Doença Bipolar: a doença dos humores – Em que consiste e quais os seus sintomas

É uma doença incompreendida, na qual o paciente alterna o seu estado de espírito entre as depressões e um humor exageradamente elevado que o leva cometer excessos e, por vezes, mesmo a perder a noção da realidade. Desde que adequadamente tratada, não é, na maioria dos casos, uma doença incapacitante. Mas é essencial desconstruir mitos e conhecê-la para a saber combater.

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Iniciamos hoje uma série de 4 posts acerca da Doença Bipolar, com a seguinte ordem:

I – Em que consiste e quais os seus sintomas
II – As causas e os tipos de Doença Bipolar
III – Quais os tratamentos disponíveis ? É possível prever as crises?
IV – Mitos, crenças e receios 

Parte I – Em que consiste e quais os seus sintomas

A Doença Bipolar é uma doença do humor caracterizada pela presença de diferentes fases do humor: fase maníaca, fase hipomaníaca, fase depressiva e ainda fases mista.

Durante a fase maníaca, a pessoa pode sentir-se cheia de energia, optimismo, auto-confiança, desinibida, a velocidade do pensamento está acelerada, frequentemente fala muito e depressa, saltando, por vezes, de pensamento em pensamento, como que perdendo o fio à meada, produzindo um discurso confuso ou mesmo incoerente. A memória de curto prazo pode estar afectada, tal como a capacidade de concentração, distraindo-se com uma enorme facilidade.

Pode manifestar ideias de grandiosidade que não têm qualquer fundamento real, pode estar convencido de ser muito rico ou de ter poderes divinos ou sobrenaturais. Pode estar irritável explodindo com pequenos contratempos. De igual forma, por ser muito impulsivo e irritável, é frequente envolver-se em confrontos físicos. Esta fase – a que se chama de fase maníaca – é caracterizada por uma hiperactividade física e mental. O desejo sexual aumenta, a par com desinibição, podendo envolver-se em comportamentos sexuais de risco que normalmente não empreenderia. Pode manifestar ainda uma generosidade excessiva ou descontrolada, havendo o risco de se endividar.

Há frequentemente insónia, com redução drástica da necessidade de dormir, podendo a pessoa dormir apenas 2 a 3 horas por noite.

No entanto, podem existir fases de hipomania, nas quais estes sintomas se apresentam de forma mais atenuada, com sensação de grande energia interior, pensamento mais rápido mas sem desorganização, com hiperactividade, redução da necessidade de dormir, aumento da produtividade. A pessoa poderá ainda apresentar-se mais alegre, mais expansiva e optimista.

Estas fases podem passar despercebidas aos familiares e amigos como fases dum humor anormalmente elevado, porque não há compromisso na capacidade de desempenhar o seu trabalho. Muito pelo contrário, nestas fases, a impressão de terceiros é que a pessoa, habitualmente deprimida, está numa “fase boa” ou, no máximo, “um pouco mais acelerada”.

Na fase depressiva apresenta-se triste, desmotivado, manifesta um grande cansaço, com perda da iniciativa, perda do desejo sexual, perda do interesse por si próprio e pelos outros, podendo negligenciar os cuidados pessoais e isolar-se do mundo. Pode verbalizar baixa auto-estima e sentimentos de desespero, podendo até tentar o suicídio.

A depressão pode ser major, se for muito incapacitante, com compromisso da capacidade do individuo em cumprir as suas tarefas profissionais, gerando perda de autonomia e dependência progressivamente maior de terceiros (frequentemente até para as actividades elementares da vida diária) ou, ainda, quando a depressão se revela grave pela existência persistente de ideias de suicídio. Pode ainda a pessoa apresentar sintomas psicóticos, ou seja, sintomas que revelam um corte com a realidade, apresentando crenças ou convicções que não correspondem à realidade, como por exemplo, acreditar que está na falência, que está enfermo duma doença física grave e fatal ou a convicção de ser o responsável por todos os males do mundo. Pode ainda ter alucinações auditivo-verbais, ouvir vozes sem que consiga identificar a origem destas, que o insultam, recriminam ou desmoralizam.

A depressão minor distingue-se por ser um quadro menos grave, sem uma repercussão tão grave na vida do paciente como a depressão major. Frequentes vezes, o indivíduo não sente haver necessidade de interromper a sua actividade profissional e nunca aparecem sintomas psicóticos.

São ainda muito frequentes, nas pessoas com doença bipolar, as fases mistas, em que se misturam, ao mesmo tempo, sintomas das fases maníaca e depressiva, em que a pessoa pode manifestar tristeza, chorando facilmente, mas também inquietação marcada (com uma sensação de nervoso muidinho que a impede de descansar), ansiedade muito acentuada (podendo até ter ataques de pânico), irritabilidade marcada com explosividade (podendo zangar-se com amigos e família sem grandes motivos válidos) e insónia.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Mutilados emocionalmente

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Hoje não quero falar de psicoterapia.

            Na vida dum terapeuta há inúmeras situações em que nos comovemos com o que os pacientes nos contam.

            É natural e mesmo saudável, até certo ponto, nos comovermos.

Etimologicamente falando, “comover” significa “emocionarmos-nos” (movere) “com” alguém – empatia significa isto mesmo – colocarmos-nos na pele do outro, tentarmos sentir o que o outro sente e emocionarmos-nos com o que nos conta, para que possamos apreender, tanto quanto nos é permitido e razoável, a vivência do paciente, também na sua dimensão emocional e existencial.

Mas outras alturas há em que as emoções desencadeadas não são apenas de dor, de tristeza e desespero – outras alturas há em que são despertadas em nós emoções como a raiva e indignação profunda.

De vez em quando, e não tão raramente como seria desejável, somos confrontados nas consultas com situações extremas de maus-tratos, de sadismo psicológico, de humilhações repetidas e abusos continuados no tempo.

Estas pessoas chegam-nos à consulta derrotadas, destruídas, humilhadas, autênticos farrapos humanos cujas vidas são um testemunho de dor infligida por vezes pelas pessoas que eram supostas terem-nas protegido quando ainda não se sabiam defender.

Numa consulta recente atendi um paciente.

Chegou à consulta ansioso, tenso e muito auto-consciente de si próprio.

A sua face transbordava emoções de intenso sofrimento, da tristeza à ansiedade intensa, de expressões de profunda dor a gritos surdos de raiva que tudo fazia para conter.

Descreveu-me uma mãe sádica e abusadora, que o despia à frente das amigas para que pudessem ver o quão pequeno era o pénis do filho ainda criança, e que nos parques infantis se escondia dele e do irmão e só aparecia quando percebia que eles estavam em pânico, a rir, sorrindo e dizendo: “Vocês já estavam a ficar aflitos, não é?”

Falou-me de como sentia que em cada dez vezes, a mãe tinha 9 interacções de maus tratos e de abuso e uma em que mudava diametralmente de registo e lhe dava “uma festa” e “era esta festa que me destruía, percebe, Sr. Dr.?!”

Ou outra paciente, que foi abusada sexualmente durante 2 anos quando tinha apenas 5 pelo irmão da sua ama que era o seu catequista, e ainda que o pai a fechou em casa, sozinha, para a esconder da sua mãe, para fazer “pirraça à mãe” de quem tinha acabado de se divorciar.

Ou outra ainda, cuja mãe se se fechava na casa de banho a gritar que ia morrer, enquanto a filha desesperava em culpa e angústia.

Estas pessoas foram privadas de amor e protecção, negados os seus direitos humanos mais elementares enquanto crianças, e mutiladas emocionalmente.

Deveriam já existir planos psicossociais preventivos mais eficazes, com meios humanos competentes e capazes para acautelar a ocorrência destes maus-tratos e para tratar os pais quando estes não são de todo responsabilizáveis.

E, não sendo isso possível, deveria haver uma justiça capaz de responsabilizar criminalmente os pais que foram dolosamente negligentes ou maltratantes.

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapia

“Quando o milagre acontece (dentro de nós)…”

– O meu pai estava no hospital e eu andava de volta dele como se fosse uma enfermeira. Foram tempos muito difíceis também para mim, porque me custava imenso ver o meu pai naquelas condições. Por um lado eu queria que o meu pai estivesse num lugar melhor, numa clínica com condições, mas por outro lado eu queria que o meu pai fosse acompanhado pelos médicos que sempre o seguiram. E eu andava nesta tortura, quero que ele saia porque o hospital não tem todas as condições que eu desejaria que tivesse, quero que ele fique por causa dos médicos – a minha cabeça vivia nesta tortura! Para o fim eu estava exausta! Até que um dia entrei na capela do hospital e dei por mim ajoelhada e, de repente, virei-me para Deus e disse-lhe: Seja o que tu quiseres! – entreguei tudo! – se o meu pai tem que passar por tudo isto aqui, se é essa a tua vontade, então assim seja! Seja o que tu quiseres. E sabe o que mais?

– Sim?

– Logo que fiz isso veio uma paz enorme. Algo que nem eu sei explicar… Uma paz imensa…

– Eu compreendo. Ficou resolvido o conflito que trazia dentro de si.

– O conflito?

– Sim, entre o que você desejava para o seu pai e o que o seu pai tinha na realidade… Havia um conflito permanente aqui…

– Sim, havia.

– E este conflito era uma forma de estar permanentemente a dizer “não” à realidade.

– Sim.

– E quando se ajoelhou e falou com Deus isso mudou.

– Aí eu entreguei os pontos. Aceitei tudo o que estava a acontecer. Tudo, sem excepção.

– Aí você parou de resistir. Aí decidiu dizer que “sim”, e a resistência à realidade cessou – o conflito ficou resolvido, como que por magia.

– Eu falei para Deus.

– O que quer que tenha feito, o milagre que aconteceu dentro de si chama-se “aceitação”.

Este diálogo com uma paciente minha fez-me recordar o poder inacreditável da aceitação e da experiência quase inenarrável de paz que dela advém.

Fez-me pensar o quanta energia gastamos em pura e simplesmente negar a realidade, e no sofrimento a que nos submetemos desnecessariamente pela nossa incapacidade de nos sintonizarmos, duma forma plena e inteira, com o que nos é oferecido viver.

Vemos esta negação da realidade acontecer todos os dias dentro de nós e à nossa frente, desde alguém que se exaspera com um engarrafamento de trânsito (como que a dizer ao Universo: – Isto não é justo!) à nossa irritação porque o dia de praia veio sem sol e sem calor (como se o Universo tivesse conspirado para arruinar o nosso fim de semana).

Quando tudo o que temos a fazer é parar de negar a realidade, parar de negar o que nos é oferecido viver.

Quando aceitamos profundamente o que acontece aqui e agora, deixamos de desejar que o que está a acontecer seja diferente (como se realmente pudesse sê-lo!).

A aceitação, mais que uma mudança de ponto de vista, é o abdicar de pontos de vista para aceitar o que quer que seja que se esteja a vivenciar.

Mais do que “cair na real”, é aceitar a realidade como se esta fosse a única e melhor forma de tudo acontecer.

É parar de resistir.

“-What we resist, persists.”

Diremos mais: “-What we accept, transforms.”

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – IV

Mindfulness psitalk 4

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Considerações finais

Assim, o mindfulness pode ser encarado como um instrumento
à disposição de qualquer orientação psicoterapêutica.

Mas no sentido mais puro, mindfulness é um objectivo a alcançar e não um meio para atingir um fim.

No sentido último, mindfulness é tudo menos terapia, já que a terapia trata a mente com o objectivo de a adequar, enquanto instrumento, ao seu portador – adequar a mente para que este possa, com o devido treino – psicoterapia – torná-lo um instrumento valioso e adequado para que a sua vivência do mundo e de si próprio aconteça sem sofrimento desnecessário ou, havendo sofrimento, haja adquirido as competências psicológicas para o vivenciar de forma adaptativa.

No sentido budista, mindfulness é um instrumento de desidentificação com toda e qualquer vivência, interna ou externa.

Assim, a meditação budista – centrada no mindfulness – serve para a descoberta de si próprio e para a superação da identificação das vivências do Ser com o mundo externo ou interno, já que é enquanto o Ser vive convencido da realidade e substância do seu ego, identificado e iludido – é nessa ignorância de Si próprio – que reside todo o sofrimento.

Um dia um Mestre Zen foi em visita ao mosteiro de outro Mestre Zen.

Chovia muito e depois de chegar ao Mosteiro foi recebido pelo seu homónimo com esta questão:

“- Quando você chegou ao Mosteiro chovia muito?”

“-Sim, chovia bastante.”

“-Arrumou as suas sandálias e o seu guarda-chuva quando chegou?”

“-Sim, arrumei.”

“-E arrumou o guarda-chuva do lado esquerdo ou do lado direito das sandálias?”

O Mestre que havia acabado de chegar não soube responder e reza a história que ficou mais dez anos a aprender com o Mestre que o acolheu e lhe fez aquela pergunta desconcertante.

Este é um koan Zen que ouvi pela primeira vez numa aula de meditação na União Budista e a interpretação que me ocorreu é o quão pouco nós habitamos no Aqui e no Agora, o quanto passamos a maior parte do nosso tempo vigil com uma limitada consciência da nossa vivência no presente.

Frequentemente oiço dizer (e oiço-me dizer): “O tempo voa.” “Ainda ontem fiz (isto ou aquilo que aconteceu há 20 anos)”; “Parece que foi ontem (há 10 ou 20 anos) que aquilo aconteceu”.

Se é verdade que a vivência do tempo é tremendamente relativa, também é um facto que a sensação de “desperdício” é tanto mais significativa quando ganhamos consciência que vivemos a nossa vida longe do Aqui e do Agora, porque quanto mais longe do Aqui e do Agora menos intensa e habitada à a experiência humana.

Por outro lado, quando se vive com intensidade uma determinada experiência pode também acontecer esta noção de ausência de vivência temporal. Se estivermos absortos num determinado espectáculo e a viver intensamente todas as incidências do mesmo por vezes temos a percepção que o tempo “passou num ápice”.

O que aconteceria se nos dispuséssemos a aprender a viver a maior parte da nossa vida intensamente? A habitar conscientemente cada pequeno momento? A viver cada segundo com a sofreguidão de quem vai morrer amanhã?

Será que a nossa história seria a mesma?

O que seria que nos disporíamos a escrever?

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – III

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Mindfulness na Psicoterapia

Uma definição básica de mindfulness será a de “presença consciente momento-a-momento” (“moment-by-moment awareness”).

Quando transportado para a arena psicoterapêutica, a sua definição expande-se para incluir a dimensão do não-julgamento, na definição de mindfulness de Jon Kabat-Zinn: “the awareness that emerges through paying attention on purpose, in the present moment, and nonjudgementally to the unfolding of the experience moment by moment”.

A dimensão de não-julgamento quando enfrentamos uma dificuldade física ou emocional permite que consigamos vivenciar a experiência mais próxima do que ela exactamente é.

A aceitação é outro dos objectivos do mindfulness e que surge quase por extensão do não-julgamento e traz ao mindfulness uma dimensão de conforto (“kindness or friendliness”).

Do ponto de vista da perspectiva do mindfulness, a aceitação refere-se à vontade ou disposição consciente de aceitar o que quer que aconteça momento-a-momento, tornando-se conscientes das mesmas e aceitando-as quer tragam prazer ou dor.

A aceitação não encoraja os comportamentos desadaptados.

De facto, a aceitação precede a mudança.

A dimensão do não-julgamento e, por extensão, da aceitação – incluídas na pré-atitude com que a experiência problemática é vivenciada de forma presente e consciente permitem, não apenas a exposição à situação problemática, mas também o desmantelar de eventuais condicionamentos aversivos e substituição de emoções aversivas pela dimensão da aceitação.

Por exemplo, nas Perturbações de Ansiedade, há uma aprendizagem por vezes de anos na evitação do estímulo ansiogénico e a perspectiva do confronto com o estímulo ansiogénico despoleta só por si uma vivência ansiosa.

O cliente é encorajado a estabelecer uma relação diferente e aceitante com a ansiedade, a procurar vivenciá-la com curiosidade e aceitação, sabendo que se trata duma emoção defensiva que pretendeu salvaguardá-lo de determinada experiência dolorosa.

O cliente é ensinado a olhar para a ansiedade como uma emoção “amiga” e protectora que perdeu a proporção da sua intensidade e oportunidade.

Mas, mais do que uma complicada reestruturação cognitiva, o importante é ensinar o cliente a vivenciar a ansiedade com curiosidade, sem julgamento, e com uma atitude aceitante para com a emoção e para consigo próprio.

Mais do que a simples exposição, é exposição com uma tonalidade vivencial de intensa aceitação e atitude de auto-cuidado: “Quando a ansiedade vier, e se não for muito intensa, perceba que chegou uma emoção que pretende protegê-lo. Aliás, nunca quis outra coisa, mas esta sua amiga “ansiedade” perdeu a noção de quando deve aparecer e como. Assim, aparece nos momentos mais imprevistos e sempre aos gritos. Quando ela chegar e ainda vier de mansinho, tente ouvi-la, tente percebê-la. Ela vem sempre para o proteger, para o ajudar. Não tenha medo dela. Tente compreendê-la, mesmo que lhe seja difícil. Quando ela chegar abrace-a e fique com ela um bocado. Aprenda a conhecê-la.

Se acabar por ter um ataque de pânico, não culpe a ansiedade, não se culpe.

Não some uma emoção negativa a outra.

Você está a começar a aprendizagem de uma nova relação com a sua ansiedade, e isso passa por deixar de a evitar.

Isso passa por aceitá-la. E por se aceitar.”

Mas este é apenas um exemplo da aplicação do mindfulness na terapia cognitiva, mas o mindfulness pode fazer parte de qualquer orientação psicoterapêutica.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – II

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Voltar ao estado de recém-nascido

O desapego e a desidentificação são, assim, dois dos pilares fundamentais do pensamento budista.

A prática de mindfulness, mais do que uma finalidade em si mesma, é para o budista a etapa última no processo de desapego e desidentificação.

Desapegado dos desejos comuns à maioria dos seres humanos o aspirante já não vive a vida quotidiana mergulhado num sem número de projectos e actividades que visam a satisfação dos mesmos – já não almeja prazer, nem poder, nem status, nem posses materiais, nem vive obcecado com a ideia do sofrimento se não conseguir satisfazer o objecto dos seus desejos e por fim vive desapegado da vida e do medo de morrer.

Mas o passo mais difícil é o da desidentificação das próprias emoções e pensamentos, já que não é tão óbvio, mesmo para quem tenha uma educação budista, que os pensamentos, emoções e pensamentos não sejam mais do que instrumentos que o Ser utiliza, tal como a roupa que veste ou os alimentos que ingere.

Na prática do mindfulness o aspirante permite que os pensamentos, as emoções e as sensações aconteçam com a pré-atitude de se desapegar dos mesmos, de os vivenciar sem neles se reter, deixando-os fluir como fotogramas de um filme que se desenrola à frente dos seus olhos, sem se comprometer na construção de qualquer narrativa ou interpretação dos mesmos.

Não se trata de parar de pensar ou parar de sentir até porque, numa fase inicial, é simplesmente impossível que tal aconteça.

Uma imagem budista retrata a mente como uma macaco agitado que passa o tempo todo disponível a saltar de galho em galho, em livre associação, sem qualquer disciplina e a esmagadora maioria dos seres humanos vive a maior parte da sua vida entretido e adormecido a acompanhar cada salto do macaco e a identificar-se com todos os movimentos destes.

No mindfulness o aspirante sabe que o macaco não vai parar de saltar – é da natureza da mente não estar quieta – o macaco vai continuar, durante algum tempo, a saltar de galho em galho, de pensamento em pensamento, de emoção em emoção – a diferença é que o aspirante se decide a parar de prestar atenção aos saltos do macaco e a valorizá-los como se os seus pensamentos fossem a única vida psíquica possível.

O aspirante não vai poder ignorar os pensamentos, as emoções e as sensações, mas também não se vai deter neles. Sabendo que qualquer evento psíquico é efémero, vai deixar de lhes prestar atenção.

Aos poucos – diz a experiência dos praticantes – a mente começa a acalmar, os pensamentos tornam-se menos frequentes e começa a haver espaços entre os pensamentos – como se o habitual nevoeiro de ruído psíquico se começasse a dissipar.

Aqui surge habitualmente a pergunta: então o que fica se pararmos de pensar?                    Um vazio?

Para uma mente viciada na actividade cognitiva, emocional e sensorial compulsiva, a ideia de um vazio sem pensamentos, emoções ou sensações é sentida com horror, como se o mindfulness fosse um mero exercício de niilismo psíquico.

O que sobra quando o nevoeiro se dissipa não é certamente e apenas a ausência de nevoeiro.

Para quem consiga experimentar, os primeiros momentos de mindfulness são vividos com uma lucidez e uma clareza antes desconhecida e uma paz interior igualmente inédita.

No mindfulness não sobra o vazio, mas antes a consciência pura que subjaz, não só a todos os eventos psíquicos, mas à própria consciência de Si.

Mindfulness é a consciência de si próprio não contaminada pela actividade compulsiva da mente.

Mindfulness é a consciência a vivenciar-se a si própria.

Pela primeira vez, o aspirante pode ter uma noção clara e límpida da consciência pura que traz dentro de si, sem qualquer condicionamento, sem qualquer juízo de valor, sem história anterior, sem ansiedade pelo futuro.

Não é sequer preciso prestar atenção a coisa nenhuma porque a consciência pura é atenta por natureza.

Difícil de compreender?

Um dia permita-se observar um bebé que ainda não saiba proferir uma única palavra.

Observe-o num momento em que ele não sinta fome, nem sede, não sinta sono, nem qualquer outro desconforto físico.

Olhe e observe-o.

Vai perceber que ele está extremamente atento e, ao mesmo tempo, na vivência duma imensa paz, uma quietude inenarrável.

Onde ele está?

Onde todos deveríamos estar: no Aqui e no Agora.

Nós não temos outro remédio senão viver no aqui e no Agora.

A única escolha que nos é permitida é a de tentar fazê-lo com consciência ou sem ela.

Assim sendo, não é possível estar senão no Aqui e no Agora.

Sem nevoeiro, se possível.

Então mindfulness é isso?

Voltar ao estado da mente que eu tinha quando era um recém-nascido?

Tire a mente da equação.

E agora tente…

Mindfulness é a vivência do Ser que vivencia a consciência pura.

Sem mente.

(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – I

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – A Psique à luz do pensamento budista

Nos últimos anos a palavra “mindfulness” tem estado a adquirir um espaço próprio no mundo psi, querendo significar “estar no Aqui e no Agora”.

Traduzido literalmente é ter a mente (cognitiva, emocional e sensorial) – mind – concentrada por completo – full – no Aqui e Agora.

Alguns terapeutas reduzem, assim, o conceito de “mindfulness” a uma tomada de consciência de si próprio: “Quando se sentir (irritado/triste/ansioso/…) sem perceber porquê, eu quero que pare, feche os olhos e concentre-se sobre as emoções que está a sentir naquele momento, nos pensamentos que lhe ocorrem e nas sensações físicas que estiver a sentir” – o mindfulness fica assim limitado a um procedimento ou técnica do paciente para aumentar o insight (cognitivo, emocional e sensorial) sobre si próprio.

No entanto, “mindfulness” é muito mais do que isso e não foi sequer descoberto ou “inventado” por um profissional psi.

Antes de ser um recurso novo usado em psicoterapia, “mindfulness” era já popular nos meios da espiritualidade como uma forma de meditação ou mesmo uma atitude revolucionária perante a mente, com um significado bem mais amplo e abrangente do que o de tomada de consciência de si próprio.

O conceito de “mindfulness” é originário do Budismo e foi transplantado e adaptado desta disciplina espiritual para a Psicoterapia.

Mas antes de analisarmos em que consiste “mindfulness” na tradição budista, convém entender a estruturação da Psique à luz do entendimento budista.

Em primeiro lugar, para o Budismo, a Mente é apenas um instrumento, um instrumento cognitivo, emocional e sensorial através do qual o Ser conhece o mundo e se conhece a si próprio mas, cima de tudo, a Mente não é o Ser.

O Ser usa a Mente na sua incursão existencial neste mundo, da mesma forma que o condutor usa o seu automóvel para fazer uma viagem.

O sofrimento do ser humano, segundo o Budismo, advém, de entre outras causas, da total identificação do Ser com o seu instrumento existencial, como se o condutor do automóvel se esquecesse da sua própria Natureza e se identificasse completamente com o seu automóvel, passando a acreditar que a sua existência se limita a conhecer o mundo e a si próprio através da sua experiência de condutor, relacionando-se com outros automóveis e confundindo os condutores destes com os seus automóveis e acreditando que a sua vida e dos restantes acabará quando os respectivos automóveis acabarem todos na sucata.

Esta total identificação irá impedi-lo de ser livre, de conhecer a sua verdadeira Natureza, de – por um breve momento que seja – poder abrir a porta do automóvel, sair deste e permitir-se pensar: “Eu sou mais do que esta sucata articulada e aparentemente perfeita, eu sou Aquele que conduz esta máquina, mas estou longe de ser este automóvel”.

Assim, segundo o Budismo, os seres humanos vivem as suas vidas identificados com as suas Mentes, acreditando que SÃO os pensamentos que têm, as emoções que vivenciam e/ou a multitude das sensações que experienciam.

A dor resulta desta identificação, da ignorância fundamental da sua verdadeira Natureza – um dia que os seres humanos consigam perceber que são donos das suas mentes e não suas vitimas – que podem dispor da sua Mente como de qualquer outro instrumento serão livres.

A meditação baseada no “mindfulness”, mais do que uma técnica de tomada de consciência de si próprio, é um instrumento precioso de auto-conhecimento, através do qual – duma forma experiencial e não apenas teórica – o praticante tenta perceber “o que o Eu não é”, desidentificando-se dos objectos (materiais, emocionais  e cognitivos) com os quais se identifica.

Pensamentos, emoções e sensações são os produtos utilizados pelo Eu para interpretar, significar e interagir com o mundo e consigo próprio – mas não são o Eu.

Estes produtos, no seu conjunto, formam o ego – a persona – mas este é apenas o veículo usado pelo Eu na sua viagem existencial.

Uma vez terminada essa viagem, o ego perece mas o Eu continua, à semelhança dum actor que abandona a personagem duma peça de teatro e é capaz de vestir diferentes personagens ao longo da sua vida profissional sem nunca se identificar com as mesmas, sem nunca perder a crítica e ficar aprisionado a nenhuma delas.

Nessa desidentificação – na descoberta daquilo que Não É – caminha o aspirante para descoberta do Ser, do Eu – o Inominável, o Omnisciente, a Fonte – que subjaz a toda a manifestação.

Quando lemos os passos de Bodhisavta até à Iluminação ou Despertar, o último dos seus passos consistiu numa longa meditação em que empreendeu uma luta titânica com Mara (simbolizando o seu ego) e este terá sido o seu passo final de desidentificação total com o ego, em que acabou por alcançar e realizar a Libertação Espiritual.

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(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Hiperligação

1 A anormalidade ja nao e o que era dr joao parente medico psiquiatra e psicoteraoeura entrevista de Nassir Ghaemi

 

A “anormalidade” já não é que era…(Clique neste link)

 

Se há “anormalidades boas” estas serão mesmo “anormalidades”?
Os depressivos são mais empáticos e têm uma maior noção da realidade que os maníacos ou hipertímicos onde floresce a criatividade, diz Ghaemi. Cada vez mais, ao longo do tempo, se vai desconstruindo o antigo e obsoleto conceito de “pessoa normal”, como aquela que não regista qualquer psicopatologia, para um novo conceito, mais complexo e abrangente, onde a presença de psicopatologia não é necessariamente sinónimo de anomalia ou doença, podendo ser até, em certos casos e em certas circunstâncias adaptativa e tornar os seus portadores mais “aptos” que as pessoas ditas normais.
É o caso clássico dos controladores de tráfego aéreo e dos seus traços obsessivos adaptativos que zelam pela nossa segurança quando voamos.

Outro conceito em voga é que a psicopatologia é normal desde que não induza sofrimento ao seu portador.
Como se o “sofrimento”, estando presente, significasse automaticamente “doença” ou “anormalidade”.

Aparentemente consensual é que a psicopatologia é sinal de doença desde que induza compromisso funcional importante – quando impede a pessoa de conseguir trabalhar e funcionar, ganhar o seu sustento e viver com qualidade de vida.

Mas até esta formulação pode ser questionada.

Então em que ficamos?

A anormalidade já não é que era…

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta