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Sobre PSITALK

Somos um grupo de terapeutas vocacionados para as áreas da Psiquiatria, Psicologia Clínica e Psicoterapia. Dr. João Parente - Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta http://www.joaoparente.com https://psiworks.pt Dra. Magali Stobbaerts - Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Professora de Yoga http://magalistobbaerts.wordpress.com/ Dra. Catarina Barra Vaz - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinabarravaz.blogspot.pt/ Dra. Joana Fojo Ferreira - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://joanafojoferreira.weebly.com/ Dra. Rita dos Santos Duarte - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://duarita.wix.com/ritasantosduartepsicoterapia Dra. Cristina Marreiros da Cunha - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://www.espsial.com Dra. Catarina Mexia - Psicóloga clínica e Psicoterapeuta http://catarinamexia.com/ Dr. Pedro Garrido - Psicólogo clínico e Psicoterapeuta https://pedrogarridopsicologiaclinica.wordpress.com/

MINDFULNESS – BUDISMO E PSICOTERAPIA III

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Mindfulness na Psicoterapia

Uma definição básica de mindfulness será a de “presença consciente momento-a-momento” (“moment-by-moment awareness”).

Quando transportado para a arena psicoterapêutica, a sua definição expande-se para incluir a dimensão do não-julgamento, na definição de mindfulness de Jon Kabat-Zinn: “the awareness that emerges through paying attention on purpose, in the present moment, and nonjudgementally to the unfolding of the experience moment by moment”.

A dimensão de não-julgamento quando enfrentamos uma dificuldade física ou emocional permite que consigamos vivenciar a experiência mais próxima do que ela exactamente é.

A aceitação é outro dos objectivos do mindfulness e que surge quase por extensão do não-julgamento e traz ao mindfulness uma dimensão de conforto (“kindness or friendliness”).

Do ponto de vista da perspectiva do mindfulness, a aceitação refere-se à vontade ou disposição consciente de aceitar o que quer que aconteça momento-a-momento, tornando-se conscientes das mesmas e aceitando-as quer tragam prazer ou dor.

A aceitação não encoraja os comportamentos desadaptados.

De facto, a aceitação precede a mudança.

A dimensão do não-julgamento e, por extensão, da aceitação – incluídas na pré-atitude com que a experiência problemática é vivenciada de forma presente e consciente permitem, não apenas a exposição à situação problemática, mas também o desmantelar de eventuais condicionamentos aversivos e substituição de emoções aversivas pela dimensão da aceitação.

Por exemplo, nas Perturbações de Ansiedade, há uma aprendizagem por vezes de anos na evitação do estímulo ansiogénico e a perspectiva do confronto com o estímulo ansiogénico despoleta só por si uma vivência ansiosa.

O cliente é encorajado a estabelecer uma relação diferente e aceitante com a ansiedade, a procurar vivenciá-la com curiosidade e aceitação, sabendo que se trata duma emoção defensiva que pretendeu salvaguardá-lo de determinada experiência dolorosa.

O cliente é ensinado a olhar para a ansiedade como uma emoção “amiga” e protectora que perdeu a proporção da sua intensidade e oportunidade.

Mas, mais do que uma complicada reestruturação cognitiva, o importante é ensinar o cliente a vivenciar a ansiedade com curiosidade, sem julgamento, e com uma atitude aceitante para com a emoção e para consigo próprio.

Mais do que a simples exposição, é exposição com uma tonalidade vivencial de intensa aceitação e atitude de auto-cuidado: “Quando a ansiedade vier, e se não for muito intensa, perceba que chegou uma emoção que pretende protegê-lo. Aliás, nunca quis outra coisa, mas esta sua amiga “ansiedade” perdeu a noção de quando deve aparecer e como. Assim, aparece nos momentos mais imprevistos e sempre aos gritos. Quando ela chegar e ainda vier de mansinho, tente ouvi-la, tente percebê-la. Ela vem sempre para o proteger, para o ajudar. Não tenha medo dela. Tente compreendê-la, mesmo que lhe seja difícil. Quando ela chegar abrace-a e fique com ela um bocado. Aprenda a conhecê-la.

Se acabar por ter um ataque de pânico, não culpe a ansiedade, não se culpe.

Não some uma emoção negativa a outra.

Você está a começar a aprendizagem de uma nova relação com a sua ansiedade, e isso passa por deixar de a evitar.

Isso passa por aceitá-la. E por se aceitar.”

Mas este é apenas um exemplo da aplicação do mindfulness na terapia cognitiva, mas o mindfulness pode fazer parte de qualquer orientação psicoterapêutica.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – III

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Mindfulness na Psicoterapia

Uma definição básica de mindfulness será a de “presença consciente momento-a-momento” (“moment-by-moment awareness”).

Quando transportado para a arena psicoterapêutica, a sua definição expande-se para incluir a dimensão do não-julgamento, na definição de mindfulness de Jon Kabat-Zinn: “the awareness that emerges through paying attention on purpose, in the present moment, and nonjudgementally to the unfolding of the experience moment by moment”.

