A vivência saudável do luto (ou quando chorar faz bem)…

O luto é sofrimento, é a dor que uma pessoa sente na perda de alguém ou de alguma coisa que é fundamental para sua estabilidade. Esta perda pode corresponder não só à perda de um parente, de um cônjuge, um filho, um amigo, ou também uma doença, um trabalho, uma casa. É um choque no qual a pessoa perde a vontade de trabalhar, ou mesmo, de viver. O mundo de cores esmorece-se, como se o tempo parasse e se fixasse naquele acontecimento. O Luto, tal como outros traumatismos, pode ser vivido como algo insuperável, com a impressão de que o mundo vai desabar e um sentimento de grande desnorte.

Num luto, aparecem sentimentos tais como a tristeza, a raiva, a culpa, a ansiedade, a solidão, a fadiga e o desamparo.

Estes sentimentos não são sinais de doença.

O luto é uma reacção normal e adaptativa a uma situação de perda.

Segundo o investigador Bowlby, aqueles que evitam vivenciar o luto conscientemente, sucumbem à depressão ou pode desenvolver doenças psicossomáticas como eczemas, asmas, úlceras, dores de costas ou enxaquecas.

O registo cultural da sociedade ocidental não favorece a expressão dos sentimentos de dor. Antes estimula a pessoa voltar a vida normal o mais rápido possível. Ensina igualmente o controlo de si e a sofrer em silêncio sem mostrar os sentimentos.

Antigamente, existiam muitos mais rituais de luto. Os mais próximos reuniam-se, vestiam-se de preto e organizavam refeições de convívio. As pessoas falavam assim do desaparecido e em conjunto lembravam-se dos bons momentos passados juntos. Esses rituais possibilitavam voltar à vida social, profissional e afectiva de forma menos dolorosa, por terem tido a oportunidade de assimilar e evoluir na emoção da dor.

Na realidade, o luto não é um estado, mas um processo.

“Estar de luto” é estar fechado no sentimento de dor e de sofrimento, ou seja, é como viver na dor unicamente.

Mas, “fazer o luto” é estar num processo emocional que leva à aceitação de emoções.

Neste sentido, o autor John William Worden define 4 etapas de luto saudável que podem se tornar patológicas quando a pessoa em luto não as ultrapassa.

A primeira etapa é “aceitar a realidade da perda”. Muito frequentemente a dor é muito intensa e pode levar à entrada num estado de “negação”, em que há uma recusa da pessoa em acreditar no que está a acontecer. Neste caso, a psicoterapia ajuda a ultrapassar o estado de negação, aceitando o acontecimento.

Depois aparece a segunda etapa que é “elaborar a dor da perda”. Ora, nem todos vivem a dor com a mesma intensidade e pode se tornar difícil se a pessoa não a consegue identificar. Neste caso, a pessoa em luto usa estratégias como por exemplo parar o pensamento para não sentir, desenvolver pensamentos de desprazeres sobre a pessoa que morreu, ou mesmo, idealizar a pessoa que faleceu. A psicoterapia permite a pessoa aperceber-se da dificuldade em sentir. A pessoa consegue passar ao passo seguinte quando identifica a dor do luto que não é só emocional, mas também física e comportamental.

Na terceira etapa, a pessoa em luto tem que “se adaptar e ajustar ao meio ambiente”. Por ter perdido com a morte certos papéis que tinha anteriormente, a pessoa necessita de recriar um novo papel diante da sociedade. A pessoa pode desenvolver muitas dificuldades de adaptação e de ajuste ao novo meio ambiente. Para certos casos de lutos, a pessoa precisa igualmente de se ajustar aos valores fundamentais da vida. Todas estas dificuldades são trabalhadas na psicoterapia de forma que a pessoa possa passar para uma nova fase.

A última etapa é “deslocar a emoção”. Nesta fase, quando atingida, a pessoa consegue pensar e falar da pessoa que morreu sem dor. É um sinal que terminou o luto, não significando que a pessoa deixe de ter sentimentos de tristeza ou que tenha esquecido a pessoa que faleceu. Esta fase é igualmente trabalhada numa psicoterapia. O objectivo de ajudar a fazer o luto é que a pessoa não carregue esta dor para o resto da vida.

Por fim, uma nota acerca de como falar com uma pessoa que acabou de perder alguém.

Devem-se evitar comentários como; “vais ver, vais conseguir ultrapassar”, “vais voltar a fazer a tua vida”, “com o tempo tudo voltara ao normal”, “teve o seu tempo na terra”, “faz outra criança e vais ver que vais esquecer”. Estes comentários não ajudam, porque estão em contracorrente com a tristeza avassaladora que a pessoa em luto está a sentir.

Muitas vezes é melhor ficar em silêncio. A simples presença da família e dos amigos é já por si muito reconfortante. Se escolher falar, pode usar uma forma mais apoiante, em que opte por validar os sentimentos que estão a ser vividos: “É tão catastrófico que não tenho palavras, mas gosto muito de ti”.

A psicoterapia é de grande ajuda para a pessoa em luto.Esta tem a oportunidade aceitar a sua perda, entrar em contacto com a sua dor, elaborar acerca dela e redescobrir o seu lugar no mundo, em relação a si mesma e aos outros.

Magali Stobbaerts

Tristeza: uma emoção essencial

No nosso dia-a-dia, confundimos muitas vezes tristeza e depressão. No entanto, a primeira é uma emoção, comum a todos os seres humanos e essencial à sua sobrevivência, na maioria das vezes adaptativa, enquanto que a segunda, já é uma perturbação emocional.

Sendo assim, porque ficamos tristes?

A tristeza é uma resposta a uma perda de algo ou de alguém, normalmente relacionada com um acontecimento já ocorrido, ou seja, ligada ao passado.

A maioria das pessoas depois de chorar fica com uma sensação de alívio. A tristeza permite-nos descansar, a recuperar as energias e ajudar-nos a deixar ir o que já perdemos, o que já acabou e a abrir espaço para novos acontecimentos. Após a sua expressão adequada, renovamo-nos, entregando o passado ao passado e movemo-nos para o presente, para o “aqui e agora” prontos e abertos para novas possibilidades. A tristeza tem também uma função adaptativa na nossa relação com os outros, uma vez que provoca empatia e cuidado, convida ao consolo e à ajuda por parte dos outros.

Assim, não é de todo saudável reprimir a tristeza. Só sentindo-a, contrariamente ao vinculado na nova corrente da Psicologia Positiva, poderemos elaborar a perda, seja ela qual for: ente, querido, emprego, objecto pessoal, etc. Devemos dar-lhe espaço, para mais tarde, qual “Fénix renascida das cinzas”, nos reerguermos mais capazes e confiantes.

Catarina Barra Vaz