesmo relacional, deveria sê-lo sempre do ponto de vista afectivo, pois são os pilares afectivos, as bases mais sólidas que os futuros pais podem construir para, e com, os seus filhos. Também nós somos frutos dos laços que os nossos pais estabeleceram connosco, estes laços afectam a forma como nos relacionamos com o nosso parceiro e como nos relacionamos com os nossos filhos. Esta descoberta nem sempre é pacífica e pode trazer alguma perturbação e até conflitos, aproveite este momento para resolvê-los e para comunicar mais com o seu par. A partilha entre os futuros pais é fundamental para que ambos se descubram, naquilo que se deseja como sendo simultaneamente o aumento do conhecimento de si e do outro e o aumento dos laços afectivos entre ambos

É a solidez dos laços entre os pais e entre pais e filhos que perdura. Mesmo quando o casal acaba, ou nem sequer existe enquanto tal, não deve acabar enquanto pais do(s) filho(s) de ambos.

O que muda no nascimento de um filho? Estrutura, relações, prioridades.

A estrutura da família vai modificar-se; a mãe, se até aqui vivia sozinha irá viver com o seu filho, se a família era a 2, passará a ser uma família a 3. Qualquer que seja a composição anterior ela vai mudar, alterando assim a dinâmica vivida até ao momento, e o ponto de equilíbrio.

As relações que eram em primeiro lugar com o próprio e com o par, passam, a ser relações que implicam um novo papel individual de Eu, enquanto mãe/pai, e do Tu, também enquanto pai/mãe. Finalmente surge uma nova relação com o filho que até aqui fazia parte integrante da mãe e que, ao nascer, espelha-se como um ser individual que já não nos pertence, nem faz parte do nosso imaginário, é um ser concreto, real e de Direito Próprio.

As prioridades serão necessariamente outras, precisamente porque o novo ser, mostra agora, não só a sua individualidade, como a sua dependência total, exigindo atenção e cuidados plenos, tornando-se o centro a partir do qual tudo se move e organiza.

Tudo isto, embora com 9 meses de preparação, se dá, de um momento para outro, ao primeiro choro do bebé.

O nascimento dum filho marca o início duma nova fase, com novas organizações, novos pontos de equilíbrio e novos desafios. É o início da Maternidade e da Paternidade (Parentalidade), para o resto da nossa vida e com todas as adaptações que isso implica e vai implicando ao longo da vida…

Como diz José Saramago:

«Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.»

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Analfabetos dos “BONS”

Analfabetos dos BONS

Para escrever é preciso saber as letras do alfabeto e conjugá-las em grafemas, sílabas e depois palavras. Para conseguir escrever o BOM na vida é preciso atenção, ao olhar de forma completa para o que acontece. Só assim conseguiremos identificar o que é bom, agarrá-lo e registá-lo na nossa história.

Quando as pessoas procuram psicoterapia já se encontram, há muito, num ciclo de coisas que não são boas e que parecem não ter fim. Um profissional ajuda a processar de forma completa ciclos de dor na vida da pessoa, e, depois disto, surge inevitavelmente o BOM.

Quando habituamos a nossa mente a olhar demasiado para o desagradável (mau) é desenvolvido uma espécie de carril que conduz quase tudo para lá. Uma espécie de adição que se torna cegueira e, se a luz não entra, o caminho não se encontra. Precisamos então de ajuda para olhar mais e melhor, porque a solidão e a vergonha não são facilitadores desta tarefa e raramente permitem a alfabetização do bom.

Construir este caminho através da abertura para olhar mais além e com palavras que nos ajudem a dar significado ao que vivemos e vemos de bom, pode ser uma forma eficaz de combater a escuridão do mau (e, se quiser, de caminhar para o bem-estar e felicidade).

Bom e mau coexistem na vida e isto é reconfortante na aridez de uma travessia difícil ou nas simples frustrações do quotidiano. Mas é frequente termos, primeiro, dificuldade em encontrar as palavras agradáveis para expressar as coisas boas e depois, termos dificuldade em integrá-las na relação connosco próprios e com os outros. Faça o seguinte exercício: tente dar 3 adjectivos a algo de agradável que lhe aconteceu e 3 a algo de desagradável (e não vale “bom” nem “mau”) e depois tente sentir o impacto dessas palavras em si. Possivelmente sentirá mais dificuldade em encontrar as palavras e encaixá-las no bom do que no mau; encontrar, por falta de treino, e encaixar, por sentir algum receio em associá-las a si ou à experiência. Temos medo do bom porque não o queremos perder. Mas o mais triste é que perdemos oportunidades de nos sentirmos realmente bonitos, bons, importantes, livres, cheios, queridos (ou outra coisa qualquer) quando nem sequer as aceitámos no instante presente.

Também o balanço entre o passado, o presente e a perspectiva de futuro é muito importante. Mesmo quando não consegue encontrar nada de bom na sua vida que o(a) faça perspectivar-se bem no futuro, existem rasgos de luz na sua história que só precisam de ser vistos e identificados como tal. E não estou a falar do entusiasmo positivista papagueado sob a forma de incentivo motivacional que nos quer fazer acreditar que o mundo está aos nossos pés; isto, para além de desvalidante da nossa história, é tão dessincronizado da realidade que roça o ridículo.

 Para se ver e dar um significado ao bom, precisamos de partir do princípio que existem mais do que as sensações de mau que nos limitam num dado momento presente, que este não é o fim da história. Atenção e foco em toda a linha da vida! E se tivermos dificuldade em vê-la, pode ajudar olharmos para o alto; é que quando olhamos o céu damo-nos conta do quanto somos pequenos e que existe uma imensidão do universo que temos para conhecer. Depois baixamos o olhar e vislumbramos a nossa vida futura como um universo a viver e em que com certeza vai existir o Bom. Alguns chamam a isto: Esperança! Esta companhia que se empoleira na Alma e canta uma melodia sem palavras, como escreveu Emily Dickinson. É como um pássaro que não podemos aprisionar no nosso mundo interior porque corremos o risco dele achar que não é um bom lugar para se viver.

Não somos nem patetas alegres, nem tristes miseráveis. A nossa vida não é cor-de-rosa nem preta. Somos um todo. Somos o que somos com tudo o que nos assiste; o bom e o menos bom! E é assim que se faz a vida; a ganhar, a perder, a chorar, a rir, a celebrar e a deixar ir. Esta é que é uma vida realizada e não idealizada. Alfabetize os seus carris e verá a sua vida escrita de forma mais completa e livre!

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga e Psicoterapeuta

Perda ou Transformação?

Na minha prática clínica tenho-me deparado com uma grande dificuldade dos meus pacientes em expressarem desacordo, mágoa, ressentimento, ou agirem de formas contrárias àquilo que sentem que são as expectativas ou desejos de outros significativos.
Ao explorar o que é que receiam que aconteça se se expressarem de forma congruente com o que estão a sentir, surge frequentemente o medo de perder o outro, que o outro não suporte a crítica ou o desacordo e que haja uma ruptura na relação.
Um trabalho útil com estes pacientes é treinar a assertividade, explorando formas de nos afirmarmos perante estes outros significativos de uma forma cuidadosa que melindre o outro o menos possível; mas a realidade é que estes pacientes não deixam de ter algum fundamento no seu receio, frequentemente os primeiros movimentos de auto-afirmação são de facto mal recebidos do outro lado.

A reflexão que vos venho propor é até que ponto é que esta reacção menos positiva do outro implica necessariamente perda ou, pelo contrário, potencia transformação da relação.
Não sejamos utópicos, se introduzo uma dinâmica nova na relação (por exemplo expressar mágoa por a minha opinião não ter sido levada em conta numa decisão com implicações para os dois), não posso esperar que o outro mantenha a mesma postura, ele terá que digerir a novidade e precisaremos os dois de um período de ajustamento à nova dinâmica, ou de um período de negociação de uma terceira dinâmica, construída em conjunto, que responda de forma mais equilibrada às necessidades de ambos. Ou seja, preciso dar espaço ao outro para que ele me devolva o ponto de vista dele sobre a situação que desencadeou o problema, como é que ele lida com esta mudança no sistema que eu estou a propor, e que condições é que ele precisaria ter satisfeitas para conseguir de forma mais tranquila responder à minha necessidade (por exemplo, o outro poderia devolver que não se tinha apercebido que eu tinha uma opinião diferente, mas que de facto era importante para ele que eu estivesse confortável com a decisão e precisaria por isso que eu passasse a expressar as minhas opiniões com mais clareza para ele perceber que há ali uma opinião contrária que precisa ser levada em conta).

E pensarão: “mas comigo isto não funciona assim, o outro não vai reagir tão bem”. Talvez tenham razão, é provável que a primeira reacção seja de defesa e de desagrado pelo comentário, mas lá está o tal período de ajustamento e de negociação, em que o treino de assertividade referido inicialmente tem um papel importante no mantermo-nos afirmativos das nossas necessidades e direitos por um lado, e ao mesmo tempo abertos a perceber o ponto de vista do outro, que elementos é que estão a dificultar a compreensão da mensagem de ambos os lados, e como é que podemos atingir um equilíbrio entre aquilo de que cada um não abre mão e no que estamos disponíveis para ceder.

Joana Fojo Ferreira – Psicóloga e Psicoterapeuta

Reforma, um Novo Rumo

Reforma, um Novo Rumo

«O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem»

Trava-línguas, ladainha popular

Com o aumento da esperança de vida, os anos após a reforma, podem ser o tempo com que sempre sonhou, o tempo em que tem tempo, o tempo em que se pode dedicar a alguma coisa que, até agora, nunca teve oportunidade, enfim, um tempo de seguir um novo rumo.

Contudo, este tempo pode também representar um tempo em que pensa que já não está a viver, está apenas à espera de morrer, pode ser um tempo armadilhado, em vez dum oásis que se concretiza. Cabe-nos tomar disso consciência e não cair nessa armadilha.

É necessário fazer planos para esta nova fase da vida. Até mesmo, o plano de não planear durante uns tempos. Esta é uma fase que se, por um lado, lhe pode trazer algumas dificuldades, sobretudo, à medida que a idade vai avançando, por outro lado também trás a sabedoria dos anos e uma nova forma de olhar a vida, cheia de experiência que só pode ser útil e permitirá proporcionar tranquilidade e pacificação.

No início da reforma há, geralmente, uma grande sensação de alívio. Acabaram-se correrias, horários, tarefas, quantas vezes aborrecidas e, finalmente, há tempo, o tal tempo com que sonhava… Mas, por vezes, após esta sensação de alívio, de leveza, de contentamento e também de descanso, pode surgir o desencanto, alguma tristeza, e uma sensação de vazio. Nessa altura precisa de se reorientar, precisa de traçar o seu novo caminho, podendo continuar a dar o seu contributo de novas formas. E, talvez precise de ajuda psicoterapeutica para ajudar a processar alguns pensamentos contraditórios e emoções que se apoderam de si sem saber donde vêm, porque cá estão, e o que lhes há-de fazer. Quantas vezes são sensações e pensamentos já seus conhecidos, mas que nunca tiveram grande oportunidade de ser verdadeiramente escutados, vividos, analisados. Quem sabe, talvez seja agora a oportunidade de conseguir olhar a sua vida como um todo coerente, o que lhe permitirá escolher melhor os passos a dar no tempo que ainda tem para viver. Certamente, não será uma solução agradável apenas sobreviver de uma forma revoltada amargurada ou resignada. A aceitação do envelhecimento e da morte como fim inevitável, é fundamental para se aceitar a vida e vivê-la por inteiro com menor sofrimento.

Após a reforma, sabemos o quanto é fundamental mantermo-nos activos. Exercício físico, cuidados com a alimentação, com a hidratação, talvez redobrados, e a ocupação da mente em actividades que nos façam sentir realizados são essenciais.

A qualidade de vida que conseguimos perceber na nossa própria vida é dos factores mais importantes para a satisfação com que vivemos os anos que temos pela frente. E, se nem tudo depende de nós, a verdade é que é da parte que depende que temos de cuidar para melhor decidir.

A forma como olhamos a reforma, o modo como olhamos a doença, as dificuldades que vão surgindo, as dores, as perdas que vamos contabilizando, amigos e familiares que desaparecem para sempre e que nos fazem pensar na nossa própria morte, tudo isto nos atinge e tem de ser vivido, mas pode e deve ser encarado como inerente à própria vida e como uma oportunidade de nos adaptarmos, percebendo o que pode ser ultrapassado ou recuperado e o que não pode. É possível aprender a conviver em harmonia com a realidade e encontrar formas satisfatórias de a viver. É possível e recomendável envolvermo-nos em projectos que nos façam sentir bem.

Ao longo das nossas vidas vamos tentando encontrar sentido em tudo o que fazemos e em tudo o que nos acontece. Chegados a uma idade avançada, esta ideia de relembrar o passado para melhor podermos viver, compreender e aceitar o presente torna-se, cada vez mais, uma forma de estarmos bem connosco e com os que nos rodeiam.

Recordar, passear, conversar, conviver, pensar, escrever, partilhar, usufruir, colaborar, ouvir música, repousar, fazer algo que nos dá prazer, que nos faz sentir bem e viver com tranquilidade, é o caminho para sentirmos que, se é certo que a morte é certa, também é certo que enquanto estamos vivos, podemos ir construindo o nosso bem-estar por cá.

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga e Psicoterapeuta

Sintonize-se com o que gosta e ouça a Sua música!

sintonia

No nosso desenvolvimento o” Não” vem antes do “Sim”. Saber o que não se quer ou se é nem sempre define o que se quer ou se é porque o “Sim” oferece a mais-valia de chegar a algo concreto. Ele é talvez uma sincronia entre aspectos que formam uma verdade.
No movimento do dia-a-dia são poucos os tempos em que nos sentimos verdadeiramente sintonizados. Mas estes são os momentos que reafirmam quem nós somos e, por sinal, os que nos fazem sentir calmos, relaxados, alegres mas sobretudo Vivos e Únicos.
Para praticar a sintonia é preciso estar atento ao que Realmente nos torna congruentes com o que somos, o que envolve alguma beleza e magia dentro de nós.
Faça o seguinte exercício: tente pensar ao final do dia quantas das suas acções queria mesmo ter realizado; se ouviu a música que gosta; se comeu o que lhe apetecia; se dormiu as horas que precisava ou se viveu como quer viver. Sabemos que não vivemos num mundo feito à nossa medida mas temos que encontrar a nossa medida dentro do mundo. A cada vez que fazemos algo que não nos apetece acresce-nos tensão no corpo. E se tivermos isto como prática podemos criar uma sensação de pressa que, frequentemente, achamos vir de uma voz na cabeça mas na realidade vem do centro do corpo: é só o nosso Ser autêntico a dizer “Olha para mim!”, “Ouve-me!”. A pressa é cega porque queremos chegar a um “sítio” que às vezes nem sabemos qual é, apenas que tem como nota principal a insatisfação. Mas então como satisfazer-nos? Sabendo o que precisamos, talvez! Mas para isto e primeiro precisamos ouvir e aceitar o que está lá. Ter atenção ao que aparece, ao que surge, ao que cresce dentro de nós e recebê-lo sem crítica. Dedicar-lhe tempo para o concretizar e quando o fazemos vivemos um momento de harmonia que nos faz sentir muito presentes na experiência, afinal de contas “Soube tão bem!”, “Era mesmo isto que estava a precisar!”. Este instante torna-se muito Real e Verdadeiro e tem o bónus de uma sensação de vivacidade interior; ambas as agulhas (da necessidade e da satisfação) levaram à verdade libertadora, a de quem você É neste momento! Somos feitos destes instantes e esta é a relação mais íntima que podemos ter porque demos atenção e fomos cúmplices do nosso Ser autêntico. Agora já está preparado para iniciar a busca do que precisa dos outros e do mundo, de saber para onde se quer orientar.
Para nos sentirmos satisfatoriamente ligados a alguém ou algo precisamos estar primeiro sintonizados com o que somos. É assim que conseguimos partilhar o que é nosso e receber o que é do outro sem risco de nos perdermos. Isto é a sua música a juntar-se a outra música e a criar uma sinfonia, a do Encontro e se quiser a do Amor!

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga e Psicoterapeuta

A trágica magia das emoções:

“Se eu não ligar, vai desaparecer.”

magia das emoçoes

Reconhecer e gerir emoções são sem dúvida algumas das grandes mais-valias associadas a um processo psicoterapêutico. A dificuldade em identificar e expressar o que se sente, para algumas pessoas surge como algo muito assustador começando elas a desenvolver, ao longo da vida, estratégias de evitamento das suas emoções com o objectivo de não serem vítimas das mesmas. Isto acontece, sobretudo, porque a ideia de se ser uma pessoa que expressa emoções é facilmente confundida com a ideia de ser uma pessoa emocional e esta, por sua vez, com a de ser uma pessoa descontrolada e/ou fraca.

A forma como nos damos conta das nossas emoções é através das nossas sensações internas. São estas sensações que nos informam sobre as emoções que sentimos.  Grosso modo, pessoas com dificuldade de gestão emocional não conseguem identificar as suas sensações internas e traduzi-las em emoções porque facilmente se desligam ou desviam a sua atenção das mesmas. A grande maioria das vezes, o que lhes serve de base para fazerem isto chama-se medo, e também é uma emoção. Outras quando dão por si já estão inundadas emocionalmente e começam a expressar-se abertamente ao mundo quando na realidade o que desejavam era esconder o que sentem.

Para identificar e gerir emoções é preciso acolhê-las. Quando temos medo das nossas emoções procuramos lutar contra elas (rejeitando-as) e esta é a melhor maneira de lhes dar força. Aceitá-las é bem mais eficaz porque quando reconhecidas e escutadas, elas acalmam-se.

As emoções são movimentos da nossa vida interior por isso acolha-as com ternura e respeito. Sendo empáticos connosco próprios, elas não têm necessidade de solução. A única coisa de que se tem necessidade quando se vive uma emoção… é poder vivê-la até ao fim. Imagine o cenário de estar em casa (i.e. dentro do seu corpo), ouvir os passos de alguém em direcção à sua porta (i.e. aperceber-se de uma sensação ainda não identificada no seu corpo) e alguém lhe bater à porta (i.e. dar-se conta definitivamente de que aquela sensação corresponde a determinada emoção). Se não lhe abrir a porta (distraindo-se com outra coisa) vai conseguir com que fique do lado de fora, por algum tempo, mas ela vai insistir novamente para entrar. Com isto, pode começar a sentir uma sensação de pressão/tensão porque existe um rio de energia fora da sua casa que quer entrar e você não deixa. Sabemos que vai querer entrar, nem que seja por uma janela, porque a mensagem que aquela emoção lhe traz é importante para si (i.e. que está triste, zangado, revoltado ou até que gosta de alguém). Insistindo em não deixar entrar, aquilo que vai acontecer, sobretudo se for prolongado no tempo, é que começará a ganhar a sensação de que venceu a batalha e se protegeu do efeito daquela emoção em si próprio. Mas na realidade aquilo que acontece é que, como está numa luta contra aspectos de si próprio, ao afastá-los irá afastar-se do verdadeiro conhecimento de si. Mantida esta estratégia de evitamento pode, com o passar dos anos, começar a sentir-se cansado, entorpecido, preso, confuso e, por vezes, ser mesmo assaltado por uma tristeza ou um medo estranhos. Mesmo quando a vida até nem lhe corre mal.

Por isto, o melhor mesmo é abrir a porta à emoção, deixá-la entrar na sua sala estar, sentar-se com ela e deixá-la percorrer livremente o seu espaço apercebendo-se de que sensações o(a) faz sentir. Por exemplo, se for tristeza pode sentir necessidade de chorar, se for medo, um aperto no estômago, se for zanga, uma vontade de se mexer e libertar-se, se for amor, um quente no peito que encaixa/devolve o coração à sua caixinha. Dê-lhe atenção e assim perceberá mais facilmente a mensagem que lhe traz. Aperceba-se de como e onde a emoção está no seu corpo e pode até falar com ela para melhor a descodificar. Para isto pode fazer-lhe algumas perguntas como: o que é que eu quero, de que é que eu preciso, o que é que me apetece. As respostas a estas questões vão ajudá-lo a perceber o que a sua emoção precisa e isso vai ajudá-lo(a) a acalmar-se no corpo, tornando um visitante indesejável num hóspede conhecido. É bem melhor autorizar a entrada de alguém em nossa casa do que ser vítima de um assalto, não acha?

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga e Psicoterapeuta