A dimensão de não-julgamento quando enfrentamos uma dificuldade física ou emocional permite que consigamos vivenciar a experiência mais próxima do que ela exactamente é.

A aceitação é outro dos objectivos do mindfulness e que surge quase por extensão do não-julgamento e traz ao mindfulness uma dimensão de conforto (“kindness or friendliness”).

Do ponto de vista da perspectiva do mindfulness, a aceitação refere-se à vontade ou disposição consciente de aceitar o que quer que aconteça momento-a-momento, tornando-se conscientes das mesmas e aceitando-as quer tragam prazer ou dor.

A aceitação não encoraja os comportamentos desadaptados.

De facto, a aceitação precede a mudança.

A dimensão do não-julgamento e, por extensão, da aceitação – incluídas na pré-atitude com que a experiência problemática é vivenciada de forma presente e consciente permitem, não apenas a exposição à situação problemática, mas também o desmantelar de eventuais condicionamentos aversivos e substituição de emoções aversivas pela dimensão da aceitação.

Por exemplo, nas Perturbações de Ansiedade, há uma aprendizagem por vezes de anos na evitação do estímulo ansiogénico e a perspectiva do confronto com o estímulo ansiogénico despoleta só por si uma vivência ansiosa.

O cliente é encorajado a estabelecer uma relação diferente e aceitante com a ansiedade, a procurar vivenciá-la com curiosidade e aceitação, sabendo que se trata duma emoção defensiva que pretendeu salvaguardá-lo de determinada experiência dolorosa.

O cliente é ensinado a olhar para a ansiedade como uma emoção “amiga” e protectora que perdeu a proporção da sua intensidade e oportunidade.

Mas, mais do que uma complicada reestruturação cognitiva, o importante é ensinar o cliente a vivenciar a ansiedade com curiosidade, sem julgamento, e com uma atitude aceitante para com a emoção e para consigo próprio.

Mais do que a simples exposição, é exposição com uma tonalidade vivencial de intensa aceitação e atitude de auto-cuidado: “Quando a ansiedade vier, e se não for muito intensa, perceba que chegou uma emoção que pretende protegê-lo. Aliás, nunca quis outra coisa, mas esta sua amiga “ansiedade” perdeu a noção de quando deve aparecer e como. Assim, aparece nos momentos mais imprevistos e sempre aos gritos. Quando ela chegar e ainda vier de mansinho, tente ouvi-la, tente percebê-la. Ela vem sempre para o proteger, para o ajudar. Não tenha medo dela. Tente compreendê-la, mesmo que lhe seja difícil. Quando ela chegar abrace-a e fique com ela um bocado. Aprenda a conhecê-la.

Se acabar por ter um ataque de pânico, não culpe a ansiedade, não se culpe.

Não some uma emoção negativa a outra.

Você está a começar a aprendizagem de uma nova relação com a sua ansiedade, e isso passa por deixar de a evitar.

Isso passa por aceitá-la. E por se aceitar.”

Mas este é apenas um exemplo da aplicação do mindfulness na terapia cognitiva, mas o mindfulness pode fazer parte de qualquer orientação psicoterapêutica.

(CONTINUA…)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Querer é Poder – Motivação em Psicoterapia

Querer é Poder, diz a sabedoria popular. Efectivamente, faz parte do senso comum a ideia de que o alcance de metas ou objectivos pessoalmente significativos depende em larga medida de factores motivacionais, ou seja, que a motivação é um factor de sucesso para qualquer processo de mudança.

Mas, então, de que falamos quando falamos de motivação? Referimos-nos a uma disposição do indivíduo para agir de forma dirigida a metas que valoriza. No entanto, esta não é uma dimensão de tudo ou nada, em que uns bem-aventurados são abençoados por esta graça enquanto outros estão condenados a viver insatisfeitos com a sua situação presente mas sem a força motriz para iniciar a mudança desejada. Pelo contrário, trata-se de um composto de diferentes dimensões, passíveis de desenvolvimento e optimização.

Uma das dimensões importantes para a motivação é a insatisfação com o estado actual relativo às mais diversas matérias, sendo que só esse desejo de mudança possibilita e incentiva o esforço necessário para a alcançar. No entanto, podemos identificar diferentes motivos por que a pessoa deseja a mudança, sejam eles mais externos ou mais interiorizados. Por exemplo, comparemos um adolescente que ajuda os pais nas tarefas domésticas porque sabe que terá um reforço da sua mesada (motivo externo) com outro que ajuda nas tarefas porque gosta de ver a casa arrumada, isto é, que interiorizou as razões para a sua contribuição. Não é difícil imaginar o que aconteceria se o reforço externo – o aumento da mesada – desaparecesse, a participação muito provavelmente desapareceria no primeiro caso, enquanto no segundo não afectaria o comportamento do adolescente.

Este exemplo ilustra um dos princípios base da teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985), isto é, de que todo o comportamento humano pode ser compreendido como se enquadrando num contínuo entre a regulação externa ou motivação extrínseca e a autonomia, ou verdadeira auto-regulação, e que esta última é mais estável e duradoura e tem mais efeitos positivos sobre o bem-estar do que a regulação controlada pelo exterior.

De igual modo, quando alguém inicia um processo psicoterapêutico certamente é porque se encontra insatisfeito com alguma esfera da sua vida pessoal, seja ela na relação consigo mesmo ou com os outros. No entanto, os motivos para a sua insatisfação poderão ser externos – “Acho que não tenho nenhum problema com o álcool, mas a minha mulher já me ameaçou com o divórcio se não parar de beber” – ou internos – “Não consigo controlar o consumo de álcool o que só me tem trazido dissabores”. Daqui decorre que o trabalho a realizar no primeiro caso será explorar inicialmente motivos internos para a mudança, ou seja, perceber de que modo é que o consumo de álcool colide com valores centrais do indivíduo antes de encetar qualquer tentativa de controle do consumo, enquanto no segundo se poderá trabalhar mais rapidamente as estratégias para redução e/ou eliminação do consumo de álcool.

Efectivamente, uma das premissas da Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985) defende que na presença de determinadas condições de apoio, a motivação previamente controlada pelo exterior pode ser interiorizada e transformada em motivação autónoma. Então e que condições de apoio são essas? Os contextos que mais satisfazem as necessidades psicológicas do indivíduo são aqueles que mais apoiam o seu processo de interiorização.

 

Necessidades Psicológicas:

  • Relação: necessidade de experienciar uma ligação com os outros e de ter relações sociais satisfatórias e apoiantes;
  • Autonomia: necessidade de se sentir autónomo nas suas acções, em vez de se sentir controlado ou coagido a agir;
  • Competência: confiança nas suas aptidões e na capacidade de alcançar resultados.

 

Daqui decorre que o/a psicoterapeuta será tão mais eficaz no apoio ao desenvolvimento da motivação para a mudança quanto estabelecer uma relação de trabalho com a pessoa em que esta se sinta valorizada e a sua perspectiva do problema respeitada, em que se definam objectivos escolhidos pelo cliente e face aos quais identifique motivos internos para a mudança. Alcançadas estas duas etapas, poder-se-á então estimular a confiança e competência do próprio para mudar a sua forma de pensar, sentir e/ou agir de modo a ficar mais satisfeito na relação consigo, com os outros ou com o mundo que o rodeia.

 

Resumindo, em psicoterapia, a acção é filha do pensamento. É na relação terapêutica que se estimula a reflexão sobre o problema que o indivíduo tem em mãos e sobre os resultados que quer alcançar, para que a mudança, quando ocorra, seja afectiva e efectiva.

 

Inês Simões

A vivência saudável do luto (ou quando chorar faz bem)…

O luto é sofrimento, é a dor que uma pessoa sente na perda de alguém ou de alguma coisa que é fundamental para sua estabilidade. Esta perda pode corresponder não só à perda de um parente, de um cônjuge, um filho, um amigo, ou também uma doença, um trabalho, uma casa. É um choque no qual a pessoa perde a vontade de trabalhar, ou mesmo, de viver. O mundo de cores esmorece-se, como se o tempo parasse e se fixasse naquele acontecimento. O Luto, tal como outros traumatismos, pode ser vivido como algo insuperável, com a impressão de que o mundo vai desabar e um sentimento de grande desnorte.

Num luto, aparecem sentimentos tais como a tristeza, a raiva, a culpa, a ansiedade, a solidão, a fadiga e o desamparo.

Estes sentimentos não são sinais de doença.

O luto é uma reacção normal e adaptativa a uma situação de perda.

Segundo o investigador Bowlby, aqueles que evitam vivenciar o luto conscientemente, sucumbem à depressão ou pode desenvolver doenças psicossomáticas como eczemas, asmas, úlceras, dores de costas ou enxaquecas.

O registo cultural da sociedade ocidental não favorece a expressão dos sentimentos de dor. Antes estimula a pessoa voltar a vida normal o mais rápido possível. Ensina igualmente o controlo de si e a sofrer em silêncio sem mostrar os sentimentos.

Antigamente, existiam muitos mais rituais de luto. Os mais próximos reuniam-se, vestiam-se de preto e organizavam refeições de convívio. As pessoas falavam assim do desaparecido e em conjunto lembravam-se dos bons momentos passados juntos. Esses rituais possibilitavam voltar à vida social, profissional e afectiva de forma menos dolorosa, por terem tido a oportunidade de assimilar e evoluir na emoção da dor.

Na realidade, o luto não é um estado, mas um processo.

“Estar de luto” é estar fechado no sentimento de dor e de sofrimento, ou seja, é como viver na dor unicamente.

Mas, “fazer o luto” é estar num processo emocional que leva à aceitação de emoções.

Neste sentido, o autor John William Worden define 4 etapas de luto saudável que podem se tornar patológicas quando a pessoa em luto não as ultrapassa.

A primeira etapa é “aceitar a realidade da perda”. Muito frequentemente a dor é muito intensa e pode levar à entrada num estado de “negação”, em que há uma recusa da pessoa em acreditar no que está a acontecer. Neste caso, a psicoterapia ajuda a ultrapassar o estado de negação, aceitando o acontecimento.

Depois aparece a segunda etapa que é “elaborar a dor da perda”. Ora, nem todos vivem a dor com a mesma intensidade e pode se tornar difícil se a pessoa não a consegue identificar. Neste caso, a pessoa em luto usa estratégias como por exemplo parar o pensamento para não sentir, desenvolver pensamentos de desprazeres sobre a pessoa que morreu, ou mesmo, idealizar a pessoa que faleceu. A psicoterapia permite a pessoa aperceber-se da dificuldade em sentir. A pessoa consegue passar ao passo seguinte quando identifica a dor do luto que não é só emocional, mas também física e comportamental.

Na terceira etapa, a pessoa em luto tem que “se adaptar e ajustar ao meio ambiente”. Por ter perdido com a morte certos papéis que tinha anteriormente, a pessoa necessita de recriar um novo papel diante da sociedade. A pessoa pode desenvolver muitas dificuldades de adaptação e de ajuste ao novo meio ambiente. Para certos casos de lutos, a pessoa precisa igualmente de se ajustar aos valores fundamentais da vida. Todas estas dificuldades são trabalhadas na psicoterapia de forma que a pessoa possa passar para uma nova fase.

A última etapa é “deslocar a emoção”. Nesta fase, quando atingida, a pessoa consegue pensar e falar da pessoa que morreu sem dor. É um sinal que terminou o luto, não significando que a pessoa deixe de ter sentimentos de tristeza ou que tenha esquecido a pessoa que faleceu. Esta fase é igualmente trabalhada numa psicoterapia. O objectivo de ajudar a fazer o luto é que a pessoa não carregue esta dor para o resto da vida.

Por fim, uma nota acerca de como falar com uma pessoa que acabou de perder alguém.

Devem-se evitar comentários como; “vais ver, vais conseguir ultrapassar”, “vais voltar a fazer a tua vida”, “com o tempo tudo voltara ao normal”, “teve o seu tempo na terra”, “faz outra criança e vais ver que vais esquecer”. Estes comentários não ajudam, porque estão em contracorrente com a tristeza avassaladora que a pessoa em luto está a sentir.

Muitas vezes é melhor ficar em silêncio. A simples presença da família e dos amigos é já por si muito reconfortante. Se escolher falar, pode usar uma forma mais apoiante, em que opte por validar os sentimentos que estão a ser vividos: “É tão catastrófico que não tenho palavras, mas gosto muito de ti”.

A psicoterapia é de grande ajuda para a pessoa em luto.Esta tem a oportunidade aceitar a sua perda, entrar em contacto com a sua dor, elaborar acerca dela e redescobrir o seu lugar no mundo, em relação a si mesma e aos outros.

Magali Stobbaerts

MINDFULNESS – BUDISMO E PSICOTERAPIA – II

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Voltar ao estado de recém-nascido

O desapego e a desidentificação são, assim, dois dos pilares fundamentais do pensamento budista.

A prática de mindfulness, mais do que uma finalidade em si mesma, é para o budista a etapa última no processo de desapego e desidentificação.

Desapegado dos desejos comuns à maioria dos seres humanos o aspirante já não vive a vida quotidiana mergulhado num sem número de projectos e actividades que visam a satisfação dos mesmos – já não almeja prazer, nem poder, nem status, nem posses materiais, nem vive obcecado com a ideia do sofrimento se não conseguir satisfazer o objecto dos seus desejos e por fim vive desapegado da vida e do medo de morrer.

Mas o passo mais difícil é o da desidentificação das próprias emoções e pensamentos, já que não é tão óbvio, mesmo para quem tenha uma educação budista, que os pensamentos, emoções e pensamentos não sejam mais do que instrumentos que o Ser utiliza, tal como a roupa que veste ou os alimentos que ingere.

Na prática do mindfulness o aspirante permite que os pensamentos, as emoções e as sensações aconteçam com a pré-atitude de se desapegar dos mesmos, de os vivenciar sem neles se reter, deixando-os fluir como fotogramas de um filme que se desenrola à frente dos seus olhos, sem se comprometer na construção de qualquer narrativa ou interpretação dos mesmos.

Não se trata de parar de pensar ou parar de sentir até porque, numa fase inicial, é simplesmente impossível que tal aconteça.

Uma imagem budista retrata a mente como uma macaco agitado que passa o tempo todo disponível a saltar de galho em galho, em livre associação, sem qualquer disciplina e a esmagadora maioria dos seres humanos vive a maior parte da sua vida entretido e adormecido a acompanhar cada salto do macaco e a identificar-se com todos os movimentos destes.

No mindfulness o aspirante sabe que o macaco não vai parar de saltar – é da natureza da mente não estar quieta – o macaco vai continuar, durante algum tempo, a saltar de galho em galho, de pensamento em pensamento, de emoção em emoção – a diferença é que o aspirante se decide a parar de prestar atenção aos saltos do macaco e a valorizá-los como se os seus pensamentos fossem a única vida psíquica possível.

O aspirante não vai poder ignorar os pensamentos, as emoções e as sensações, mas também não se vai deter neles. Sabendo que qualquer evento psíquico é efémero, vai deixar de lhes prestar atenção.

Aos poucos – diz a experiência dos praticantes – a mente começa a acalmar, os pensamentos tornam-se menos frequentes e começa a haver espaços entre os pensamentos – como se o habitual nevoeiro de ruído psíquico se começasse a dissipar.

Aqui surge habitualmente a pergunta: então o que fica se pararmos de pensar?                    Um vazio?

Para uma mente viciada na actividade cognitiva, emocional e sensorial compulsiva, a ideia de um vazio sem pensamentos, emoções ou sensações é sentida com horror, como se o mindfulness fosse um mero exercício de niilismo psíquico.

O que sobra quando o nevoeiro se dissipa não é certamente e apenas a ausência de nevoeiro.

Para quem consiga experimentar, os primeiros momentos de mindfulness são vividos com uma lucidez e uma clareza antes desconhecida e uma paz interior igualmente inédita.

No mindfulness não sobra o vazio, mas antes a consciência pura que subjaz, não só a todos os eventos psíquicos, mas à própria consciência de Si.

Mindfulness é a consciência de si próprio não contaminada pela actividade compulsiva da mente.

Mindfulness é a consciência a vivenciar-se a si própria.

Pela primeira vez, o aspirante pode ter uma noção clara e límpida da consciência pura que traz dentro de si, sem qualquer condicionamento, sem qualquer juízo de valor, sem história anterior, sem ansiedade pelo futuro.

Não é sequer preciso prestar atenção a coisa nenhuma porque a consciência pura é atenta por natureza.

Difícil de compreender?

Um dia permita-se observar um bebé que ainda não saiba proferir uma única palavra.

Observe-o num momento em que ele não sinta fome, nem sede, não sinta sono, nem qualquer outro desconforto físico.

Olhe e observe-o.

Vai perceber que ele está extremamente atento e, ao mesmo tempo, na vivência duma imensa paz, uma quietude inenarrável.

Onde ele está?

Onde todos deveríamos estar: no Aqui e no Agora.

Nós não temos outro remédio senão viver no aqui e no Agora.

A única escolha que nos é permitida é a de tentar fazê-lo com consciência ou sem ela.

Assim sendo, não é possível estar senão no Aqui e no Agora.

Sem nevoeiro, se possível.

Então mindfulness é isso?

Voltar ao estado da mente que eu tinha quando era um recém-nascido?

Tire a mente da equação.

E agora tente…

Mindfulness é a vivência do Ser que vivencia a consciência pura.

Sem mente.

(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – II

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – Voltar ao estado de recém-nascido

O desapego e a desidentificação são, assim, dois dos pilares fundamentais do pensamento budista.

A prática de mindfulness, mais do que uma finalidade em si mesma, é para o budista a etapa última no processo de desapego e desidentificação.

Desapegado dos desejos comuns à maioria dos seres humanos o aspirante já não vive a vida quotidiana mergulhado num sem número de projectos e actividades que visam a satisfação dos mesmos – já não almeja prazer, nem poder, nem status, nem posses materiais, nem vive obcecado com a ideia do sofrimento se não conseguir satisfazer o objecto dos seus desejos e por fim vive desapegado da vida e do medo de morrer.

Mas o passo mais difícil é o da desidentificação das próprias emoções e pensamentos, já que não é tão óbvio, mesmo para quem tenha uma educação budista, que os pensamentos, emoções e pensamentos não sejam mais do que instrumentos que o Ser utiliza, tal como a roupa que veste ou os alimentos que ingere.

Na prática do mindfulness o aspirante permite que os pensamentos, as emoções e as sensações aconteçam com a pré-atitude de se desapegar dos mesmos, de os vivenciar sem neles se reter, deixando-os fluir como fotogramas de um filme que se desenrola à frente dos seus olhos, sem se comprometer na construção de qualquer narrativa ou interpretação dos mesmos.

Não se trata de parar de pensar ou parar de sentir até porque, numa fase inicial, é simplesmente impossível que tal aconteça.

Uma imagem budista retrata a mente como uma macaco agitado que passa o tempo todo disponível a saltar de galho em galho, em livre associação, sem qualquer disciplina e a esmagadora maioria dos seres humanos vive a maior parte da sua vida entretido e adormecido a acompanhar cada salto do macaco e a identificar-se com todos os movimentos destes.

No mindfulness o aspirante sabe que o macaco não vai parar de saltar – é da natureza da mente não estar quieta – o macaco vai continuar, durante algum tempo, a saltar de galho em galho, de pensamento em pensamento, de emoção em emoção – a diferença é que o aspirante se decide a parar de prestar atenção aos saltos do macaco e a valorizá-los como se os seus pensamentos fossem a única vida psíquica possível.

O aspirante não vai poder ignorar os pensamentos, as emoções e as sensações, mas também não se vai deter neles. Sabendo que qualquer evento psíquico é efémero, vai deixar de lhes prestar atenção.

Aos poucos – diz a experiência dos praticantes – a mente começa a acalmar, os pensamentos tornam-se menos frequentes e começa a haver espaços entre os pensamentos – como se o habitual nevoeiro de ruído psíquico se começasse a dissipar.

Aqui surge habitualmente a pergunta: então o que fica se pararmos de pensar?                    Um vazio?

Para uma mente viciada na actividade cognitiva, emocional e sensorial compulsiva, a ideia de um vazio sem pensamentos, emoções ou sensações é sentida com horror, como se o mindfulness fosse um mero exercício de niilismo psíquico.

O que sobra quando o nevoeiro se dissipa não é certamente e apenas a ausência de nevoeiro.

Para quem consiga experimentar, os primeiros momentos de mindfulness são vividos com uma lucidez e uma clareza antes desconhecida e uma paz interior igualmente inédita.

No mindfulness não sobra o vazio, mas antes a consciência pura que subjaz, não só a todos os eventos psíquicos, mas à própria consciência de Si.

Mindfulness é a consciência de si próprio não contaminada pela actividade compulsiva da mente.

Mindfulness é a consciência a vivenciar-se a si própria.

Pela primeira vez, o aspirante pode ter uma noção clara e límpida da consciência pura que traz dentro de si, sem qualquer condicionamento, sem qualquer juízo de valor, sem história anterior, sem ansiedade pelo futuro.

Não é sequer preciso prestar atenção a coisa nenhuma porque a consciência pura é atenta por natureza.

Difícil de compreender?

Um dia permita-se observar um bebé que ainda não saiba proferir uma única palavra.

Observe-o num momento em que ele não sinta fome, nem sede, não sinta sono, nem qualquer outro desconforto físico.

Olhe e observe-o.

Vai perceber que ele está extremamente atento e, ao mesmo tempo, na vivência duma imensa paz, uma quietude inenarrável.

Onde ele está?

Onde todos deveríamos estar: no Aqui e no Agora.

Nós não temos outro remédio senão viver no aqui e no Agora.

A única escolha que nos é permitida é a de tentar fazê-lo com consciência ou sem ela.

Assim sendo, não é possível estar senão no Aqui e no Agora.

Sem nevoeiro, se possível.

Então mindfulness é isso?

Voltar ao estado da mente que eu tinha quando era um recém-nascido?

Tire a mente da equação.

E agora tente…

Mindfulness é a vivência do Ser que vivencia a consciência pura.

Sem mente.

(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

MINDFULNESS – BUDISMO E PSICOTERAPIA – I

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – A Psique à luz

do pensamento budista

Nos últimos anos a palavra “mindfulness” tem estado a adquirir um espaço próprio no mundo psi, querendo significar “estar no Aqui e no Agora”.

Traduzido literalmente é ter a mente (cognitiva, emocional e sensorial) – mind – concentrada por completo – full – no Aqui e Agora.

Alguns terapeutas reduzem, assim, o conceito de “mindfulness” a uma tomada de consciência de si próprio: “Quando se sentir (irritado/triste/ansioso/…) sem perceber porquê, eu quero que pare, feche os olhos e concentre-se sobre as emoções que está a sentir naquele momento, nos pensamentos que lhe ocorrem e nas sensações físicas que estiver a sentir” – o mindfulness fica assim limitado a um procedimento ou técnica do paciente para aumentar o insight (cognitivo, emocional e sensorial) sobre si próprio.

No entanto, “mindfulness” é muito mais do que isso e não foi sequer descoberto ou “inventado” por um profissional psi.

Antes de ser um recurso novo usado em psicoterapia, “mindfulness” era já popular nos meios da espiritualidade como uma forma de meditação ou mesmo uma atitude revolucionária perante a mente, com um significado bem mais amplo e abrangente do que o de tomada de consciência de si próprio.

O conceito de “mindfulness” é originário do Budismo e foi transplantado e adaptado desta disciplina espiritual para a Psicoterapia.

Mas antes de analisarmos em que consiste “mindfulness” na tradição budista, convém entender a estruturação da Psique à luz do entendimento budista.

Em primeiro lugar, para o Budismo, a Mente é apenas um instrumento, um instrumento cognitivo, emocional e sensorial através do qual o Ser conhece o mundo e se conhece a si próprio mas, cima de tudo, a Mente não é o Ser.

O Ser usa a Mente na sua incursão existencial neste mundo, da mesma forma que o condutor usa o seu automóvel para fazer uma viagem.

O sofrimento do ser humano, segundo o Budismo, advém, de entre outras causas, da total identificação do Ser com o seu instrumento existencial, como se o condutor do automóvel se esquecesse da sua própria Natureza e se identificasse completamente com o seu automóvel, passando a acreditar que a sua existência se limita a conhecer o mundo e a si próprio através da sua experiência de condutor, relacionando-se com outros automóveis e confundindo os condutores destes com os seus automóveis e acreditando que a sua vida e dos restantes acabará quando os respectivos automóveis acabarem todos na sucata.

Esta total identificação irá impedi-lo de ser livre, de conhecer a sua verdadeira Natureza, de – por um breve momento que seja – poder abrir a porta do automóvel, sair deste e permitir-se pensar: “Eu sou mais do que esta sucata articulada e aparentemente perfeita, eu sou Aquele que conduz esta máquina, mas estou longe de ser este automóvel”.

Assim, segundo o Budismo, os seres humanos vivem as suas vidas identificados com as suas Mentes, acreditando que SÃO os pensamentos que têm, as emoções que vivenciam e/ou a multitude das sensações que experienciam.

A dor resulta desta identificação, da ignorância fundamental da sua verdadeira Natureza – um dia que os seres humanos consigam perceber que são donos das suas mentes e não suas vitimas – que podem dispor da sua Mente como de qualquer outro instrumento serão livres.

A meditação baseada no “mindfulness”, mais do que uma técnica de tomada de consciência de si próprio, é um instrumento precioso de auto-conhecimento, através do qual – duma forma experiencial e não apenas teórica – o praticante tenta perceber “o que o Eu não é”, desidentificando-se dos objectos (materiais, emocionais  e cognitivos) com os quais se identifica.

Pensamentos, emoções e sensações são os produtos utilizados pelo Eu para interpretar, significar e interagir com o mundo e consigo próprio – mas não são o Eu.

Estes produtos, no seu conjunto, formam o ego – a persona – mas este é apenas o veículo usado pelo Eu na sua viagem existencial.

Uma vez terminada essa viagem, o ego perece mas o Eu continua, à semelhança dum actor que abandona a personagem duma peça de teatro e é capaz de vestir diferentes personagens ao longo da sua vida profissional sem nunca se identificar com as mesmas, sem nunca perder a crítica e ficar aprisionado a nenhuma delas.

Nessa desidentificação – na descoberta daquilo que Não É – caminha o aspirante para descoberta do Ser, do Eu – o Inominável, o Omnisciente, a Fonte – que subjaz a toda a manifestação.

Quando lemos os passos de Bodhisavta até à Iluminação ou Despertar, o último dos seus passos consistiu numa longa meditação em que empreendeu uma luta titânica com Mara (simbolizando o seu ego) e este terá sido o seu passo final de desidentificação total com o ego, em que acabou por alcançar e realizar a Libertação Espiritual.

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(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

BUDISMO E PSICOTERAPIA – I

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – A Psique à luz do pensamento budista

Nos últimos anos a palavra “mindfulness” tem estado a adquirir um espaço próprio no mundo psi, querendo significar “estar no Aqui e no Agora”.

Traduzido literalmente é ter a mente (cognitiva, emocional e sensorial) – mind – concentrada por completo – full – no Aqui e Agora.

Alguns terapeutas reduzem, assim, o conceito de “mindfulness” a uma tomada de consciência de si próprio: “Quando se sentir (irritado/triste/ansioso/…) sem perceber porquê, eu quero que pare, feche os olhos e concentre-se sobre as emoções que está a sentir naquele momento, nos pensamentos que lhe ocorrem e nas sensações físicas que estiver a sentir” – o mindfulness fica assim limitado a um procedimento ou técnica do paciente para aumentar o insight (cognitivo, emocional e sensorial) sobre si próprio.

No entanto, “mindfulness” é muito mais do que isso e não foi sequer descoberto ou “inventado” por um profissional psi.

Antes de ser um recurso novo usado em psicoterapia, “mindfulness” era já popular nos meios da espiritualidade como uma forma de meditação ou mesmo uma atitude revolucionária perante a mente, com um significado bem mais amplo e abrangente do que o de tomada de consciência de si próprio.

O conceito de “mindfulness” é originário do Budismo e foi transplantado e adaptado desta disciplina espiritual para a Psicoterapia.

Mas antes de analisarmos em que consiste “mindfulness” na tradição budista, convém entender a estruturação da Psique à luz do entendimento budista.

Em primeiro lugar, para o Budismo, a Mente é apenas um instrumento, um instrumento cognitivo, emocional e sensorial através do qual o Ser conhece o mundo e se conhece a si próprio mas, cima de tudo, a Mente não é o Ser.

O Ser usa a Mente na sua incursão existencial neste mundo, da mesma forma que o condutor usa o seu automóvel para fazer uma viagem.

O sofrimento do ser humano, segundo o Budismo, advém, de entre outras causas, da total identificação do Ser com o seu instrumento existencial, como se o condutor do automóvel se esquecesse da sua própria Natureza e se identificasse completamente com o seu automóvel, passando a acreditar que a sua existência se limita a conhecer o mundo e a si próprio através da sua experiência de condutor, relacionando-se com outros automóveis e confundindo os condutores destes com os seus automóveis e acreditando que a sua vida e dos restantes acabará quando os respectivos automóveis acabarem todos na sucata.

Esta total identificação irá impedi-lo de ser livre, de conhecer a sua verdadeira Natureza, de – por um breve momento que seja – poder abrir a porta do automóvel, sair deste e permitir-se pensar: “Eu sou mais do que esta sucata articulada e aparentemente perfeita, eu sou Aquele que conduz esta máquina, mas estou longe de ser este automóvel”.

Assim, segundo o Budismo, os seres humanos vivem as suas vidas identificados com as suas Mentes, acreditando que SÃO os pensamentos que têm, as emoções que vivenciam e/ou a multitude das sensações que experienciam.

A dor resulta desta identificação, da ignorância fundamental da sua verdadeira Natureza – um dia que os seres humanos consigam perceber que são donos das suas mentes e não suas vitimas – que podem dispor da sua Mente como de qualquer outro instrumento serão livres.

A meditação baseada no “mindfulness”, mais do que uma técnica de tomada de consciência de si próprio, é um instrumento precioso de auto-conhecimento, através do qual – duma forma experiencial e não apenas teórica – o praticante tenta perceber “o que o Eu não é”, desidentificando-se dos objectos (materiais, emocionais  e cognitivos) com os quais se identifica.

Pensamentos, emoções e sensações são os produtos utilizados pelo Eu para interpretar, significar e interagir com o mundo e consigo próprio – mas não são o Eu.

Estes produtos, no seu conjunto, formam o ego – a persona – mas este é apenas o veículo usado pelo Eu na sua viagem existencial.

Uma vez terminada essa viagem, o ego perece mas o Eu continua, à semelhança dum actor que abandona a personagem duma peça de teatro e é capaz de vestir diferentes personagens ao longo da sua vida profissional sem nunca se identificar com as mesmas, sem nunca perder a crítica e ficar aprisionado a nenhuma delas.

Nessa desidentificação – na descoberta daquilo que Não É – caminha o aspirante para descoberta do Ser, do Eu – o Inominável, o Omnisciente, a Fonte – que subjaz a toda a manifestação.

Quando lemos os passos de Bodhisavta até à Iluminação ou Despertar, o último dos seus passos consistiu numa longa meditação em que empreendeu uma luta titânica com Mara (simbolizando o seu ego) e este terá sido o seu passo final de desidentificação total com o ego, em que acabou por alcançar e realizar a Libertação Espiritual.

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(CONTINUA)

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Tristeza: uma emoção essencial

No nosso dia-a-dia, confundimos muitas vezes tristeza e depressão. No entanto, a primeira é uma emoção, comum a todos os seres humanos e essencial à sua sobrevivência, na maioria das vezes adaptativa, enquanto que a segunda, já é uma perturbação emocional.

Sendo assim, porque ficamos tristes?

A tristeza é uma resposta a uma perda de algo ou de alguém, normalmente relacionada com um acontecimento já ocorrido, ou seja, ligada ao passado.

A maioria das pessoas depois de chorar fica com uma sensação de alívio. A tristeza permite-nos descansar, a recuperar as energias e ajudar-nos a deixar ir o que já perdemos, o que já acabou e a abrir espaço para novos acontecimentos. Após a sua expressão adequada, renovamo-nos, entregando o passado ao passado e movemo-nos para o presente, para o “aqui e agora” prontos e abertos para novas possibilidades. A tristeza tem também uma função adaptativa na nossa relação com os outros, uma vez que provoca empatia e cuidado, convida ao consolo e à ajuda por parte dos outros.

Assim, não é de todo saudável reprimir a tristeza. Só sentindo-a, contrariamente ao vinculado na nova corrente da Psicologia Positiva, poderemos elaborar a perda, seja ela qual for: ente, querido, emprego, objecto pessoal, etc. Devemos dar-lhe espaço, para mais tarde, qual “Fénix renascida das cinzas”, nos reerguermos mais capazes e confiantes.

Catarina Barra Vaz

Hiperligação

1 A anormalidade ja nao e o que era dr joao parente medico psiquiatra e psicoteraoeura entrevista de Nassir Ghaemi

 

A “anormalidade” já não é que era…(Clique neste link)

 

Se há “anormalidades boas” estas serão mesmo “anormalidades”?
Os depressivos são mais empáticos e têm uma maior noção da realidade que os maníacos ou hipertímicos onde floresce a criatividade, diz Ghaemi. Cada vez mais, ao longo do tempo, se vai desconstruindo o antigo e obsoleto conceito de “pessoa normal”, como aquela que não regista qualquer psicopatologia, para um novo conceito, mais complexo e abrangente, onde a presença de psicopatologia não é necessariamente sinónimo de anomalia ou doença, podendo ser até, em certos casos e em certas circunstâncias adaptativa e tornar os seus portadores mais “aptos” que as pessoas ditas normais.
É o caso clássico dos controladores de tráfego aéreo e dos seus traços obsessivos adaptativos que zelam pela nossa segurança quando voamos.

Outro conceito em voga é que a psicopatologia é normal desde que não induza sofrimento ao seu portador.
Como se o “sofrimento”, estando presente, significasse automaticamente “doença” ou “anormalidade”.

Aparentemente consensual é que a psicopatologia é sinal de doença desde que induza compromisso funcional importante – quando impede a pessoa de conseguir trabalhar e funcionar, ganhar o seu sustento e viver com qualidade de vida.

Mas até esta formulação pode ser questionada.

Então em que ficamos?

A anormalidade já não é que era…

 

João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta