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Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com https://psiworks.pt Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

Doença Bipolar: a doença dos humores – Quais os tratamentos disponíveis? É possível prever as crises?

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Parte III

Quais os tratamentos disponíveis ?

 

O tratamento da Doença Bipolar é essencialmente farmacológico e estão indicados, como tratamento de eleição, os estabilizadores do humor.

No tratamento de fase aguda são usados medicamentos que podem, no curto prazo, aliviar os sintomas, tanto do pólo maníaco como do pólo depressivo.

Na fase aguda podem usar-se medicamentos chamados de antipsicóticos. Estes medicamentos são também anti-maníacos, isto é, são medicamentos que combatem sintomas psicóticos quando estes existem, mas também reduzem sintomas do pólo maníaco, ou seja, melhoram rapidamente os estados de euforia, ansiedade, irritabilidade e insónia.

Existem também medicamentos que podem combater os sintomas depressivos, os quais, curiosamente, nem sempre respondem à medicação antidepressiva clássica. É mandatória a introdução de estabilizadores de humor em qualquer tipo e fase de Doença Bipolar que, embora menos eficazes na fase aguda serão de importância primordial na fase de manutenção, em que se pretende evitar, tanto quanto possível, o fenómeno da recorrência, ou seja, as recaídas.

Por vezes existem formas de Doença Bipolar muito graves, que não melhoram com os medicamentos e que, em casos muito seleccionados podem melhorar muito com a terapia por estimulação eléctrica do cérebro, conhecida por Electroconvulsivoterapia. Há inúmeros mitos e preconceitos acerca deste tratamento, como sendo muito violento e até desumano! Trata-se de facto de um tratamento muito seguro, feito com anestesia geral, que tem menos efeitos secundários que o tratamento com medicamentos, e que se pode traduzir numa grande melhoria clínica de pacientes que, de outra forma, não teriam qualquer tratamento eficaz disponível.

Por outro lado, além dos tratamentos médicos acima descritos, pode ser extremamente útil um tratamento psicológico ou Psicoterapia, a qual pode abordar diferentes problemas. Pode ser útil para ajudar a pessoa a quem foi diagnosticada Doença Bipolar a reorganizar a sua vida, a adaptar-se à sua doença e a reconstruir uma vida funcional e produtiva. Por outro lado, muitos pacientes mantêm sintomas depressivos, mais suaves, apesar do tratamento médico adequado, e a Psicoterapia pode ser muito benéfica nestes casos. Pode ainda ajudar os pacientes a desenvolver formas eficazes de gerir o stress e resolver problemas stressantes.

De salientar também a importância de implementar uma estratégia educacional, em que se promove a adesão do paciente ao tratamento médico e se ajuda o paciente a identificar precocemente os sinais de recaída.

É possível prever as crises?

Não é possível prever uma crise de Doença Bipolar. No entanto, sabe-se que existem factores que podem desencadear um episódio de Doença Bipolar, sendo assim possível diminuir o risco duma recaída, com base no conhecimento desses mesmos factores precipitantes. Sabe-se que o abuso de álcool e de certas substâncias ilícitas (vulgo, drogas) pode desencadear quer uma crise depressiva, quer uma crise maníaca. Também acontecimentos de vida stressantes (perda do emprego, luto na família) podem desencadear recaídas depressivas.

Por outro lado, a supressão do sono (voo de longo curso em que não foi possível dormir) e/ou alterações drásticas do ritmo de sono-vigilia podem precipitar episódios maníacos.

Há ainda factores orgânicos que podem favorecer a ocorrência dum episódio maníaco (hipertiroidismo, níveis de ácido úrico aumentados no sangue, traumatismo craniano, deficiência em Vitamina B 12, entre outros). Certos medicamentos ou substâncias podem também desencadear crises depressivas (medicamentos para a hipertensão, para o colesterol, alguns antibióticos, p. ex.) ou episódios maníacos (cafeína, cocaína, estimulantes, álcool, antidepressivos, broncodilatadores, entre outros).

Por fim, um dos desencadeantes mais frequentes de recaídas da Doença Bipolar é o não cumprimento rigoroso da medicação prescrita pelo médico psiquiatra.

Com base no conhecimento destes factores, é possível elaborar um plano de vida mais saudável que permita evitar ou prevenir a ocorrência e/ou influência destes desencadeantes, sendo que a Psicoterapia pode ajudar a pessoa a desenvolver estratégias de redução do stress e aptidões para a solução de problemas stressantes.

No entanto, não sendo possível antecipar ou prever uma crise de Doença Bipolar pode, no entanto, estar-se atento aos primeiros sinais de uma crise: por exemplo, a perda de sono é um dos mais importantes sinais de recaída de Doença Bipolar, tanto num episódio maníaco como num episódio misto, bem como o aparecimento de grande irritabilidade.

Por outro lado, a sensação interna de “aceleração”, de ter os pensamentos a “mil à hora”, o discurso mais acelerado, a menor capacidade de concentração, o iniciar várias tarefas que ficam por terminar, podem também ser sinais precoces de descompensação. Nestes casos, antecipe imediatamente a consulta com o seu médico. Um ajuste na sua medicação pode “abortar” uma crise ou atenuar a sua intensidade.

Se for familiar do paciente, o que pode fazer?

Deve encorajá-lo a recorrer ao médico logo que possível. Por vezes, quer as recaídas depressivas, quer as recaídas maníacas, podem apresentar sintomas que sugerem um corte com a realidade. Frequentemente, os pacientes com sintomas psicóticos perdem a capacidade para compreenderem que estão doentes e podem até recusar assistência médica.

Nestes casos, os familiares devem contactar o médico psiquiatra assistente ou, caso o paciente não tenha já seguimento médico, poderão recorrer ao Serviço de Urgência do hospital da sua residência e pedir para falar com o médico psiquiatra de serviço, que os aconselhará sobre os passos a tomar para conseguir que o paciente receba assistência.

Nos casos mais graves, em que haja uma situação de risco grave para o paciente ou para terceiros, ou recusa em aceitar tratamento médico, pode ser necessário um internamento compulsivo. Nestes casos, pode promover-se o internamento do paciente contra sua vontade, quando este recusa terminantemente qualquer assistência médica.

A família do paciente deve ser incluída neste trabalho de informação e esclarecimento, na medida em que vão ser as primeiras pessoas a poder ajudá-lo quando tiver uma recaída.

Se você tiver um familiar com Doença Bipolar e não souber como ajudar, acompanhe o paciente a uma consulta e, com o consentimento do paciente, coloque as suas questões ao médico.

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – As causas e os tipos

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Parte II – As causas e os tipos de Doença Bipolar

Os produtos químicos responsáveis por controlar as funções do cérebro são chamados de neurotransmissores, cujos exemplos incluem noradrenalina, serotonina e dopamina, entre outros. A Doença Bipolar resulta do desequilíbrio destes neurotransmissores no cérebro. Um desequilíbrio nos níveis de um ou mais neurotransmissores pode conduzir ao aparecimento dos sintomas da doença bipolar.

Por exemplo, os episódios de mania podem ocorrer quando os níveis de dopamina são demasiado elevados, e episódios de depressão podem ser o resultado de níveis de dopamina muito baixos. Sabe-se, no entanto, que desequilíbrios noutros neurotransmissores (serotonina, GABA, p. ex.) para além da dopamina estão envolvidos na Doença Bipolar.

As causas para este desequilíbrio são genéticas e ambientais. Estudos de doentes bipolares e seus familiares, demonstram que pode existir predisposição genética para a doença bipolar, sendo que a probabilidade de contrair doença bipolar está claramente relacionada com a…

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Doença Bipolar: a doença dos humores – As causas e os tipos

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Parte II – As causas e os tipos de Doença Bipolar

Os produtos químicos responsáveis por controlar as funções do cérebro são chamados de neurotransmissores, cujos exemplos incluem noradrenalina, serotonina e dopamina, entre outros. A Doença Bipolar resulta do desequilíbrio destes neurotransmissores no cérebro. Um desequilíbrio nos níveis de um ou mais neurotransmissores pode conduzir ao aparecimento dos sintomas da doença bipolar.

Por exemplo, os episódios de mania podem ocorrer quando os níveis de dopamina são demasiado elevados, e episódios de depressão podem ser o resultado de níveis de dopamina muito baixos. Sabe-se, no entanto, que desequilíbrios noutros neurotransmissores (serotonina, GABA, p. ex.) para além da dopamina estão envolvidos na Doença Bipolar.

As causas para este desequilíbrio são genéticas e ambientais. Estudos de doentes bipolares e seus familiares, demonstram que pode existir predisposição genética para a doença bipolar, sendo que a probabilidade de contrair doença bipolar está claramente relacionada com a existência de laços genéticos com indivíduos com doença bipolar. Assim, a probabilidade de vir a desenvolver uma doença bipolar está aumentada se ambos os pais também tiverem esta doença, sendo menor se apenas um dos pais a apresentar, e ainda menor se apenas um irmão estiver afectado.

Por outro lado, no que diz respeito às causas ambientais, os acontecimentos stressantes parecem ter um papel importante no desencadear da Doença Bipolar (p. ex., uma morte na família, perda do emprego, o nascimento duma criança).

Existem diferentes tipos de Doença Bipolar de acordo com a apresentação dos sintomas. Uma característica comum aos diferentes tipo de Doença Bipolar é a existência de um padrão de depressão recorrente, isto é, que se repete no tempo e, muitas vezes, sem que haja um acontecimento de vida a que se possa identificar como desencadeante do episódio depressivo.

Assim, na Doença Bipolar tipo I existe um padrão de depressão major que é recorrente, e também episódios de mania, menos frequentes que os episódios de depressão. Na Doença Bipolar tipo II existe um padrão de depressão major que é recorrente, e ainda, episódios de hipomania, menos frequentes que os episódios de depressão. Em qualquer destes dois tipos de depressão podem ocorrer episódios mistos (acima descritos).

A Ciclotimia é um outro tipo de Doença Bipolar, em que alternam episódios minor de depressão recorrente e episódios de hipomania que, apesar de menos grave que os tipos anteriores de Doença Bipolar, pode ser também incapacitante e gerador de muito sofrimento.

Por fim, é muito importante realçar que existe um tipo de Doença Bipolar, no qual não ocorrem episódios de hipomania ou mania, os quais se apresentam como episódios de depressão recorrentes, muito frequentemente episódios depressivos mistos, em que coexistem sintomas do pólo depressivo e do pólo maníaco, que são muitas vezes erradamente medicados com antidepressivos e em que pode existir um risco significativo de suicídio.

Este tipo de Doença Bipolar não se enquadra no tipo I, nem no tipo II ou na Ciclotimia, e são agrupados numa categoria a que os médicos psiquiatras designam como Doença Bipolar não especificada, por não se enquadrar em nenhum dos tipos mencionados.

 (CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Doença Bipolar: a doença dos humores – Em que consiste e quais os seus sintomas

É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

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Iniciamos hoje uma série de 4 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ? É possivel prever as crises?
IV – Mitos e crenças

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda fases mista.

Durante a fase maníaca, a pessoa pode sentir-se cheia de energia, optimismo, auto-confiança, desinibida, a velocidade do pensamento está acelerada, frequentemente fala muito e depressa, saltando, por vezes, de pensamento em pensamento, como que perdendo o fio à meada, produzindo um discurso confuso ou mesmo incoerente. A memória de curto prazo pode estar afectada, tal como a capacidade de concentração, distraindo-se com uma enorme facilidade.

Pode manifestar ideias de grandiosidade que não têm qualquer fundamento real, pode estar convencido de ser muito rico ou de ter poderes divinos ou sobrenaturais. Pode estar irritável explodindo com pequenos contratempos. De igual forma, por ser muito impulsivo e irritável, é frequente envolver-se em confrontos físicos. Esta fase – a que se chama de fase maníaca – é caracterizada por uma hiperactividade física e mental. O desejo sexual aumenta, a par com desinibição, podendo envolver-se em comportamentos sexuais de risco que normalmente não empreenderia. Pode manifestar ainda uma generosidade excessiva ou descontrolada, havendo o risco de se endividar.

Há frequentemente insónia, com redução drástica da necessidade de dormir, podendo a pessoa dormir apenas 2 a 3 horas por noite.

No entanto, podem existir fases de hipomania, nas quais estes sintomas se apresentam de forma mais atenuada, com sensação de grande energia interior, pensamento mais rápido mas sem desorganização, com hiperactividade, redução da necessidade de dormir, aumento da produtividade. A pessoa poderá ainda apresentar-se mais alegre, mais expansiva e optimista.

Estas fases podem passar despercebidas aos familiares e amigos como fases dum humor anormalmente elevado, porque não há compromisso na capacidade de desempenhar o seu trabalho. Muito pelo contrário, nestas fases, a impressão de terceiros é que a pessoa, habitualmente deprimida, está numa “fase boa” ou, no máximo, “um pouco mais acelerada”.

Na fase depressiva apresenta-se triste, desmotivado, manifesta um grande cansaço, com perda da iniciativa, perda do desejo sexual, perda do interesse por si próprio e pelos outros, podendo negligenciar os cuidados pessoais e isolar-se do mundo. Pode verbalizar baixa auto-estima e sentimentos de desespero, podendo até tentar o suicídio.

A depressão pode ser major, se for muito incapacitante, com compromisso da capacidade do individuo em cumprir as suas tarefas profissionais, gerando perda de autonomia e dependência progressivamente maior de terceiros (frequentemente até para as actividades elementares da vida diária) ou, ainda, quando a depressão se revela grave pela existência persistente de ideias de suicídio. Pode ainda a pessoa apresentar sintomas psicóticos, ou seja, sintomas que revelam um corte com a realidade, apresentando crenças ou convicções que não correspondem à realidade, como por exemplo, acreditar que está na falência, que está enfermo duma doença física grave e fatal ou a convicção de ser o responsável por todos os males do mundo. Pode ainda ter alucinações auditivo-verbais, ouvir vozes sem que consiga identificar a origem destas, que o insultam, recriminam ou desmoralizam.

A depressão minor distingue-se por ser um quadro menos grave, sem uma repercussão tão grave na vida do paciente como a depressão major. Frequentes vezes, o indivíduo não sente haver necessidade de interromper a sua actividade profissional e nunca aparecem sintomas psicóticos.

São ainda muito frequentes, nas pessoas com doença bipolar, as fases mistas, em que se misturam, ao mesmo tempo, sintomas das fases maníaca e depressiva, em que a pessoa pode manifestar tristeza, chorando facilmente, mas também inquietação marcada (com uma sensação de nervoso muidinho que a impede de descansar), ansiedade muito acentuada (podendo até ter ataques de pânico), irritabilidade marcada com explosividade (podendo zangar-se com amigos e família sem grandes motivos válidos) e insónia.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

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É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

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Iniciamos hoje uma série de 5 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ?
IV – É possível prever as crises?
V – Mitos, crenças e receios

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda…

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Diz-me do que és capaz

de-que-sao-capazes

Na esmagadora maioria das vezes, quem procura ajuda e se dispõe a entrar num processo terapêutico, apresenta algum grau de sofrimento ou desconforto.

A bem da verdade, raramente encontrei alguém em consulta que procurasse ajuda porque “tudo estava bem” (e, diga-se, que quando tal sucedeu, ao cabo de algumas sessões, percebemos, eu enquanto terapeuta, e a pessoa enquanto cliente, que nem tudo estava assim tão bem, e partir desse momento, pudemos trabalhar com uma base comum rumo a um real processo de psicoterapia).

Efectivamente, a terapia parte de um ponto desconfortável, constrangedor, limitado e limitador. É este ponto que leva a que a pessoa procure uma perspectiva diferente de tudo aquilo que já experimentou, com maior ou menor eficácia, ao longo do tempo.

A forma como a pessoa e o terapeuta olham para o sofrimento é variável, ao longo do tempo, consoante as orientações teóricas, o nível de perspectivas conceptuais e sistémicas, o grau de análise, etc.. Como cliente, eventualmente o sofrimento associado a um evento impactante na sua vida terá variado na medida em que o tempo foi passando, e foi sendo capaz de perspectivar este evento num enquadramento diferente e mais adaptado, o que terá ajudado a ser capaz de lidar melhor com a situação. Por outro lado, a terapeuta que sou hoje continua (e continuará) a aprender e, portanto, as minhas conceptualizações clínicas hoje em dia são (espero eu!) mais abrangentes e contentoras do que no passado.

Parece quase intuitivo, só que nem sempre é assim. Na pressa ou no hábito que por vezes se cai tendo em conta um modelo mais de doença vs cura, esquecemos uma abordagem mais abrangente e compreensiva. E isto sucede tanto da parte do terapeuta (muitas vezes a partir de crenças sobre o próprio papel que desempenha no processo terapêutico) como também da parte da pessoa que procura ajuda, que pretende um alívio mais focado do que propriamente uma expansão da sua forma de se relacionar consigo e com os outros.

No entanto, uma das tarefas mais cruciais de qualquer processo de ajuda psicológica é a de permitir que a pessoa reganhe uma percepção de controlo e responsabilidade na sua vida. Só neste empoderamento conseguirá a pessoa abraçar e personificar todo o trabalho multidimensional que é conduzido no processo terapêutico, quer em termos emocionais, experienciais, cognitivos e comportamentais.

E esta tarefa dificilmente é conseguida se trabalharmos a partir de um modelo que se foque exclusivamente naquilo que “falta” à pessoa. Mais do que uma aprendizagem gradual, a terapia é um laboratório humano, em que o suporte providenciado nem sempre (quase nunca) passa por providenciar soluções. No processo de descoberta conjunta, parte-se do que a pessoa traz, dos seus recursos, reais e/ ou percebidos, e expande-se a partir daí, numa viagem corajosa.

Assim sendo, costumo desafiar quem me procura não apenas a elaborar sobre o que a preocupa, entristece, aborrece, enfim, mas também a discorrer sobre o que ainda é bom, sobre aquilo de que é capaz de fazer e que lhe permite fruir a vida. Não, esclareço que não sou fã de um foco exagerado no positivo, de forma tal que se distorça o sofrimento. E, ao mesmo tempo, venho descobrindo que um qualquer processo que se circunscreva ao que “está mal”, pecará pela ausência de uma perspectiva sistémica e organísmica sobre a pessoa.

Sabemos que abordar o que nos causa sofrimento é um passo fulcral na sua contenção, definição e enquadramento. Aliás, o foco no que dói é, efectivamente, uma estratégia muito utilizada no controlo e gestão psicológica da dor. Nesses casos, a pessoa é encorajada a não evitar o sofrimento (ao invés do que tipicamente acontece) e dar uma nova perspectiva ao sofrimento. Como é a dor, de que cor é, onde está localizada? E a partir daqui, a partir da delimitação consciente e focada, a pessoa é capaz de enquadrar e focar naquilo que não acarreta sofrimento e, assim, apreciar sensações prazerosas que antes ficavam reféns da dor, uma vez que esta era percebida de forma hiper-difusa.

E assim, focar no que está bem, saudável e prazeroso na vida da pessoa confere um grau de poder e de apreciação que lhe permitira aferir e mobilizar os seus recursos pessoais, internos e externos, bem como regular a sua própria percepção de eficácia e auto-conceito. Por outras palavras, nem tudo é bom e nem tudo é mau, e a grande diferença está também na forma como a pessoa perspectiva e enquadra a sua realidade psicológica.

Recordo com imenso carinho uma pessoa que acompanhei durante algum tempo e que, quando desafiado a reflectir sobre o que era capaz, me respondeu, como se fosse a resposta menos valiosa, “sei montar um computador de raíz”. Ora pois, como imaginam, este foi um dos primeiros momentos em muito tempo que esta pessoa foi convidada a mostrar um lado positive de si. E foi a partir desta percepção de competência que pudemos desbloquear um trabalho mais abrangente, satisfatório e transformador.

Desta forma, aceito que o sofrimento seja, efectivamente, o grande responsável pelo início dos processos de psicoterapia, mas recuso que o foco de um bom e saudável processo se esgote na negatividade e na superação mecânica de um estado anterior.

Antes, prefiro optar por uma abordagem em que se traz para o processo desafiador da psicoterapia tanto o bom, como o mau, como o difícil e o fácil, o doloroso e o prazeroso, e todas as dicotomias que estamos habituados a usar numa catalogação heurística mas que são redutoras quando se trata de traduzir a complexidade da mudança.

E uma das formas que vim desenvolvendo tem sido, precisamente essa, de convidar a pessoa a reflectir sobre as suas capacidades.

E por aí, de que são capazes?

Ana Baptista de Oliveira – Psicóloga e Psicoterapêuta

Os nossos sintomas são os nossos despertadores

sintomas-despertadores
“Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança”
Provérbio Chinês
A experiência de desenvolver um problema psicológico como ataques de pânico, ansiedade generalizada, depressão,… é frequentemente avassaladora. Por um lado há a sensação de perda de controlo de si, por outro lado os sintomas parecem ser desprovidos de sentido e há uma incompreensão muito grande de si próprio, e muitas vezes vem a vergonha e a culpa, vergonha da vulnerabilidade que os sintomas revelam e culpa por não ter sido capaz de evitar estas manifestações e por continuar sem as perceber.
Se prolongado no tempo, especialmente para problemas do foro da ansiedade, além da exacerbação dos sintomas iniciais, tendem a surgir novos, mais obsessivos e compulsivos, mais distantes da raiz do problema, e a incompreensão de si próprio é cada vez maior.Muitas vezes não há de facto um sentido directo e claro para a sintomatologia, o que ela faz é sinalizar uma vulnerabilidade, como um despertador com alarme em crescendo, que se não é desligado ao início vai tocando com um volume cada vez mais alto até ser ouvido e atendido.
A mensagem dos sintomas é “go to the heart of danger, [vai ao âmago do perigo], não fujas, olha, procura, percebe; para te libertares”.
O despertador/sintoma é só um sinalizador que vai tocando mais forte à medida que a insegurança aumenta, que o medo aumenta, sempre a pedir “não fujas, olha, fica”.Tomarmos consciência das nossas vulnerabilidades, dos pontos em que somos particularmente sensíveis, assusta, mexe com o nosso medo do descontrolo, da falta de poder sobre nós próprios, sem percebermos que tanto menos poder temos quanto mais ignoramos/negamos as nossas vulnerabilidades; quanto mais eu as conheço, compreendo e aceito, mais controlo tenho na realidade, porque mais sei com o que posso contar e posso mobilizar recursos para reparar ou apaziguar o problema de base, a essência.

Este é o trabalho que procuramos fazer em psicoterapia, traduzir sintomas (sinais, despertadores) em vulnerabilidades, em necessidades por satisfazer, em assuntos inacabados a processar e resolver, porque por doloroso que seja tomar consciência de aspectos sensíveis de nós, da nossa história, e percebermos as implicações que eles têm na nossa vida, no nosso funcionamento, é um trabalho fulcral, é o desligar o despertador e levantar da cama, é o retomar as rédeas, o controlo, é mobilizar para resolver.

Primeiro filho – uma nova etapa

primeiro filho, uma nova etapa

Estou grávida, vou ser Mãe – Esta primeira tomada de consciência pode gerar um turbilhão de emoções dependendo das circunstâncias de quem as vive.

Dizem-nos as estatísticas sobre os casais que procuram terapia de casal, que muitos dos seus problemas começaram com o nascimento do primeiro filho. Seria pois enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, não olhar de frente para tudo o que se passa quando esperamos um filho.

Desejar a gravidez é o primeiro passo para que esta revolução chamada maternidade e paternidade se constitua como um processo tranquilo. Planeada ou não, recebida com maior ou menor surpresa, a partir do momento em que a mãe deseja ter o seu filho a alegria e a preocupação parecem querer dar as mãos.

Talvez a primeira aprendizagem a fazer, seja mesmo a de saber ouvir as preocupações para que nos possamos ocupar delas, perceber que receios escondem, tomar medidas sobre o que está ao nosso alcance fazer para que tudo corra o melhor possível, e saber conviver com essa “poeira” chamada ansiedade, pois o que não podemos controlar, não deve ensombrar a alegria do caminho.

A Gravidez, esses 9 meses que antecedem o grande dia, são um período de preparação fundamental, em que se visitam memórias, algumas vezes conflituosas, que podem vir acompanhadas de medo e angústia do que desconhecemos, mas também de dúvidas sobre as nossas capacidades, e sobre nós, quer enquanto pessoas complexas com partes menos claras e evidentes, quer enquanto mães e pais iminentes. Este é também um tempo de adaptação às transformações físicas e psicológicas, que possibilita a aprendizagem, a preparação, a antecipação de mudanças e que funciona como uma oportunidade de integrar passado e futuro num presente saudável e luminoso.

A Gravidez (ou o tempo de espera para adopção) pode ser um momento de grande desenvolvimento pessoal, que a natureza nos chama a fazer em acelerado. O Eu-filha/o vai agora passar a ser Eu-mãe ou Eu-pai. O Eu-cuidado – até há pouco tempo, melhor ou pior, cuidado por outros, muitas vezes não sabendo ainda cuidar de Si próprio do ponto de vista psicológico – vê-se agora com a nobre e grandiosa missão de passar a ser um Eu-cuidador. Esta mudança terá que estar, ela própria, grávida de aceitação dessa responsabilidade e do seu significado. Aproveitemos pois a gravidez, como mais um momento de desenvolvimento pessoal consciente.

Tal como irá agendar as suas idas ao médico, análises, ecografias, cuidar da alimentação, preparar-se para o parto e para receber o seu filho, também não hesite em pedir ajuda profissional, se a sua ansiedade for muito grande, se recear não estar à altura das transformações que se adivinham, ou se virem ao de cima conflitos que julgava ultrapassados. Cuidar de si, e da sua família actual, é preparar o melhor ambiente para o seu filho que vai nascer.

É da relação entre mãe e pai que nasce um filho. Esta, por vezes “não verdade,” do ponto de vista sexual, reprodutivo, ou mesmo relacional, deveria sê-lo sempre do ponto de vista afectivo, pois são os pilares afectivos, as bases mais sólidas que os futuros pais podem construir para, e com, os seus filhos. Também nós somos frutos dos laços que os nossos pais estabeleceram connosco, estes laços afectam a forma como nos relacionamos com o nosso parceiro e como nos relacionamos com os nossos filhos. Esta descoberta nem sempre é pacífica e pode trazer alguma perturbação e até conflitos, aproveite este momento para resolvê-los e para comunicar mais com o seu par. A partilha entre os futuros pais é fundamental para que ambos se descubram, naquilo que se deseja como sendo simultaneamente o aumento do conhecimento de si e do outro e o aumento dos laços afectivos entre ambos

É a solidez dos laços entre os pais e entre pais e filhos que perdura. Mesmo quando o casal acaba, ou nem sequer existe enquanto tal, não deve acabar enquanto pais do(s) filho(s) de ambos.

O que muda no nascimento de um filho? Estrutura, relações, prioridades.

A estrutura da família vai modificar-se; a mãe, se até aqui vivia sozinha irá viver com o seu filho, se a família era a 2, passará a ser uma família a 3. Qualquer que seja a composição anterior ela vai mudar, alterando assim a dinâmica vivida até ao momento, e o ponto de equilíbrio.

As relações que eram em primeiro lugar com o próprio e com o par, passam, a ser relações que implicam um novo papel individual de Eu, enquanto mãe/pai, e do Tu, também enquanto pai/mãe. Finalmente surge uma nova relação com o filho que até aqui fazia parte integrante da mãe e que, ao nascer, espelha-se como um ser individual que já não nos pertence, nem faz parte do nosso imaginário, é um ser concreto, real e de Direito Próprio.

As prioridades serão necessariamente outras, precisamente porque o novo ser, mostra agora, não só a sua individualidade, como a sua dependência total, exigindo atenção e cuidados plenos, tornando-se o centro a partir do qual tudo se move e organiza.

Tudo isto, embora com 9 meses de preparação, se dá, de um momento para outro, ao primeiro choro do bebé.

O nascimento dum filho marca o início duma nova fase, com novas organizações, novos pontos de equilíbrio e novos desafios. É o início da Maternidade e da Paternidade (Parentalidade), para o resto da nossa vida e com todas as adaptações que isso implica e vai implicando ao longo da vida…

Como diz José Saramago:

«Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.»

Cristina Marreiros da Cunha – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

“Amor nos tempos de cólera”, a MARTA e um exercício

amor em tpos cólera

Gabriel Garcia-Márquez escreveu uma das que é considerada unanimemente, uma das obras-primas da literatura. Remete-nos para um mundo intenso de emoções, de sensações, de um tanto que (todos) temos cá dentro, nos limites da nossa pele.

Ainda assim, para hoje, atrevo-me apenas a divagar sobre o título. Há toda uma riqueza nestas palavras, o amor nos tempos de cólera. Permitam-me, por conforto e conveniência para o tema, deixar de lado a cólera enquanto enfermidade, para nos centrarmos na cólera enquanto emoção intensa de raiva e zanga.

Já sabemos que, para bem da nossa saúde mental, as emoções são para ser vividas e experienciadas de forma segura e saudável. Vários autores tentam chegar a um consenso relativamente as emoções que podemos designar como transversais. Façamos a ressalva, estamos a falar de emoções e não da sua expressão facial, e estamos propositadamente a evitar termos como “universais” e “primárias”, de pendor teórico bastante marcado.

Consideremos então, novamente por conveniência, o seguinte rol de emoções transversais, ao qual (a quem) carinhosamente chamaremos MARTA.

  • Medo
  • Alegria
  • Raiva (há quem prefira “zanga”, mas por conforto para a MARTA, iremos manter raiva)
  • Tristeza
  • Atracção (e o seu oposto, a repulsa)

Ora bem, nem todos temos MARTAs na nossa vida, pelo menos da forma mais plena. Sugiro um rápido (mas nem por isso mais fácil) exercício. Ordene as emoções que aqui abordamos consoante a frequência com as experiencia (note que experienciar e expressar sao aspectos diferentes, por exemplo, pode estar zangado com um familiar mas não o expressar). Ja está? Repare que nem sempre é nítido acedermos ao nosso estado emocional (salvo em momentos de assinalável intensidade). Este é o primeiro passo do exercício.

O segundo desafio consiste em tentar perceber, ao longo da sua vida, a sua configuração emocional da MARTA se alterou, ou seja, se as emoções que experiencia mais frequentemente têm sido as mesmas (ou qual foi a direcção da mudança). Para os mais ávidos do registo mais pragmático, uma linha horizontal separada a intervalos regulares (5 ou 10 anos) pode ser uma boa ideia. Este é o segundo passo do exercício.

Na primeira parte do exercício, terá ficado com uma sequência de emoções, seja MARTA ou qualquer outra combinação possível, em que a primeira será a emoção que reconhece como sendo aquela que mais facilmente vivência (independentemente de a expressar, ou não), e dessa até chegar à última, que será a emoção que reconhece como mais dificilmente experienciada.

É importante estar atento. A tarefa é a de se permitir tomar maior consciência das emoções que ficaram em 4o e 5o lugar. Regra geral, são emoções que não nos permitimos sentir, ou através dos nossos diálogos internos, das expectativas e das regras vigentes na sociedade (todos “sabemos” que um homem não chora, uma menina não se zanga, etc..), na família, na escola, ou num determinado grupo ao qual queremos pertencer. Portanto, é útil apercebermo-nos que nos foi permitido expressar? E, por outro lado, o que nos foi proibido expressar?

No outro extremo, as emoções que conquistaram o 1o e 2o lugar são, muito possivelmente, aquelas que estão a ser experienciadas em regime de sobre-compensação. Ou seja, a sua vivência permite, eventualmente, mascara, iludir ou até não sentir as emoções que ficaram no fim da tabela. Não se quer com isto dizer que não estejamos de facto a experiênciar essa emoção, apenas estamos a focar na frequência com que essa vivência pode estar a substituir a expressão da emoção original. Esta emoção original seria aquela que, efectivamente, a pessoa exprimiria de forma plena e que lhe permitiria satisfazer a necessidade do momento que conduziu ao seu aparecimento.

Por exemplo, se colocou a raiva no último lugar da sua matriz emocional, e a tristeza em primeiro ou segundo lugar, poderíamos imaginar que em determinadas situações em que se poderia ter zangado (a raiva é uma emoção bastante activa em termos fisiológicos), se terá entristecido (sendo a tristeza uma emoção menos activa, e potencialmente mais lúcida e nítida).

Em complemento, o momento de retrospectiva do exercício apura-nos a capacidade de reflexão sobre os nossos momentos emocionais ao longo da vida (os mais marcantes, mas também os que correspondem a alturas menos intensas).

Esta movimentação pode ser relevante para nos darmos conta de eventuais padrões de expressão emocional num determinado sistema (família, escola, grupos de pares, etc.). Identificar estes padrões idealizados permite-nos também aumentar a consciência dos padrões proibidos, ao longo do tempo. Se tiver havido mudança na configuração da sua matriz emocional, poderá depreender-se que, ao longo do tempo, a pessoa foi capaz de flexibilizar a sua vivência emocional. Por outro lado, se a sua MARTA se manteve mais ou menos constante, tenha em atenção que uma configuração mais rígida inflexível poderá estar mais associada a uma menor capacidade de regulação de experiências emocionais e, eventualmente, a uma menor satisfação.

Voltemos a Gabriel, confirmando que o amor nos tempos de cólera também pode ser a tristeza nos momentos de medo ou a alegria nos momentos de tristeza. Apresentemos estas possibilidades às nossas vivências, permitamo-nos navegar entre o pode ser intenso e marcante, mas também plácido e sereno.

No fundo, pretendemos caminhar no sentido de aceder de forma segura ao mais autêntico das nossas emoções e, assim, saber de que precisamos para sermos mais plenos …

Ana Baptista de Oliveira – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Analfabetos dos “BONS”

Analfabetos dos BONS

Para escrever é preciso saber as letras do alfabeto e conjugá-las em grafemas, sílabas e depois palavras. Para conseguir escrever o BOM na vida é preciso atenção, ao olhar de forma completa para o que acontece. Só assim conseguiremos identificar o que é bom, agarrá-lo e registá-lo na nossa história.

Quando as pessoas procuram psicoterapia já se encontram, há muito, num ciclo de coisas que não são boas e que parecem não ter fim. Um profissional ajuda a processar de forma completa ciclos de dor na vida da pessoa, e, depois disto, surge inevitavelmente o BOM.

Quando habituamos a nossa mente a olhar demasiado para o desagradável (mau) é desenvolvido uma espécie de carril que conduz quase tudo para lá. Uma espécie de adição que se torna cegueira e, se a luz não entra, o caminho não se encontra. Precisamos então de ajuda para olhar mais e melhor, porque a solidão e a vergonha não são facilitadores desta tarefa e raramente permitem a alfabetização do bom.

Construir este caminho através da abertura para olhar mais além e com palavras que nos ajudem a dar significado ao que vivemos e vemos de bom, pode ser uma forma eficaz de combater a escuridão do mau (e, se quiser, de caminhar para o bem-estar e felicidade).

Bom e mau coexistem na vida e isto é reconfortante na aridez de uma travessia difícil ou nas simples frustrações do quotidiano. Mas é frequente termos, primeiro, dificuldade em encontrar as palavras agradáveis para expressar as coisas boas e depois, termos dificuldade em integrá-las na relação connosco próprios e com os outros. Faça o seguinte exercício: tente dar 3 adjectivos a algo de agradável que lhe aconteceu e 3 a algo de desagradável (e não vale “bom” nem “mau”) e depois tente sentir o impacto dessas palavras em si. Possivelmente sentirá mais dificuldade em encontrar as palavras e encaixá-las no bom do que no mau; encontrar, por falta de treino, e encaixar, por sentir algum receio em associá-las a si ou à experiência. Temos medo do bom porque não o queremos perder. Mas o mais triste é que perdemos oportunidades de nos sentirmos realmente bonitos, bons, importantes, livres, cheios, queridos (ou outra coisa qualquer) quando nem sequer as aceitámos no instante presente.

Também o balanço entre o passado, o presente e a perspectiva de futuro é muito importante. Mesmo quando não consegue encontrar nada de bom na sua vida que o(a) faça perspectivar-se bem no futuro, existem rasgos de luz na sua história que só precisam de ser vistos e identificados como tal. E não estou a falar do entusiasmo positivista papagueado sob a forma de incentivo motivacional que nos quer fazer acreditar que o mundo está aos nossos pés; isto, para além de desvalidante da nossa história, é tão dessincronizado da realidade que roça o ridículo.

 Para se ver e dar um significado ao bom, precisamos de partir do princípio que existem mais do que as sensações de mau que nos limitam num dado momento presente, que este não é o fim da história. Atenção e foco em toda a linha da vida! E se tivermos dificuldade em vê-la, pode ajudar olharmos para o alto; é que quando olhamos o céu damo-nos conta do quanto somos pequenos e que existe uma imensidão do universo que temos para conhecer. Depois baixamos o olhar e vislumbramos a nossa vida futura como um universo a viver e em que com certeza vai existir o Bom. Alguns chamam a isto: Esperança! Esta companhia que se empoleira na Alma e canta uma melodia sem palavras, como escreveu Emily Dickinson. É como um pássaro que não podemos aprisionar no nosso mundo interior porque corremos o risco dele achar que não é um bom lugar para se viver.

Não somos nem patetas alegres, nem tristes miseráveis. A nossa vida não é cor-de-rosa nem preta. Somos um todo. Somos o que somos com tudo o que nos assiste; o bom e o menos bom! E é assim que se faz a vida; a ganhar, a perder, a chorar, a rir, a celebrar e a deixar ir. Esta é que é uma vida realizada e não idealizada. Alfabetize os seus carris e verá a sua vida escrita de forma mais completa e livre!

Rita dos Santos Duarte – Psicóloga e Psicoterapeuta

Sedução e Sedutores

Seduçãe e Sedutores

Don Juan e Casanova são exemplos clássicos de sedutores inquietantes, bem falantes e mal pensantes que precipitam as senhoras no mau caminho. Hoje, no mundo das SMS, da Internet e de outras tecnologias, existirá ainda lugar para sedutores?

Terá o sedutor desaparecido da nossa sociedade tendencial e se­xualmente igualitária? Não me parece. Aliás, a curta duração de muitas relações, que morrem nas suas fases mais iniciais, comprovam o domínio do reino da sedução.

Em 1995, o filme Don Juan Demar­co, de Jeremy Leven, interpretado por dois grandes sedutores do cinema, Marlon Brando e Johnny Deep, veio reanimar o persona­gem literário de Don Juan, tido como símbolo de sedução e liber­tinagem. Este personagem, cuja existência real ainda hoje é discu­tida mas largamente representada nas mais variadas formas de arte, procura representar um padrão de personalidade narcísica, sem escrúpulos, amada e odiada e que não olha a meios para conquistar uma mulher. Curiosamente, este protótipo não é descrito para o sexo feminino – tido sempre co­mo vítima do sedutor, ainda que muitas mulheres sejam mestras na arte de seduzir.

Triunfo da conquista. Actual­mente a referência ao Don Juanis­mo serve para caracterizar uma situação que muitas vezes se torna patológica para o sedutor e para aqueles com quem ele se relaciona. Trata-se de uma forma de estar caracterizada por uma forte com­pulsão para a sedução de alguém que procura enamorar-se da pes­soa mais difícil de conquistar para a abandonar em seguida. São pes­soas que não conseguem manter uma relação por muito tempo, partindo logo em busca de novas conquistas.

Para o Don Juan apenas interessa o instante do prazer e o triunfo so­bre a sua conquista, principalmen­te quando o alvo do seu interesse tem uma situação relacional e ci­vil proibida. É o aspecto do desafio que o mobiliza, fazendo com que a conquista amorosa tenha contor­nos de desporto e competição. O narcisismo destas pessoas é um aspecto que melhor as caracteri­za, ao ponto de se amarem muito mais a si mesmas que a qualquer outra pessoa.

Estes Don Juan não são obriga­toriamente mais viris ou sexual­mente activos. A sedução contínua nem sempre se dá à custa de um eventual desempenho sexual ex­cepcional, mas devido à habilida­de em oferecer sempre às mulheres aquilo que elas mais desejam. São, por isso, o protótipo do príncipe encantado, tão valorizado pelo sexo feminino desde a mais tenra infância, e têm a capacidade de perceber rapidamente os gostos e fraquezas das suas vítimas, sendo muito rápidos em satisfazer as mais diversas expectativas. Não é de estranhar, por isso, que as mulheres que se envolvem em ligações deste tipo saem muito magoadas e com uma profunda sensação de raiva e abandono.

Arte de seduzir. Para além da faceta negativa da capacidade de seduzir, geralmente instalada em personalidades imaturas, já o uso da sedução no dia-a-dia deveria ser uma arte a desenvolver e a aplicar com frequência, qualquer que seja a nossa condição. Muitos casais beneficiariam desta arte se a praticassem mais e melhor, que­brando assim rotinas maçadoras e espevitando relações mornas. O dia de São Valentim tornou-se na festa instituída para pôr em prática a capacidade de agradar ao outro, de lhe mostrar que nos importa a sua presença. É o amor com dia e hora marcada. Mas porque hoje nos casamos ou nos unimos a alguém por amor, sen­timento muito pouco racional, feito de ternura e sexo, a sedução está cada vez mais que nunca na ordem do dia.

O objectivo da sedução é obter a atenção da pessoa por todos os meios possíveis para conseguir o controlo emocional e criar uma fonte de prazer. As etapas e ri­tuais de sedução são universais, com poucas nuances, geralmente de natureza cultural. Por exem­plo, quer no mundo dos huma­nos como no animal, é sempre a fêmea que é o sujeito da sedução e o macho o sedutor. Mas o sedu­tor nem sempre é aquilo que julga­mos. Se um homem tentar sedu­zir uma mulher que não o queira, rapidamente compreenderá quem tem o poder no processo de sedu­ção. Mas quais são as famosas eta­pas de sedução?

Etapas da sedução. O primei­ro passo é prender a atenção do outro. Geralmente as mulheres valorizam os atributos físicos (ao contrário do mundo animal), enquanto os homens ostentam o seu poder e riqueza. Os homens exibem-se e as mulheres provo­cam. E vem o momento em que os olhares se cruzam. Se o olhar perscrutador do homem encon­tra o olhar receptivo da mulher, produz-se uma faísca repleta de promessas. Se a mulher sorri, revolve o seu cabelo com os dedos, o homem tem permissão para avançar. Caso contrário as suas hi­póteses são reduzidas. O olhar é o instrumento de sedução mais efi­caz no ser humano e tem o poder de decidir o sucesso ou insucesso de uma potencial relação.

A seguir há que iniciar uma con­versação. A naturalidade e curio­sidade em conhecer o outro um pouco melhor criam melhores probabilidades de gerar uma con­versação, cujo conteúdo até nem é muito importante. A manuten­ção do interesse do outro é extre­mamente importante e para tal temos que ser observadores, estar atentos, esquecermo-nos de nós. A conversação é o ponto de ruptura: a sedução passa ou acaba, o encan­tamento permanece ou parte-se. De acordo com os antropólogos, é geralmente a mulher que gera o primeiro contacto físico, através de um leve aflorar da mão com a mão, sempre de forma fortuita e ingénua, ainda que premeditada e calculada quanto aos seus fins. É aí que começa o verdadeiro teste às capacidades de sedução. Com este ligeiro toque foi dito “sim interes­sas-me, continua a seduzir-me.”

Reacender a paixão. A arte da sedução não diz respeito apenas àqueles que se querem envolver numa relação. Ela permite fazer durar um amor e reacender mo­mentos de paixão numa relação ameaçada pelo tempo e pelas crises.

A sedução e o amor necessitam de manutenção, no sentido de ha­ver uma ajuda mútua na satisfa­ção das nossas necessidades de afeição, crescimento pessoal, ne­cessidades sexuais, sonhos, pro­jectos conjugais. Em suma, a ser felizes.

Catarina Mexia – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta