“Christmas Blues” A tristeza que vem com o frio

Christmas blues

Alguns estudos referem que cerca de 20 a 30 % da população ocidental sofre de depressão de natal ou “Christmas Blues”, sentindo nesta altura de festas alguma angústia, desamparo e ansiedade que se assemelham a um quadro depressivo. 

As razões podem ser várias e diversas, desde uma maior pressão para o consumo, ao reavivar de saudades de entes queridos já falecidos, ou mesmo solidão.

De facto, nesta época, as famílias são tremendamente pressionadas para maiores gastos financeiros em prendas e na preparação de festas que em qualquer outra época do ano.

As “exigências” interiorizadas pelas pessoas e que advêm da pressão do marketing mediático obrigam-nas a um périplo por várias e diferentes lojas na busca da prenda ideal para cada familiar ou amigo, para o filho deste e para a sobrinha daquele. Fazem-se listas compras e calculam-se orçamentos, planeiam-se dias com roteiros para determinadas compras e reservam-se outros para tantas outras. O suposto espírito altruísta do Natal transforma-se numa azáfama stressante e cansativa para cumprir um determinado roteiro de compras intermináveis em lojas apinhadas de gente igualmente impaciente que a noite de Natal chegue, as lojas fechem e as compras acabem.

Em momentos de lucidez acabamos por parar e perceber que o espirito do Natal foi subvertido, que o propósito do Natal não é esta vertigem consumista, e a consciência disto pode trazer-nos sentimentos de tristeza e culpa imediatamente após uma corrida desenfreada, esgotante e cheia de boas intenções às últimas compras.

Por outro lado, a época de Natal é tipificada como a festa em que a família se reúne, se revê e confraterniza, mas se você tiver perdido um ente querido há pouco tempo, é natural que esta época reavive os seus sentimentos de luto e de saudade e que, dependendo do caso, podem ser avassaladores.

Devemos ainda recordar-nos que, num mundo que se “globalizou”, não é raro que hajam familiares emigrados em países longínquos e que não podem estar presentes, e essa ausência pode ser antecipada e sentida com tristeza e saudade.

Sabemos também que uma parte significativa da população idosa vive sozinha, muitas vezes sem grande apoio familiar e em situações de desamparo em que os sentimentos de solidão física e afectiva que se tornam mais evidentes nesta época festiva em que seria suposto sentirem-se mais amados e apoiados.

Frequentemente, os sentimentos de tristeza, culpa e ansiedade que são sentidos nesta época têm a ver com um desfasamento entre as expectativas que interiorizámos do que deveria ser o Natal – enquanto festa religiosa e de comunhão de afectos – e aquilo que muitas vezes acabamos por vivenciar.

De facto, ninguém deseja que o Natal se transforme em dias de stress financeiro e fúria consumista, ninguém espera que uma época universalmente festiva traga um reviver da mágoa dos lutos mais difíceis ou uma consciência ainda mais aguda duma situação de solidão e de desamparo.

As expectativas depositadas são frequentemente melhores do que muitas vezes a vida nos traz e este desfasamento pode trazer sentimentos legítimos de dor e frustração.

 

Os dados do National Institute of Health, nos Estados Unidos da América, apontam o Natal como o período do ano no qual há uma incidência maior de depressão.

Mas, de facto, não é claro para todos os investigadores que exista um aumento da incidência de Depressão no Natal ou se este aumento da incidência resulta de um certo número de factores que nem sempre são levados em conta.

Além da maior frequência de episódios depressivos no contexto da Doença Afectiva Sazonal (*), é nos meses de inverno que ocorrem mais intercorrências infecciosas, o que condiciona com uma maior morbilidade e mortalidade em pessoas idosas com outras patologias orgânicas associadas, nomeadamente diabetes e/ou doenças cardiovasculares.

Estes episódios de agravamento clínico podem despoletar quadros depressivos ou agravar depressões pré-existentes.

Por outro lado, sabe-se que a incidência de suicídio diminui nos meses de inverno e aumenta com a chegada da primavera.

Os dados que existem sobre o “Christmas blues”, essa tristeza sazonal por altura do Natal, são vagos e pouco precisos, sobretudo porque não está propriamente catalogado como uma patologia mental.

Mas esta tristeza de Natal, apesar de ter sintomas sobreponíveis aos de uma depressão, não significa necessariamente que se trate de um quadro depressivo.

O “Christmas blues” é habitualmente passageiro e não tende a evoluir para um quadro clínico de depressão.

         Passada a época festiva e com o retomar das rotinas habituais do dia-a-dia, estes sentimentos de tristeza tendem a desvanecer-se e a remitir naturalmente.

No entanto, o “Christmas Blues” pode mimetizar uma depressão suave, além de que ocorre na mesma época da Doença Afectiva Sazonal. (*)

No “Christmas Blues”, tipicamente, os sintomas de tristeza e ansiedade não se intensificam ou agravam, e não se prolongam no tempo.

Assim, se a tristeza e a ansiedade se intensificarem ou se prolongarem no tempo deverá consultar o seu médico de família e expor a situação. De facto, pode então tratar-se dum episódio de Doença Afectiva Sazonal ou pode a época natalícia ter contribuído como factor desencadeante, entre outros acontecimentos de vida, para o despoletar de um quadro depressivo que pode merecer cuidados médicos e/ou um acompanhamento psicoterapêutico adequado.

 

(*) Doença Afectiva Sazonal – Tipo de Depressão na qual os episódios depressivos recorrem anualmente, geralmente durante os meses de inverno, e em cujo tratamento está a indicada a Fototerapia.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Mitos e crenças.

PSITALK

Parte IV 

(Última parte)

bi_p

Mitos e Crenças

Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma divulgação mais ampla acerca das doenças psiquiátricas, e isto é também válido para a Doença Bipolar. Há algumas perguntas, quase invariáveis, que as pessoas me fazem quando as informo, depois de uma avaliação, que têm uma doença bipolar: “Será que sou louco? É uma doença incurável? Vou ter que tomar medicamentos para o resto da minha vida?”

A loucura é um termo sem correspondência no mundo da ciência. Assim, você é tão louco como os inúmeros talentos que tanto nos deram nas mais variadas áreas criativas do ser humano, como p. ex., Florbela Espanca, Mark Twain, Virginia Woolf, Van Gogh, Peter Gabriel, Winston Churchill, Theodore Roosevelt, Kay Redfield Jamison. Todos estes tinham Doença Bipolar, entre dezenas de muitos mais que não é possível aqui citar.

É também importante realçar que a esmagadora maioria das doenças humanas…

View original post mais 514 palavras

Doença Bipolar: a doença dos humores – Mitos e crenças.

Parte IV 

(Última parte)

bi_p

Mitos e Crenças

Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma divulgação mais ampla acerca das doenças psiquiátricas, e isto é também válido para a Doença Bipolar. Há algumas perguntas, quase invariáveis, que as pessoas me fazem quando as informo, depois de uma avaliação, que têm uma doença bipolar: “Será que sou louco? É uma doença incurável? Vou ter que tomar medicamentos para o resto da minha vida?”

A loucura é um termo sem correspondência no mundo da ciência. Assim, você é tão louco como os inúmeros talentos que tanto nos deram nas mais variadas áreas criativas do ser humano, como p. ex., Florbela Espanca, Mark Twain, Virginia Woolf, Van Gogh, Peter Gabriel, Winston Churchill, Theodore Roosevelt, Kay Redfield Jamison. Todos estes tinham Doença Bipolar, entre dezenas de muitos mais que não é possível aqui citar.

É também importante realçar que a esmagadora maioria das doenças humanas é crónica e incurável, desde as alergias, à asma, diabetes, hipertensão, Lúpus, miopia e até mesmo algumas infecções. As doenças plenamente curáveis são infelizmente muito raras. Assim, há que aprender a conviver com a doença com o menor número possível de limitações. Para além disso, se é verdade que pode ser necessário fazer medicação por tempo indeterminado, isso não acontece apenas com a Doença Bipolar, mas com a grande maioria das doenças crónicas do ser humano.

Há que ponderar o custo-benefício de qualquer tratamento. Deve esperar uns meses após ter estabilizado e perguntar-se: A minha qualidade de vida melhorou? Estou melhor agora que antes do tratamento?

Deve conferenciar abertamente com o seu médico acerca dos seus medos, dos seus receios, das suas dúvidas, do que lê na internet e do que ouviu dizer acerca da doença.

Por outro lado, muitas pessoas vêm à consulta com o receio infundado de terem a Doença Bipolar : “Eu tenho muitas variações do humor, às vezes no próprio dia! Será que sou doente bipolar?” Ao que respondo: “Ainda bem que tem essas variações de humor. Significa que você tem sensibilidade e vibra com o mundo em seu redor.”

De facto, a doença bipolar requer que haja um padrão de depressão que se repete no tempo (depressão recorrente) em que a pessoa fica comprometida no seu bem-estar e na sua capacidade para desempenhar adequadamente o seu papel profissional e familiar. Flutuações de humor são inerentes à condição humana. Já depressões repetidas merecem uma outra atenção.

Há também o mito de que para se ter uma Doença Bipolar, não basta ter depressão – é preciso ter fases de euforia. Mas isso não é, de todo, verdade. Numa grande percentagem das doenças bipolares não existem sintomas de mania ou de hipomania, ou seja, não existem fases de elevação do humor ou de euforia.

São frequentes os casos de pacientes que chegam à consulta já com vários anos de doença, frequentemente com depressões com episódios mistos, ou seja, quadros de depressão com tristeza, ansiedade muito intensa, grande irritabilidade, comportamentos de explosividade, muitas vezes com crises de raiva que lhes parece injustificada e insónias repetidas, que passaram por diversos médicos e a quem foram receitados sistematicamente antidepressivos, os quais estão, nestes casos, contra-indicados, já que podem agravar a ansiedade, a irritabilidade, a explosividade e a insónia.

Os antidepressivos, regra geral, não se devem usar na Doença Bipolar. Se a um paciente bipolar, com uma crise depressiva, for dado um antidepressivo, pode acontecer, entre outras coisas: Ineficácia – o paciente não melhora ou pode melhorar nos primeiros meses mas logo de seguida voltar ao estado depressivo em que estava, mesmo sem ter deixado de tomar o antidepressivo; Agravamento – o paciente pode ficar mais ansioso, deixar de dormir, ficar muito irritado; Viragem – o paciente pode passar duma fase depressiva para uma fase maníaca.

Há uma percentagem muito pequena de pacientes com Doença Bipolar que melhoram com antidepressivos, mas estes só devem ser dados se o paciente já estiver previamente medicado com um estabilizador de humor.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Quais os tratamentos disponíveis? É possível prever as crises?

Imagem

Parte III

Quais os tratamentos disponíveis ?

 

O tratamento da Doença Bipolar é essencialmente farmacológico e estão indicados, como tratamento de eleição, os estabilizadores do humor.

No tratamento de fase aguda são usados medicamentos que podem, no curto prazo, aliviar os sintomas, tanto do pólo maníaco como do pólo depressivo.

Na fase aguda podem usar-se medicamentos chamados de antipsicóticos. Estes medicamentos são também anti-maníacos, isto é, são medicamentos que combatem sintomas psicóticos quando estes existem, mas também reduzem sintomas do pólo maníaco, ou seja, melhoram rapidamente os estados de euforia, ansiedade, irritabilidade e insónia.

Existem também medicamentos que podem combater os sintomas depressivos, os quais, curiosamente, nem sempre respondem à medicação antidepressiva clássica. É mandatória a introdução de estabilizadores de humor em qualquer tipo e fase de Doença Bipolar que, embora menos eficazes na fase aguda serão de importância primordial na fase de manutenção, em que se pretende evitar, tanto quanto possível, o fenómeno da recorrência, ou seja, as recaídas.

Por vezes existem formas de Doença Bipolar muito graves, que não melhoram com os medicamentos e que, em casos muito seleccionados podem melhorar muito com a terapia por estimulação eléctrica do cérebro, conhecida por Electroconvulsivoterapia. Há inúmeros mitos e preconceitos acerca deste tratamento, como sendo muito violento e até desumano! Trata-se de facto de um tratamento muito seguro, feito com anestesia geral, que tem menos efeitos secundários que o tratamento com medicamentos, e que se pode traduzir numa grande melhoria clínica de pacientes que, de outra forma, não teriam qualquer tratamento eficaz disponível.

Por outro lado, além dos tratamentos médicos acima descritos, pode ser extremamente útil um tratamento psicológico ou Psicoterapia, a qual pode abordar diferentes problemas. Pode ser útil para ajudar a pessoa a quem foi diagnosticada Doença Bipolar a reorganizar a sua vida, a adaptar-se à sua doença e a reconstruir uma vida funcional e produtiva. Por outro lado, muitos pacientes mantêm sintomas depressivos, mais suaves, apesar do tratamento médico adequado, e a Psicoterapia pode ser muito benéfica nestes casos. Pode ainda ajudar os pacientes a desenvolver formas eficazes de gerir o stress e resolver problemas stressantes.

De salientar também a importância de implementar uma estratégia educacional, em que se promove a adesão do paciente ao tratamento médico e se ajuda o paciente a identificar precocemente os sinais de recaída.

É possível prever as crises?

Não é possível prever uma crise de Doença Bipolar. No entanto, sabe-se que existem factores que podem desencadear um episódio de Doença Bipolar, sendo assim possível diminuir o risco duma recaída, com base no conhecimento desses mesmos factores precipitantes. Sabe-se que o abuso de álcool e de certas substâncias ilícitas (vulgo, drogas) pode desencadear quer uma crise depressiva, quer uma crise maníaca. Também acontecimentos de vida stressantes (perda do emprego, luto na família) podem desencadear recaídas depressivas.

Por outro lado, a supressão do sono (voo de longo curso em que não foi possível dormir) e/ou alterações drásticas do ritmo de sono-vigilia podem precipitar episódios maníacos.

Há ainda factores orgânicos que podem favorecer a ocorrência dum episódio maníaco (hipertiroidismo, níveis de ácido úrico aumentados no sangue, traumatismo craniano, deficiência em Vitamina B 12, entre outros). Certos medicamentos ou substâncias podem também desencadear crises depressivas (medicamentos para a hipertensão, para o colesterol, alguns antibióticos, p. ex.) ou episódios maníacos (cafeína, cocaína, estimulantes, álcool, antidepressivos, broncodilatadores, entre outros).

Por fim, um dos desencadeantes mais frequentes de recaídas da Doença Bipolar é o não cumprimento rigoroso da medicação prescrita pelo médico psiquiatra.

Com base no conhecimento destes factores, é possível elaborar um plano de vida mais saudável que permita evitar ou prevenir a ocorrência e/ou influência destes desencadeantes, sendo que a Psicoterapia pode ajudar a pessoa a desenvolver estratégias de redução do stress e aptidões para a solução de problemas stressantes.

No entanto, não sendo possível antecipar ou prever uma crise de Doença Bipolar pode, no entanto, estar-se atento aos primeiros sinais de uma crise: por exemplo, a perda de sono é um dos mais importantes sinais de recaída de Doença Bipolar, tanto num episódio maníaco como num episódio misto, bem como o aparecimento de grande irritabilidade.

Por outro lado, a sensação interna de “aceleração”, de ter os pensamentos a “mil à hora”, o discurso mais acelerado, a menor capacidade de concentração, o iniciar várias tarefas que ficam por terminar, podem também ser sinais precoces de descompensação. Nestes casos, antecipe imediatamente a consulta com o seu médico. Um ajuste na sua medicação pode “abortar” uma crise ou atenuar a sua intensidade.

Se for familiar do paciente, o que pode fazer?

Deve encorajá-lo a recorrer ao médico logo que possível. Por vezes, quer as recaídas depressivas, quer as recaídas maníacas, podem apresentar sintomas que sugerem um corte com a realidade. Frequentemente, os pacientes com sintomas psicóticos perdem a capacidade para compreenderem que estão doentes e podem até recusar assistência médica.

Nestes casos, os familiares devem contactar o médico psiquiatra assistente ou, caso o paciente não tenha já seguimento médico, poderão recorrer ao Serviço de Urgência do hospital da sua residência e pedir para falar com o médico psiquiatra de serviço, que os aconselhará sobre os passos a tomar para conseguir que o paciente receba assistência.

Nos casos mais graves, em que haja uma situação de risco grave para o paciente ou para terceiros, ou recusa em aceitar tratamento médico, pode ser necessário um internamento compulsivo. Nestes casos, pode promover-se o internamento do paciente contra sua vontade, quando este recusa terminantemente qualquer assistência médica.

A família do paciente deve ser incluída neste trabalho de informação e esclarecimento, na medida em que vão ser as primeiras pessoas a poder ajudá-lo quando tiver uma recaída.

Se você tiver um familiar com Doença Bipolar e não souber como ajudar, acompanhe o paciente a uma consulta e, com o consentimento do paciente, coloque as suas questões ao médico.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – As causas e os tipos

PSITALK

Imagem

Parte II – As causas e os tipos de Doença Bipolar

Os produtos químicos responsáveis por controlar as funções do cérebro são chamados de neurotransmissores, cujos exemplos incluem noradrenalina, serotonina e dopamina, entre outros. A Doença Bipolar resulta do desequilíbrio destes neurotransmissores no cérebro. Um desequilíbrio nos níveis de um ou mais neurotransmissores pode conduzir ao aparecimento dos sintomas da doença bipolar.

Por exemplo, os episódios de mania podem ocorrer quando os níveis de dopamina são demasiado elevados, e episódios de depressão podem ser o resultado de níveis de dopamina muito baixos. Sabe-se, no entanto, que desequilíbrios noutros neurotransmissores (serotonina, GABA, p. ex.) para além da dopamina estão envolvidos na Doença Bipolar.

As causas para este desequilíbrio são genéticas e ambientais. Estudos de doentes bipolares e seus familiares, demonstram que pode existir predisposição genética para a doença bipolar, sendo que a probabilidade de contrair doença bipolar está claramente relacionada com a…

View original post mais 365 palavras

Doença Bipolar: a doença dos humores – Em que consiste e quais os seus sintomas

É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

Imagem

Iniciamos hoje uma série de 4 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ? É possivel prever as crises?
IV – Mitos e crenças

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda fases mista.

Durante a fase maníaca, a pessoa pode sentir-se cheia de energia, optimismo, auto-confiança, desinibida, a velocidade do pensamento está acelerada, frequentemente fala muito e depressa, saltando, por vezes, de pensamento em pensamento, como que perdendo o fio à meada, produzindo um discurso confuso ou mesmo incoerente. A memória de curto prazo pode estar afectada, tal como a capacidade de concentração, distraindo-se com uma enorme facilidade.

Pode manifestar ideias de grandiosidade que não têm qualquer fundamento real, pode estar convencido de ser muito rico ou de ter poderes divinos ou sobrenaturais. Pode estar irritável explodindo com pequenos contratempos. De igual forma, por ser muito impulsivo e irritável, é frequente envolver-se em confrontos físicos. Esta fase – a que se chama de fase maníaca – é caracterizada por uma hiperactividade física e mental. O desejo sexual aumenta, a par com desinibição, podendo envolver-se em comportamentos sexuais de risco que normalmente não empreenderia. Pode manifestar ainda uma generosidade excessiva ou descontrolada, havendo o risco de se endividar.

Há frequentemente insónia, com redução drástica da necessidade de dormir, podendo a pessoa dormir apenas 2 a 3 horas por noite.

No entanto, podem existir fases de hipomania, nas quais estes sintomas se apresentam de forma mais atenuada, com sensação de grande energia interior, pensamento mais rápido mas sem desorganização, com hiperactividade, redução da necessidade de dormir, aumento da produtividade. A pessoa poderá ainda apresentar-se mais alegre, mais expansiva e optimista.

Estas fases podem passar despercebidas aos familiares e amigos como fases dum humor anormalmente elevado, porque não há compromisso na capacidade de desempenhar o seu trabalho. Muito pelo contrário, nestas fases, a impressão de terceiros é que a pessoa, habitualmente deprimida, está numa “fase boa” ou, no máximo, “um pouco mais acelerada”.

Na fase depressiva apresenta-se triste, desmotivado, manifesta um grande cansaço, com perda da iniciativa, perda do desejo sexual, perda do interesse por si próprio e pelos outros, podendo negligenciar os cuidados pessoais e isolar-se do mundo. Pode verbalizar baixa auto-estima e sentimentos de desespero, podendo até tentar o suicídio.

A depressão pode ser major, se for muito incapacitante, com compromisso da capacidade do individuo em cumprir as suas tarefas profissionais, gerando perda de autonomia e dependência progressivamente maior de terceiros (frequentemente até para as actividades elementares da vida diária) ou, ainda, quando a depressão se revela grave pela existência persistente de ideias de suicídio. Pode ainda a pessoa apresentar sintomas psicóticos, ou seja, sintomas que revelam um corte com a realidade, apresentando crenças ou convicções que não correspondem à realidade, como por exemplo, acreditar que está na falência, que está enfermo duma doença física grave e fatal ou a convicção de ser o responsável por todos os males do mundo. Pode ainda ter alucinações auditivo-verbais, ouvir vozes sem que consiga identificar a origem destas, que o insultam, recriminam ou desmoralizam.

A depressão minor distingue-se por ser um quadro menos grave, sem uma repercussão tão grave na vida do paciente como a depressão major. Frequentes vezes, o indivíduo não sente haver necessidade de interromper a sua actividade profissional e nunca aparecem sintomas psicóticos.

São ainda muito frequentes, nas pessoas com doença bipolar, as fases mistas, em que se misturam, ao mesmo tempo, sintomas das fases maníaca e depressiva, em que a pessoa pode manifestar tristeza, chorando facilmente, mas também inquietação marcada (com uma sensação de nervoso muidinho que a impede de descansar), ansiedade muito acentuada (podendo até ter ataques de pânico), irritabilidade marcada com explosividade (podendo zangar-se com amigos e família sem grandes motivos válidos) e insónia.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

PSITALK

É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

Imagem

Iniciamos hoje uma série de 5 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ?
IV – É possível prever as crises?
V – Mitos, crenças e receios

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda…

View original post mais 598 palavras

Diz-me do que és capaz

de-que-sao-capazes

Na esmagadora maioria das vezes, quem procura ajuda e se dispõe a entrar num processo terapêutico, apresenta algum grau de sofrimento ou desconforto.

A bem da verdade, raramente encontrei alguém em consulta que procurasse ajuda porque “tudo estava bem” (e, diga-se, que quando tal sucedeu, ao cabo de algumas sessões, percebemos, eu enquanto terapeuta, e a pessoa enquanto cliente, que nem tudo estava assim tão bem, e partir desse momento, pudemos trabalhar com uma base comum rumo a um real processo de psicoterapia).

Efectivamente, a terapia parte de um ponto desconfortável, constrangedor, limitado e limitador. É este ponto que leva a que a pessoa procure uma perspectiva diferente de tudo aquilo que já experimentou, com maior ou menor eficácia, ao longo do tempo.

A forma como a pessoa e o terapeuta olham para o sofrimento é variável, ao longo do tempo, consoante as orientações teóricas, o nível de perspectivas conceptuais e sistémicas, o grau de análise, etc.. Como cliente, eventualmente o sofrimento associado a um evento impactante na sua vida terá variado na medida em que o tempo foi passando, e foi sendo capaz de perspectivar este evento num enquadramento diferente e mais adaptado, o que terá ajudado a ser capaz de lidar melhor com a situação. Por outro lado, a terapeuta que sou hoje continua (e continuará) a aprender e, portanto, as minhas conceptualizações clínicas hoje em dia são (espero eu!) mais abrangentes e contentoras do que no passado.

Parece quase intuitivo, só que nem sempre é assim. Na pressa ou no hábito que por vezes se cai tendo em conta um modelo mais de doença vs cura, esquecemos uma abordagem mais abrangente e compreensiva. E isto sucede tanto da parte do terapeuta (muitas vezes a partir de crenças sobre o próprio papel que desempenha no processo terapêutico) como também da parte da pessoa que procura ajuda, que pretende um alívio mais focado do que propriamente uma expansão da sua forma de se relacionar consigo e com os outros.

No entanto, uma das tarefas mais cruciais de qualquer processo de ajuda psicológica é a de permitir que a pessoa reganhe uma percepção de controlo e responsabilidade na sua vida. Só neste empoderamento conseguirá a pessoa abraçar e personificar todo o trabalho multidimensional que é conduzido no processo terapêutico, quer em termos emocionais, experienciais, cognitivos e comportamentais.

E esta tarefa dificilmente é conseguida se trabalharmos a partir de um modelo que se foque exclusivamente naquilo que “falta” à pessoa. Mais do que uma aprendizagem gradual, a terapia é um laboratório humano, em que o suporte providenciado nem sempre (quase nunca) passa por providenciar soluções. No processo de descoberta conjunta, parte-se do que a pessoa traz, dos seus recursos, reais e/ ou percebidos, e expande-se a partir daí, numa viagem corajosa.

Assim sendo, costumo desafiar quem me procura não apenas a elaborar sobre o que a preocupa, entristece, aborrece, enfim, mas também a discorrer sobre o que ainda é bom, sobre aquilo de que é capaz de fazer e que lhe permite fruir a vida. Não, esclareço que não sou fã de um foco exagerado no positivo, de forma tal que se distorça o sofrimento. E, ao mesmo tempo, venho descobrindo que um qualquer processo que se circunscreva ao que “está mal”, pecará pela ausência de uma perspectiva sistémica e organísmica sobre a pessoa.

Sabemos que abordar o que nos causa sofrimento é um passo fulcral na sua contenção, definição e enquadramento. Aliás, o foco no que dói é, efectivamente, uma estratégia muito utilizada no controlo e gestão psicológica da dor. Nesses casos, a pessoa é encorajada a não evitar o sofrimento (ao invés do que tipicamente acontece) e dar uma nova perspectiva ao sofrimento. Como é a dor, de que cor é, onde está localizada? E a partir daqui, a partir da delimitação consciente e focada, a pessoa é capaz de enquadrar e focar naquilo que não acarreta sofrimento e, assim, apreciar sensações prazerosas que antes ficavam reféns da dor, uma vez que esta era percebida de forma hiper-difusa.

E assim, focar no que está bem, saudável e prazeroso na vida da pessoa confere um grau de poder e de apreciação que lhe permitira aferir e mobilizar os seus recursos pessoais, internos e externos, bem como regular a sua própria percepção de eficácia e auto-conceito. Por outras palavras, nem tudo é bom e nem tudo é mau, e a grande diferença está também na forma como a pessoa perspectiva e enquadra a sua realidade psicológica.

Recordo com imenso carinho uma pessoa que acompanhei durante algum tempo e que, quando desafiado a reflectir sobre o que era capaz, me respondeu, como se fosse a resposta menos valiosa, “sei montar um computador de raíz”. Ora pois, como imaginam, este foi um dos primeiros momentos em muito tempo que esta pessoa foi convidada a mostrar um lado positive de si. E foi a partir desta percepção de competência que pudemos desbloquear um trabalho mais abrangente, satisfatório e transformador.

Desta forma, aceito que o sofrimento seja, efectivamente, o grande responsável pelo início dos processos de psicoterapia, mas recuso que o foco de um bom e saudável processo se esgote na negatividade e na superação mecânica de um estado anterior.

Antes, prefiro optar por uma abordagem em que se traz para o processo desafiador da psicoterapia tanto o bom, como o mau, como o difícil e o fácil, o doloroso e o prazeroso, e todas as dicotomias que estamos habituados a usar numa catalogação heurística mas que são redutoras quando se trata de traduzir a complexidade da mudança.

E uma das formas que vim desenvolvendo tem sido, precisamente essa, de convidar a pessoa a reflectir sobre as suas capacidades.

E por aí, de que são capazes?

Ana Baptista de Oliveira – Psicóloga e Psicoterapêuta